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Autor: aly
last update Data de publicação: 2026-02-20 03:47:43

— Meu nome é Margaret. — a empregada diz enquanto fecha a porta atrás delas. — O senhor Hale está ocupado e vai encontrá-la assim que acabar. O menino está no quarto, no andar de cima. 

Menino.

Luna engole em seco, apertando a alça da bolsa com força. 

— Desculpe, acho que houve um engano... — ela começa, tentando recuperar o controle da própria voz. — Eu vim para uma entrevista... ainda não fui con...

— O quarto é o segundo à direita — Margaret a interrompe, já caminhando pelo corredor amplo. — Ele já jantou e está pronto para dormir... ou só ficar deitado lá.

Luna para.

O nome menino ecoa de novo em sua cabeça, agora acompanhado de algo muito pior: certeza de que aquilo não era uma entrevista.

— Com licença — diz, um pouco mais firme, forçando os pés a ficarem no lugar. — Acho que houve um engano. Eu vim apenas conversar sobre a vaga. Não recebi nenhuma confirmação…

Margaret finalmente se vira para ela.

O olhar da mulher é sério, experiente demais.

— Senhor Hale não costuma perder tempo com entrevistas formais — responde. — Quando alguém chega até aqui, é porque já foi avaliada o suficiente.

Luna então se lembra da mulher que esqueceu o envelope naquela cafeteria. A mulher que com certeza tinha sido avaliada e tinha experiencia com crianças.

Margaret observa Luna e então diz:

— Você decide. Vai subir ou vai embora?

Luna percebe detalhes que antes haviam passado despercebidos: quadros sóbrios demais, corredores longos demais, uma quietude quase opressiva.

Ela pensa na mulher chorosa no caminho.

Essa casa… aquela criança… ele…

— Se eu subir… — Luna começa, escolhendo as palavras com cuidado — eu estarei aceitando o emprego?

Margaret não responde de imediato. Apenas se vira novamente e começa a subir os primeiros degraus da escada.

— Estará aceitando o teste — diz, por cima do ombro. — O emprego… depende de você sobreviver à primeira noite.

Ela deveria ir embora. Tudo dentro dela grita isso. Mas seus pés não se movem. Não quando pensa no bilhete na geladeira. No café pago com o último dinheiro. No vazio que a espera se atravessar aquela porta de volta.

Luna respira fundo.

E começa a subir as escadas.

No topo, um corredor ainda mais longo e com diversas portas fechadas. Margaret para diante da segunda porta da direita e b**e uma única vez.

Ela abre a porta e dá um passo para o lado, permitindo que Luna veja o interior do quarto.

— Ele está aí — diz, baixo. — Boa sorte.

O quarto é grande demais para uma criança.

As paredes claras estão quase vazias, decoradas apenas com alguns quadros discretos. Poucos brinquedos repousam organizados em prateleiras altas, intactos, como se quase nunca fossem tocados. Não há bagunça. Não há cor em excesso. Não há sinais de infância espalhada pelo chão.

No centro do quarto, uma cama ampla.

O menino está deitado de costas, olhando fixamente para o teto. O cobertor vai até o peito, perfeitamente alinhado. Ele não se mexe quando Luna entra. Não vira o rosto.

— Oi… — Luna diz, a voz saindo mais baixa do que pretendia.

O menino não responde. Continua olhando para o teto.

— Eu sou a… — ela hesita por um segundo que parece durar minutos. — Luna.

Não diz babá. Não consegue.

O menino continua em silêncio, mas finalmente vira o rosto na direção de Luna. Seus olhos azuis e cansados, percorrem cada detalhe dela: a bolsa simples, o casaco gasto, o cabelo preso de qualquer jeito.

— Qual é o seu nome?

Silêncio.

Ela se aproxima da cama com cuidado, como se estivesse lidando com algo frágil demais para tocar. Para a alguns passos de distância, respeitando o espaço dele.

— Tudo bem se você não quiser falar. — ela completa, rapidamente. — Eu também fico quieta quando estou cansada.

— Você não é uma babá. — ele diz, de repente.

Luna engole em seco e dá um sorriso de lado.

— Por que você acha isso?

— A babá sempre chega com brinquedos. — ele responde, simples. — E você parece… nervosa.

— Ah... — Luna murmura. — Eu fico nervosa fácil.

