FAZER LOGINIrina
Eu sabia que tinha cometido um erro naquela noite. Um erro enorme.
Não sou o tipo de pessoa que age sem pensar, mas, naquela maldita festa, algo em Pietro Kuhn me fez baixar a guarda. Talvez fosse o jeito que ele ria, como se o mundo inteiro fosse uma piada que só ele entendia. Ou talvez fosse o fato de que ele parecia tão fora de lugar entre todos aqueles homens sérios, cheios de segredos e intenções sombrias.
Ele era diferente naquela noite. Ou, pelo menos, parecia ser.
O Pietro Kuhn que me seduziu era charmoso, espirituoso e surpreendentemente persuasivo. Ele tinha aquela energia que fazia você querer ficar por perto, só para ver o que ele diria a seguir. Mas o Pietro que vi na manhã seguinte era outra pessoa.
E é isso que ainda me irrita. Era tudo parte de um maldito jogo.
Quando acordei ao lado dele, foi como se o feitiço tivesse se quebrado. Não era mais o homem que me fez rir enquanto dançávamos ao som de uma música que nenhum dos dois gostava. Não era mais o homem que segurou minha mão de um jeito quase protetor quando atravessamos a sala cheia de olhares curiosos.
Era só... Pietro Kuhn.
Um oportunista. Um maldito filho da puta que queria uma foda pra “se consolar” porque seu antigo brinquedinho estava prestes a se casar. Era um homem medíocre.
— Irina, eu posso explicar... — Ele começou a me procurar para dizer, quando percebeu que eu já sabia de tudo, principalmente da parte em que ele tentou fugir da responsabilidade.
Eu não deixei ele terminar. Não queria ouvir as desculpas. Não precisava.
— Não diga nada. Vai ser melhor.
Foi tudo que me dignei a dizer antes de deixá-lo falando sozinho e desde então, fiz questão de evitar ele o máximo possível — no noivado, nos ensaios, em todo maldito “encontro” das famílias.
***
Agora, semanas depois, estou sentada em um jatinho particular minutos depois de dizer sim para ele em um maldito altar, ali, bem ao lado do homem que, de alguma forma, conseguiu transformar minha vida em um inferno. Pietro está quieto, o que é raro, olhando pela janela com um sorriso que parece deslocado.
— Você sempre sorri quando está prestes a arruinar a vida de alguém? — perguntei, minha voz mais afiada do que eu pretendia.
Ele se virou para mim, claramente surpreso, mas ainda com aquele sorriso irritante.
— Eu não estou arruinando a sua vida, Irina. Se quiser, posso até melhorar ela.
Revirei os olhos, cruzando os braços.
— Por favor. Você nem consegue melhorar a sua própria vida, Pietro. Como espera melhorar a minha? Vai desaparecer, por acaso? Pular do avião?
Ele riu, como se eu tivesse contado uma piada.
— Tanto faz. Eu só estava tentando ser educado.
Essa era a questão com Pietro. Ele sempre parece estar jogando, como se a vida inteira fosse uma espécie de desafio que ele precisa superar. E eu? Eu era apenas mais uma peça no tabuleiro dele.
Eu não gosto de ser uma peça. Me recuso a ser parte de uma jogada.
Meu pai queria que eu me casasse com Pietro para selar uma aliança entre nossas famílias e para “consertar” a burrada que eu fiz ao ser exposta. Ao ser pega com ele na cama. Ele achava que era a melhor solução, a mais segura. E talvez estivesse certo. Mas, para mim, isso era um castigo.
Porque, no fundo, eu sabia que Pietro só aceitou esse casamento por interesse. Não porque me queria. Não porque se importava comigo ou sequer se sentia culpado, mas porque ele não tinha outra opção e agora, ele estava ferrado.
— Você está muito quieta — ele interrompeu meus pensamentos, inclinando-se levemente na minha direção.
— Estou ocupada tentando ignorar você.
Ele arfou ao me ouvir e fingiu um gesto de dor, colocando a mão no peito.
— Isso foi cruel, até mesmo para você.
— Cruel seria você tentar falar comigo de novo. Que tal manter o silêncio? Pode ser? Poupe meus ouvidos.
Ele riu de novo, mas
voltou a olhar para a janela, finalmente me dando o espaço que eu queria.
***
Durante o voo, me peguei pensando em como minha vida chegou a esse ponto. Não foi só o erro de uma noite. Não. Foi um erro construído ao longo de anos, com escolhas que, na época, pareciam certas, mas que agora só me lembravam do quanto fui ingênua.
