FAZER LOGINPOV RIANEO cheiro de vitória-régia e de água-doce continuava a cobrir a fumaça de breu da casa de conselho do Xingu.Caruã permanecia postado como uma muralha entre o sujeito e mim, o peito nu subindo e descendo num ritmo pesado. As pupilas do meu Alfa queimavam num dourado puro, a mão travada na empunhadura da faca de caça, o rosnado baixo da fera vibrando no ar da sala com uma promessa clara de sangue.O homem de camisa de linho branco deu mais uma risada curta, o som suave como água correndo em leito de pedra. Ele deu um passo para o lado com uma elegância fluida, contornando a projeção dos ombros de Caruã sem demonstrar pressa nem medo.— Você devia afrouxar esse cinto, Alfa do Rio Negro — o sujeito provocou, inclinando a cabeça com um charme preguiçoso. — O ferro do seu peito vai acabar rasgando essa pele bonita antes do anoitecer.Caruã girou o corpo no mesmo milissegundo, a lâmina de aço saindo três dedos da bainha de couro com um estalo seco.— Mais um passo e eu te corto ao
POV RIANE O ar dentro da grande casa de conselho do Xingu cheirava a gordura de capivara queimada na banha. A estrutura inteira era erguida sobre pilares grossos de itaúba, e a fresta entre as tábuas do chão deixava ver a água barrenta do igarapé correndo lá embaixo. Tonho continuava parado diante da mesa de pedra polida, os braços cruzados sobre as cicatrizes do peito. O tom castanho queimado dos olhos dele ainda mantinha o mesmo espanto de quando leu o nome da minha mãe no meu rosto, no trapiche. Ao lado dele, dois Alfas do Conselho do Xingu permaneciam em silêncio, as lanças de osso de arapaima apoiadas nos ombros. — Você disse o nome dela no porto — dei dois passos à frente, batendo a mão no tecido do meu moletom, onde o pingente de pedra preta queimava em silêncio. — Você conhecia a Iracema. O que a minha mãe tinha a ver com o Xingu? Tonho desviou o olhar para a chama da tocha presa no pilar. A mandíbula dele travou, a carne do maxilar enrijecendo. — Conhecer é uma pal
POV CARUÃ O ronco da voadeira diminuía à medida que o canal do rio se estreitava. A água escura do Rio Negro tinha ficado quilômetros atrás, dando lugar a uma correnteza barrenta e mais rápida, cercada por um teto denso de maçarandubas e igapós carregados de musgo. Riane estava sentada na proa, o moletom escuro aberto no peito por causa do mormaço abafado do meio-dia. O vento que vinha da curva do rio balançava os cabelos dela, e os olhos âmbar varriam a margem com atenção afiada. O pingente de pedra preta repousava contra a sua clavícula, emaranhado na corrente. Atrás de nós, na segunda embarcação de apoio, Kauã e dois Deltas de confiança mantinham a distância de escolta. A viagem a dois pelo canal parecia um respiro necessário depois de semanas sufocadas pelo pátio do Rio Negro. Sem o Conselho cobrando respostas e sem os olhares desconfiados dos guerreiros, a tensão entre nós tinha assentado numa proximidade quase silenciosa. O braço dela roçava o meu ombro toda vez que a lanc
POV JUMA A prancheta de madeira na minha mão parecia mais pesada que uma lança de combate. Eu estava parada na curva do galpão de armas, observando a movimentação no pátio central. O sol da manhã cortava a névoa do rio, fazendo a terra batida brilhar com um tom avermelhado. Três voadeiras de madeira pesada estavam atracadas no porto de baixo, carregadas com suprimentos, sacos de farinha e mantas de pirarucu seco. Caruã ajustava a alça do seu colete de couro ao lado do deque. Ao seu lado, Riane conversava com Bira, o moletom escuro dobrado nos cotovelos e o sorriso leve ainda presente no rosto. Eles pareciam mais leves. Depois da conversa no templo no fim da tarde de ontem, quando Tembé decifrou o selo da pedra preta, uma onda de calma tinha se espalhado pela casa de comando. O Alfa e a sua companheira partiam para a missão diplomática no Xingu acreditando que a retaguarda no Rio Negro estava pacificada. Eu sabia que não estava. A folha de pele de veado com as rasuras do ano do ma
POV RIANE O rio batia contra o barranco abaixo do templo, num ritmo constante que parecia acompanhar minha respiração. A penumbra do salão circular de itaúba era atravessada pelas últimas faixas de luz da tarde, iluminando as túnicas penduradas nos esteios de madeira de lei. A fumaça do breu-branco queimado permanecia suspensa no ar, misturada ao cheiro das folhas secas de cipó-alho. Mesmo ali, longe do mandiocal, meu corpo ainda não tinha esquecido a luta. Tembé estava curvado sobre a mesa de pedra polida no centro do templo. As mãos enrugadas do Gama seguravam uma haste fina de osso, que ele passava com extrema delicadeza sobre a folha de pele de veado que eu tinha rabiscado no galpão de ferramentas. O velho examinava os contornos com paciência, a luz das lamparinas refletindo nos seus olhos calmos, a barba branca limpa aparada rente ao queixo. Caruã e eu estávamos parados do outro lado do pedestal. A mão do Alfa repousava na minha cintura, os dedos dele quentes contra o meu mole
POV RIANE O pó de carvão sujava as pontas dos meus dedos enquanto eu passava o papel de pele de veado sobre a superfície da pedra preta. Estava sentada no chão do galpão de ferramentas, atrás das pilhas de tábuas de itaúba e redes de pesca dobradas. A luz da manhã entrava fraca pelas frestas da parede de tora, cortando a poeira que flutuava no ar. A fumaça do breu-branco queimado do pátio chegava até ali, misturada ao cheiro de mofo e seiva seca. A pedra esquentava no meu peito a cada decalque que eu tentava tirar da ranhura central. O símbolo não era profundo, mas o contorno na pele de veado começava a revelar uma geometria estranha — linhas finas que se cruzavam como raízes de samaúma, lembrando o mesmo desenho que acendeu no braço de Caruã durante o ataque do mandiocal. Puxei o papel para a luz da fresta. Eu precisava entender o que esse pingente fazia antes que ele me queimasse por dentro. Caruã estava focado na investigação do bilhete interceptado por Bira, dividindo os Delt