A pergunta pega Luna desprevenida. O nó se forma em sua garganta antes que ela consiga pensar em uma resposta. Ela olha ao redor do quarto de novo. A cama grande demais. O silêncio pesado. A ausência gritante de qualquer coisa que pareça acolhimento.

É só uma criança. Ela pensa. Não vai ser difícil.

Sem pensar muito, Luna pega em um livro que estava na prateleira. 

— Quero ler para você. Posso?

O menino não responde de imediato. Ele apenas chega um pouco mais para o lado da sua cama, dando a deixa para que Luna sente ali.

É um convite silencioso.

Luna se senta com cuidado, encostando as costas na cabeceira. Abre o livro.

É “Onde Vivem os Monstros”.

Ela começa a ler em voz baixa, pausada, sem teatralidade. Apenas palavras. Apenas presença. No meio da história, quando Max já está cercado pelos monstros e decide que sente saudade de casa, Luna percebe que a respiração do menino mudou.

Ele se vira de lado, encolhendo-se levemente, os cílios pesados.

— Oliver. — ele murmura, a voz sonolenta. — Meu nome é Oliver.

O peito de Luna aperta.

— É um nome bonito. — ela responde, quase num sussurro.

Oliver não responde. Os olhos já estão fechados.

Luna continua lendo até a última página, mesmo sabendo que ele não escuta mais. Fecha o livro devagar, como se qualquer som pudesse despertá-lo.

Luna permanece sentada por mais alguns instantes, observando o rosto tranquilo de Oliver adormecido. 

Ela se pega pensando na mulher que encontrara antes de entrar naquela casa. No tom duro. No olhar impaciente. Nas palavras ditas como se aquele menino fosse um fardo difícil demais de carregar.

O que ele tem?

Luna percorre o quarto com os olhos em busca de alguma resposta. Tudo está arrumado demais. Brinquedos poucos, alinhados, quase intocados. Nenhuma bagunça. Nenhum sinal de infância barulhenta. Apenas ordem. Controle. Ausência.

Com cuidado, Luna se levanta. Ajusta o cobertor um pouco melhor sobre o corpo de Oliver, sem tocá-lo diretamente. Depois caminha até a porta e a abre devagar. Sai de costas, mantendo o olhar nele até o último segundo.

Ela fecha a porta com o mínimo de som possível e então se vira.

E tromba em alguém.

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Último capítulo

  • BABÁ POR ACIDENTE DO CEO   FINAL

    [ANOS DEPOIS]O verão londrino havia chegado com um céu intensamente azul e um sol generoso que banhava os imensos jardins da mansão Hale. Os tempos sombrios de escândalos, tribunais e ameaças pareciam parte de uma vida passada, completamente soterrados pela felicidade e pela paz que a família finalmente havia conquistado.Naquele dia, a propriedade estava em festa. Balões em tons de azul e prata decoravam os gramados perfeitamente aparados, onde risadas de crianças e o som de conversas animadas preenchiam o ar. Era o aniversário de doze anos de Oliver.O garoto, que agora exibia o início de uma postura firme e decidida que lembrava muito a de Sebastian, corria pelo jardim com seus amigos da escola, celebrando a nova idade com a energia de quem se sentia profundamente amado e seguro.O tema da festa não poderia ser outro: futebol. Oliver era completamente apaixonado pelo esporte, jogava nas categorias de base locais e o gramado da mansão havia sido transformado em um verdadeiro campo

  • BABÁ POR ACIDENTE DO CEO   134

    Os passos apressados da equipe técnica e o falatório baixo dos produtores finalmente começaram a desaparecer pelos corredores da mansão Hale. Margaret guiava os jornalistas e os cinegrafistas até a porta principal, garantindo que nenhum detalhe da intimidade da família permanecesse exposto após o encerramento da transmissão.O silêncio que se instalou na imensa sala de estar era quebrado apenas pelo estalo baixo da lareira. Finalmente, os quatro estavam sozinhos: Benjamin, Lucrécia, Sebastian e Luna.Lucrécia foi a primeira a quebrar a rigidez que exibia diante das câmeras. Soltando um longo suspiro de alívio que fez seus ombros relaxarem, ela se levantou do sofá de veludo. Suas mãos, que antes seguravam discretamente um lenço, agora se moveram com elegância enquanto ela caminhava em direção ao aparador que servia como minibar no canto da sala.— Meu Deus, eu achei que meu coração fosse sair pela boca — ela comentou, a voz recuperando o tom aristocrático enquanto pegava uma garrafa de

