FAZER LOGINETHAN LANCASTER - CAPÍTULO 008
A noite estava silenciosa , mas a minha mente era um turbilhão. O copo de cristal que segurava nas mãos refletia a luz dourada do uísque , mas nem o gosto forte da bebida conseguia apagar a lembrança que me atormentava.
Eu olhava para a cidade através das janelas de vidro, as luzes piscando lá fora me deixava em uma profunda nostalgia inconveniente . Sempre que baixava a guarda , sempre que acreditava por um instante que poderia confiar em alguém, aquela memória voltava para me lembrar do erro que nunca deveria ter cometido.
O beijo em Katherine nesta manhã ainda latejava , me queimando como se fosse ferro quente. Foi uma atitude impensada , uma reação instintiva e automática para calar a boca do meu avô e mostrar que eu possuía o controle da minha vida e não ele. Pelo menos , era nisso que tentava acreditar . Mas no fundo , sabia que tinha sentido mais do que deveria . E isso me enfurecia.
Amor , carinho , cumplicidade . Eram palavras que não significavam nada para mim , pelo menos não mais . Porque um dia , já havia acreditado nelas . E havia sido ridicularizado por isso.
Isabelle Moreau
O nome dela ainda tinha o poder de provocar uma reação claustrofóbica em meu peito. Ela era filha de um empresário francês , a maldita era tão bela quanto uma pintura feita à mão, seu sorriso era delicado e emitia uma presença que parecia iluminar qualquer ambiente em que entrava.
Quando nos conhecemos , Isabelle parecia diferente de todas as outras mulheres que cruzaram o meu caminho . Ela não se impressionava com carros caros , nem se derretia diante do sobrenome ‘’Lancaster’’. Pelo menos , era o que deixava transparecer.
Por durante dois anos , me permiti acreditar. Ela sabia me ouvir , fazia piadas inteligentes , falava sobre sonhos simples – como ter ‘’um lar longe do caos da cidade ‘’ e ter ‘’ um amor que fosse só nosso’’. Era exatamente o que eu queria ouvir.
Eu a levei a viagens discretas , lhe apresentei a lugares caros e sofisticados , dividi confidências que jamais havia ousado contar a qualquer pessoa da minha família e nem a mais ninguém. Isabelle parecia genuína.
Pela primeira vez , senti que poderia , enfim , confiar em alguém. Que eu não era apenas o herdeiro de uma fortuna bilionária , mas um homem capaz de amar e ser amado.
Escondido em meu cofre , guardava um anel de diamantes. Estava pronto para pedi-la em casamento.
A decepção veio em uma noite , como em qualquer dia comum. Havia decidido lhe surpreender , sabia que Isabelle estaria em seu apartamento – um dos muitos presentes que eu tinha lhe dado – lugar que eu mesmo havia escolhido e decorado para ela.
Cheguei sem avisar , sentindo meu coração acelerado . Queria lhe ver , e possivelmente até lhe revelar o que vinha planejando para nós dois.
Mas , ao abrir a porta , escutei vozes femininas na sala . Eram risos baixos , enquanto imaginei que pegaria Isabelle em uma conversa comum com alguma amiga.
De fato era isso , mas não como eu pensava.
-Você acha mesmo que eu estou apaixonada por ele? - a voz de Isabelle soou, carregada de ironia . Uma que me retorceu o estômago - Por favor , Dânia. Ethan é só...conveniente.
Houve uma risada . Uma segunda voz , provavelmente da amiga
-Conveniente? Ele parece ser obcecado por você.
-Exatamente! - Isabelle respondeu , rindo mais alto, se vangloriando – Ele é tão ...emocionado. Vive dizendo que eu sou ‘’ a mulher da vida dele ‘’ . Você precisava ver a cara dele outro dia , quando falei sobre casamento . Quase chorou.
As duas gargalharam
Senti o sangue gelar em minhas veias .
Sem imaginar que eu estava ali , Isabelle continuou
-Escuta Dânia , eu não sou boba . Você acha que eu vou recusar a chance de estar com o herdeiro dos Lancaster? É dinheiro , status , acesso a tudo o que eu sempre quis. Ele pensa que eu sonho com uma ‘’vida simples?’’ - O modo que falava era sarcasmo puro .- Ridículo! Eu quero é luxo , e com Ethan isso está garantido.
As duas gargalharam de novo de ficar sem ar , como se o meu coração e os meus sentimentos não passassem de uma piada.
Permaneci parado , ouvindo cada palavra como se fossem facadas.
Não entrei na sala , muito menos me pronunciei e nem gritei. Simplesmente deixei o anel que carreguei no bolso escorregar entre meus dedos e cair no chão do corredor , o som metálico ecoou como um ponto final.
As vozes cessaram por um instante. Isabelle apareceu na porta totalmente surpresa , com os olhos arregalados ao me ver ali.
-Ethan...eu...não era bem o que você ouviu. Eu só estava brincando...
Entretanto meu olhar frio e vazio a silenciou.
Não lhe disse uma só palavra que fosse. Apenas a observei , enxergando através de uma máscara , vendo quem realmente ela era.
Em seguida , lhe dei as costas e fui embora.
