LOGINNa manhã seguinte, eu já estava de pé bem cedo.
Na verdade, tinha apagado ainda no início da noite anterior. O cansaço da viagem tinha sido maior do que eu imaginava, e o conforto inesperado daquele quarto enorme tinha feito o resto. Por alguns segundos, levei um tempo para lembrar exatamente onde estava. Então a memória voltou de uma vez só. A fazenda. A entrevista. Victor Sampaio. Suspirei e me levantei da cama, tomei um banho, e vesti calça jeans, bota e uma blusa de manga cumprida, rapidamente antes de descer as escadas do casarão. A casa estava silenciosa, mas não completamente vazia. Conforme caminhei pelo corredor, comecei a ouvir vozes vindas de algum lugar no andar de baixo. Foi então que reconheci a voz de Lilian. — Júlia, estamos na cozinha! Venha tomar café! Segui a direção da voz dela, guiada também pelo cheiro delicioso de café fresco e pão quente que parecia se espalhar pela casa inteira. Quando entrei na cozinha, encontrei Lilian sentada à mesa ao lado de um homem que, à primeira vista, parecia muito com Victor. E, claro, o próprio Victor também estava ali. Os três tomavam café da manhã como se aquela fosse apenas mais uma manhã comum. — Junte-se a nós, querida — disse Lilian com um sorriso acolhedor. — Ah, deixe-me apresentar… esse é o Diego, meu marido. O homem se levantou levemente da cadeira em um gesto educado. Diego realmente parecia muito com Victor. Os traços eram parecidos o mesmo cabelo escuro, a mesma altura imponente, mas havia algo completamente diferente em sua expressão. Enquanto Victor parecia carregar uma nuvem permanente de impaciência no rosto, Diego tinha um semblante muito mais aberto e simpático. — Prazer, Júlia — disse ele com um sorriso sincero. — A Lilian falou muito bem de você. Enquanto ele falava, percebi de relance um olhar quase provocador sendo lançado na direção do irmão. Como se aquela frase tivesse sido dita de propósito. Victor, por outro lado, não pareceu nem um pouco impressionado. Ele apenas continuou tomando seu café, com a mesma expressão fria da noite anterior. Meu Deus. Ele já acordava de mau humor? — Bom dia — respondi, aproximando-me da mesa. Diego apontou para a cadeira vazia ao lado. — Sente-se. Aqui na fazenda o dia começa cedo. Ele serviu mais café em uma xícara e a empurrou na minha direção. — E hoje temos bastante trabalho. Então é melhor começarmos com um café bem reforçado. Enquanto me sentava, não pude deixar de sentir o peso do olhar de Victor por um breve instante. Aquilo era apenas o começo da minha semana de teste. E, de alguma forma, eu tinha a impressão de que ele faria questão de acompanhar cada segundo dela. Sentei-me à mesa enquanto Lilian empurrava na minha direção um cesto com pães ainda quentes. — Fique à vontade — disse ela. — Aqui ninguém sai para trabalhar de estômago vazio. — Ainda bem — respondi com um pequeno sorriso. O cheiro de café fresco misturado ao de pão recém-assado deixava a cozinha ainda mais acolhedora. Diego serviu mais café na própria xícara antes de voltar sua atenção para mim. — Então você é a veterinária que vai passar a semana aqui com a gente — disse, com simpatia. — Pelo visto — respondi. Ele assentiu, apoiando o braço na mesa. — A fazenda é grande e sempre aparece alguma coisa para resolver com os animais. Nada muito dramático na maioria das vezes, mas exige atenção. Aquilo despertou imediatamente meu interesse. — Que tipo de coisas? Diego pensou por um instante. — Às vezes algum cavalo aparece mancando depois de treino, um bezerro precisa de acompanhamento, essas coisas do dia a dia. Lilian completou: — E, de vez em quando, algum funcionário aparece correndo aqui dizendo que um animal está estranho. — Ontem mesmo — continuou Diego — um dos peões comentou que um dos cavalos do estábulo estava um pouco inquieto. Nada grave, provavelmente só estranhou a mudança de ração, mas achei que seria bom alguém dar uma olhada com mais atenção. Meu cérebro automaticamente começou a se concentrar naquilo. — Qual cavalo? Victor, que