LOGINA vaca mugiu alto outra vez, balançando o corpo com inquietação.
Levei a mão livre até a lateral do animal e falei com ela em tom baixo, tentando acalmá-la. — Calma, menina… já vai passar. Passei a mão pelo flanco dela em movimentos lentos, firmes, sentindo os músculos se contraírem sob a pele quente. — Eu sei que dói… mas você consegue. Ela respirava forte, o corpo inteiro tensionado. A cada contração, os músculos do abdômen se contraíam com força, tentando expulsar o bezerro. Retirei a mão por um instante e peguei a corda, amarrando-a com firmeza nas duas patas dianteiras do bezerro que já estavam para fora. Victor observava cada movimento meu com atenção, parado ao meu lado. Não dizia nada, mas eu sabia que ele estava avaliando tudo. — Quando ela fizer força, a gente puxa — expliquei para os peões. Eles assentiram. Esperei. A vaca mugiu novamente, inclinando o corpo para frente quando outra contração veio. — Agora — avisei. Puxei a corda com cuidado, acompanhando o esforço do animal. O corpo do bezerro avançou alguns centímetros, mas ainda havia resistência. — Devagar… — murmurei. Esperei. Minha mão voltou para o flanco da vaca, tentando mantê-la calma. — Isso… boa menina… Ela respirou fundo, então outra contração veio, mais forte que a anterior. — Agora! Puxamos novamente, com firmeza, mas sem pressa. Dessa vez o corpo do bezerro avançou mais. Primeiro os ombros. Depois o restante do corpo escorregou rapidamente para fora, caindo sobre a grama ainda úmida do pasto. Por um instante, tudo ficou em silêncio. O pequeno corpo do bezerro estava imóvel. Meu coração apertou. Ajoelhei-me imediatamente ao lado dele e limpei o focinho com a mão, retirando o excesso de líquido e muco que ainda cobriam suas narinas. — Vamos… — murmurei, esfregando o peito do animal com mais força. Por alguns segundos que pareceram longos demais, nada aconteceu. Então o bezerro puxou ar pela primeira vez. Um movimento fraco de cabeça. Depois outro. Atrás de mim, ouvi um dos peões soltar um suspiro de alívio. Soltei o ar devagar, percebendo que eu mesma estava prendendo a respiração. — Tá vivo — disse um deles. A vaca parecia exausta, mas mais calma agora. A respiração já não era tão descompassada. Mas o trabalho ainda não tinha terminado. O bezerro precisava mamar o colostro o quanto antes. Aquilo seria essencial para garantir que ele tivesse força nas primeiras horas de vida. Com cuidado, segurei o pequeno corpo ainda úmido e o aproximei da mãe, esperando que ela começasse a lambê-lo. Por um segundo achei que daria certo. Mas a vaca virou a cabeça bruscamente e deu uma cabeçada no filhote, empurrando-o para longe. Franzi a testa. — Ei… Tentei aproximar o bezerro novamente. Outra cabeçada. Ela estava rejeitando a cria. Suspirei. O parto tinha sido difícil demais. Não era incomum que, depois de tanto estresse e dor, algumas vacas demorassem para aceitar o bezerro. Atrás de mim, senti o olhar de Victor ainda fixo em cada movimento meu. Como se esperasse para ver o que eu faria agora. A vaca sacudiu a cabeça outra vez, inquieta, empurrando o bezerro com mais uma cabeçada impaciente. Segurei o pequeno corpo antes que ele rolasse pela grama. — Ei, calma… — murmurei, mais para mim mesma do que para ela. O bezerro tentou erguer a cabeça, as pernas finas tremendo demais para sustentá-lo. Atrás de mim, ouvi o som das botas de Victor se aproximando. Ele observou a cena por alguns segundos, avaliando a situação em silêncio. Depois ergueu a voz, firme, na direção dos peões. — Levem os dois para o curral. Os homens se moveram imediatamente. — Coloca ela no brete — continuou Victor. — Se continuar rejeitando o bezerro, ordenha um pouco de leite e dá pra ele. Fez uma pequena pausa antes de completar: — Leite fresco… morno. Nada de deixar esfriar. — Sim, senhor — respondeu um dos peões. Dois deles seguraram a vaca com cuidado, conduzindo-a devagar enquanto outro pegava o bezerro nos braços. O pequeno corpo ainda estava molhado e escorregadio, tentando se equilibrar sem muito sucesso. Observei enquanto os levavam em direção ao curral. — Ela pode aceitar depois — falei, limpando