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APENAS UMA NOITE
APENAS UMA NOITE
Autor: Tônia Fernandes

####PRÓLOGO

last update Data de publicação: 2026-01-31 10:35:47

GIO A FULGA

Sempre soube que aquele dia chegaria, mas nunca imaginei o quanto o peso daquele vestido seria tão opressivo quanto a decisão que me aguardava.

A seda branca deslizava pelo meu corpo como uma serpente fria, carregando não apenas o peso da tradição que a sociedade impunha, mas também o orgulho de outros que jamais me consideraram verdadeiramente, costurada não para celebrar o amor genuíno, mas para selar um acordo que nunca foi realmente meu.

— Era como se a costura do vestido estivesse impregnada com expectativas alheias, cada fio representando um desejo, uma exigência vinda de vozes familiares e históricas que falavam do que eu deveria ser, em vez de me permitirem ser quem realmente desejava.

Do lado de fora do carro, os sinos da igreja tocavam incessantemente, cada badalada drenando mais da minha coragem, anunciando à pequena cidade que a noiva estava prestes a chegar, como se aquela sonoridade fosse a coroação do meu destino em um espetáculo social cuidadosamente encenado. — No entanto, eu me vi incapaz de abrir a porta, sentindo uma tempestade de emoções se agitar dentro de mim, comprimindo meus pulmões como se o ar tivesse se tornado insuficiente.

A quantia que meu pai havia recebido, dois milhões de euros, tornava-se uma corrente invisível, prendendo-me a um sistema que trocava minha liberdade por segurança financeira, como se minha vida pudesse ser convertida em cifras e assinaturas.

— Enquanto isso, minha mãe, com um sorriso tenso e elétrico de felicidade forçada, entregava documentos ao meu futuro marido, incluindo o atestado de virgindade, um artefato que simbolizava não apenas minha pureza, mas a propriedade que eu estava prestes a entregar, carimbada, registrada e validada.

Essa humilhação ecoava como um lamento de tempos antigos, retrocedendo a um século em que a vida das mulheres era definida por acordos financeiros e não por escolhas próprias, refletindo um ciclo de submissão que parecia se repetir sob novas roupagens, mas com a mesma crueldade.

A expressão cínica do meu pai, repetindo que tudo era para o meu bem, soava em meus ouvidos como um mantra persuasivo; ele insistia que meu casamento com um homem rico garantiria meu futuro, um «futuro» moldado entre as paredes de um acordo que nunca me foi consultado.

Isso significava unir-me a um viúvo corpulento de cinquenta e cinco anos, cuja presença, em meio às conversas efêmeras dos convidados e aos olhares curiosos, fazia-me sentir como um troféu recém-adquirido, exibido em um evento que mais se assemelhava a um leilão silencioso do que a uma celebração de amor.

— Minhas mãos tremiam sobre o buquê de flores quando vi meu pai afastar-se para avisar a cerimonialista que eu estava pronta, e foi nesse instante que o peso daquele momento tornou-se esmagador.

Se eu não deixasse aquele lugar imediatamente, jamais conseguiria escapar; — minha prisão não estava apenas dentro daquela igreja, mas na estrutura que me cercava, nas expectativas que me aprisionavam, nos sinos que tocavam como se anunciassem não um casamento, mas um sepultamento simbólico da minha vontade.

— Com uma determinação firme e um misto de desespero e bravura ardendo em meu peito, abri a porta do carro.

O frio do metal contra minhas mãos trouxe um breve momento de lucidez; antes de verificar se alguém me observava, levantei discretamente a barra do vestido moldado para a ocasião, agora transformado em símbolo de um destino que eu recusava aceitar.

Meu coração acelerava enquanto caminhei em direção ao estacionamento lateral, tentando manter a aparência de normalidade até que vi, a poucos metros, uma elegante Mercedes preta estacionando diante do restaurante próximo à igreja.

— Quando avistei aquele carro, percebi que poderia ser minha única saída do pesadelo que estava prestes a se concretizar.

Aproximei-me do veículo com passos rápidos, sentindo a adrenalina percorrer meu corpo, dando-me coragem para o ato que mudaria tudo. — Abri a porta traseira com a urgência de quem não fugia apenas de um lugar, mas de uma vida inteira de imposições.

O motorista, um homem que parecia tão surpreso quanto intrigado ao me ver, virou lentamente o rosto na minha direção. — Seus olhos, de um azul intenso que lembrava o céu claro de verão, fixaram-se em mim com atenção imediata, como se tentassem compreender a tempestade que eu carregava.

