Inicio / Romance / Acerto de conta / capítulo 4 Gabriel narrando...

Compartir

capítulo 4 Gabriel narrando...

last update Fecha de publicación: 2026-07-22 20:42:49

Acerto de Contas

Autora: Edivania Rios

História ambientada entre 1990 e 1998

Protagonistas: Karina e Gabriel

Todos os direitos autorais reservados à autora citada acima. Qualquer uso parcial ou total sem autorização será considerado crime virtual e/ou de violação aos direitos autorais. LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998.

 

Capítulo 4

Gabriel narrando…

Assim que terminei a escola, fiz curso de eletricista. Sempre corri atrás do que gosto, e tenho facilidade para fazer desenhos bonitos na madeira — para mim, esse trabalho é o que mais me dá prazer. Ser pedreiro também sei fazer bem, pois meu pai fazia e me ensinou desde pequeno, mas não gosto tanto quanto de trabalhar com madeira e fiação.

Meus pais foram para os Estados Unidos tentar a sorte, e eu fiquei aqui. Nunca consegui sair do Brasil por causa da Clarisse e do meu filho. Vim morar nesta casa por causa dela, e isso está me deixando com os nervos à flor da pele. Odeio ficar brigando o tempo todo com esse pessoal, odeio ter que responder com grosseria a ninguém. Todos os clientes do meu pai ficaram sob a minha responsabilidade quando ele foi embora; dizem que ele era o melhor da região, e eu tento honrar esse nome.

Minha terra natal é Poço Fundo, mas vim para cá ainda adolescente para estudar — lá só tinha escola até a quarta série, e hoje já é completa. Aqui conheci o Luan na quinta série, e seguimos juntos por anos… até que aos vinte e um anos a Karina engravidou. Não era o que eu queria, e creio que também não era o plano dela.

Hoje, ao descer para o café, estranhei: só o Paulo e a Clarisse estavam à mesa.

— Cadê o meu filho? — perguntei logo.

— Saiu. Mãe, filho e o padrasto — respondeu o Paulo, com aquele tom de quem quer me provocar.

Entendi na hora: Karina está querendo afastar o menino de mim. Vai ser uma guerra longa, e eu não vou recuar.

— Entendi, Paulo. Fique sabendo que não me importo nem um pouco. — Virei para a minha namorada. — Clarisse, eu te amo. Às vezes é preciso falar alto para certas pessoas entenderem de uma vez.

— Eu também te amo muito, meu amor — sorriu ela, doce como sempre.

Respirei fundo. Espero que a Karina não comece a aprontar como antigamente; só de pensar já me dá calafrios na espinha.

 

Mais tarde…

Eu estava debaixo da pia da cozinha, arrumando o encanamento que estava vazando, quando ouvi passos correndo e gritos: o Luan, o meu filho e a Karina entraram ali de uma vez.

— Seu safado! Seu traíra! — berrou ele, apontando o dedo para mim.

Não entendi nada. Ao tentar sair debaixo da pia, bati a cabeça com força na quina.

— O que foi? Não faço ideia do que você está falando — respondi, já imaginando que a Karina tivesse dito algo para ele. Olhei para o Luan com desprezo, sem surpresa: esperava por esse tipo de confusão. Ele estava ofegante, os olhos azuis arregalados, o cabelo loiro todo bagunçado, transbordando ódio por mim.

— Por que você fica perseguindo a Karina?

Olhei para ela: estava de cabeça baixa, com a mão cobrindo a boca, envergonhada.

— Para, Luan! Você não sabe guardar segredo nenhum — reclamou ela.

Ele me segurou pela blusa com força. Nesse instante, o meu filho pegou um pedaço de pau que estava no chão e bateu na cabeça do Luan.

— Quem foi que fez isso comigo?

— Fui eu! Não b**e no meu papai! — gritou o menino, firme.

— Menino mau! Não te bato por causa da sua mãe, mas fique sabendo: o seu pai merece muito mais do que isso!

— Não fale assim com o meu filho! — repreendeu a Karina, de uma vez.

— Karina, o que foi que você disse para esse seu namorado? — perguntei, já bravo. — Contou que eu disse que você precisa de um terapeuta? Me esquece de uma vez, Karina. Esse ódio todo que você guarda por mim nunca fez bem a nenhum de nós dois. Isso vai acabar trazendo coisa ruim dentro desta casa, e eu não vou ficar esperando para ver. Vai lá curtir o seu dinheiro! Será que você é tão infeliz que não consegue aproveitar tudo o que tem?