o suor da testa com o antebraço. — Às vezes demora um pouco… principalmente depois de um parto difícil. Victor assentiu, acompanhando a cena com o olhar. — Acontece mais do que a gente gostaria. Havia um tom prático na voz dele, como alguém que já tinha presenciado aquilo muitas vezes. Por um instante nossos olhares se encontraram. Então ele virou o rosto. — Vamos voltar — disse simplesmente. Começou a caminhar em direção ao carro. Só então percebi o estado em que eu estava. Meu braço direito estava coberto de resíduos do parto, uma mistura de sangue, líquido e terra grudada. A camisa também não tinha escapado completamente. Suspirei. Veterinária de campo era exatamente isso. Chegamos ao carro e eu tirei as luvas com cuidado, virando-as do avesso antes de jogá-las dentro de uma sacola plástica que estava no lixo preso à porta. Mesmo assim, meu braço continuava completamente sujo. Olhei para aquilo por um segundo e fiz uma careta. — Acho que vou precisar de um banho — murmurei. Victor já estava sentado no banco do motorista. Ele lançou um olhar rápido para mim… e depois para o meu braço. — Acho que sim. O tom era neutro, mas havia algo quase divertido no canto da boca dele. Revirei os olhos e entrei no carro, tomando cuidado para não encostar em muita coisa. O veículo começou a se mover pela estrada de terra. O silêncio entre nós voltou a se instalar enquanto o carro sacolejava levemente pelo caminho que cortava o pasto. Cruzei os braços com cuidado, tentando ignorar a sujeira secando na minha pele. — Você conduziu bem a situação — Victor disse de repente, ainda olhando para a estrada. Pisquei, surpresa. Aquilo definitivamente não era algo que eu esperava ouvir dele. Alguns segundos depois, o celular dele vibrou no painel. Victor lançou um olhar rápido para a tela. A expressão dele mudou imediatamente. Ele atendeu. — Fala. Do outro lado, a pessoa começou a falar. Não consegui ouvir as palavras, apenas o murmúrio distante. Victor ficou em silêncio por alguns segundos. — Não… — disse, seco. Outra pausa. A mão dele apertou o volante com mais força. — Isso não estava no acordo. Silêncio novamente. O carro passou por um trecho mais irregular da estrada, fazendo a carroceria balançar. — Eu sei — respondeu, a voz baixa, controlada demais. Mais alguns segundos ouvindo. — Não. Ainda não. A mandíbula dele se contraiu. — Eu disse que estou resolvendo. O tom agora estava claramente irritado. Ele ficou em silêncio outra vez, escutando. Então soltou uma respiração pesada. — Não toma nenhuma decisão antes de falar comigo. A frase saiu dura. Segundos depois ele afastou o celular do ouvido e encerrou a ligação. O silêncio dentro do carro voltou imediatamente. Victor passou a mão pelo rosto, visivelmente irritado. — Droga… — murmurou. Esperei um pouco antes de falar. — Algum problema? Ele soltou uma pequena risada sem humor. — Nada que você precise se preocupar. Os olhos dele continuaram fixos na estrada. Mas a forma como apertava o volante dizia o contrário. O carro parou ao lado do estábulo alguns minutos depois. Victor desligou o motor e desceu primeiro. O cheiro de feno, madeira e terra úmida tomou conta do ar imediatamente. Eu saí logo em seguida, olhando para o meu braço ainda coberto pelos resíduos do parto misturados com poeira. Fiz uma careta. — Acho que vou precisar de uma mangueira inteira… — murmurei. Victor lançou um olhar rápido para o meu braço. — Tem uma torneira ali atrás — disse, apontando para a lateral do estábulo. — A gente lava as mãos ali depois de mexer com os animais. Assenti e caminhei até lá. A torneira ficava presa a um cano antigo na parede externa do estábulo, ao lado de um tanque de cimento gasto pelo tempo. Abri a água e imediatamente enfiei o braço debaixo do jato. A água era fria. Suspirei enquanto tentava esfregar a pele com a mão livre, mas os resíduos já tinham começado a secar. — Isso não vai sair fácil… — Espera. A voz de Victor veio logo atrás de mim. Quando me virei, ele estava abrindo um pequeno armário de madeira preso à parede. Pegou uma garrafa de detergente e caminhou até mim. — Usa isso — disse, estendendo o