FAZER LOGINParei e desci de Max, que bufou impaciente com o calor. O sol ainda queimava forte, mesmo com o fim da tarde se aproximando. O céu começava a tingir-se de tons alaranjados, e o ar estava pesado, abafado — quase dava pra sentir o calor saindo da terra. Amarrei Max em uma árvore próxima ao rio, onde a sombra era mais densa, e acariciei seu pescoço antes de soltá-lo.
Tirei as botas, a camisa e a calça jeans, ficando apenas com as roupas íntimas. Aquilo não era novidade pra mim — sempre gostei de mergulhar no rio quando ninguém estava por perto. Desde menina fazia isso. A diferença era que agora já fazia um bom tempo que não tinha essa liberdade, esse momento só meu. Fechei os olhos, respirei fundo e pulei na água.
O impacto da água gelada contra a pele me fez arrepiar da cabeça aos pés, mas logo o frio virou prazer. A correnteza era suave, e o rio parecia me abraçar. Senti cada gota refrescando o corpo, levando embora o calor e também uma parte do cansaço que vinha me acompanhando há dias.
Fiquei ali por um tempo, flutuando de costas, olhando o céu — um céu que parecia maior do que qualquer outro que eu já tinha visto na capital. O vento brincava com as folhas e o som dos pássaros distantes completava aquele silêncio bom.
Pensei que poderia ficar ali por horas, mas o sol já se escondia por trás das montanhas. Eu ainda tinha que voltar, me arrumar e me preparar para o jantar com Henrique.
Foi nesse instante que um arrepio percorreu meu corpo. Não de frio, mas de algo diferente.
— Que sensação estranha... — murmurei para mim mesma.
Senti como se alguém me observasse. Era aquela sensação incômoda, instintiva, que faz o coração bater mais rápido. Olhei ao redor, disfarçando, tentando não parecer nervosa, mas a superfície da água parecia refletir sombras demais.
Dei mais uma olhada em direção às árvores e juro que vi algo se mover — talvez um galho, talvez não.
Meu corpo reagiu antes mesmo de eu pensar. Saí da água rapidamente, escorrendo, sentindo o frio do vento bater contra a pele molhada. Peguei minhas roupas, vesti o jeans e a camisa ainda úmida, os dedos tremendo. Foi quando ouvi o estalo seco de um galho sendo pisado.
— Quem está aí? — gritei, tentando soar firme, mas a voz saiu trêmula. — Anda, responde!
Nenhuma resposta. Apenas o som do rio e das folhas se mexendo com o vento.
Meu coração disparou. — Vai ficar escondido, é? Covarde! — gritei novamente, agora mais irritada do que assustada, mas no fundo sabia que algo ali estava errado.
Subi em Max às pressas, puxei as rédeas e deixei que ele seguisse o caminho de volta quase em disparada. O vento secava meus cabelos e a poeira subia atrás de nós. A cada metro que deixava o rio para trás, a sensação de ser observada diminuía — mas não desaparecia.
Voltei pra casa com o coração ainda acelerado. O céu já estava tingido de roxo e dourado, e o cheiro do entardecer — aquele misto de terra quente e vento fresco — me fez lembrar que eu precisava correr.
Subi direto para o quarto, tomei outro banho, rápido, tentando afastar da cabeça aquela sensação. Escolhi uma calça jeans nova, uma camiseta nude e minha bota preferida. Olhei-me no espelho e balancei a cabeça, rindo sozinha. “Parece até que vou pra uma entrevista e não pra um jantar”, pensei.
Antes que pudesse ajeitar o cabelo, ouvi a voz do meu pai ecoando lá de baixo:
Suspirei fundo e desci as escadas. Lá estava ele, parado na sala, sorrindo como sempre, ajeitado com aquela camisa clara e o relógio que eu lembrava bem — o mesmo que usava quando íamos montar juntos no rancho.
Nos cumprimentamos brevemente. Ele abriu a porta para mim, num gesto que me arrancou um olhar desconfiado.
— Oxi, o que tá fazendo? — perguntei, arqueando a sobrancelha.
— Só estou sendo educado. Ou será que educação te assusta? — retrucou ele, divertido, enquanto eu revirava os olhos e entrava no carro.
A estrada até a cidade estava tranquila. Conversamos o caminho todo, sobre a vida, o rancho, minha temporada na capital. Ele quis saber sobre a faculdade, sobre os estágios, sobre os colegas — e eu quis saber das histórias dele com os animais, dos casos curiosos que sempre apareciam na clínica. Demos boas risadas. Era impressionante como o tempo não mudava o quanto a conversa entre nós fluía fácil.
Quando chegamos ao restaurante, reconheci de longe o letreiro com luzes antigas. O restaurante da Dona Dê. O mesmo lugar onde eu passava tardes inteiras com meus pais depois das feiras.