— Leve-me daqui — pedi em italiano, a voz trêmula pela pressa e pelo medo. — Não vou me casar com aquele homem.

Ele franziu a testa, claramente confuso.

— Você está fugindo? — perguntou em inglês, revelando que não era italiano como imaginei.

— Sim, e por favor, me leve antes que percebam que estou fugindo — respondi, esforçando-me para organizar as palavras na língua dele. — Meu pai está me forçando a esse casamento.

Ele me observou em silêncio, e percebi que precisava dizer mais, precisava expor o absurdo da situação para que ele compreendesse a gravidade.

— Sou parte de um acordo, entende? Um contrato lucrativo para minha família. — Meu pai me vendeu por dois milhões de euros para que eu me casasse com um homem que poderia ser meu pai. — Eles trocaram minha liberdade por dinheiro.

As palavras saíam carregadas de vergonha e revolta, e eu podia sentir o peso de cada sílaba enquanto falava.

— Já receberam o dinheiro — continuei. — Já entregaram os documentos, já entregaram o atestado de pureza exigido pelo noivo.

— Agora só falta eu entrar naquela igreja e fingir felicidade enquanto eles comemoram.

Os sinos tocaram novamente, atravessando-me como lâminas invisíveis.

— Não vou entrar naquela igreja — declarei, a respiração curta.

— Prefiro enfrentar o desconhecido a aceitar essa vida que decidiram por mim.

Ele me encarou com intensidade crescente.

— Se você não me tirar daqui agora, eu juro que me mato, e não estou brincando, se eu entrar naquela igreja, e vou me matar antes do fim do dia.

O silêncio que se seguiu foi pesado, denso, quase físico.

— O que está acontecendo aqui, e quem é você? — perguntou, a voz agora firme.

— Sou uma noiva vendida pelo próprio pai, resolvi fugir.— respondi sem hesitar.

Ele respirou fundo, avaliando o que eu dizia, e lançou um olhar pelo retrovisor em direção à igreja.

Inclinei-me em sua direção, segurando o vestido com força.

— Se você tem mãe ou irmã, pense nelas e me leve daqui.

Se eu entrar naquele lugar, eu me mato com a faca do bolo na frente de todos.

A tensão dentro do carro parecia pulsar.

Ele tomou uma decisão.

— Coloque o cinto, vou te tirar daqui, agora, mas você vai me explicar tudo com calma.

O motor foi acionado, e deixamos aquele lugar para trás enquanto a imagem da igreja diminuía no retrovisor.

E, pela primeira vez naquela manhã, senti algo diferente do medo, senti a coragem de recomeçar.

— Fugi pela minha segurança e para conquistar a minha liberdade, compreendendo que, ainda que o futuro fosse incerto, ele ao menos seria resultado da minha própria escolha.

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Último capítulo

  • APENAS UMA NOITE    ####EPILOGO

    FLORESCER DE UMA NOVA GERAÇÃODezesseis anos.Às vezes, eu ainda me surpreendo profundamente quando paro para pensar em tudo o que acontece desde o dia em que fujo daquela igreja na Itália, vestida de noiva e tomada pelo desespero, e entro no carro de um completo desconhecido que, contra todas as probabilidades, acaba se tornando o grande e único amor da minha vida.Hoje, a nossa mansão na Toscana se mostra um pouco mais silenciosa do que costuma ser nos tempos passados. Não porque tenha menos gente circulando pelos corredores, mas porque os nossos filhos crescem e começam a trilhar os seus próprios caminhos no mundo. O Felipo agora está na universidade e se prepara com muita dedicação para assumir parte dos negócios de exportação da família. Os trigêmeos já estão terminando o High School e discutem todas as noites, ao redor da mesa de jantar, qual carreira desejam seguir. O Francesco fala com entusiasmo em cursar administração; a Luísa sonha acordada em

  • APENAS UMA NOITE    ####CAPÍTULO 94

    A FAMÍLIA QUE ESCOLHEMOSCinco anos haviam se passado desde o meu casamento com Paul, e às vezes eu ainda me pegava observando nossa vida com uma sensação de gratidão difícil de explicar. Tudo aquilo que parecia impossível quando fugi da Toscana havia se transformado em realidade. Nossas vinícolas prosperavam, e o método artesanal que eu tanto defendia agora era utilizado em todas as propriedades da família. Paul continuava administrando os grandes negócios do grupo, mas a produção das vinícolas ficou sob meus cuidados e os de tio Giuseppe. Meu irmão tornou-se nosso sócio na Itália e administrava pessoalmente as propriedades da Toscana, algo que fazia com orgulho e competência.Nossa família também cresceu e se fortaleceu. Os trigêmeos eram uma verdadeira força da natureza. Francesco, Luísa e Lucrécia enchiam a casa de alegria, bagunça e risadas do amanhecer até a hora de dormir. Já Felipo, que estava com quase oito anos, acreditava sinceramente que era responsável