— Olha, eu não precisava te dar explicações, mas pela minha honra não aceito que me chame de fofoqueira — respondeu ela, irritada. — Ele nos viu aqui na cozinha brigando, pensou que estávamos conversando de outra coisa. Eu saí cedo para explicar tudo longe de todos, porque tenho vergonha de ser vista falando com você. Mas pelo jeito não adiantou nada. Olha aí todo mundo olhando para uma briga feia por causa de uma bobagem sua, Luan.

Nesse momento a Clarisse apareceu na porta, ouvindo tudo.

— E você teve vergonha de contar para o seu namorado que estava falando com o pai do seu filho? Devia ter dito a verdade: somos inimigos, não nos entendemos, só brigamos. Talvez nem adiantasse nada, porque esse aí é teimoso como um jumento. Me poupe, Karina! — Passei a mão no rosto, cansado. Não tenho um dia de sossego nessa vida.

Terminei de arrumar a pia depois daquela confusão, me sentindo para baixo. Graças a Deus, a Clarisse me deixou em paz. O meu filho ficou me olhando de longe, todo quieto. Todos esses ali parecem ser filhos de berço rico, e eu sou o único que não faço parte dessa elite — na verdade, a Clarisse também não. Depois de mais uma armadilha preparada para mim, fiquei sabendo que a Karina foi para o salão de beleza. A vida dela é assim: só luxo, só vaidade. Mulher que vive de aparências e que gosta de armar confusão para os outros.

 

Mais tarde, na hora do jantar…

Todos estavam à mesa. Ela apareceu toda arrumada, cheirosa, e ficou calada até então.

— Clarisse, amanhã vamos visitar a minha tia — avisei.

— Claro, meu amor, vamos sim.

— Se quiser arrumar o cabelo antes, eu pago para você — disse a Karina, entre os dentes, com aquele ar de superioridade.

— Não, obrigada. Se eu quiser, o meu namorado que paga por mim — respondeu a Clarisse, calma, fechando a boca dela na hora.

— Luan, eu odeio pessoas que parecem perfeitas demais… e você? Não suporto esse tipo de gente. Me desculpe, mas você também não acha isso? — Jogou o veneno, jogou o guardanapo na mesa e levantou-se depressa. O meu filho foi atrás dela, com medo de ela ficar mais brava ainda.

— Também odeio — concordou o Luan, só para agradar.

Pelo jeito, eu e a Clarisse já estamos marcados como os vilões dessa história toda. Peguei na mão dela e saímos: só voltaremos mais tarde.

 

Quando voltei à noite, vi os dois se beijando no sofá. Olhei logo para o lugar onde o meu filho costuma estar, preocupado.

— Olha, se forem fazer isso… — fiz um gesto com a mão — ...vão para o quarto, por favor. Tem uma criança nesta casa.

Os dois me olharam cheios de ódio.

— Cadê o meu filho?

— Não sei. Vê se não está escondido atrás de você — respondeu ela, seca como sempre.

Não falei mais nada com a Karina. Ela está com raiva porque eu disse que ela precisa de ajuda — e precisa mesmo, vive frustrada com tudo. Muitas vezes a Clarisse segurou a onda no nosso namoro: quando engravidei a patricinha, ela ficou comigo mesmo assim. Várias vezes o meu filho falou na frente dela que queria que eu voltasse a morar com a mãe, e ela só fechou a cara mas nunca me deixou. Se eu a perder, não sei o que será de mim. Vim para cá por causa dela, e outra mulher não teria essa paciência toda comigo, nem com o meu filho. Eu valorizo quem me valoriza.

Mais tarde, quando a Clarisse saiu um pouco, eu fiquei arrumando o pé de uma cadeira que estava solto.

— Ainda faz esse tipo de coisa? — Ouvi a voz da Karina atrás de mim.

— Claro que faço. Quem aprende um ofício nunca esquece, nem para de praticar.

— Cadê o meu filho?

— Ele já está dormindo — respondeu ela, depois de um instante.

— Que bonitinha… na frente do seu namorado me trata como lixo, mas sozinha é educada.

— Não sei do que você está falando.

Levantei devagar, encostei as duas mãos no braço dela e desci e subi bem devagar. Juro que senti ela tremer inteira. Minha mente zombou de mim: essa cobra treme de medo, mas tem vontade de te morder. Ela não teve coragem de me encarar.

— Tem suco na geladeira — disse, e saiu depressa, me deixando ali com as mãos abertas.

— Ouvi direito? Deixou suco na geladeira para mim? — Fiquei rindo sozinho, sem entender. Ela saiu para a rua muito rápido, como se estivesse fugindo.

