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Autor: aly
last update Data de publicação: 2026-02-20 03:48:42

Antes que consiga dar um passo para trás, mãos firmes se fecham ao redor de seus braços.

Luna prende a respiração, o coração disparando, o corpo reagindo antes da mente. O choque a faz erguer o rosto no mesmo instante.

O homem à sua frente tem o dobro do seu tamanho; ombros largos; os olhos são de um azul frio, atento; o cabelo está perfeitamente penteado para trás, a barba bem feita, o terno escuro impecável.

Ele a segura com força suficiente para impedir que ela caia, mas não afrouxa. O olhar dele desce rápido pelo rosto dela, avaliando.

— Quem é você? — a voz sai baixa, firme, sem qualquer traço de gentileza.

Luna engole em seco.

A proximidade a deixa sem ar. O cheiro discreto de perfume caro, o calor do corpo dele tão perto, as mãos ainda presas em seus braços.

— E-eu… — ela gagueja, sentindo o rosto esquentar. — Eu sou a Luna. A... babá?

Os olhos dele vão do rosto dela para a porta do quarto de Oliver e em seguida volta para Luna. 

— Conheceu o Oliver. — não foi uma pergunta. — E ele?

— Eu me apresentei a ele, li um livro e ele dormiu. 

Algo muda no ar.

Os ombros dele relaxam quase imperceptivelmente, como se uma tensão antiga tivesse cedido por um segundo. Só então ele parece se dar conta do contato.

As mãos se afastam dos braços de Luna lentamente. Não há pedido de desculpas. Apenas a retirada do toque, como se aquilo nunca tivesse acontecido.

Ele dá meio passo para trás, recuperando o espaço entre eles.

— Dormiu? — repete, baixo e olhando em seu relógio.

O olhar azul retorna ao rosto dela, mais atento agora, menos agressivo. Não gentil. Nunca gentil. Mas diferente.

Luna assente.

— Ele… parecia cansado. Só li para ele. — completa, insegura, como se precisasse se justificar. — “Onde Vivem os Monstros”.

Ele olha de novo para a porta do quarto do filho, como se confirmasse algo que se recusava a acreditar. Quando volta a encará-la, a expressão está fechada, mas há algo tenso por baixo. Algo contido.

— Oliver não dorme com estranhos. — diz, por fim.

Não é um elogio. Nem uma acusação.

É um fato.

— Sebastian Hale. — ele se apresenta, seco. — E você não devia estar aqui sozinha.

O olhar dele a percorre mais uma vez, agora avaliando não só quem ela é, mas o impacto que já causou.

— Venha. — ordena, virando-se em direção as escadas. — Precisamos conversar.

Eles descem em silêncio.

Sebastian segue à frente. Luna vem alguns degraus atrás, olhando tudo a sua volta. A casa é grande demais para aquele silêncio — sofás amplos, janelas altas, tudo impecável e impessoal.

A sala de estar é enorme. Tons neutros, móveis caros, nenhum objeto fora do lugar. Nenhuma foto. Nenhuma memória exposta.

— Pode se sentar. — Sebastian diz, apontando para um dos sofás, sem sequer olhá-la.

Luna obedece. Senta-se na ponta, postura rígida, mãos entrelaçadas no colo.

Ele caminha até o bar embutido, serve-se de uma dose de uísque com movimentos precisos, automáticos. Gelo. Copo. Silêncio.

— Quer? — pergunta, sem se virar.

— Não. — Luna responde rápido demais. — Eu não bebo… de estômago vazio.

O comentário parece pequeno, irrelevante. Mas faz Sebastian parar.

Ele se vira devagar, o copo ainda na mão.

— Você não jantou? — pergunta.

Luna pisca, surpresa com a pergunta.

— Não. Eu não tive... — ela pensa em falar dinheiro, mas muda de ideia. — tempo.

Ele a observa por alguns segundos, como se aquilo não estivesse nada bem.

Sebastian apoia o copo no bar sem beber.

— Aqui ninguém pula refeições. — diz, seco. — Especialmente alguém que vai cuidar do meu filho.

Ele caminha até a porta e chama, sem elevar a voz:

— Margaret.

A governanta surge quase de imediato.

— Sim, senhor?

— Prepare algo leve. Para agora. — ele diz. — Para a senhorita Luna.

Margaret assente e desaparece.

Sebastian volta a olhar para Luna, braços cruzados.

— Vamos esclarecer algumas coisas. — diz. — Oliver tem seis anos. Somos só nós dois e os empregados.

