INICIAR SESIÓNBRANCA
Nasci no inverno. Não que tenha nevado na época. Já nevou alguma vez no Rio? Não que eu tenha visto.
Apesar da minha aparência, minha mãe não me deu o nome Branca por causa do conto de fadas ou por causa da neve, que eu nunca vi ao vivo. Esse era o nome da minha bisavó. Cheguei a conhecê-la, mas ela morreu quando eu ainda era pequena. Nessa época passei a morar só com a minha mãe. Meu pai aparecia raramente para visitas curtas. Eles se divorciaram logo que nasci. Meu pai vivia longe e isso acabou com seu casamento. Quase não tinha contato com ele.
Eu tinha quinze anos quando isso mudou.
Minha mãe ficou muito doente a acabou falecendo. Meu pai ficou com a minha guarda. Eu só não sabia que viveríamos em um morro.
Eu não sabia que meu pai era um traficante de vida dupla. Ele nunca foi o empresário que minha mãe achava que era.
Foi difícil me acostumar com a mudança drástica de cenário. Sem contar que ele parecia sempre em guerra com tudo e com todos. Eu era cercada por seus capangas, pois a qualquer momento alguém poderia me usar para o atingir.
Odiava tudo isso. Mas eu não tinha escolha. Tinha que estudar, arrumar uma profissão e me afastar de tudo que ele representava.
Cinco anos se passaram e me acostumei com quase tudo nesse lugar. Fiz amizade com muita gente, e conheci Maria, minha melhor amiga, alguém que eu faria tudo para ver sorrir, o que raramente acontece. Ela e seu irmão virão o pior lado do ser humano.
Também tive nesse tempo uma paixonite pelo João, irmão de Maria, mas não passou disso. Ninguém me olha como alguém solteira e livre. Sou apenas a intocável filha do Jafar. Sou protegida praticamente vinte e quatro horas por dia.
Quando fiz dezoito anos, meu pai me deixou morar sozinha aqui no morro, porém não é o que eu esperava, pois seus guardas me monitoram o tempo todo. Meu pai sabe cada pessoa que entra na minha casa e quanto tempo fica. Sei que monitora até o meu lixo. Mas não me iludo achando que é para minha segurança porque me ama. Ele me vê como uma obrigação, uma da qual não quer abrir mão por puro egoísmo. Ele gosta de saber que tem total controle sobre a vida de alguém, a minha vida.
Hoje foi a primeira vez que ele deixou eu sair para ir à praia só com Maria.
E o que eu faço? Trago um homem desconhecido escondido para a minha casa. O coitado veio todo amassado no chão do banco de trás com um monte de bagunça de praia jogada por cima para que não fosse visto por ninguém.
Agora, olhando para ele — lindo por sinal — e ouvindo o nome Seven vejo que perdi mesmo o juízo. Meu pai odeia essa família mais que tudo... Então por que não quero deixá-lo ir? Sensação esquisita.
Eu não posso estar aqui. Eu sou um Seven. Foram essas suas palavras. E estou aqui, o encarando, sem saber o que dizer.
Meu olhar percorre seu rosto bonito. Os cabelos escuros e lisos caindo pelos ombros de forma bagunçada, o queixo quadrado, a barba rala, e olhos cinzas hipnotizantes.
Ele passa a mão no cabelo e senta novamente no sofá em uma pose de dono da porra toda.
— Por que me trouxe aqui? — pergunta levemente desconfiado.
Dou de ombros.
— Não sei. Não pensei. Apenas te vi ali desmaiando e desmaiado... — Dou de ombros novamente. — Pois é, não pensei.
É impressão minha ou vi um sorriso quase se formar nesse rosto de beleza aristocrática?
Novamente passa a mão nos cabelos.
— Minha família deve estar me procurando depois do que... — Ele para. Como se tivesse se dado conta de algo. — Tanto faz. Tem como sair daqui sem levar um tiro no peito? Preciso voltar para casa.
— Não é tão fácil. — Ele levanta a sobrancelha grossa, novamente mostrando desconfiança. — O meu pai me mantem sob vigilância. Ninguém além da minha amiga sabe que o trouxe para cá.
— Conveniente.
Começo a me sentir irritada. Seu tom é como se eu o tivesse sequestrado.