Eu sabia que Pietro Kuhn era perigoso. Não de um jeito óbvio, como os homens que meu pai costumava lidar. Ele era perigoso porque fazia você acreditar nele. Ele tinha aquele carisma irritante que fazia as pessoas se sentirem à vontade e confiarem nele.
E eu? Eu caí. Mas isso não ia acontecer de novo.
— Eu sei o que você está pensando.
Levantei os olhos, surpresa ao ouvir a voz dele.
— Duvido.
— Você está pensando que eu sou um idiota. E talvez eu seja. Mas, pelo menos, sou um idiota honesto.
— Honesto? Essa é boa.
Ele se virou completamente para mim, apoiando o cotovelo no braço da poltrona.
— Eu nunca menti para você, Irina. Você sabia exatamente quem eu era. Só porque você queria acreditar em outra coisa, isso não é culpa minha.
— Ah, então agora a culpa é minha? Que conveniente.
— Eu não disse isso. Mas também não vou assumir a culpa inteira.
Ele sorriu de novo, aquele sorriso que deveria ser encantador, mas que só me irritava.
— Você é impossível.
— E você gosta disso.
Cruzei os braços, voltando a olhar pela janela. Não iria dar a ele a satisfação de uma resposta. Não irei dar nada a esse filho de uma puta. Quando o jatinho finalmente pousou, fui a primeira a sair, ansiosa para me afastar de Pietro por pelo menos alguns minutos. A ilha onde iremos passar a lua de mel era paradisíaca, com praias de areia branca e um mar azul-turquesa.
Mas, para mim, era só mais uma prisão.
— Gostou da vista? — Pietro perguntou, aparecendo do meu lado.
— A vista é linda. Pena que a companhia não combina.
Ele riu, mas não disse nada. Em vez disso, pegou minha mala e a carregou como se estivesse tentando impressionar.
— Acha por acaso que eu sou estúpida o suficiente para me impressionar porque você carregou a minha mala?
— No momento eu só acho que você é muito mal humorada. Mas nada que uma foda não resolva.
Eu parei, surpresa pela sinceridade na voz dele e a completa cara de pau desse desgraçado.
— Eu prefiro morrer a foder com você.
Ele se virou para mim, com aquele sorriso provocador.
— Ah, eu não diria isso depois do quanto você gemeu na nossa primeira noite.
— Vá a merda, Pietro Kuhn! — eu rosnei e passei por ele sem olhar para trás.
Eu não podia confiar nele. Não podia confiar em ninguém.
E, acima de tudo, eu não podia permitir que Pietro Kuhn se aproximasse de mim novamente.
Porque, se havia uma coisa que aprendi, era que ninguém usava meu coração como arma. Nunca mais.
Irina Luzhin Ele ainda estava ali. No mesmo lugar. Como se o peso do mundo tivesse se depositado sobre os ombros dele nos últimos vinte minutos e ele tivesse desistido de tentar sustentar.Daniel Luzhin, meu irmão. O mesmo que quase destruiu com uma foda rápida aquilo que a nossa família levou décadas para construir.Eu observei em silêncio, braços cruzados, encostada no batente da porta. Ele tinha tirado a camisa completamente agora, e andava de um lado para o outro do escritório como um leão acuado. As veias pulsavam nos antebraços, e cada respiração vinha curta, contida. Ele não dizia nada. Ainda estava mastigando minha ameaça como quem mastiga cacos de vidro.“Você tem uma semana.”Uma semana para escolher uma noiva. Uma mulher. Uma parceira. Uma algema, se quisesse encarar assim. E, se ele não escolhesse, eu escolheria.Por mais que ele fingisse certa indiferença, eu sabia que ele tinha me ouvido. Porque Daniel — mesmo que odiasse admitir — sabia que em grande parte dos momentos,
Daniel Luzhin— Não é o que parece.Foi a única coisa que eu consegui dizer no meio daquela maldita confusão.Irina estava parada na porta do escritório, com os braços cruzados, e aquele olhar que fazia qualquer um se sentir um merda. Valentina, por outro lado, ainda tentava se recompor, puxando o vestido de volta ao lugar, os cabelos bagunçados denunciando exatamente o que estávamos fazendo segundos antes.— Ah, não? — Irina arqueou a sobrancelha. — Então o que era, Daniel? Alguma espécie de exercício de fisioterapia avançado?Fiquei em silêncio. Porque, sejamos honestos, não tinha explicação que fizesse sentido. Não tinha justificativa que apagasse a imagem de mim, com metade da camisa aberta, e Valentina praticamente sem vestido.Eu estava fodido.— Valentina, pode sair — Irina ordenou, sem tirar os olhos de mim.Valentina hesitou por um segundo. Óbvio que ela odiava receber ordens, ainda mais depois da situação em que ela se encontrava. Mas, no fim, ela obedeceu.Antes de sair, me