Duas horas depois, o meu filho acordou.

— Papai, o senhor viu a mamãe?

— Ela saiu, filho. — Percebi que ele estava estranho, mais distante. — Eu fiz alguma coisa com você?

— Não, papai. Só não quero deixar a mamãe triste de jeito nenhum.

— Ela pediu para você ficar longe de mim?

— Não, nunca pediu isso, papai.

— Já terminei de arrumar as cadeiras. Vamos sair só nós dois, para você gastar essa energia toda. Você também é meu filho, e eu amo você.

— Vamos sim, papai! E o senhor não conta para ninguém?

— O que foi, meu amor?

— Eu quebrei o relógio do Paulo sem querer.

— Nossa, filho! Mas não se preocupe, vamos assim mesmo. Acontece. Eles podem até desconfiar, mas ninguém vai levantar a mão em você. O seu pai está aqui para te defender sempre.

 

Mais tarde ainda…

— Quem foi que quebrou o meu relógio? Quem foi? — gritou o Paulo, aparecendo na sala.

O meu filho ficou com os olhos arregalados, assustado, e eu quase sorri de ver o quanto ele se parecia comigo.

— Quanto custa esse relógio, Paulo? — perguntei, firme. Vi que a Karina já tinha percebido, pois o menino levou a mãozinha à boca, todo assustado.

— Foi o meu avô que me deu. Tem valor sentimental, não tem preço — disse ele, bravo.

— Se quiser, eu compro outro igual — ofereceu a Karina, como se o dinheiro resolvesse qualquer coisa no mundo. Fiquei ali olhando: para ela, parece que tudo se compra, tudo se conserta com dinheiro.

 

Continúa leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la App

Último capítulo

  • Acerto de conta    capítulo 48 Gabriel narrando

    Acerto de ContasAutora: Edivania RiosTodos os direitos reservados – LEI Nº 9.610/98História ambientada entre 1999 e 2000Protagonistas: Karina e GabrielCapítulo 38Gabriel narrando…Cheguei em casa e vi que não tinha ninguém. Estranhei — todos os dias os três me esperam assistindo televisão. Comi rápido e encontrei um bilhete da Karina: Estou na praia aqui perto com as crianças, vim ver o sol se por com eles.Saí andando para lá. Vejo ela cada dia melhor na cozinha, fazendo os cursos que queria. E eu já não me sinto mais inútil: agora sei que posso ajudar em tudo.Caminho sozinho pela areia, mas meu coração bate forte, sabendo quem me espera. Quando nossos olhos se encontram, sinto que cheguei ao meu lugar. Corro até eles, pego o Allan e encho ele de beijos, depois pego a Melissa do colo dela e beijo muito a minha esposa. Ficamos ali, os quatro, calados, só olhando o entardecer.— Gabriel, essa praia é tão bonita… — disse ela baixinho. — Será que o ano que vem vai ser melhor que 9

  • Acerto de conta    Karina narrando capitulo 47

    Acerto de ContasAutora: Edivania RiosTodos os direitos reservados – LEI Nº 9.610/98História ambientada entre 1999 e 2000Protagonistas: Karina e GabrielCapítulo 47Karina narrando…Ver Gabriel arrumando a nossa casa me enche de uma alegria que não cabe no peito. Finalmente temos o nosso cantinho, aqui nos Estados Unidos, e cada detalhe é o começo de uma vida nova.Três meses depois…Tudo está caminhando tão bem. Já estamos instalados há tempo, e as minhas empresas cresceram: se transformaram em uma franquia só, pizzaria, restaurante e padaria, tudo unido e funcionando melhor do que eu sonhei. Minha mãe disse que foi a melhor escolha que eu fiz. Meu avô ligou chorando quando descobriu onde eu estava.Ele acabou dando trabalho para aqueles três: Clarisse agora namora um tal de Cristian, parece que não deu certo com o Paulo. O avô diz que fica de olho no Luan por minha causa, mas eu não ligo mais para o que eles fazem. O Paulo, que queria mal ao meu filho, agora está com uma mulher q