— Não se preocupe. Farei o impossível para que vá embora em segurança o mais rápido possível.
— Beleza. Enquanto isso, pode me dar qualquer coisa pra prender essa droga? — e novamente passa a mão nos cabelos, incomodado.
— Se não gosta, por que não corta?
— Porque Flor gosta e outras pers... — ele para a palavra e dá de ombros. — Sou voto vencido.
Flor? Que nome brega.
Deve ser da namorada... ou uma delas, já que ele usou a palavra outras.
E por que estou com ciúme de um desconhecido? Não sabia que era psicopata assim.
Seguro a vontade de rir dos pensamentos e viro as costas para ele, subindo as escadas e indo até o meu quarto. Tenho vários elásticos coloridos que uso para prender meu cabelo. Pego um branco e volto, estendendo para ele.
Ele pega e se levanta amarrando o cabelo de qualquer jeito. Claro que ainda continua lindo.
— Por favor, sinta-se em casa até que eu resolva essa bagunça que causei.
— Relaxa, meu anjo.
— Meu nome é Branca — o corrijo.
— Florian. — Ele estende a mão e aceito o cumprimento.
Sinto seus dedos na minha pele. A mão grande faz meu corpo despertar de um jeito muito erótico.
Engulo seco. E puxo a mão.
— Me siga. Tenho um quarto de hospedes, caso queira descansar.
Sem esperar resposta, sigo para o segundo andar. Escuto seus passos me seguindo. Enquanto só penso em que merda eu tenho na cabeça para entrar em um caos que eu mesma criei.
Será que não penso? Olha o tamanho desse homem... ele poderia me fazer em pedacinhos só para atingir meu pai. Já ouvi histórias absurdas sobre os Seven.
Doida, Branca. Você é mais doida que a Branca de Neve que vai morar com sete anões que nunca viu na vida.
BRANCATanta coisa aconteceu nos últimos cinco anos. E eu estou aqui, novamente no quarto onde Florian me trouxe pela primeira vez, onde sua personalidade insana tentou me matar. Poderíamos ter nos mudado, ter nossa própria casa, mas é impossível sair daqui. É onde estão meus amigos, minha família. Nossos filhos estão crescendo juntos e unidos.Ninguém nunca mais nos importunou. Pelo menos não por minha causa. Os Seven tem seus inimigos. Isso nunca vai mudar. É o lado ruim de se ter muito poder.Cristal se foi. Eu preferia que ela estivesse presa, mas não me sinto mal por ela ter morrido. Duvido que mudaria após ser presa. Ela foi parar nos casos de desaparecidos, assim como o homem que tentou me matar sob sua ordem.Hoje convivo com os Seven e ouço muito sobre as coisas que fazem. É meio assustador. Não me envolvo em nada. Posso ter tido um pai criminoso e ser casada com um mafioso que agora passa muito tempo cuidando de assuntos ilícitos com seu pai e seus irmãos, mas não tenho estô
Vejo o momento em que Adam segura a mão de uma mulher mascarada que carrega uma faca e estava pronta para acertar minha Branca.Me aproximo e abraço minha grávida por trás.Cristal esperneia enquanto Adam a afasta de nossas mulheres.— É culpa dela. — Ela grita raivosa para Branca. — Você, sua maldita, acabou com a minha vida, com a minha beleza.Sua máscara cai e mostra hematomas de dias atrás.A visão parece afetar Branca, deixá-la com pena. Mas Maria entra na frente.— Mentira. Não acredita nela, amiga. João me disse que ela saiu do morro porque quis, achou que aceitando ficar com o dono do outro teria poder. Ela fez a escolha dela quando todo Rio de Janeiro sabe como aquele porco trata suas mulheres.A outra tenta arranhar os braços de Adam, cobertos pela camisa.— Mentira. Eu vou matar você. Vou arrancar seu rosto, sua intrometida.Ele arrasta a mulher para o escritório, enquanto meu pai pede desculpas aos convidados e pede que se divirtam e esqueçam o episódio. Depois ele vai at
