FAZER LOGINPOV: Aurora
O dia amanheceu. E, se eu tivesse dormido duas horas, já era muito. Passei boa parte da noite sentada perto da janela, observando minha irmã dormir. Invejando a tranquilidade que ela ainda conseguia ter mesmo quando o mundo parecia desmoronar ao nosso redor. Meus olhos voltaram para o céu começando a clarear. Eu precisava encontrar uma solução. Só ainda não fazia ideia de qual seria. Dentro de algumas horas, eu teria uma reunião com Raul Montes. E, pela primeira vez na vida... Eu não fazia ideia do que me aguardava. A sede da Montes Corporation era exatamente como eu imaginava. Imponente. Fria. Intimidante. O tipo de prédio criado para lembrar a todos quem tinha poder. Parei por alguns segundos diante da fachada de vidro. Respirei fundo. E entrei. A recepcionista me encaminhou imediatamente para o último andar. Aquilo só aumentou minha desconfiança. Raul Montes não era conhecido por perder tempo. Se tinha me chamado com urgência, existia um motivo. E eu pretendia descobrir qual era. As portas do elevador se abriram. Caminhei pelo corredor em silêncio. Os saltos ecoavam contra o piso de mármore. Meu coração acelerava a cada passo. Não por medo. Mas porque aquele sobrenome ainda carregava fantasmas demais. Uma história que terminou da pior forma possível. Afastei aqueles pensamentos. O passado não importava. Meu pai importava. O tratamento importava. A empresa importava. Era por isso que eu estava ali. Nada mais. A secretária apontou para uma porta de madeira escura. — O senhor Raul está esperando. Assenti. Então entrei. As palavras morreram antes mesmo de chegarem à minha boca. Porque ele estava ali. Sentado diante da enorme mesa de reuniões. Ele de novo. Meu corpo inteiro ficou rígido. Eu não esperava encontrá-lo. Não ali. Os olhos violetas se ergueram dos documentos e encontraram os meus. Por um instante, algo vacilou em sua expressão. Não era reconhecimento. Era apenas a estranha sensação de estar olhando para alguém que, de alguma forma, lhe parecia familiar. Mas a impressão desapareceu tão rápido quanto surgiu. Então voltou a atenção para a pasta sobre a mesa. Frio. Distante. Como se eu fosse apenas mais uma desconhecida. Como se anos atrás nunca tivessem existido. Henrique fechou a pasta que estava analisando. — Quem é você? E o que faz aqui? Meu coração falhou uma batida. Por um instante, pensei que fosse uma provocação. Que ele estivesse fingindo. Esperei qualquer sinal. Um olhar. Um sorriso irônico. Qualquer coisa que mostrasse que ele sabia exatamente quem eu era. Não veio. Nada. Os olhos violetas continuavam sobre mim com a mesma frieza de quem observa uma completa estranha. Foi naquele instante que entendi. Henrique Montes realmente não se lembrava de mim. Enquanto eu passei anos tentando esquecer aquele homem… Ele sequer lembrava que eu existia. Engoli em seco. Aquilo doía mais do que eu gostaria de admitir. Franzi a testa. Nem um “bom dia”. Nada. Apenas arrogância. — Aurora Ávila. Sustentei o olhar dele. — E pode acreditar, eu também não tenho interesse em está no mesmo ambiente que você. O maxilar dele se contraiu. Claramente não gostou da resposta. Que pena. Eu também não gostava da presença dele. Henrique recostou-se na cadeira. — A reunião é restrita. O tom era seco. Calculado. — Pode sair. Cruzei os braços. — Eu tenho uma reunião com Raul montes. Fique à vontade para sair. Os olhos dele se estreitaram. A tensão entre nós ficou instantânea. Natural. Como se anos não tivessem passado. Como se estivéssemos continuando uma discussão interrompida. A porta se abriu antes que qualquer um de nós pudesse dizer mais alguma coisa. Raul Montes entrou. Acompanhado de dois advogados. O silêncio caiu imediatamente. O patriarca caminhou até a cabeceira da mesa. Seguro. Imponente. Acostumado a ser obedecido. — Vejo que já se