Assim que entramos, ela veio em minha direção com o mesmo sorriso de sempre.
— Sim, Dona Dê. Dessa vez é pra ficar mesmo — respondi sorrindo, sentindo o cheiro de canela e café que sempre parecia acompanhá-la.
— Então nem precisa pedir, já sei o que vai querer. Seu prato favorito sai já já da cozinha — disse ela, cheia de carinho.
Sentamos perto da janela. Henrique pediu uma cerveja, e eu, como de costume, um suco de laranja. Nunca gostei de bebida alcoólica, e ele já sabia disso.
Enquanto esperávamos, chegaram três homens barulhentos. Entraram rindo alto, falando palavrões, fazendo piadas sem graça. Um deles chamou minha atenção: alto, uns 1,85, barba por fazer, camisa branca aberta até o peito, exibindo um colar prateado. Ria de um jeito irritante, como se o mundo fosse uma piada particular.
Revirei os olhos. A velha mania de observar e julgar as pessoas não me deixava.
Henrique se inclinou para mim.
Enquanto ele saía, Carminha — a filha da Dona Dê — servia as mesas. Continuava a mesma: doce, mas desastrada. Eu mal tinha pensado nisso quando ela tropeçou, e a bandeja foi ao chão. O barulho foi alto, as garrafas rolaram, e ela caiu de joelhos.
Corri o olhar para os homens, que, em vez de ajudar, caíram na gargalhada. Um deles quase chorava de tanto rir.
Senti o sangue ferver.
Um deles virou a cabeça lentamente, com desdém.
— Não — respondi seca. — É que aqui as pessoas têm respeito e educação. Coisas que vocês parecem não conhecer.
Carminha tentou me puxar de volta. — Aurora, não... — mas eu nem ouvi.
— Aqui a gente ajuda quem precisa — continuei — e não ri de situações alheias feito hienas loucas.
O mais alto levantou-se, empurrando a cadeira para trás com força.
— Você deve ser o mais engraçado da manada — retruquei, ficando de pé.
Ele deu um passo à frente, o rosto próximo ao meu, o cheiro de álcool e estranhamente um perfume caro.
— Eu não penso — disse firme. — Eu sei exatamente o tipo de homem que é.
Antes que a situação explodisse, Henrique apareceu.
O homem sorriu de canto.
Dei um passo à frente, mas Henrique me segurou pelo braço.
— Idiota — murmurei, com o coração batendo descompassado.
— Acalmem-se! — gritou Dona Dê. — No meu restaurante ninguém briga, entendido?
O silêncio voltou. Sentei de novo, tentando respirar fundo. Um garçom trouxe um copo de água, mas minha garganta estava seca demais pra engolir.
Olhei de canto e lá estava ele, o sujeito, ajeitando a cadeira de modo a ficar de frente pra mim. Pegou a cerveja, deu um gole e me lançou um olhar cínico, com um sorrisinho torto no canto da boca.
Eu não desviei o olhar.
O sol já se punha atrás das colinas, tingindo o céu com tons de cobre e lavanda. O rancho estava sereno, como se o tempo tivesse aprendido a caminhar devagar ali. As árvores cresceram, a casa ganhou novos cômodos e a varanda agora era o lugar preferido de quem quisesse ver o dia se despedir.Aurora estava sentada na velha cadeira de balanço, com um livro aberto no colo que ela nem lia mais. O vento brincava com algumas mechas soltas do cabelo, e o som distante das risadas de Artur, agora com oito anos, vinha do campo. Ele corria atrás de um cachorro, os dois levantando poeira e vida.Antônio surgiu na porta, com a camisa arregaçada e um olhar tranquilo. Trazia nas mãos duas xícaras de café fumegante e aquele mesmo sorriso de quando tudo recomeçou. — Você sabia que esse menino vai me deixar louco? — perguntou, sentando-se ao lado dela. — Disse que quer construir uma casa na árvore “com varanda e energia elétrica”.Aurora riu, aceitando a xícara. — Filho de quem é, não me espanta. —
A festa começou ainda com o sol alto, dourando cada canto do rancho com uma luz que parecia vinda do próprio céu. O campo respirava celebração — dava pra sentir no ar, no som, até nas folhas que balançavam. As mesas de madeira estavam espalhadas pelo gramado, cobertas com toalhas brancas e flores do campo. Eram simples, mas tão bonitas que pareciam sorrir. Não era luxo, era verdade — e isso bastava. O som das risadas misturava-se com o dos violões e o farfalhar das árvores, e por um instante, tive a sensação de que o mundo inteiro estava em harmonia. Vi os convidados da cidade chegando — homens de sapatos caros, mulheres de vestidos longos, andando devagar, tentando não sujar o salto na terra fofa. Alguns tropeçavam, outros olhavam em volta como se nunca tivessem visto tanto verde. Eu sorri baixinho. No começo, estavam deslocados, mas com o tempo, o rancho fez o que ele sempre faz: acolheu. O riso das crianças, o cheiro da carne assando, o sanfoneiro tocando com o coração — tudo i
