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Capítulo 3 — O Herdeiro

last update Fecha de publicación: 2026-07-20 22:31:39

POV: Henrique

A porta do meu escritório bateu com força atrás de mim.

Perfeito.

Porque naquele momento eu queria quebrar alguma coisa.

Joguei a pasta sobre a mesa.

Casamento.

A palavra parecia uma piada.

Uma péssima piada.

Soltei a gravata e caminhei até o bar.

Servi uma dose generosa de whisky.

Depois outra.

E virei o líquido de uma vez.

Meu avô tinha enlouquecido.

Era a única explicação possível.

Passei anos trabalhando para chegar até aqui.

Anos.

Enquanto Adrian aproveitava a vida, eu estava dentro da empresa.

Aprendendo.

Negociando.

Assumindo responsabilidades.

Corrigindo erros que nem sequer eram meus.

Eu conhecia cada departamento daquela companhia.

Cada diretor.

Cada contrato.

Cada número.

Eu tinha transformado filiais deficitárias em operações lucrativas.

Fechado acordos milionários.

Recuperado projetos que todos consideravam perdidos.

Eu tinha provado, repetidamente, que era a pessoa certa para assumir aquela cadeira.

E agora meu avô queria colocar tudo isso em risco por causa de um casamento?

Soltei uma risada amarga.

Ridículo.

Ele não faria isso.

Não de verdade.

Porque sabia exatamente o que eu valia.

Todos sabiam.

Não existia ninguém mais preparado para ocupar a presidência da Montes Corporation do que eu.

Ninguém.

Apoiei as duas mãos sobre a mesa.

Tentando controlar a irritação.

Sem sucesso.

Porque quanto mais eu pensava na reunião...

Mais absurda ela parecia.

Aurora Ávila.

A filha da família que estava afundando.

A mulher que apareceu do nada.

E que, aparentemente, deveria se tornar minha esposa.

Por quê?

Porque meu avô decidiu brincar de Deus.

Fechei os olhos.

Precisava me acalmar.

Porque, no fim das contas, tudo aquilo era simples.

Meu avô estava blefando.

E, mais cedo ou mais tarde...

Ele perceberia que não existia empresa sem mim.

Duas batidas interromperam meus pensamentos.

A maçaneta girou antes que eu conseguisse organizar os próprios pensamentos.

Levantei os olhos.

— Achei que você ainda estivesse aqui.

Aproximou-se da minha mesa e colocou uma das xícaras diante de mim.

— Você está com uma cara péssima.

Respirei fundo.

— Meu avô resolveu enlouquecer.

Ela arqueou uma sobrancelha.

— O que aconteceu?

Balancei a cabeça.

— Depois eu conto.

Lara deu a volta na mesa.

Parou ao meu lado.

Depositou um beijo na minha bochecha.

— Te vejo mais tarde, amor.

Sorriu mais uma vez antes de sair do escritório.

Observei a porta se fechar.

Se Lara descobrisse aquela história…

Ficaria devastada.

A simples ideia já me irritava.

Mais um motivo para aquela loucura não acontecer.

Eu não ia me casar com outra mulher.

Não importava o que meu avô pensasse.

Voltei minha atenção para os documentos sobre a mesa.

Ou pelo menos tentei.

As batidas na porta interromperam minha leitura.

— Entre.

Minha secretária entrou rapidamente.

Segurando uma pasta preta.

— Senhor Montes, o senhor Raul pediu que eu lhe entregasse isso.

Ela colocou a pasta sobre minha mesa.

Nem esperou uma resposta.

A mulher trabalhava comigo há alguns anos.

Tempo suficiente para reconhecer quando eu estava de péssimo humor.

A porta se fechou.

Meus olhos desceram para a pasta.

Eu já sabia o que encontraria ali.

O contrato.

Soltei uma risada sem humor.

Meu avô realmente não sabia desistir.

Abri a pasta.

Folheei as primeiras páginas sem interesse.

Até que uma coisa chamou minha atenção.

Uma assinatura.

Aurora Ávila.

Fiquei imóvel por alguns segundos.

Ela assinou.

Tão simples assim.

Sem discutir.

Sem questionar.

Sem hesitar.

Minha mandíbula se contraiu.

Comecei a ler.

E aquilo me irritou ainda mais.

Quanto mais eu lia...

Mais evidente ficava.

Ela tinha visto uma oportunidade e decidido agarrá-la com as duas mãos.