frasco. Peguei, mas logo percebi que não estava conseguindo alcançar direito perto do cotovelo. Victor observou por um segundo. Então soltou um suspiro curto. — Deixa. Antes que eu pudesse protestar, ele pegou o detergente da minha mão. Por reflexo, estendi o braço. Victor apertou um pouco do líquido na palma da mão e começou a esfregar minha pele com movimentos firmes. A água continuava correndo enquanto ele espalhava o detergente pelo meu braço, removendo a sujeira com calma. E foi então que eu senti. No instante em que os dedos dele deslizaram pela minha pele, um formigamento subiu pelo meu braço. Quase como um pequeno choque. Engoli em seco. Aquilo definitivamente não era apenas a água fria. Victor continuava concentrado na tarefa, mas a proximidade entre nós era impossível de ignorar agora. Eu conseguia sentir o calor do corpo dele tão perto. O cheiro leve de sol, terra e couro que vinha da camisa dele. Quando ele esfregou mais uma vez perto do meu pulso, o mesmo arrepio percorreu minha pele outra vez. Dessa vez mais forte. Levantei os olhos sem perceber. Victor fez o mesmo. Por um segundo ficamos apenas nos olhando. Muito perto. Perto demais. A mão dele ainda segurava meu braço. O mundo ao redor parecia ter ficado em silêncio, exceto pelo som constante da água batendo no tanque de cimento. Os dedos dele se moveram levemente para enxaguar o detergente. E naquele pequeno movimento, tocaram a parte interna do meu pulso. O formigamento voltou, rápido e intenso. Victor pareceu sentir também. O olhar dele mudou por um instante. Mais escuro. Mais atento. Como se tivesse percebido exatamente a mesma coisa. Mas no segundo seguinte ele soltou meu braço, quase abruptamente, como se tivesse lembrado de algo. — Pronto. A voz dele voltou ao tom neutro de sempre. Ele fechou a torneira e deu um passo para trás, criando distância entre nós. A expressão já estava novamente fechada, controlada. Como se aquele pequeno momento simplesmente não tivesse acontecido. Passei a mão pelo braço ainda úmido, tentando ignorar a sensação estranha que ainda formigava na minha pele. — Obrigada — falei. Victor apenas assentiu. Então virou-se e caminhou de volta para dentro do estábulo. Como se já tivesse apagado completamente o que tinha acabado de acontecer. Mas, por algum motivo, eu tinha a impressão de que ele também estava tentando ignorar exatamente a mesma coisa que eu.Assim que chegamos à área reservada para as barracas, Victor estacionou o carro e os homens começaram a descarregar os equipamentos. O sol ainda estava alto, mas já se aproximava do fim da tarde, e era melhor deixar tudo pronto antes que escurecesse. O espaço era amplo, cercado por árvores e vegetação. Outras pessoas já haviam montado suas barracas em diferentes pontos da área, algumas mais próximas umas das outras, outras um pouco afastadas. Havia gente organizando cadeiras, guardando equipamentos de pesca e preparando o que seria o jantar. Mais adiante, algumas fogueiras começavam a ser acesas, e o cheiro da lenha queimando chegava até nós com o vento. Peguei minha mochila e fiquei observando enquanto Victor e Henrique retiravam as barracas do carro. — Vamos montar a sua primeiro — Victor disse, dirigindo-se a mim. — Depois a gente organiza as nossas. — Não precisa, eu posso ajudar. — Pode deixar, Helena. Aproveita para separar suas coisas enquanto a gente cuida disso. Henriqu
Júlia continuava reclamando da falta de água quente quando Henrique se aproximou de mim. — Quer conhecer um pouco do rio? — perguntou. — Tem um trecho bonito aqui perto. Dá para ver melhor a paisagem e, se tivermos sorte, alguns animais. Olhei para ele, interessada. — Tem animais por aqui mesmo, tão perto do camping? — Tem. Depende do horário e da sorte também. Já vi capivaras por aqui, jacarés mais afastados da área de circulação e várias espécies de aves. De manhã cedo costuma ser ainda melhor. — E você consegue andar por aí tranquilamente sabendo que tem jacaré por perto? Henrique riu. — Consigo, desde que eu saiba onde estou pisando. — Isso não me tranquiliza nem um pouco. — Você não precisa ter medo de tudo. É só respeitar o lugar e seguir as orientações de quem conhece a região. — Eu respeito. Só não quero descobrir que uma sucuri estava escondida no caminho quando já for tarde demais. Ele soltou uma risada, e eu acabei rindo também. — Está bem. Vou avisar todas as s