até então permanecia em silêncio tomando seu café, finalmente falou: — Um quarto de milha do estábulo três. Seu tom era calmo, mas distante. — Terminou o café? — acrescentou, olhando diretamente para mim. Assenti. Ele se levantou da cadeira. — Então venha. Pegou o chapéu que estava apoiado sobre a mesa. — Vou te mostrar a fazenda. Diego sorriu de leve, como se aquilo fosse absolutamente normal. — Melhor forma de começar a semana. Levantei-me da cadeira também. Pelo jeito, minha semana de teste estava prestes a começar de verdade. — Boa sorte — disse Lilian com um sorriso discreto. Diego apenas assentiu, ainda tomando café. Saí da cozinha e apressei o passo para alcançar Victor no corredor. Quando atravessei a porta da frente do casarão, ele já estava alguns metros à frente, caminhando em direção aos estábulos. Segui atrás dele. O ar da manhã estava fresco e o sol ainda começava a subir no horizonte, iluminando lentamente os campos enormes que cercavam a fazenda. Victor caminhava com passos firmes, como alguém completamente acostumado àquele lugar. E foi impossível não reparar nele. De perto — e à luz do dia — ele parecia ainda mais alto do que eu tinha imaginado na noite anterior. Os ombros largos se moviam sob a camisa enquanto ele caminhava, e a postura confiante deixava claro que aquele território inteiro era praticamente uma extensão dele. Eu odiava admitir aquilo, mas… Ele era ainda mais bonito. O tipo de homem que chamaria atenção em qualquer lugar. Uma pena que a personalidade dele fosse tão… difícil. Caminhamos em silêncio até o estábulo, um galpão grande de madeira onde vários cavalos já se movimentavam em suas baias. Alguns funcionários trabalhavam ali dentro, preparando os animais para o início do dia. Assim que Victor entrou, alguns deles cumprimentaram. — Bom dia, patrão. Ele respondeu apenas com um aceno de cabeça. — Separem dois cavalos — disse ele. — Vamos sair para a parte norte da fazenda. Um dos peões imediatamente começou a preparar os animais. — Vamos aguardar os cavalos — explicou Victor brevemente, sem sequer olhar para mim. — Algumas áreas da fazenda só são acessíveis a cavalo. Assenti, observando o movimento dentro do estábulo. Eu ainda estava me ambientando quando um dos funcionários entrou apressado pelo portão lateral. — Seu Victor! O homem parecia claramente preocupado. Victor virou-se imediatamente. — O que foi? — A vaca lá do pasto três… ela começou o parto, mas está com dificuldade. Meu corpo ficou imediatamente alerta. — O bezerro está com as patas pra fora — continuou o homem, passando a mão suada na testa. — Mas a vaca não está conseguindo parir. Victor franziu o cenho. — Há quanto tempo? — Já tem um tempo… e ela está ficando agitada. Troquei um olhar rápido com ele. Mesmo sem dizer nada, nós dois sabíamos que aquilo podia se tornar um problema sério muito rápido. Victor voltou o olhar para mim. — Veterinária — disse ele. Seu tom era firme. — Acho que sua semana de teste acabou de começar. Meu coração acelerou. Respirei fundo. — Então vamos. Victor fez um gesto para um dos funcionários. — Prepare o carro. O peão correu imediatamente para fora do estábulo. Enquanto isso, Victor pegou uma corda e algumas luvas de um armário próximo, como alguém que já tinha passado por aquela situação muitas vezes. Ele então me lançou um olhar rápido. — Espero que saiba o que está fazendo. Segurei o olhar dele sem hesitar. Em poucos minutos estávamos no carro, seguindo por uma estrada de terra que atravessava parte da fazenda. A caminhonete Hilux 4x4, sacolejava um pouco por conta da velocidade enquanto avançávamos pelos campos. Ao redor, o pasto parecia se estender até onde a vista alcançava, cercado por fileiras de árvores e cercas de madeira. Victor dirigia em silêncio, completamente concentrado na estrada. Eu também não falei nada. Na minha cabeça, já tentava organizar mentalmente o que poderia encontrar. Partos difíceis em vacas não eram raros, mas cada situação exigia atenção. Dependendo da