Meu avô tinha oferecido tudo.

Um futuro que a família Ávila jamais conseguiria reconstruir sozinha.

Fechei a pasta com força.

Claro.

Agora fazia sentido que tipo de pessoa era aquela mulher.

Aurora Ávila tinha visto uma oportunidade.

E decidido agarrá-la sem hesitar.

Saí do escritório com o contrato na mão.

Eu precisava encontrar aquela mulher.

Agora.

Porque se ela realmente acreditava que eu assinaria aquele contrato sem lutar...

Ela estava prestes a ter uma grande decepção.

A sede da Ávila Technology era menor do que eu imaginava.

E muito mais decadente.

Observei a fachada.

Algumas placas precisavam de manutenção.

Parte da pintura estava desgastada.

A empresa estava afundando.

E qualquer pessoa com dois neurônios conseguia perceber isso.

Soltei uma risada sem humor.

Então era aqui que trabalhava a mulher que acreditava ter encontrado um atalho para entrar na Montes Corporation.

Peguei a pasta.

Saí do carro.

E atravessei a rua.

Estava quase chegando à entrada quando a porta principal se abriu.

Ela surgiu.

Os cabelos loiros balançavam com o vento enquanto caminhava apressada, uma bolsa pendurada no ombro.

Como se estivesse atrasada para algum compromisso.

— Aurora Ávila.

Ela parou imediatamente.

Os olhos verdes encontraram os meus.

A irritação surgiu na mesma hora.

Por um instante, fiquei imóvel.

Havia alguma coisa naquele olhar…

Algo estranhamente familiar.

Mas a sensação desapareceu antes que eu pudesse compreendê-la.

— O que você está fazendo aqui?

Parei diante dela.

— Vim deixar uma coisa bem clara.

Aurora arqueou uma sobrancelha.

— E o que seria?

Abri a pasta.

Mostrando o contrato.

— Eu nunca me casaria com uma interesseira como você.

Por um segundo, ela apenas me encarou.

Depois abriu um sorriso frio.

— Que coincidência.

Cruzou os braços.

— Eu também nunca me casaria com um homem arrogante, cruel e egoísta.

Dei uma risada.

— E mesmo assim assinou o contrato.

Os olhos dela se estreitaram.

— Você não sabe nada sobre mim.

— Sei o suficiente.

Dei um passo na direção dela.

— Seu pai está doente.

Sua empresa está afundando.

As dívidas estão sufocando vocês.

Então aparece um contrato oferecendo dinheiro, status e uma cadeira dentro da maior empresa do país.

Inclinei a cabeça.

— E você assina sem pensar duas vezes.

Aurora soltou uma risada incrédula.

— É isso que você acha?

— É isso que os fatos mostram.

Minha voz saiu mais dura.

— Porque nenhuma mulher em sã consciência aceitaria se casar com um desconhecido em menos de um dia.

A menos que estivesse desesperada pelo que ele pode oferecer.

O silêncio caiu entre nós.

Mas eu ainda não tinha terminado.

— Você não passa de uma oportunista desesperada procurando alguém para resolver os próprios problemas.

Aurora não respondeu.

Então eu disse a pior coisa possível.

— Só uma mulher sem caráter aceitaria um acordo desses sem nem piscar.

E naquele momento eu soube.

Eu tinha ido longe demais.

O tapa veio tão rápido que eu nem vi o movimento.

CRACK.

Minha cabeça virou para o lado.

A pele ardeu imediatamente.

Por alguns segundos, o único som que ouvi foi o trânsito ao redor.

Voltei os olhos para ela lentamente.

Aurora estava respirando com força.

Os olhos brilhando de raiva.

— Repete.

A voz dela saiu baixa.

Perigosa.

— Repete o que acabou de dizer.

Passei a língua pelo interior da bochecha.

Sentindo o gosto metálico do sangue.

— Você vai se arrepender disso.

A ameaça saiu antes que eu pudesse impedir.

— Vou descobrir qual jogo está fazendo com meu avô. Vou descobrir qual chantagem está usando.

E quando descobrir...

Vou colocar você direto na cadeia.

Aurora sustentou meu olhar sem vacilar.

Sem medo.

Sem arrependimento.

Então abriu um sorriso pequeno.

Debochado.

— Boa sorte, idiota.

Observei enquanto ela entrava em um carro velho. Segundos depois, arrancou sem sequer olhar para mim.

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