Cruzei os braços e olhei pela janela. — Só achei estranho. Júlia começou a rir. — Você acabou de descobrir que seu irmão tem amigos. — Eu sei que ele tem amigos. — Então qual é o problema? — Nenhum. Era melhor deixar assim. Eu não queria explicar que o problema era especificamente um daqueles amigos. Ou melhor, que não era exatamente um amigo. Henrique. Respirei fundo e tentei voltar à conversa. — E vocês vão ficar onde? — No camping — Victor respondeu. — Camping? — Sim. Tem uma estrutura boa lá. Banheiros, área para refeição, algumas coisas organizadas. Assenti. Não me incomodava. Depois de quase dois anos trabalhando em lugares onde dormir em uma estrutura improvisada já era considerado uma sorte, uma barraca em um camping organizado parecia quase um hotel. O único detalhe que me fez pensar duas vezes foi imaginar a noite. Uma barraca. No Pantanal. Sozinha. Com sons que eu provavelmente não saberia identificar e animais circulando do lad
Quando cheguei ao casarão, encontrei Victor e Júlia na sala, conversando enquanto Sofia brincava no tapete com alguns brinquedos espalhados ao redor. — Até que enfim — Victor disse assim que me viu. — A gente estava quase mandando alguém atrás de você. — Dramático como sempre. Júlia abriu os braços para mim. — Vem cá. Aproximei-me e ela me puxou para um abraço apertado. — Você sumiu a tarde inteira. — Fui conversar com a Cristina. — Eu imaginei. Sentei-me no sofá ao lado dela, enquanto Victor continuava acompanhando Sofia com os olhos. Todos nós era apaixonados pela nossa sobrinha. — E aí? — Júlia perguntou. — Está tudo certo com o parto? — Está. A gente revisou algumas coisas da equipe, os contatos, o que precisa ficar preparado… Essas coisas. Victor assentiu. — Então está tudo organizado. — Está. E, pela data prevista, ainda faltam umas três semanas para ela ganhar o bebê. — Três semanas? — Júlia perguntou. — Mais ou menos isso. — Então ainda tem t
Dois dias depois, fui até a fazenda Albuquerque de tarde para conversar com Cristina sobre o parto. Eduarda e eu já tínhamos alinhado boa parte da organização, mas ainda havia alguns detalhes que eu queria deixar definidos com ela. Quando cheguei, Cristina estava descansando. — Ela deve acordar daqui a pouco — uma das funcionárias me avisou. — Se quiser, pode esperar no escritório do senhor Henrique. Agradeci e segui pelo corredor. Bati na porta antes de entrar. Henrique levantou os olhos do computador. — Helena. — Oi. A Cristina está dormindo. — Eu sei. Ela estava cansada. Fiquei parada por um instante. — Posso esperar aqui? Ele apontou para a cadeira. — Claro. Sentei-me, e ele voltou ao trabalho. Não era exatamente desconfortável, mas também não tinha a facilidade de antes. Eu percebia cada silêncio, cada movimento dele. — Como estão as coisas? — ele perguntou depois de alguns minutos. — Do parto? — É. — Bem. A Eduarda está acompanhando tudo de pert
Eu estava no escritório quando Victor e Diego apareceram. Nenhum dos dois precisava anunciar a chegada. Eram meus parceiros em boa parte dos negócios e, além disso, amigos de uma vida inteira. Victor entrou falando alguma coisa sobre um fornecedor, enquanto Diego vinha logo atrás com uma pasta de documentos debaixo do braço. — Aquele contrato que você pediu já voltou — Victor disse, colocando algumas folhas sobre a minha mesa. — Finalmente. Diego puxou uma cadeira. — O pessoal da transportadora quer mudar uma cláusula. Peguei os documentos e comecei a conferir. A conversa seguiu normalmente por alguns minutos. Valores, prazos, entrega, algumas decisões que precisávamos tomar antes do fim da semana. Nada que fugisse da rotina. Até Victor se recostar na cadeira e perguntar, casualmente: — E a Helena? Levantei os olhos. — O que tem ela? Ele sorriu. — Ela passou a noite aqui? Fiquei olhando para ele por um instante. — Passou. Diego soltou uma risada. — En







