INICIAR SESIÓNCruzar com Rangel na porta da minha casa foi a confirmação de que ele havia aceitado se casar comigo. O que eu não esperava era a fúria do meu pai.
Ele me humilhou de todas as formas possíveis. Na frente de Rangel, me comparou a uma mulher qualquer, como se eu não tivesse dignidade alguma. E o pior era saber que Rangel já me enxergava como uma impostora. No fundo, eu sabia que meu pai não estava totalmente errado. Rangel jamais teria olhado para mim se não fosse o contrato imposto pelo avô dele. E estava claro que toda a culpa daquela situação cairia sobre os meus ombros. Além de tudo, meu pai me expulsou de casa. Rangel não teve outra alternativa além de me levar para a mansão dele. Despedi-me dos meus irmãos com o coração apertado. Quando estava saindo, meu pai me chamou. — Sua mãe já sabe dessa loucura? Parei na porta e respirei fundo. — Não sabe. Eu pretendia contar tudo para ela no momento certo. Mas o senhor estragou tudo com esse ódio. As lágrimas queimavam meus olhos. — E saiba de uma coisa: eu não sou uma qualquer. Um dia o senhor vai se arrepender das palavras que disse para mim. Meu pai não respondeu. Saí pela porta carregando uma dor que jamais esqueceria. Dentro do carro, o silêncio era sufocante. Eu precisava salvar minha mãe. Era a única coisa que me fazia continuar. Olhei para Rangel. — Por que apareceu daquele jeito? Está satisfeito com o estrago que causou? Ele soltou uma risada sem humor. — Que estrago? Você acabou com a minha vida. Virei o rosto, magoada. — Eu vim fazer um favor aceitando esse casamento. E sinceramente não entendo esse choro todo. Sua casa parece uma choupana. As palavras dele me atingiram como facas. — Em vez de agradecer por eu concordar com essa loucura que você e meu avô armaram contra mim, fica fazendo drama. Apertei as mãos sobre o colo. Era inútil discutir. Quando chegamos à mansão, fiquei impressionada. Tudo era enorme. Luxuoso. Parecia outro mundo. Mas minha atenção foi desviada quando uma linda menina surgiu correndo em nossa direção. — Papai! Ela se jogou nos braços de Rangel. Meu coração amoleceu imediatamente. A menina era linda. Parecia uma boneca. Mas bastou Rangel me apresentar para eu perceber que ele não queria que eu me aproximasse dela. Mesmo assim, ele me levou até o quarto. Assim que fiquei sozinha, fui até a varanda. A vista para o jardim era deslumbrante. Sentei-me observando as flores enquanto tentava organizar meus pensamentos. Então ouvi a porta se abrir. Quando me virei, encontrei a pequena criança estava parada ali. — Como é o seu nome? — perguntou ela, curiosa. Sorri. — Meu nome é Lira. E o seu? — Nina. Ela entrou no quarto e sentou-se ao meu lado. — O que você é do meu pai? Meu sorriso vacilou. — Acho que ele vai explicar isso melhor para você. Assuntos de adultos costumam ser muito complicados. Ela fez uma careta. — Então vou chamar você de tia Lira. Acabei rindo. — Pode chamar. Os olhos dela brilharam. — Vamos brincar? Meu papai nunca brinca comigo. Ele diz que está sempre ocupado. Meu coração apertou. — Tenho uma apresentação de balé — continuou ela. — Ele nunca vai aos ensaios. Meus colegas dizem que eu não tenho pai porque ele nunca me busca na escola. A tristeza em sua voz me devastou. Segurei suas pequenas mãos. — Não diga isso, Nina. Seu pai é muito ocupado, mas tenho certeza de que ele ama você. — Ama mesmo? — Muito. Ela abaixou os olhos. — Então por que nunca aparece? Fiquei sem resposta. Como explicar aquilo para uma criança? — Às vezes os adultos cometem erros — falei baixinho. — Mas isso não significa que deixem de amar. Nina me abraçou. Com força. Como se precisasse daquele carinho há muito tempo. Foi nesse instante que a voz de Rangel ecoou pela porta. — Nina. A menina se afastou rapidamente. — Papai! Posso brincar com a tia Lira? A expressão dele endureceu. — Não. — Mas... — Ela precisa organizar as coisas dela. Nina abaixou a cabeça. — Tudo bem. Observei a menina sair do quarto. E senti raiva. Como alguém podia ser tão frio com a própria filha? Mais tarde, desci até a cozinha. A governanta me recebeu com um sorriso gentil. — Seja bem-vinda, senhorita Lira. — Obrigada. Sorri para ela. — Gostaria de saber o horário do ensaio de balé da Nina. Os olhos dela se arregalaram. — Pretende acompanhá-la? — Sim. A governanta pareceu emocionada. — É no final da tarde. Posso lhe passar o endereço. — Obrigada. Aproveitei que Rangel não estava por perto e liguei para Will. Contei tudo sobre o