posição do bezerro ou do tempo que a vaca já estava em trabalho de parto, tudo podia se complicar muito rápido. Depois de alguns minutos, Victor parou o carro perto de um pequeno grupo de peões reunidos no pasto. Assim que descemos, percebi que ele já estava preparado. Victor puxou do carro um par de luvas longas, uma corda resistente e um litro de óleo de cozinha. Aquilo me fez perceber imediatamente que aquela provavelmente não era a primeira vez que ele lidava com uma situação como aquela. Provavelmente andava preparado exatamente para isso. Antes mesmo de nos aproximarmos, ouvi o mugido angustiado da vaca. Ela estava de pé, visivelmente agoniada, respirando com dificuldade e movendo a cauda de um lado para o outro. E, exatamente como o funcionário havia dito, duas patas do bezerro já estavam parcialmente para fora. — Quanto tempo ela está assim? — perguntei, aproximando-me. — Uns quarenta minutos, mais ou menos — respondeu um dos peões. Assenti, avaliando rapidamente a situação. Peguei a corda da mão de Victor. Pelo jeito firme com que ele segurava os materiais, era evidente que ele também sabia muito bem como fazer um parto em vaca. Mas naquele momento, estava claramente me deixando assumir. Um teste. Aproximei-me da vaca com calma e me abaixei primeiro para amarrar suas patas traseiras, garantindo que ela não tentaria dar um coice durante o procedimento. Depois me levantei novamente. Victor já estava ao meu lado. Sem dizer uma palavra, ele começou a despejar o óleo na região vaginal da vaca, exatamente onde as patas do bezerro apareciam. Aquilo facilitaria a passagem. Peguei uma das luvas longas, mergulhei a mão no óleo até deixá-la bem lubrificada e respirei fundo antes de agir. Então introduzi cuidadosamente a mão e o antebraço no canal do parto para avaliar a posição do bezerro. O interior ainda estava apertado, mas logo consegui sentir melhor a posição. As patas dianteiras estavam alinhadas. Bom sinal. Mas ainda havia resistência. Movi a mão com cuidado, tentando localizar a cabeça do bezerro. Atrás de mim, o pasto inteiro parecia em silêncio. Todos observavam. Inclusive Victor.Depois que todos se serviram, Victor foi até o carro e voltou com uma garrafa de vinho que havia guardado para a viagem. Pegou os copos descartáveis que estavam sobre a mesa e começou a servir, distribuindo-os entre nós com a maior naturalidade. Júlia acompanhou a cena com um sorriso divertido. — Olha só. Trouxe vinho e vai servir em copo descartável. Victor ergueu os olhos para ela. — Você queria que eu trouxesse taças de cristal para o Pantanal? — Não. Só estou admirando a sofisticação. Gustavo soltou uma risada, e Henrique estendeu o copo na direção de Victor. — Serve logo o meu antes que ela invente uma carta de vinhos. — Vocês estão muito engraçados hoje — Victor resmungou, enchendo o copo do primo. — Eu só estou dizendo que, para alguém que planejou essa viagem durante seis meses, você podia ter pensado nos detalhes — Júlia continuou. — Eu pensei nos detalhes. Trouxe vinho. — No copo é que você economizou. Dessa vez, até Victor riu. Entregou o copo à esposa e se sent
Assim que chegamos à área reservada para as barracas, Victor estacionou o carro e os homens começaram a descarregar os equipamentos. O sol ainda estava alto, mas já se aproximava do fim da tarde, e era melhor deixar tudo pronto antes que escurecesse. O espaço era amplo, cercado por árvores e vegetação. Outras pessoas já haviam montado suas barracas em diferentes pontos da área, algumas mais próximas umas das outras, outras um pouco afastadas. Havia gente organizando cadeiras, guardando equipamentos de pesca e preparando o que seria o jantar. Mais adiante, algumas fogueiras começavam a ser acesas, e o cheiro da lenha queimando chegava até nós com o vento. Peguei minha mochila e fiquei observando enquanto Victor e Henrique retiravam as barracas do carro. — Vamos montar a sua primeiro — Victor disse, dirigindo-se a mim. — Depois a gente organiza as nossas. — Não precisa, eu posso ajudar. — Pode deixar, Helena. Aproveita para separar suas coisas enquanto a gente cuida disso. Henriqu