Valentina KuhnA melhor coisa que eu poderia fazer por mim mesma era fingir que Daniel Luzhin não existia. Isso mesmo. Fingir que ele era só uma ilusão, um borrão irrelevante no fundo da minha mente. Uma falha na Matrix. Um detalhe sem importância.O problema? Ele existia. E muito.E, para piorar, existia perto demais.Irina tinha finalmente me ajudado a escolher um bom vestido e quando eu estava me sentindo razoavelmente bem, ali estava ele, no salão, bem diante de mim. Alto, postura impecável, aquele maldito rosto bonito que me dava raiva só de olhar. Ele estava sério, como sempre, analisando tudo ao redor como se fosse o dono do mundo. Ou pior, como se ele tivesse algum direito sobre mim.Respirei fundo e virei de costas. Eu não ia dar a ele o gosto de saber que sua presença me incomodava. Não hoje. Não nesse evento em que tudo que eu queria era me divertir e esquecer que aquele homem existia.Me misturei entre os convidados, tentei ignorá-lo, mas parecia que ele estava em toda part
Ivan LuzhinEu queria acreditar que as coisas iam melhorar. Que Daniel, agora como líder da família, fosse finalmente tomar jeito e agir como um homem responsável, ainda mais depois da conversa que tivemos. Mas, claro, isso não aconteceu.As noites dele continuavam uma bagunça. Ele sumia, voltava tarde, às vezes nem voltava. Parecia que ele ainda achava que podia viver como um garoto inconsequente, sem perceber que agora tudo estava nas mãos dele e que os negócios não iam esperar para sempre.E eu? Eu via tudo e sentia minha paciência se esgotando.A raiva se misturava com a preocupação, criando um coquetel explosivo dentro de mim. Eu conhecia Daniel desde o dia em que ele nasceu, sabia do que ele era capaz. Mas agora, a responsabilidade sobre os ombros dele era real. E ele não podia continuar brincando de fugir das próprias obrigações.Numa noite em que ele saiu sem dar satisfação, permaneci acordado, sentado no meu escritório, apenas esperando. Quando o sol ameaçava nascer, ele final
Daniel LuzhinDepois de largar Valentina em casa, depois do evento no parque, eu deveria simplesmente seguir minha vida. Me afastar, manter distância, me concentrar no trabalho e nos problemas reais que rondavam minha rotina. Mas desde aquele dia, algo mudou. Algo se instalou dentro de mim, uma inquietação absurda que me fazia sentir como se estivesse à beira de um precipício.Valentina. Ela era o problema. A forma como sorria, como me olhava, como provocava sem esforço. Cada vez que eu fechava os olhos, seu rosto surgia na minha mente, me puxando para pensamentos que eu não deveria ter. Ela era uma linha que eu não podia cruzar. Mas, inferno, meu corpo não entendia isso.Eu evitei a casa dela nos dias seguintes. Mantive a máxima distância possível, tentei ocupar meu tempo com qualquer outra coisa, mas nada conseguia tirar ela da minha cabeça, quase como se fosse uma maldição. Eu não conseguia mais pensar direito, trabalhar e às vezes… nem mesmo dormir.Eu ia enlouquecer — isso no mel
Ivan LuzhinO sol da tarde filtrava-se pelas árvores do jardim da mansão, projetando sombras suaves sobre a mesa de ferro onde eu e Irina estávamos sentados. O chá quente soltava uma fina névoa diante de nós, e o aroma de ervas misturava-se com o perfume das flores ao redor. Mas minha cabeça estava longe dali.— Quero saber sobre Daniel. — Minha voz saiu firme, sem rodeios. Irina ergueu os olhos da xícara e me analisou por um instante antes de responder.— O que tem ele? — A pergunta dela foi casual, mas eu sabia que ela já esperava por isso.— Ele anda indo demais à sua casa. — Cruzei os braços, observando-a atentamente. — E eu duvido que seja por causa do seu filho.Irina sorriu de lado, balançando a cabeça como se achasse graça na minha preocupação.— Ele gosta do sobrinho, pai. Qual o problema nisso? Talvez meu filho tenha despertado o lado paternal do Dan. — Ela pegou a chaleira e serviu mais chá na minha xícara.— O problema é que eu sei quando algo não está certo. — Peguei a xíc