— Certo, vamos recapitular — disse Ana, com um caderno aberto no colo e um lápis preso entre os cabelos. — Flores entregues, bolo confirmado, decoração do rancho pronta, vestido passado… ah, e as botas da noiva devidamente engraxadas. Olhei para ela, fingindo indignação. — Você nunca vai superar isso, né? — Nunca — respondeu, rindo. — A noiva mais teimosa que já conheci vai casar de botas. Eu ainda vou escrever um livro sobre isso. Enquanto ela falava, eu ajeitava alguns arranjos na varanda. O rancho estava diferente — iluminado, colorido, com o cheiro doce das flores misturado ao aroma de pão que vinha da cozinha. Mamãe e dona Dê estavam lá dentro, trocando receitas e histórias, enquanto os homens ajudavam a montar as luzes no gramado. Do lado de fora, o entardecer pintava o céu de dourado. Tudo parecia respirar uma calma que vinha depois de longas tempestades. — Sabe o que é engraçado? — comentei, parando por um instante. — Mesmo depois de tudo o que passamos… eu sinto paz. C
A noite chegou devagar, com o céu pintado em tons profundos de azul e violeta. O vento trazia o cheiro do campo molhado e o som dos grilos preenchia o silêncio entre uma conversa e outra. Depois de colocar Artur para dormir, saí até o alpendre. A lua estava alta, redonda, tão bonita que parecia observar tudo com ternura. Sentei-me na antiga cadeira de balanço, o mesmo lugar onde, quando menina, eu ouvia mamãe cantar baixinho antes de dormir. O tempo parecia suspenso ali — nem o relógio, nem as preocupações do mundo tinham permissão de entrar. Antônio se aproximou em silêncio. Trazia duas xícaras de chá nas mãos, e um sorriso tranquilo que me fez sentir o coração se aquecer. — Achei que você ainda estaria acordada — disse ele, entregando-me uma das xícaras. — Está tudo tão quieto lá dentro. — O rancho dorme cedo — respondi com um leve riso. — Mas eu queria ficar mais um pouco... é como se o tempo fosse mais generoso à noite aqui. Ele se sentou ao meu lado, e ficamos olhando o céu
O dia amanheceu calmo, com o sol nascendo por trás das colinas e tingindo o céu de tons alaranjados e rosados. O orvalho ainda brilhava sobre a grama, e o ar fresco da manhã trazia o perfume leve da terra úmida misturado ao som distante do riacho. Tudo parecia respirar paz. Coloquei meu vestido longo — aquele florido que dançava com o vento —, calcei as botas e ajeitei o chapéu de palha. Peguei a cesta que havia preparado e levei Artur comigo até o campo, onde o horizonte parecia não ter fim. Ele já conseguia se sentar, firme, com aquele jeitinho curioso de quem descobria o mundo um pedacinho por vez. Estendi a toalha no chão e espalhei as frutas: pedacinhos de mamão, banana e uva cortada ao meio. Artur batia as mãozinhas, encantado, e quando pegou um pedaço de mamão, levou direto à boca, lambuzando-se todo. Ri baixinho, sentindo o coração se aquecer com aquela cena simples, mas perfeita. — Olha só, meu amor, você já é quase um homenzinho — murmurei, limpando o rostinho dele com um
Algumas semanas haviam se passado desde o enterro de Bezerra. A dor já não queimava tanto, mas ainda existia — silenciosa, contida, como uma sombra que se recusava a ir embora. Aos poucos, Antônio se sentia melhor a empresa começava a se reerguer. Eu e Felipe havia conduzido a comunicação com a mídia com uma habilidade que impressionou a mim mesma, e, com a ajuda de Lucas, conseguimos conter o impacto do escândalo. O nome Bezerra voltava a ser sinônimo de confiança, embora por dentro eu soubesse que nada voltaria a ser como antes. O rancho também fora recuperado. Um novo ciclo, como se cada pedaço de terra ali respirasse alívio. Eu dizia que aquele lugar parecia curar o que o mundo corporativo destruía — e, no fundo, era isso mesmo. Naquela manhã, eu estava no escritório, revisando relatórios e conversando com Felipe, quando a secretária avisou que uma mulher pedia para vê-la. Levantei o olhar, surpresa ao ouvir o nome. — Hellen? — repeti, hesitante, antes de autorizar a entrada.







