INICIAR SESIÓNAna mordeu o lábio inferior para não gemer de dor à medida que o medidor de pressão apertava o seu braço gordo. Ela começou a sentir um alívio momentâneo quando o médico parou de apertar, porém, ele voltou a apertar, para em seguida, tirar o estetoscópio dos ouvidos e pendurar no pescoço.
- Está sentindo alguma coisa? Ana massageou o braço dolorido. - Tontura. Está muito alta? - Está 16x10. - Nossa Deus! Gabriel voltou a sentar, pegou uma folha de sulfite e dobrou ao meio, no tamanho que cabia no envelope pardo de cada paciente. Ele estava usando o computador só para as receitas e pedidos de exames. No mais, preferia conversar com os pacientes e anotar tudo à mão. Por alguns segundos, ele se perdeu na beleza natural de Ana, e teve que fazer um esforço para se lembrar que ali, eram médico e paciente. - A sua ficha está em branco. É a sua primeira vez aqui? Ana assentiu, não deixando de notar que Gabriel era muito novo para ser médico. Provavelmente, ele era um residente. - Eu vim de Minas Gerais há seis meses, e ainda não tinha passado por consulta aqui no postinho. Mas agora eu tenho me sentido muito cansada nos mínimos esforços. - Você já faz uso de medicamentos para hipertensão? - Losartana de 50mg cedo e à noite, e uma Furosemida de 40mg de manhã. Gabriel anotou. A letra dele era linda e Ana olhou para seus cabelos castanhos escuros. Ele tinha mãos grandes e dedos longos e fortes. Ela revirou os olhos enquanto ele fazia anotações. - Já tomou os remédios hoje? - Sim, às 06:30h. Mas eu acho que não estão fazendo efeito. Gabriel ergueu a cabeça e encarou Ana. Ele disse com gentileza, de forma a não parecer grosseiro. - Alimentos ricos em gordura e açúcar, como salsichas, enlatados, pães, bolos, massas em geral, fast food, refrigerante e outras coisas, contribuem para o excesso de peso que trazem várias complicações para a saúde. - Gabriel olhou na ficha. Ana tinha sido pesada na triagem. - Cento e vinte quilos. A quantidade de sódio nesses alimentos, também causa hipertensão. Ketchup é um veneno. Ana ficou boquiaberta. Era como se Gabriel soubesse que ela só comia porcarias com muito Ketchup. A forma tranquila como ele disse as palavras, não a ofendeu. Ele não a repreendeu, apenas disse o óbvio com um sorriso de encorajamento para ela mudar os péssimos hábitos alimentares. Ana abriu um sorriso tímido. - Eu tenho retenção de urina também. - Eu vi os seus pés inchados, e eu vou pedir alguns exames de sangue para vermos como estão seus rins, fígado, tireoide, hormônios, glicemia, colesterol, hemograma e as vitaminas. Eu vou pedir um eletrocardiograma também. Ana assentiu. Ela realmente estava precisando de um check-up. Gabriel começou a digitar no teclado com os olhos fixos na tela do computador. Ela colocou as mãos em concha no colo e olhou para baixo enquanto esperava. Era no mínimo curioso um playboy igual ao Doutor Gabriel, atender no posto de saúde da favela. Era notável que ele estava no início da carreira por ter uma aparência jovem, mas não parecia que ele precisasse trabalhar em um local com poucos recursos. Ele podia ter seu próprio consultório médico. Atencioso e inteligente, ele poderia ganhar muito mais tendo sua própria clínica particular. - Os exames são todos feitos pelo SUS, mas o tempo de espera é de três meses. Se for possível, eu gostaria que você os fizesse o quanto antes. Ana ergueu a cabeça e encontrou um par de olhos gentis. Ela forçou um sorriso fraco. - Eu vou tentar fazer no particular. Ele sorriu satisfeito. - Eu vou colocar um captopril de 25 debaixo da sua língua para essa pressão baixar. Você vai esperar por quarenta minutos na sala de espera para mim medir de novo. Aflita, Ana passou a língua pelos lábios carnudos. - Eu tenho que trabalhar na parte da tarde. Gabriel se perguntou que gosto teria os lábios daquela mulher que não fazia ideia da sua beleza