  • Acerto de conta    Gabriel narrando capitulo 46

    Acerto de ContasAutora: Edivania RiosTodos os direitos reservados – LEI Nº 9.610/98História ambientada em 1999/2000Protagonistas: Karina e GabrielCapítulo 46Gabriel narrando…Graças a Deus chegamos bem aos Estados Unidos. Meu pai já está nos ajudando em tudo, e estamos correndo atrás do lugar certo para Karina instalar os seus negócios. Eu serei o contador dela de vez em quando, mas quero mesmo é trabalhar ao lado do meu pai: fazer artesanato, esculturas em madeira, e quando ele tiver obras maiores, ajudo em tudo. Quero que o Allan aprenda esse ofício também — um dia tudo isso poderá ser dele.Mais tarde…Conseguimos o espaço para as empresas dela, a vaga na escola do menino e a creche para a Melissa. Não vou sobrecarregar a minha mãe com as crianças.Já é noite, e vejo Karina ali com os cabelos longos ao vento.— Agora vamos comprar a nossa casa, Gabriel.— É verdade, minha vida — me arrependi de ter esquecido desse detalhe, foi um dia tão cheio. — Perdoa, hoje resolvemos tanta

  • Acerto de conta    Karina narrando capitulo 45

    Acerto de ContasAutora: Edivania RiosTodos os direitos reservados – LEI Nº 9.610/98História ambientada entre 1999 e 2000Protagonistas: Karina e GabrielCapítulo 45Karina narrando…Hoje vou até a casa do meu avô. Quero falar poucas palavras, me despedir em silêncio e fechar esse ciclo de uma vez por todas.Mais tarde…Cheguei e fui direto ao corredor do escritório, o lugar que ele mais gosta. Ouvi o som dos chinelos batendo devagar no chão amplo. Lá dentro, tudo decorado com objetos antigos: armadura, escudos, três espadas expostas… ele sempre teve dinheiro de sobra, e mesmo assim me roubou. Quantas outras coisas mais ele terá feito? Pensei enquanto olhava ao redor, até meus olhos pararem num vaso tão delicado que parecia quebrar só de olhar muito para ele.Ele apareceu ali. E mesmo com toda a raiva que sentia, lembrei de como ele me criou como uma princesa. Meus pais nunca me deram carinho, mas ele… ele sempre esteve lá.— A ingrata resolveu aparecer — disse com aquela soberba de

  • Acerto de conta    capítulo 44 Gabriel narrando

    Acerto de ContasAutora: Edivania RiosTodos os direitos reservados – LEI Nº 9.610/98História ambientada entre 1998 e 1999Protagonistas: Karina e GabrielCapítulo 44Gabriel narrando…No dia seguinte, tomei a decisão: vou deixar o meu Brasil, a minha terra, o meu povo — mas só para ser feliz com a minha família. Nada mais me prende aqui. Antes não fui por causa do Allan, mas agora estamos todos juntos, e isso basta.— Você fez a melhor escolha, meu grande amor! — falei sentindo-me completo. Ela me chama de amor o tempo todo, e eu não me canso de ouvir: essa mulher é minha, e eu sou dela.Lá nos Estados Unidos, meus pais vão nos ajudar a arrumar casa e empresa. Pretendo continuar trabalhando com madeira e eletricidade, construindo casas bonitas — a maioria delas é de madeira por lá, e meu pai já tem experiência nisso. Mas uma coisa eu prometo: não quero que a gente viva como o avô dela fez com ela. Cada um na sua casa, visitas de vez em quando. Família é bênção, mas quando se perde o

  • Acerto de conta    capitulo 43 Karina narrando

    Acerto de ContasAutora: Edivania RiosTodos os direitos reservados – LEI Nº 9.610/98História ambientada entre 1990 e 1998Protagonistas: Karina e GabrielCapítulo 43Karina narrando…Não dá para acreditar que o meu próprio avô foi capaz de fazer isso comigo. Eu sempre tive tanto carinho por ele… mas no fundo, talvez não seja tão surpresa assim: ele nunca aceitou o Gabriel, nunca quis que eu saísse debaixo das suas asas. Agora vejo que esse amor que ele diz ter por mim só me prendia. Hoje eu decidi: vou cortar esse laço de vez. Preciso voar, e esse amor sufocante já não me serve mais.Dormimos abraçados, e mesmo acordando assustada de vez em quando, logo me sentia segura de novo ao lado dele.No dia seguinte…Acordei sorrindo sozinha. Sempre sonhei com um príncipe que me protegesse, não com alguém que me prendesse ou me queimasse como um dragão. E encontrei isso no Gabriel: ele me defendeu, cuida de tudo o que é meu, cuida dos nossos filhos com o coração enorme. Se alguém me fizer ma

Más capítulos
Explora y lee buenas novelas gratis
Acceso gratuito a una gran cantidad de buenas novelas en la app GoodNovel. Descarga los libros que te gusten y léelos donde y cuando quieras.
Lee libros gratis en la app
ESCANEA EL CÓDIGO PARA LEER EN LA APP
DMCA.com Protection Status