Ele faz uma pausa curta, o maxilar tensionando.

— Você já deve ser a vigésima babá que contrato só este mês. — diz, com frieza. — E, pela estatística, amanhã talvez eu esteja procurando a vigésima primeira.

Sebastian suspira, pesado, e finalmente pega o copo novamente, girando o líquido âmbar sem beber.

— Essa vaga é em tempo integral. — continua. — Preciso de alguém com Oliver vinte e quatro horas por dia.

O olhar azul se fixa nela, direto, invasivo.

— Sua casa é própria? — pergunta. — É casada?

— Não. Para as duas perguntas.

Sebastian balança a cabeça lentamente, o copo descrevendo um pequeno arco em sua mão, como se aquela resposta confirmasse algo que ele já havia decidido antes mesmo de perguntar.

— Bom. — A palavra sai neutra, mas definitiva. — Se ainda quiser esse emprego pela manhã, meu motorista vai levá-la até a sua casa para buscar seus pertences.

Luna abre a boca, mas não encontra nada que faça sentido dizer. Ainda está tentando acompanhar a velocidade com que a própria vida parece estar sendo rearranjada diante dela.

Antes que consiga reagir, Margaret entra na sala com uma bandeja nas mãos. O prato é simples — sopa clara, pão, uma pequena porção de frutas — mas o cheiro faz o estômago de Luna se contrair de forma quase dolorosa.

Sebastian lança um olhar rápido para a governanta.

— Quando ela terminar de jantar, leve-a ao quarto. — diz. Não é um pedido. — Ela fica no quarto ao lado do de Oliver.

Margaret assente, sem demonstrar surpresa alguma, e se aproxima de Luna, apoiando a bandeja sobre a mesa baixa à sua frente.

— Se precisar de algo, senhorita — diz em tom baixo — é só chamar.

Quando Luna observa a governanta deixando a sala, ela percebe que Sebastian já tinha ido. 

O silêncio retorna à sala grande demais.

Luna encara a bandeja por alguns segundos, ainda processando tudo: o emprego que não era o emprego, a casa que não era sua, o homem que falava como quem assina contratos — e o menino de olhos cansados, que parecia carregar um fardo enorme.

Ela pega a colher com a mão levemente trêmula.

Talvez aquilo fosse loucura.

Talvez fosse um erro colossal.

Mas ninguém ali se importou se a classe social dela era diferente dos demais e aquilo já era um bom sinal.

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Último capítulo

  • BABÁ POR ACIDENTE DO CEO   FINAL

    [ANOS DEPOIS]O verão londrino havia chegado com um céu intensamente azul e um sol generoso que banhava os imensos jardins da mansão Hale. Os tempos sombrios de escândalos, tribunais e ameaças pareciam parte de uma vida passada, completamente soterrados pela felicidade e pela paz que a família finalmente havia conquistado.Naquele dia, a propriedade estava em festa. Balões em tons de azul e prata decoravam os gramados perfeitamente aparados, onde risadas de crianças e o som de conversas animadas preenchiam o ar. Era o aniversário de doze anos de Oliver.O garoto, que agora exibia o início de uma postura firme e decidida que lembrava muito a de Sebastian, corria pelo jardim com seus amigos da escola, celebrando a nova idade com a energia de quem se sentia profundamente amado e seguro.O tema da festa não poderia ser outro: futebol. Oliver era completamente apaixonado pelo esporte, jogava nas categorias de base locais e o gramado da mansão havia sido transformado em um verdadeiro campo

  • BABÁ POR ACIDENTE DO CEO   134

    Os passos apressados da equipe técnica e o falatório baixo dos produtores finalmente começaram a desaparecer pelos corredores da mansão Hale. Margaret guiava os jornalistas e os cinegrafistas até a porta principal, garantindo que nenhum detalhe da intimidade da família permanecesse exposto após o encerramento da transmissão.O silêncio que se instalou na imensa sala de estar era quebrado apenas pelo estalo baixo da lareira. Finalmente, os quatro estavam sozinhos: Benjamin, Lucrécia, Sebastian e Luna.Lucrécia foi a primeira a quebrar a rigidez que exibia diante das câmeras. Soltando um longo suspiro de alívio que fez seus ombros relaxarem, ela se levantou do sofá de veludo. Suas mãos, que antes seguravam discretamente um lenço, agora se moveram com elegância enquanto ela caminhava em direção ao aparador que servia como minibar no canto da sala.— Meu Deus, eu achei que meu coração fosse sair pela boca — ela comentou, a voz recuperando o tom aristocrático enquanto pegava uma garrafa de