estonteante. Ele passou a língua pelos próprios lábios, e sua voz saiu áspera. - Eu vou te dar um atestado de quinze dias. Você vai vir medir a pressão três vezes por semana. Você é muito nova para mim acrescentar mais um remédio. Caso ela passe disso, não terá outro jeito. Mas eu quero ver seus exames primeiro. - Eu não posso deixar a minha patroa na mão. - Em Janeiro o movimento é fraco nos restaurantes de São Paulo. O povo está tudo viajando. Ana estremeceu com o olhar firme que recebeu. Ele se lembrava dela. Hesitante, ela perguntou: - Aquele homem era o seu pai? Gabriel pegou a cartela de captopril enquanto as folhas com o pedido dos exames saíam na impressora. Ele se levantou e se aproximou de Ana. Ela olhou para cima. Ele pediu sério: - Abre a boca. Ana obedeceu. Gabriel tocou os lábios dela com o polegar e afastou a mão. - Era o meu pai. - Meus sentimentos. Todos os pedidos de exames foram carimbados e assinados. Assim como a receita renovada. - Obrigado. Nos vemos em quarenta minutos. Aqui os pedidos dos exames. Nesse meio tempo, prefira alimentos saudáveis e faça caminhadas. Ana pegou os papéis e saiu da sala. Quarenta minutos depois, sua pressão estava 12x8. A tontura passou assim como a dor na nuca. Enquanto esperava, ela percebeu que todos os outros pacientes, saíam animados da sala de Gabriel. Ele pareceu muito feliz pela pressão dela ter abaixado. Ana voltou para casa mais aliviada e iria usar o resto do décimo terceiro para fazer os exames. Era tolice dela ter um crush no seu médico gato e gostoso, mas mal podia esperar para vê-lo de novo. Gabriel respirou fundo ao final do primeiro dia de trabalho puxado. No horário do almoço ele recebeu a notícia que um carregamento de cocaína estava a caminho da favela. Ele tinha que preparar a contenção para o caso da polícia resolver interferir nos seus negócios. Na casa usada para as reuniões dos membros da facção, ele torceu o nariz diante dos moleques que seu pai usava como fogueteiros. O olheiro do seu pai também não o agradava, sempre com os olhos arregalados de quem estava chapado. - É o seguinte, eu preciso de um novo exército. Eu vou fazer mudanças no grupo, mas hoje nós vamos receber o carregamento e preparar a cocaína em pinos para vender. Vai ser trabalho para a noite toda, e eu não quero ver corpo mole, desperdício e nem furtos. Gabriel não foi questionado por nenhum dos trinta e cinco membros atuantes da quadrilha. Ele já estava acostumado a dar ordens claras e ser obedecido. E todos ali sabiam que ele não hesitava em puxar o gatilho caso alguém mijasse no lugar errado. No alto da laje vendo o sol se pôr no morro, Gabriel fez uma ligação para o advogado da família. Ele precisava tirar da cadeia alguém em que pudesse confiar quando os surtos psicóticos o deixassem sem condições de comandar Paraisópolis. Kelly destampou as panelas e colocou a mão na testa negra de Ana para ver se ela estava com febre. - Cadê a costela de porco pingando gordura? Ana saboreou o filé de peito de frango. - Eu fui no médico hoje, e eu vou mudar a minha alimentação. Eu não tenho ninguém e não posso correr o risco de ficar presa a uma cama. - Não tem ninguém teu cu. Eu estou aqui, prima. Mas fico feliz por você estar pensando na sua saúde. Kelly se serviu e sentou na mesa de canto perto do fogão. Ela deu um sorriso sacana. - Ouvi dizer que o novo médico é um espetáculo. Ana suspirou profundamente. - Ele é muito educado. Kelly fez uma careta com a comida sem sal, mas não disse nada. Amava Ana como se elas fossem irmãs. - Ele pediu exames? - Um monte. - Tranquila, eu te ajudo. - Eu não posso aceitar. Kelly revirou os olhos negros. - Você tem que parar com isso, Ana. Uma mão lava a outra. Ana sorriu. Ela tinha uma dificuldade imensa em pedir ou aceitar ajuda por vergonha. Não era orgulho, era medo de ser vista como alguém incapaz de cuidar de si mesma. Por isso, ela iria