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O que Fizeram com Ele?

Autor: Crisfer
last update Data de publicação: 2025-12-04 19:16:00

Analu

O celular pesa na minha mão como um tijolo. A tela trincada reflete um pedaço do meu rosto — pálido, olheiras fundas, uma assombração do que eu era. A conversa com a Mari ainda ecoa na minha cabeça, um zumbido de pesadelo.

Cayo... preso.

A palavra gruda nos meus pensamentos, um veneno de ação lenta que vai paralisando tudo por dentro.

Não consigo ficar parada. Fico andando de um lado pro outro no quarto, os pés descalços no piso frio. Cada passo é um: preso, preso, preso. O que será que
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  • CORAÇÕES MARCADOS    Capítulo Final

    O Que o Amor FezCayoO sol da manhã entra pela janela do nosso quarto, mas não é mais aquela luz laranja do poste de gasolina. Agora é sol de verdade, entrando pelas cortinas de linho que a Analu escolheu, iluminando os móveis planejados, o closet enorme dela, a varanda que virou nosso refúgio.Dezesseis anos. Dezesseis anos desde que a Zaya nasceu e bagunçou tudo de novo. Ela tem dezesseis agora. Uma mocinha. Linda igual a mãe: loira, alta, os mesmos olhos azuis que me perderam desde o começo. E isso me dá um desespero danado.— Pai, você vai me levar na escola hoje? — ela aparece na porta do quarto, já de uniforme, a mochila pendurada num ombro.— Claro, princesa. Só deixa eu acordar direito.— Já são sete horas!— E daí?Ela ri, aquele riso que é a cara da Analu, e sai correndo. Escuto os passos dela descendo as escadas, os latidos do Bolt (mais fracos agora, mas ainda latidos), a voz do Zyon reclamando de alguma coisa na cozinha.O Zyon. Meu Deus, o Zyon. Vinte e dois anos. Um ho

  • CORAÇÕES MARCADOS    Irmãos, Brigas e Risadas

    Analu A tarde começou calma. Dessas que a gente até desconfia. O Zyon tava no quarto dele, montando um quebra-cabeça novo que ganhou da vovó. A Zaya tava na sala, vendo desenho no sofá, o Bolt deitado aos pés dela, roncando baixinho. Eu tava na cozinha, tentando adiantar o jantar, quando ouvi o primeiro grito. — ZYON! ME EMPRESTA O CARRINHO! — NÃO! É MEU! VOCÊ QUEBRA TUDO! Larguei a panela na hora. Quando cheguei na sala, a cena já tava armada: o Zyon no corredor, segurando o carrinho vermelho contra o peito, a Zaya na frente dele, os olhos cheios de lágrimas, as mãozinhas fechadas de raiva. — Você nunca me empresta nada! — ela gritou, a voz falhando. — É sempre SEU, SEU, SEU! — Porque é MEU! — ele gritou de volta, mais alto. — Você ganhou presente ontem, Zaya! Ontem! E já quer o meu? — Mas eu quero brincar com o seu, AGORA! — VAI BRINCAR COM SUAS BONECAS! — BONECA É CHATO! — O CARRINHO É MEU! A Zaya começou a chorar. Não aquele choro de manha, mas um choro de verdade, solu

  • CORAÇÕES MARCADOS    Noites Que Ainda Pertencem a Nós

    Cayo A casa tava silenciosa. Não aquele silêncio pesado de esperar o pior, mas um silêncio gostoso, daqueles que a gente aprendeu a valorizar depois de tanto tempo. As crianças tinham ido dormir na casa da minha mãe. Ela ligou mais cedo, insistindo: — Cayo, deixa os meus netos passarem a noite aqui. O Paulo alugou um filme novo na tv, vou fazer pipoca, eles merecem se divertir um pouco com a vovó. — Mãe, a senhora não cansa? — Dos meus netos? Nunca, meu filho. Manda eles pra cá e vocês dois aproveitam a noite livre. Se é que você me entende. Assim quem sabe eu tenha mais netinhos. Eu ri, passei a mão no rosto. — Tá bom, mãe. Vou levar. A Analu, do meu lado, arregalou os olhos. — Eles vão dormir lá, Cayo? — Vão. A vovó quer os netos. — A noite inteira? — A noite inteira. Ela ficou em silêncio por um segundo, depois um sorriso lento apareceu no rosto dela. Aquele sorriso que eu conheço bem. O sorriso que diz que a noite ia ser boa. — Arrumei as crianças, levei elas pra