conheceram. Henrique voltou sua atenção para o avô. — Alguém pode me explicar por que tem uma desconhecida na reunião? Ignorei o comentário. Raul acomodou-se na cadeira. Os advogados distribuíram algumas pastas sobre a mesa. Meu estômago começou a se revirar. Aquilo parecia sério demais para ser apenas uma reunião de negócios. Raul entrelaçou os dedos sobre a mesa. Então olhou primeiro para mim. Depois para Henrique. — Vou direto ao assunto. A sala ficou em silêncio. — Aurora precisa de ajuda para salvar a empresa da família. Meu corpo ficou rígido. Henrique arqueou uma sobrancelha. Raul continuou: — E Henrique precisa cumprir uma condição para assumir a presidência da Montes Corporation. Os olhos violeta encontraram os meus novamente. Desconfiados. Hostis. — O que uma coisa tem a ver com a outra? — Henrique perguntou. Raul abriu a pasta diante dele. Completamente indiferente à irritação do neto. — Tudo. Fez uma pausa. Então pronunciou as palavras que mudariam nossas vidas. — Vocês vão se casar. O silêncio foi absoluto. Por alguns segundos, tive certeza de que tinha ouvido errado. Ao meu lado, Henrique se levantou abruptamente da cadeira. — Eu me recuso. No mesmo instante, respondi: — Nem morta. Os advogados trocaram olhares. Raul apenas suspirou. Como se já esperasse exatamente aquela reação. E talvez esperasse mesmo. Porque, enquanto eu encarava o homem que um dia havia sido o amor da minha vida, uma única certeza se formou na minha cabeça. Salvar minha família já parecia impossível. Mas me casar com Henrique Montes? Aquilo era uma loucura. Raul não pareceu minimamente abalado com a nossa reação. Pelo contrário. Permaneceu sentado. Calmo. Como se já soubesse exatamente o que diríamos. — O contrato de casamento terá duração de um ano. Henrique soltou uma risada incrédula. — Isso não melhora em nada. Raul continuou: — Após esse período, vocês decidirão se desejam continuar casados ou seguir caminhos diferentes. — O senhor enlouqueceu? — Henrique rebateu imediatamente. — Estamos em que século? Casamentos arranjados acabaram há centenas de anos. Pela primeira vez desde que entrei naquela sala, concordei com ele. — Com todo respeito, senhor Raul... isso é uma loucura. O patriarca apenas assentiu. Como se estivesse ouvindo duas crianças reclamarem. — Talvez. Então voltou os olhos para Henrique. — Mas você quer a presidência. O silêncio caiu sobre a sala. Henrique estreitou os olhos. Raul continuou: — Se aceitar o contrato, a presidência será sua. Uma pausa. — Caso contrário, passará automaticamente para Adrian. O efeito foi imediato. Vi a expressão de Henrique endurecer. A raiva substituiu a incredulidade. — Não. A voz dele saiu baixa. Perigosa. — O senhor não faria isso. Raul arqueou uma sobrancelha. — Não faria? Henrique deu um passo à frente. — Eu fui preparado para essa posição a vida inteira. Os olhos dele queimavam de irritação. — Passei anos provando que sou o mais qualificado para ocupar aquela cadeira. — Concordo. Raul assentiu. — Mas a decisão continua sendo minha. Os dois se encararam. Nenhum disposto a recuar. — O senhor não teria coragem de entregar a empresa para Adrian. Raul abriu um pequeno sorriso. — Quer apostar? O silêncio se tornou sufocante. Henrique passou a mão pelos cabelos. Furioso. Impotente. E isso parecia incomodá-lo ainda mais. — Volto a conversar quando o senhor recuperar suas faculdades mentais. Virou-se. Pegou a pasta sobre a mesa. E saiu da sala sem olhar para trás. A porta bateu com força. O silêncio voltou imediatamente. Eu me levantei logo em seguida. — Nesse caso, acredito que a reunião terminou. — Sente-se, Aurora. A voz de Raul me fez parar. Olhei para ele. — Você não quer salvar seu pai? As palavras me atingiram como um soco. Raul apontou para o contrato sobre a mesa. — Você não quer salvar a empresa da sua