de verdade mudar alguns hábitos. Helena resmungou, mas depois, disse para ela cuidar da saúde e voltar logo para o restaurante. Era madrugada quando os latidos de Max encheram a mansão de luxo no Morumbi. Gabriel abaixou para ganhar várias lambidas no rosto. Ele abraçou e beijou o rottweiler que balançava o rabo freneticamente. Vanessa amarrou o robe de seda azul e cruzou os braços. No alto da escada em formato de caracol, ela tinha um olhar de desaprovação. - Paraisópolis? É sério isso, Gabriel? Gabriel continuou abaixado e fazendo carinho em Max. Ao olhar para a mãe com frieza, sua decisão já tinha sido tomada. - Eu só vim pegar o Max e as minhas coisas. Eu estou indo morar na favela, mãe. Como você está sempre viajando por causa dos hotéis, não vai notar a minha falta. Vanessa crispou os lábios de ódio. - Você acha que eu sou idiota? Que eu não sei quem você é, e o que faz naquele lugar abominável? Gabriel levantou com Max pulando nele e pedindo mais atenção. Devagar, ele subiu a escada até parar de frente para a mãe. Sua voz saiu melancólica, sem nenhuma emoção. - Eu sempre serei o seu filho. Vanessa lacrimejou e levou as mãos no rosto do filho. - Por favor, não faça isso. Você tem um futuro brilhante pela frente, Gabriel. Eu posso te dar um consultório médico montado e sofisticado. Esqueça aquele lugar. Gabriel pegou a mãe pelos pulsos e a afastou. - Lá, eu me sinto mais em casa do que aqui. Vanessa secou as lágrimas com raiva. - Você vai acabar morto ou na cadeia! Gabriel esperou Max entrar e bateu a porta do seu quarto. Ele começou a fazer as malas. Nada mais importava, somente Ana. Ela silenciava a sua mente barulhenta. Somente ela. O cheiro forte de enxofre impregnou o ar. "Ela não é a sua salvação. Você será a ruína daquele anjo."EPÍLOGOCinco anos depois...Belíssima, elegante, magra, saudável e toda trabalhada no pretinho básico, a Advogada Criminalista Ana Luísa de Paiva, chegou no Fórum Criminal da Barra Funda para uma Audiência de Custódia.Sua cliente, Isabela Magalhães, estava presa sob a acusação de ter matado o marido quarenta anos mais velho para ficar com a herança milionária. Ela foi forçada a se casar aos dezesseis anos e passou por vários abusos físicos, sexuais e psicológicos. Entretanto, isso não constava nos autos do inquérito policial. A justiça pendia para o lado de um empresário renomado que foi assassinado pela sua ninfetinha. Para o Ministério Público, Isabela era uma vadia interesseira. Para Ana, sua cliente de vinte e um anos, era uma sobrevivente.De forma fria e calculista, com o salto alto preto fazendo barulho no piso de madeira, Ana se aproximou do banco das testemunhas. O médico da família seria o próximo a depor, e ele estava do lado da acusação.Com sua feição controlada e post
Ana tomou banho enquanto a roupa de cama era trocada pela camareira. Ela se vestiu com a ajuda de Kelly, e os seguranças permaneceram no quarto, deixando claro que não iriam sair até Gabriel voltar. Eles tinham respeito pelo comandante de Paraisópolis, e medo também, de forma que as suas ordens eram cegamente obedecidas.Vanessa entrou no quarto seguida por Daniel. Há mais de vinte e cinco anos no ramo de hotelaria, a empresária bem sucedida e milionária já tinha visto homens bonitos, elegantes e ricos. A maioria deles eram egocêntricos, e não tinham nada a oferecer para uma mulher que tinha tudo o que o dinheiro podia comprar. Vanessa era solitária e orgulhosa. Por isso, ela ficou emocionada quando a geladeira duplex a acordou com um beijo no rosto. Sua carência era foda demais, ao ponto de gostar do inimaginável.A empresária ignorou o olhar raivoso de Kelly e sentou na cama. Ela olhou para o curativo no ombro de Ana.- Ainda bem que você está viva. Caso contrário, Gabriel teria co