casamento. Também falei sobre minha mãe e sua necessidade urgente de tratamento. Pouco tempo depois, fui até o escritório dele. — Entre, Lira. Will apontou para a cadeira à sua frente. — O correto seria liberar os recursos apenas depois da assinatura do contrato. Mas Rangel já está agilizando tudo. Ele abriu uma gaveta. — Confio em você. Vá ao hospital, descubra todos os custos do tratamento da sua mãe e me ligue. As lágrimas encheram meus olhos. — Obrigada. — Apenas cumpra sua palavra. — Eu vou cumprir. Fui direto para o hospital. Ao chegar, recebi uma notícia preocupante. O estado da minha mãe havia piorado. Meu coração disparou. Pedi imediatamente o melhor tratamento disponível. Quando a recepcionista informou os valores, fiquei sem ar. Era uma quantia absurda. Mas eu faria qualquer coisa para vê-la curada. Também contratei uma enfermeira particular para acompanhá-la. Comprei flores antes de entrar no quarto. Quando minha mãe me viu, abriu um sorriso cansado. — Filha... Corri até ela. — Mãe. Ela segurou meu rosto. — Que bom te ver. Os médicos já organizavam sua transferência para um quarto melhor. — Minha cirurgia vai acontecer. Sorri enquanto lágrimas escorriam pelo meu rosto. — Vai dar tudo certo. Eu a abracei com força. Mas não tive coragem de contar a verdade. Não tive coragem de dizer que estava vendendo meu futuro para salvar a vida dela. Horas depois, a cirurgia foi concluída. Um sucesso. As chances de recuperação aumentaram consideravelmente. Pela primeira vez em muito tempo, senti esperança. Antes de ir embora, pedi à enfermeira que mantivesse discrição. Minha mãe não precisava saber de nada. Quando cheguei ao ensaio de Nina, ela estava sentada sozinha. Assim que me viu, abriu um sorriso enorme. Um sorriso tão sincero que iluminou todo o salão. Durante a apresentação, não consegui tirar os olhos dela. Nina dançava com tanta alegria que parecia flutuar. Era perfeita. E eu não conseguia entender como Rangel conseguia perder momentos tão importantes. Quando o ensaio terminou, ela correu para mim. — Você veio! — Claro que vim. Abracei-a. — Você foi maravilhosa. Ela sorriu de orelha a orelha. Nesse momento, uma mulher se aproximou. — Bom dia. Você é a madrasta da Nina? Corei. — Ainda não. Eu e o pai dela não nos casamos. A mulher sorriu. — É a primeira vez que alguém acompanha Nina em alguma atividade da escola. Meu coração apertou. — A partir de agora ela não ficará mais sozinha. Os olhos de Nina brilharam. — Lira... — Sim? — Você vai ser minha nova mamãe? Fiquei sem palavras. Apenas acariciei seus cabelos. — Vamos tomar um sorvete primeiro? Ela abriu um sorriso enorme. — Vamos! Tomamos sorvete juntas e voltamos para a mansão. Mas assim que entramos, encontrei Rangel esperando. O olhar dele era puro fogo. — Nina, vá para o seu quarto. A menina obedeceu imediatamente. Então ele segurou meu braço com força. — Rangel... Fiz uma careta de dor. — Você está me machucando. Sem dizer uma única palavra, ele me arrastou até seu escritório. E naquele instante percebi que a tempestade estava apenas começando.A nossa vida havia se tornado um verdadeiro inferno desde que Clice reapareceu. Eu já não conseguia sair de casa para passear com os meus filhos sem sentir medo. Muitas vezes chorei escondida, cansada de viver sem paz. Chegamos a discutir algumas vezes por causa dela, mas Rangel sempre acabava se desculpando. — Me perdoa, meu amor. — Ele segurou minhas mãos com carinho. — Eu só quero proteger você e as crianças. Com o passar dos dias, a segurança ao nosso redor aumentou ainda mais. Havia seguranças em todos os lugares, e confesso que aquilo me incomodava profundamente. Precisamos redobrar os cuidados quando fomos informados pela direção da escola que uma mulher desconhecida havia tentado falar com Nina. Meu coração quase parou. Ainda bem que Rangel e eu já havíamos alertado a diretora sobre tudo o que estava acontecendo. A polícia foi acionada imediatamente, mas Clice conseguiu fugir antes de ser encontrada. Desde então, Rangel passou a cercar todos os caminhos possívei