  • CORAÇÕES MARCADOS    A Notícia que Fecha o Ciclo

    Analu A noite era comum. Daquelas que a gente aprendeu a valorizar depois de tanta luta. A mesa posta, o cheiro da comida caseira, as crianças rindo e brigando ao mesmo tempo. O tipo de noite que, anos atrás, antes da Zaya, parecia um sonho distante. A Zaya tava no colo do Cayo — ele que acostumou ela a comer assim — pegando a coxa de frango com a mão, sujando tudo. O Zyon, do meu lado, contava animado sobre o campeonato de futebol da escola. — Mãe, a gente ganhou de seis a zero! E eu fiz dois gols! — Meu craque! — passei a mão no cabelo dele, que já tá crescendo, caindo nos olhos, igual ao pai. — Tô orgulhosa. — Pai, você vai no próximo jogo? — ele perguntou pro Cayo. — Vou, campeão. Pode deixar. Vou levar a Zaya também, ela vai ser sua fã número um. — NÚMERO UM! — a Zaya repetiu, batendo palma, toda orgulhosa. O Bolt tava deitado no canto da sala, dormindo, mas de olho aberto, como sempre. Velho, cansado, mas atento. Guarda-costas até o fim. A TV da sala tava ligada no jorn

  • CORAÇÕES MARCADOS    Corações Marcados

    AnaluO sol entra pela janela do quarto como faz toda manhã, mas hoje ele parece mais brilhante. Acordo com o silêncio — um silêncio diferente, daqueles que só existem quando as crianças tão longe. Mas não tão longe assim. Escuto os passos no corredor, os risos abafados, e sei que tão aí. Tão sempre aí.Cinco anos. Cinco anos desde que a Zaya nasceu e mudou tudo de novo. Ela tem cinco agora. Cinco anos de uma personalidade que é puro Cayo: teimosa, brava, mas com um coração enorme. E o Zyon, meu Deus, o Zyon tem onze anos. Onze anos. Tá quase na minha altura, a voz começando a engrossar, um mini adolescente que ainda corre pra me abraçar quando chega da escola (e eu espero que isso nunca mude).— MÃE! — a voz da Zaya corta o silêncio. — O Zyon não deixa eu pegar o meu tênis!— Porque você quer pegar o MEU tênis! — o Zyon responde, rindo.— É ROSA! Eu gosto de ROSA!— É meu, Zaya! E ele é salmão, não é rosa.Levanto da cama, arrasto o Cayo que ainda tenta dormir mais cinco minutos, e v

  • CORAÇÕES MARCADOS    A Família que Escolhemos

    Analu O sol da manhã entra pela janela do quarto e eu acordo com o barulho que virou a trilha sonora da minha vida: os pés do Zyon correndo pelo corredor, a risada da Zaya no quarto ao lado, e o latido do Bolt, sempre atrás dos dois. Dois anos. A Zaya fez dois anos mês passado. Parece que foi ontem que eu segurava ela no colo pela primeira vez, e hoje ela já corre pela casa, fala palavras soltas e tem uma opinião forte sobre tudo. Principalmente sobre comida. — MAMÃO! — ela grita da cozinha, e eu sei que é o Zyon que ela quer. O Zyon, com oito anos, já é o protetor oficial da irmã. Acorda antes da gente, prepara o café dela (com ajuda, claro), e leva ela pra tomar na sala enquanto vê desenho. Hoje não é diferente. Quando chego na cozinha, ele tá cortando banana em pedaços pequenos, com uma concentração de cirurgião. A Zaya do lado, no banquinho, batendo as mãos na mesa. — Rápido, mamão! — ela exige. — Calma, Zaya. Tá saindo. Ela me vê e abre um sorriso enorme. — Mamãe! Ma

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