família? Meu estômago se revirou. — Existe uma diferença entre ajudar alguém e obrigar duas pessoas a se casarem. — Existe. Raul concordou. — Mas também existe uma diferença entre orgulho e necessidade. Cerrei os dentes. Ele sabia exatamente onde atacar. — Um contrato de um ano. Raul apoiou os braços sobre a mesa. — Seu pai recebe o tratamento que precisa. A empresa Ávila sobrevive. E, ao final do acordo, você receberá cinco milhões de euros. Os números giraram dentro da minha cabeça. Tratamento. Funcionários. Dívidas. Empréstimos. As palavras do médico voltaram com força. Eu não tinha tempo. Não tinha alternativas. Não tinha escolhas. — Eu aceito. A frase saiu antes que eu pudesse voltar atrás. Raul sorriu. Como se já soubesse qual seria minha resposta. — Mas tenho uma condição. Os olhos dele brilharam. — Estou ouvindo. — Metade do valor do tratamento do meu pai será liberada imediatamente após a assinatura. Raul nem hesitou. — Fechado. Um dos advogados empurrou o contrato para minha frente. A caneta veio logo atrás. Fiquei olhando para aquelas páginas por alguns segundos. Era loucura. Completa loucura. Mas a vida do meu pai valia mais do que meu orgulho. Assinei. Quando terminei, empurrei os documentos de volta. Raul observou minha assinatura. Satisfeito. — Em qual hospital seu pai está internado? Ele fez uma anotação rápida. — Considere o tratamento do seu pai resolvido. Raul apoiou as mãos sobre a mesa. — Minha secretária entrará em contato para alinhar os detalhes da mudança, da coletiva de imprensa e do restante dos preparativos. Me levantei. Peguei minha bolsa. Não havia mais nada a dizer. Estava quase atravessando a porta quando ouvi sua voz novamente. — Aurora. Olhei por cima do ombro. Raul abriu um pequeno sorriso. — Um dia você vai me agradecer por isso.“Henrique” Levei pouco mais de vinte minutos para chegar ao endereço que Bruna havia enviado. Durante todo o caminho, perguntei a mim mesmo por que estava fazendo aquilo. Aurora era uma mulher adulta. Podia ir chamar um motorista, pegar um táxi ou voltar com Bruna. Não precisava que eu atravessasse parte da cidade perto da meia-noite porque havia decidido descobrir quantos drinks eram necessários para perder o bom senso. Ainda assim, eu estava ali. Encontrei os três na parte superior do bar. César foi o primeiro a me ver. Bruna percebeu logo depois e abriu um sorriso satisfeito, mas foi a expressão de Aurora que prendeu minha atenção. Surpresa. Ela realmente não esperava que eu viesse. Bruna soltou uma risada. — Falei que ele vinha. Aurora olhou para ela como se tivesse acabado de sofrer uma traição. — Bruna! Parei diante da mesa e olhei para a quantidade de copos vazios espalhados sobre ela antes de voltar minha atenção para César. — O que você está fazendo aqui? — Tam
“Bruna” Eu já nem sabia em qual rodada estávamos àquela altura. O que começara como uma saída inocente depois do trabalho havia se transformado em uma mesa de confissões regada a tequila, drinks coloridos e decisões que provavelmente pareceriam muito ruins na manhã seguinte. Aurora estava com as pernas recolhidas sobre o sofá, o blazer abandonado ao lado da bolsa e o copo apoiado entre as mãos. A conversa sobre Henrique e Lara havia deixado um peso estranho no ar, e talvez tenha sido justamente por isso que, quando ela perguntou se existia alguém na minha vida, eu respondi antes de pensar direito. — Eu gosto de alguém secretamente há dois anos. E toda vez que chego perto dele viro uma completa idiota. Aurora virou o rosto devagar para mim. — Dois anos? — Não precisa repetir desse jeito. — Que jeito? — Como se eu fosse uma fracassada emocional. Ela começou a rir. — Eu não falei isso. — Seus olhos falaram. — Meus olhos estão bêbados. — Os meus também. Rimos