  • BABÁ POR ACIDENTE DO CEO   133

    — Serena sabia perfeitamente que a mídia já estava vigiando cada passo nosso desde que ela havia "voltado dos mortos". Ela sabia que a imprensa faria um circo se uma história de abandono de incapaz envolvendo os Hale viesse à tona. Seria a nossa aniquilação completa. Então, ela mostrou um teste de DNA para a Luna e deu um ultimato: se ela não pegasse as suas coisas e sumisse definitivamente das nossas vidas, aquela seria a versão que ela venderia para os tabloides no dia seguinte.Luna baixou os olhos por um segundo, engolindo em seco ao relembrar a dor daquele dia. Sebastian olhou para ela antes de prosseguir.— E Luna, com aquele coração puro e querendo proteger a todos nós da destruição, sacrificou a própria felicidade. Ela simplesmente pegou as suas coisas e se foi, desaparecendo sem deixar rastros.Dentro do presídio, as detentas começaram a murmurar alto, os olhares sobre Serena tornando-se cada vez mais pesados. Serena segurava as grades imaginárias da TV, o suor frio escorrend

  • BABÁ POR ACIDENTE DO CEO   132

    — Boa tarde a todos — Sebastian começou, dando um passo a frente. — Eu entendo perfeitamente que os olhos do mundo inteiro estão voltados para a minha família desde o momento em que a minha ex-esposa, Serena, reapareceu publicamente, depois de passar anos sendo dada como morta. Quando ela retornou, ela nos contou uma história terrível. Nós acreditamos quando ela afirmou que havia sido mandada para outro país e usada como mercadoria humana, em uma suposta troca para que o nosso filho, Oliver, fosse devolvido daquele sequestro.Na tela, Sebastian fez uma pausa e soltou um suspiro pesado, o maxilar trincando por um breve segundo ao reviver a linha de mentiras em que havia caído. Ao sentir a tensão dele, Luna, do seu lado, pousou a mão delicadamente sobre o braço dele, murmurando com suavidade:— Fique calmo...Sebastian sentiu o toque dela, respirou fundo e continuou, olhando fixamente para a lente da câmera:— Nós lhe demos abrigo, demos o benefício da dúvida. Mas os meses foram se pass

  • BABÁ POR ACIDENTE DO CEO   131

    O cheiro forte de desinfetante barato e umidade impregnava o ar do pavilhão C do presídio feminino de segurança máxima. Era uma sexta-feira cinzenta, e a rotina dentro do complexo seguia com a sua habitual e sufocante monotonia. Para as detentas, os dias eram medidos pelos horários rígidos das refeições, pelas trocas de turno das carcereiras e pelas horas obrigatórias de trabalho forçado para garantir alguma redução de pena.Naquela tarde, Serena estava encarregada da manutenção da sala comunitária, um espaço amplo e frio com algumas cadeiras de plástico enfileiradas e uma televisão antiga presa ao teto por um suporte de ferro.Com um pano encardido em uma das mãos e um balde de água suja aos seus pés, ela esfregava sem o menor entusiasmo a superfície de uma das mesas. A televisão estava ligada em um canal de notícias local, o som baixo servindo apenas como um ruído de fundo para o falatório de outras presas que circulavam pelo corredor, mas Serena não prestava a menor atenção à tela.

  • BABÁ POR ACIDENTE DO CEO   130

    Luna pegou um casaco confortável para proteger a si e à barriga do vento frio de Manhattan, e os dois saíram da kitnet. Ao passarem pela portaria, Sebastian fez questão de cumprimentar o porteiro com um aceno de cabeça e um sorriso discreto.Eles começaram a caminhar lado a lado pelas calçadas de Staten Island em direção ao carro de Sebastian, que estava estacionado um pouco mais à frente, bem na porta da padaria de Mariane. Conforme se aproximavam do estabelecimento, Sebastian olhou de relance para a fachada de vidro e soltou uma risada baixa, balançando a cabeça.— Acredita que eu tenho vindo nessa padaria a semana inteira? -- ele comenta. -- Eu ficava sentado ali, da sete da manhã até o meio-dia, tomando um café e esperando por você, rezando para ver você passar por aquela porta. E justamente hoje, a única sexta-feira em que eu me atrasei por causa de um brinquedo que Oliver perdeu, você resolveu aparecer.Naquele mesmo segundo, a mente de Luna fez um estalo e todas as peças do que

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