Meses depois...FLORIAN— Achei que tivesse ido embora — falo para o reflexo no espelho. Ele sorri de lado.“Hoje é o dia. Eu não perderia isso por nada.”— Nem pense. Eu não vou deixar que lide com isso. É a minha noiva.“Podemos ir juntos. Da mesma forma que estamos conversando aqui.”— E eu teria que levar um espelho — debocho.“Não, imbecil. Eu vou estar na sua cabeça. Ou pode ser teimoso e eu tomo o seu lugar. Quer arriscar essa briga?”— Só fica na sua.O reflexo pisca.Desço para o escritório com o imbecil do Caçador tagarelando estratégias na minha cabeça. Quando entro vejo meu pai e meus irmãos, já armado e prontos. “Eu quero aquilo”.Olho para o taco de basebol que o Raoul segura.“Esmagaremos alguns crânios”.— Gosto da ideia — concordo. E me viro para o meu irmão. — Raoul, tem outro desse?Ele olha de mim para o taco e dá de ombros.— Pode ficar com esse. Combina mais com você, cabeludo. Você está parecendo o Caçador.— Nesse caso eu sou um. E vou caçar
Meses depois...Na mente de Florian— O que você faz aqui?Escuto a pergunta que não é direcionada a mim. O cara de terno que segura uma bíblia está olhando uma mulher negra de vestido cor de rosa elegante. Ela é tão linda que nem parece real.Ela só o olha com desprezo evidente.— Flor? — sondo.Ela abre o sorriso de dentes alvos e alinhados.— Em toda minha beleza.Sorrio. Então, esse era o meu rosto na vida em que fui a Flor. Facilmente me apaixonaria por essa mulher. Ela realmente é deslumbrante.— Estava tudo muito divertido, mas vim me despedir. Essa deusa aqui precisa de descanso.O tempo todo o outro nos olhava como se fossemos insetos.— Você é linda — declaro, ainda impactado por sua beleza. Acho que é um efeito permanente.— Eu sei. Agora me abrace e não me faça chorar.Quando a abraço ela se desfaz em luz. Confesso que esperava que ela fosse mais teimosa. Não imaginei que iria sem brigar.— Diga a rapariga que somos amigas.Foi a última coisa que ouvi. Sorri com suas últim
Na mente de FlorianDormi ao lado de Branca, pela primeira vez sem tê-la nos braços. Ela veio para a cama só quando pensou que eu já estava dormindo, e manteve uma distância.Assim que fechei os olhos me vi no mesmo lugar onde me despedi do Death. Ele não estava ali. No lugar dele, via um homem de moletom e outro com roupas esportivas e sorridente. Todos com meu corpo e rosto.Sid e SF.— Isso significa... — começo.— Viemos nos despedir. — Sid diz e balança a mão em um tchauzinho.— Entendemos que não é nossa vida. A nossa vez já passou. — SF completa.— Viver a vida de outro é trabalhoso e desnecessário. — Sid boceja. — Vamos acabar logo com isso.— Não tenho muito a dizer. Apenas que cuide da Branca. Não deixe a vida dela se tornar monótona. E nem a sua. Lembra que estou na sua alma também e preciso de ação.— Mas não exagera que eu também estou. E mereço descanso.Assinto para os dois.— Moderação. Entendo.— Boa sorte. Viva melhor do que vivemos. — SF diz.Eles estendem uma mão c
FLORIANOlho no espelho do banheiro, mas o rosto que reflete não é exatamente o meu. Esse olhar não é meu.“Quantas vezes vai permitir que ela se machuque, seu inútil?”Consigo ouvir os pensamentos e sei do que o meu reflexo fala.— Eu não permiti. Estava lá por ela.“Quem levou aquela bala foi o Death.”— Acha que faria um trabalho melhor?“Óbvio. Primeiro que eu não a deixaria ter duvidas sobre o que quero.”— Não estou deixando.“Ah é? Nem você acredita nisso.”— O que quer? Vai me assombrar nos espelhos agora?A imagem sorri.“Ela é minha. Aceite dividir ou quem será expulso desse corpo será você. Ela escolheu você. Então, faça por merecer.”— Está me ameaçando?“Sim. Estou.”— Escuta aqui, seu mer...Uma risada ecoa na minha mente e o reflexo no espelho agora mostra somente minha face irritada.Pego a escova de dentes e tento não pensar no vazio na minha memória.Quando termino, volto para o quarto onde Branca está despertando. Linda. Sua pele tem... marcas. Porra!Desvio o olhar