  • APENAS UMA NOITE    ####CAPÍTULO 93

    Nesse meio tempo, a Sabine é julgada perante o tribunal italiano e condenada a longos anos de prisão pelo crime de tentativa de sequestro internacional e invasão. As notícias do escândalo tomam conta de todas as redes sociais e portais do mundo. Durante semanas seguidas, jornais influentes, programas de televisão de grande audiência e colunas da alta sociedade discutem os detalhes sórdidos do crime que ela comete na nossa propriedade.E, pela primeira vez na história desse folhetim público, ninguém ousa culpar a Gioconda por nada. Ninguém questiona a minha reputação de mãe, ninguém inventa mentiras sobre o meu passado e ninguém cria teorias da conspiração. As pessoas finalmente enxergam a psicopatia e a maldade real de quem a Sabine sempre é por trás das aparências. A verdade vence o jogo de forma esmagadora.Por outro lado, os meus pais biológicos continuam tentando uma reaproximação forçada conosco. Eles telefonam de números diferentes, mandam

  • APENAS UMA NOITE    ####CAPÍTULO 92

    CAPÍTULO — A NOSSA FELICIDADEQuinze dias depois, finalmente recebo alta médica. Os trigêmeos também. Depois de tantas noites em claro naquele quarto de hospital, tantos exames de rotina, tantas preocupações com o ganho de peso e tantas visitas emocionadas à incubadora do berçário, nós finalmente estamos indo para casa. Nossa casa. O nosso verdadeiro lar. O lugar abençoado onde a nossa família começa, de fato, uma nova e limpa etapa de vida.O Felipo está tão animado com a nossa chegada que mal consegue ficar parado no mesmo lugar. Assim que entramos pelos grandes portões, o meu menino corre de um lado para o outro da mansão, eufórico, querendo mostrar cada canto do jardim e dos quartos aos irmãos recém-nascidos, como se os três pequenos realmente entendam alguma coisa de arquitetura.— Mama! Bambini! — ele grita, apontando para os bebês nos nossos braços.Eu rio da sua empolgação genuína.— Sim, amore mio. Os seus irmãos finalmente cheg

  • APENAS UMA NOITE    ####CAPÍTULO 91

    ESCUDO DO AMORAssim que tenho a certeza absoluta de que o Felipo está perfeitamente seguro e bem protegido, respiro fundo pela primeira vez desde que recebo aquele telefonema desesperado. O meu filho ainda está visivelmente assustado no colo do tio Pepe, a minha cunhada continua chorando copiosamente no sofá da sala e o meu cunhado Valentino parece pronto para sair da propriedade e procurar a Sabine com as próprias mãos para fazer justiça.Levanto uma das mãos, gesticulando para pedir serenidade a todos eles.— Não contém absolutamente nada sobre essa invasão e sobre o susto para a Gioconda — ordeno, com o olhar fixo neles.Os dois me olham imediatamente, com expressões de dúvida.— Mas Paul... ela é a mãe, precisa saber... — Valentino tenta intervir.— Não — balanço a cabeça de forma negativa, cortando qualquer possibilidade de debate. — Ela acaba dando à luz os nossos trigêmeos. O corpo dela está frágil, ela está se

  • APENAS UMA NOITE    ####CAPÍTULO 90

    ÚLTIMO ATO DA INSÂNIAEnquanto permaneço no quarto do hospital desfrutando daquela paz inédita, Paul cumpre a sua palavra e segue direto para a sede da empresa para assinar os documentos de exportação. O clima na mansão, na Toscana, é de aparente tranquilidade, mas nos arredores da propriedade, o perigo ronda silenciosamente.Sabine não aceita a derrota. Consumida por um ódio doentio e obsessivo, ela arquiteta um plano desesperado. Usando roupas simples, um lenço amarrado na cabeça e o uniforme característico das trabalhadoras da vinícola que descobre em um varal da região, ela consegue se misturar ao fluxo de funcionários que entram e saem para o manejo diário das videiras. A sua presença passa despercebida pela segurança periférica, que está acostumada com a movimentação intensa da colheita.No jardim da frente, o pequeno Felipo brinca alegremente com os primos, os filhos de Valentino. A cunhada de Gioconda supervisiona a brincadeira das crianças sob o

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