Renato ouviu o barulho do tiro. Um ruído quase imperceptível atravessou o vidro que não era blindado. Depois, ele ouviu o grito animalesco de Gabriel.- NÃO!Renato usou o cartão para entrar no quarto. Uma das razões pelas quais ele decidiu ser o segurança de Ana, foi porque ele sabia que Gabriel tinha esquizofrenia. Renato descobriu por acaso quando ele ainda era o vapor de Pedro. Gabriel tinha o estranho hábito de entrar em uma espécie de transe. Ele se desligava de tudo ao seu redor, e fixava o olhar perdido em algum ponto específico como se estivesse vendo alguma coisa. Aquilo não durava mais do que alguns minutos, e Gabriel voltava para a realidade como se nada tivesse acontecido. Entretanto, em um dos surtos psicóticos, ele descarregou a arma atirando contra a parede.Renato gelou ao ver a quantidade de sangue sobre a cama. Gabriel vestiu uma cueca boxer preta e pegou uma mala com as mãos trêmulas. Lágrimas do mais absoluto pavor, nublavam os seus olhos escuros.- Tem um snipe
Um casamento no Cartório de Registro Civil demora cerca de trinta dias para ser realizado. Os noivos entram com um pedido de habilitação, o cartório verifica se estão aptos para casarem e solta uma nota na imprensa. Contudo, Gabriel de Paiva só conhecia as suas próprias leis. Sendo assim, ele comprou o par de alianças BVLGARI a caminho do cartório que estava fechado por ser domingo, mas seus homens já estavam cuidando daquele pequeno detalhe.Ana teve a venda retirada dos olhos e na sua frente, na sala do Cartório do Morumbi; um Juiz, um Escrevente, um Padre, e cinco bandidos perfilados com fuzis AK-47. A Bebezinha arfou.- Meu Deus, Gabriel. Você foi longe demais.O traficante pegou a sua mulher pela cintura com firmeza para ela não fugir. Ele já tinha bebido para comemorar o grande dia da sua vida.- Bora dizer o sim antes que o seu leite fique pedrado. Ana ficou mortificada ao ver todos os presentes ficarem chocados. Vanessa estava só o ódio ao lado da geladeira duplex que se cham
Gabriel foi levado para o 89º Distrito Policial, no Portal do Morumbi, onde a denúncia foi feita. Conduzido até a sala do delegado Mauro Lopes, ele teve as algemas retiradas por um dos policiais. O traficante tinha deixado a pistola .40 com André ao sair da favela porque desde que passou a ser alvo de investigação, não andava armado fora de Paraisópolis.No seu celular pessoal, Gabriel não tinha nada comprometedor. Calmo e posturado, ele sentou na cadeira na frente da mesa do delegado de meia idade, alto, magro, cabelos negros e miúdos olhos azuis.- A sua mãe, a senhora Vanessa Vilela, registrou um boletim de ocorrência na noite de ontem, alegando que foi vítima de violência da sua parte. Você tem direito a um advogado.Com uma expressão vazia, Gabriel disse secamente:- Eu não preciso de advogado porque isso não aconteceu, e eu não deveria estar aqui. Aliás, eu nem deveria ter sido abordado de forma tão violenta por uma coisa que eu não fiz. No máximo, uma intimação para depor, esta
Belíssimo, estiloso, todo trabalhado no preto e com um ar de arrogância, Gabriel chegou no baile funk às 23:00h. Mais cedo ele tinha se reunido com o MC Vida Loka e sua equipe, e dado a permissão para a gravação de um videoclipe para o DVD do artista. Gabriel pagou o cachê de vinte mil reais. Ele sabia separar as coisas, e não colocava preço no trabalho dos outros. Constrangido, MC Vida Loka quis cobrar menos, mas o dono do morro pagou o justo.A quadra da escola de samba fervia de gente, assim como de demônios que se mostravam enlouquecidos por estarem no meio de álcool, sexo e drogas. Gabriel chegou a conclusão que além de esquizofrênico, ele via o plano espiritual. Aquilo não era parte do seu quadro clínico complexo. De fato, ele tinha visão espiritual. Tanto é, que ele estava usando um esparadrapo no umbigo.Na última semana ele descobriu que estava sendo seguido pela polícia, e se não fosse o antipsicótico, e acima de tudo a sua Bebezinha que era o seu porto mais seguro em suas