Não tenho palavras para descrever a emoção de assistir a outro parto. Corri contra o tempo para chegar ao hospital, mas consegui chegar na hora certa. Mais uma vez me tornei um pai completamente babão. Segurar outro filho nos braços era algo surreal. A magia da vida nunca deixava de me emocionar. Lira amamentava o bebê com os olhos marejados de felicidade. Eu observava aquela cena encantado, impressionado com a força daquela mulher. Ela havia acabado de trazer mais uma vida ao mundo. Os médicos examinaram Henry cuidadosamente e nos deram a notícia que tanto esperávamos. Nosso pequeno nasceu saudável e forte. Pouco depois, Lira foi levada para o quarto. Henry dormia tranquilamente ao seu lado. Já havia ligado para as crianças e elas estavam enlouquecidas para conhecer o novo irmãozinho. O motorista trouxe todos ao hospital, e meus sogros também chegaram assim que receberam a notícia. Minha sogra foi a primeira a me abraçar. — Rangel, viemos assim que soubemos
■■ RANGEL Convidei Lira para viajarmos a sós após o nascimento do bebê Henry, mas fazer o quê? Ela é uma mãezona. Cabe a mim respeitar sua decisão. Nossa família cresceu e, com ela, o amor que nos une. Com o passar dos meses, acompanhei minha esposa em todas as consultas. Lira estava com um barrigão enorme, e eu não tinha metade da força que ela demonstrava todos os dias cuidando dos nossos filhos. — Rangel, por que está me olhando assim? — perguntou ela, arqueando uma sobrancelha e sorrindo. — Estou admirando você. A força que tem para carregar essa barriga. — respondi, acariciando sua mão. Lira soltou uma risadinha. — Está pesada, confesso. Não vejo a hora de tê-lo em meus braços, cuidar dele e niná-lo. Sorri ao vê-la tão feliz. — Agora vá se arrumar. Vamos jantar fora. Os olhos dela brilharam imediatamente. — Tá bom, Rangel. Aceito o seu convite. Meia hora depois, Lira desceu as escadas deslumbrante em um vestido vermelho. Fiquei sem palavras por alguns segundo
Após a prisão de Clice, um período de paz finalmente se fez presente em nossas vidas. Mesmo estando de repouso absoluto, continuo trabalhando de casa. Todas as manhãs tomo um pouco de sol no jardim, aproveitando a tranquilidade que há muito tempo não sentia. Numa dessas manhãs, Rangel se aproximou de mim com aquele sorriso que sempre faz meu coração disparar. — Bom dia, meu amor. — Abri os braços, querendo abraçá-lo. Ele se inclinou para me beijar na testa. — Bom dia. Posso beijar essa barriguinha e conversar com meu filho? — perguntou, com os olhos brilhando de emoção. Sorri. — Claro que pode. Rangel ajoelhou-se diante de mim e depositou vários beijos carinhosos sobre minha barriga. — Meu pequeno, sei que você ainda é bem pequenino, mas quero que saiba que seu pai já te ama mais do que tudo. Estou ansioso demais... pareço um pai de primeira viagem. Meus olhos se encheram de lágrimas. — Estou tão feliz por não ter perdido nosso bebê. Eu estava preparando uma surpres
●● BÔNUS — CLICE Sinto que o cerco está se fechando ao meu redor. Posso até acabar presa, mas antes vou destruir a mulher que roubou o amor que Rangel sentia por mim. Com o pouco dinheiro que me restava, aluguei um carro. Usei uma peruca, óculos escuros e roupas discretas. Preparei um disfarce perfeito. Passei dias observando cada passo de Lira. Naquela manhã, segui-a até uma clínica. Permaneci dentro do carro por alguns minutos, mas a curiosidade falou mais alto. Desci e entrei logo atrás dela. Observei quando foi chamada para uma consulta com uma ginecologista. — Então é isso... — murmurei, cerrando os punhos. — Exames de rotina ou talvez uma gravidez. Mas aquilo pouco me importava. Eu só queria que o meu plano desse certo. Voltei para o carro e fiquei esperando. O coração batia acelerado dentro do peito. Quando vi Lira saindo da clínica distraída, liguei o motor. Segurei firme o volante. Acelerei. E a atropelei. O impacto foi tão forte que ouvi o som do
LIRA Como está sendo difícil ficar longe dos meus filhos. Rangel fez uma chamada de vídeo para mim com Nina e Harry, e meu coração quase saiu do peito ao vê-los. Ouvir Harry me chamar de mamãe me encheu de felicidade. Amo meus filhos acima de tudo. Acho que nasci para ser mãe, porque me emociono com cada gesto, cada palavra e cada demonstração de carinho deles. Minha mãe permanece o tempo todo ao meu lado. Quando contei sobre a nova gravidez, nós duas choramos de felicidade. Ela me acompanhou durante o ultrassom para verificar como estava o bebê. Porém, a consulta trouxe uma notícia preocupante. — Você está com um descolamento de placenta, Lira. Precisará de repouso absoluto para que a gestação continue saudável — explicou o médico. Senti um frio percorrer meu corpo. Minha mãe apertou minha mão e sorriu com ternura. — Filha, o importante é que o bebê está bem. Enquanto houver vida, haverá esperança. Apegue-se a isso. Respirei fundo e acariciei minha barriga. — Eu acre