  • BABÁ POR ACIDENTE DO CEO   133

    — Serena sabia perfeitamente que a mídia já estava vigiando cada passo nosso desde que ela havia "voltado dos mortos". Ela sabia que a imprensa faria um circo se uma história de abandono de incapaz envolvendo os Hale viesse à tona. Seria a nossa aniquilação completa. Então, ela mostrou um teste de DNA para a Luna e deu um ultimato: se ela não pegasse as suas coisas e sumisse definitivamente das nossas vidas, aquela seria a versão que ela venderia para os tabloides no dia seguinte.Luna baixou os olhos por um segundo, engolindo em seco ao relembrar a dor daquele dia. Sebastian olhou para ela antes de prosseguir.— E Luna, com aquele coração puro e querendo proteger a todos nós da destruição, sacrificou a própria felicidade. Ela simplesmente pegou as suas coisas e se foi, desaparecendo sem deixar rastros.Dentro do presídio, as detentas começaram a murmurar alto, os olhares sobre Serena tornando-se cada vez mais pesados. Serena segurava as grades imaginárias da TV, o suor frio escorrend

  • BABÁ POR ACIDENTE DO CEO   132

    — Boa tarde a todos — Sebastian começou, dando um passo a frente. — Eu entendo perfeitamente que os olhos do mundo inteiro estão voltados para a minha família desde o momento em que a minha ex-esposa, Serena, reapareceu publicamente, depois de passar anos sendo dada como morta. Quando ela retornou, ela nos contou uma história terrível. Nós acreditamos quando ela afirmou que havia sido mandada para outro país e usada como mercadoria humana, em uma suposta troca para que o nosso filho, Oliver, fosse devolvido daquele sequestro.Na tela, Sebastian fez uma pausa e soltou um suspiro pesado, o maxilar trincando por um breve segundo ao reviver a linha de mentiras em que havia caído. Ao sentir a tensão dele, Luna, do seu lado, pousou a mão delicadamente sobre o braço dele, murmurando com suavidade:— Fique calmo...Sebastian sentiu o toque dela, respirou fundo e continuou, olhando fixamente para a lente da câmera:— Nós lhe demos abrigo, demos o benefício da dúvida. Mas os meses foram se pass

  • BABÁ POR ACIDENTE DO CEO   131

    O cheiro forte de desinfetante barato e umidade impregnava o ar do pavilhão C do presídio feminino de segurança máxima. Era uma sexta-feira cinzenta, e a rotina dentro do complexo seguia com a sua habitual e sufocante monotonia. Para as detentas, os dias eram medidos pelos horários rígidos das refeições, pelas trocas de turno das carcereiras e pelas horas obrigatórias de trabalho forçado para garantir alguma redução de pena.Naquela tarde, Serena estava encarregada da manutenção da sala comunitária, um espaço amplo e frio com algumas cadeiras de plástico enfileiradas e uma televisão antiga presa ao teto por um suporte de ferro.Com um pano encardido em uma das mãos e um balde de água suja aos seus pés, ela esfregava sem o menor entusiasmo a superfície de uma das mesas. A televisão estava ligada em um canal de notícias local, o som baixo servindo apenas como um ruído de fundo para o falatório de outras presas que circulavam pelo corredor, mas Serena não prestava a menor atenção à tela.

  • BABÁ POR ACIDENTE DO CEO   130

    Luna pegou um casaco confortável para proteger a si e à barriga do vento frio de Manhattan, e os dois saíram da kitnet. Ao passarem pela portaria, Sebastian fez questão de cumprimentar o porteiro com um aceno de cabeça e um sorriso discreto.Eles começaram a caminhar lado a lado pelas calçadas de Staten Island em direção ao carro de Sebastian, que estava estacionado um pouco mais à frente, bem na porta da padaria de Mariane. Conforme se aproximavam do estabelecimento, Sebastian olhou de relance para a fachada de vidro e soltou uma risada baixa, balançando a cabeça.— Acredita que eu tenho vindo nessa padaria a semana inteira? -- ele comenta. -- Eu ficava sentado ali, da sete da manhã até o meio-dia, tomando um café e esperando por você, rezando para ver você passar por aquela porta. E justamente hoje, a única sexta-feira em que eu me atrasei por causa de um brinquedo que Oliver perdeu, você resolveu aparecer.Naquele mesmo segundo, a mente de Luna fez um estalo e todas as peças do que

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