Júlia continuava reclamando da falta de água quente quando Henrique se aproximou de mim. — Quer conhecer um pouco do rio? — perguntou. — Tem um trecho bonito aqui perto. Dá para ver melhor a paisagem e, se tivermos sorte, alguns animais. Olhei para ele, interessada. — Tem animais por aqui mesmo, tão perto do camping? — Tem. Depende do horário e da sorte também. Já vi capivaras por aqui, jacarés mais afastados da área de circulação e várias espécies de aves. De manhã cedo costuma ser ainda melhor. — E você consegue andar por aí tranquilamente sabendo que tem jacaré por perto? Henrique riu. — Consigo, desde que eu saiba onde estou pisando. — Isso não me tranquiliza nem um pouco. — Você não precisa ter medo de tudo. É só respeitar o lugar e seguir as orientações de quem conhece a região. — Eu respeito. Só não quero descobrir que uma sucuri estava escondida no caminho quando já for tarde demais. Ele soltou uma risada, e eu acabei rindo também. — Está bem. Vou avisar todas as s
Cruzei os braços e olhei pela janela. — Só achei estranho. Júlia começou a rir. — Você acabou de descobrir que seu irmão tem amigos. — Eu sei que ele tem amigos. — Então qual é o problema? — Nenhum. Era melhor deixar assim. Eu não queria explicar que o problema era especificamente um daqueles amigos. Ou melhor, que não era exatamente um amigo. Henrique. Respirei fundo e tentei voltar à conversa. — E vocês vão ficar onde? — No camping — Victor respondeu. — Camping? — Sim. Tem uma estrutura boa lá. Banheiros, área para refeição, algumas coisas organizadas. Assenti. Não me incomodava. Depois de quase dois anos trabalhando em lugares onde dormir em uma estrutura improvisada já era considerado uma sorte, uma barraca em um camping organizado parecia quase um hotel. O único detalhe que me fez pensar duas vezes foi imaginar a noite. Uma barraca. No Pantanal. Sozinha. Com sons que eu provavelmente não saberia identificar e animais circulando do lad
Quando cheguei ao casarão, encontrei Victor e Júlia na sala, conversando enquanto Sofia brincava no tapete com alguns brinquedos espalhados ao redor. — Até que enfim — Victor disse assim que me viu. — A gente estava quase mandando alguém atrás de você. — Dramático como sempre. Júlia abriu os braços para mim. — Vem cá. Aproximei-me e ela me puxou para um abraço apertado. — Você sumiu a tarde inteira. — Fui conversar com a Cristina. — Eu imaginei. Sentei-me no sofá ao lado dela, enquanto Victor continuava acompanhando Sofia com os olhos. Todos nós era apaixonados pela nossa sobrinha. — E aí? — Júlia perguntou. — Está tudo certo com o parto? — Está. A gente revisou algumas coisas da equipe, os contatos, o que precisa ficar preparado… Essas coisas. Victor assentiu. — Então está tudo organizado. — Está. E, pela data prevista, ainda faltam umas três semanas para ela ganhar o bebê. — Três semanas? — Júlia perguntou. — Mais ou menos isso. — Então ainda tem t
Dois dias depois, fui até a fazenda Albuquerque de tarde para conversar com Cristina sobre o parto. Eduarda e eu já tínhamos alinhado boa parte da organização, mas ainda havia alguns detalhes que eu queria deixar definidos com ela. Quando cheguei, Cristina estava descansando. — Ela deve acordar daqui a pouco — uma das funcionárias me avisou. — Se quiser, pode esperar no escritório do senhor Henrique. Agradeci e segui pelo corredor. Bati na porta antes de entrar. Henrique levantou os olhos do computador. — Helena. — Oi. A Cristina está dormindo. — Eu sei. Ela estava cansada. Fiquei parada por um instante. — Posso esperar aqui? Ele apontou para a cadeira. — Claro. Sentei-me, e ele voltou ao trabalho. Não era exatamente desconfortável, mas também não tinha a facilidade de antes. Eu percebia cada silêncio, cada movimento dele. — Como estão as coisas? — ele perguntou depois de alguns minutos. — Do parto? — É. — Bem. A Eduarda está acompanhando tudo de pert