Era César. Sentado alguns metros abaixo, acompanhado por duas mulheres. Uma parecia ter cerca de cinquenta anos. Elegante, cabelos bem arrumados, postura impecável. A outra devia ter a nossa idade. Bonita. Muito bonita. César percebeu que estávamos olhando e ergueu a mão em um cumprimento discreto. Aurora, já alegre demais para qualquer sutileza, abriu um sorriso e acenou de volta. Segurei o braço dela e abaixei sua mão. — Para. Aurora me olhou. — O quê? — Nada. Ela tornou a olhar para César, depois para mim e, por último, para as duas mulheres sentadas com ele. Seus olhos se arregalaram como se tivesse acabado de chegar a uma conclusão importantíssima. — Ele é casado? — Não. — Noivo? — Não sei. — Namora? — Aurora. Ela apontou discretamente para a mesa. — Aquela é a namorada e a sogra? — Como eu vou saber? Aurora analisou a mesa com uma seriedade completamente incompatível com a quantidade de álcool no sangue. — Não. Não pode ser. — Por
“Bruna” Se existia uma maneira digna de chamar a atenção de um homem, derramar café sobre a camisa dele definitivamente não estava entre elas. Descobri isso às nove e vinte e três de uma quinta-feira, no exato momento em que virei o corredor olhando para o celular e bati contra alguma coisa grande, firme e, aparentemente, incapaz de desviar de mulheres distraídas. O copo escapou da minha mão. — Merda! O café atingiu uma camisa branca impecável. Fechei os olhos. Não. Não, não, não. Levantei o rosto lentamente e encontrei César olhando primeiro para a própria camisa e depois para mim. É claro. De todas as pessoas daquela empresa, eu precisava derramar café justamente nele. — Bom dia — ele disse. — Foi sem querer. Uma das sobrancelhas dele se ergueu. — Eu só disse bom dia. — Mas disse com julgamento. — Você acabou de jogar café em mim. — Eu não joguei. Derramei. Existe uma diferença jurídica importante entre as duas coisas. César olhou novamente para
Cheguei à empresa mais cedo do que o habitual naquela manhã, mas nem as primeiras reuniões, os relatórios acumulados sobre minha mesa ou os números que normalmente conseguiam prender minha atenção por horas foram suficientes para afastar a fotografia da minha cabeça. Ela estava dentro da minha maleta. Eu sabia que não deveria estar pensando tanto naquilo. Era apenas uma fotografia antiga, uma imagem tirada anos antes em uma festa da qual eu não conseguia me lembrar. Podia haver dezenas de explicações perfeitamente lógicas para eu estar ali, sentado ao lado de Aurora e da irmã dela, mas nenhuma das que eu havia construído durante a madrugada conseguira explicar por que Aurora nunca mencionara que já me conhecia antes do acidente. Depois de tentar ler o mesmo parágrafo de um relatório pela terceira vez, fechei a pasta com mais força do que o necessário e empurrei a cadeira para trás. Chega. Abri a maleta, retirei a fotografia e voltei a observá-la. À luz clara do escritório, os de
“Henrique” Um sonho estranho me arrancou do sono no meio da madrugada. Abri os olhos sem entender imediatamente onde estava. O quarto permanecia mergulhado na penumbra, iluminado apenas pela luz fraca que atravessava as cortinas, e por alguns segundos fiquei parado, tentando recuperar a imagem que havia me feito despertar. Um campo. O som de uma risada. Cavalos. E uma sensação incômoda de que havia algo além, alguma coisa que eu deveria conseguir alcançar, mas que desapareceu no mesmo instante em que despertei completamente. Foi então que percebi o peso contra meu peito. Baixei os olhos. Aurora estava abraçada comigo. Os travesseiros que normalmente formavam uma barreira ridícula no meio da cama estavam espalhados em posições aleatórias, um próximo aos nossos pés, outro quase caindo no chão. Em algum momento durante a noite, a distância que insistíamos em manter simplesmente deixara de existir. Ela dormia de lado, encaixada contra meu corpo, com o rosto parcial