A porta do meu carro fechando atrás de mim , marcou o fim de tudo.
Nos dias que se seguiram , Isabelle tentou me procurar . Me mandou inúmeras mensagens tentando se explicar, e quanto mais fazia só piorava , inventou desculpas e jurou que foi apenas ‘’ uma conversa sem importância ‘’. Portanto não respondi a nenhuma.
O homem que acreditava no amor morreu naquela noite.
Em seu lugar nasceu o Ethan Lancaster que todos conheceriam dali em diante – arrogante , implacável e incapaz de confiar.
-Nunca mais – repeti para mim mesmo , como um juramento – Nunca mais vou me tornar motivo de piada para alguém.
Para mim , todas as mulheres passaram a ser iguais a Isabelle . Interesseiras , manipuladoras , e dispostas a fingir qualquer coisa em troca de luxo e status.
Me fechei dentro de uma armadura de frieza e ninguém me tiraria de lá , porque eu nunca deixaria alguém se aproximar o suficiente para derruba-la. Se antes havia espaço para qualquer vulnerabilidade , agora não tinha mais.
Sobre o amor? Não passava de uma ilusão ridícula.
Entretanto , anos depois e sozinho nesse quarto de hotel me perguntava o porquê ainda me lembrava com tanta nitidez daquela noite. Talvez porque , ao ter beijado Katherine , me fez sentir algo que não deveria. Algo que ameaçava rachar minha armadura.
E isso era inaceitável.
Não importava quão diferente os olhos dela parecessem transparecendo tamanha franqueza ,quão sinceras fossem suas palavras e quão firme fosse sua postura . Eu não podia me permitir acreditar de novo.
Porque , no fim , todas as mulheres eram iguais a Isabelle , estavam apenas esperando o momento certo para tripudiar de mim outra vez.
Virei o copo, esvaziando o uísque de uma vez e encarei meu reflexo no vidro da janela.
-Não- murmurei com a voz baixa carregada de determinação. - Nunca mais.
Ainda que Katherine fosse diferente.
Ainda que , por algum motivo inexplicável , ela fizesse meu coração ficar agitado.
Eu não me renderia .
Não de novo.
Com os punhos cerrados , reforcei o juramento que me mantinha de pé.
As mulheres podiam querer minha companhia , minha fortuna..meu nome. Mas jamais teriam meu coração.
Se Katherine Salles – ainda que de forma involuntária - tivesse despertado alguma coisa em mim , esse ‘’algo’’ seria esmagado e enterrado antes mesmo que tivesse qualquer chance de crescer.
Porque amor , para mim , não passava de uma fraqueza e Ethan Lancaster não seria fraco nunca mais.
CAPÍTULO BÔNUS- LILIANChegar ao Rio de Janeiro não foi apenas atravessar uma ponte ou desembarcar em outra cidade.Foi atravessar uma fronteira invisível dentro de mim.Eu estava sentada no banco do passageiro, olhando pela janela do carro de Lorenzo enquanto o sol começava a descer lentamente entre os prédios altos e o mar aparecia ao fundo como uma promessa silenciosa. O Rio tinha um jeito estranho de ser intenso sem pedir licença — o calor, as cores, o barulho, tudo parecia gritar que a vida continuava, mesmo quando por dentro eu ainda me sentia em cacos.Lorenzo dirigia em silêncio, mas de vez em quando lançava um olhar rápido na minha direção, como se quisesse se certificar de que eu ainda estava ali. Eu estava. Fisicamente, pelo menos.Por dentro, ainda havia ecos de medo, lembranças que surgiam sem aviso, como ondas quebrando contra pedras que eu fingia não ver.— Está tudo bem? — ele perguntou, finalmente.Assenti com a cabeça. Não porque estivesse tudo bem, mas porque na
CAPÍTULO BÔNUS- LILIANEu acordei com o corpo sacolejando.Por alguns segundos, achei que ainda estava presa a um pesadelo — mais um entre tantos que vinham me perseguindo desde que meus pais morreram. Mas o cheiro forte de gasolina, o rangido do banco de couro rachado e a dor latejante na cabeça me trouxeram de volta à realidade com brutalidade.Meus pulsos estavam presos.Minha boca… amordaçada.O pânico veio rápido, quente, subindo pelo peito como um incêndio fora de controle.Tentei me mexer, forçar as mãos contra o que quer que estivesse me segurando, mas um braço pesado se moveu ao meu lado.— Fica quieta — uma voz masculina rosnou. — Ou vai ser muito pior.Meu coração disparou com tanta força que achei que fosse romper minhas costelas. Olhei em volta, os olhos ardendo. Eu estava no banco de trás de um carro velho, escuro por dentro, com os vidros fechados. À minha frente, outro homem dirigia, o rosto parcialmente coberto por um boné baixo demais.O que estava ao meu lado seg
CAPÍTULO BÔNUS - LORENZO GANZATELLIEu ainda sentia o gosto de sal na boca quando tudo aconteceu. Suzane surgiu do nada, como sempre fazia quando queria atenção. Eu estava distraído, olhando para o mar, pensando em Lilian — no jeito silencioso dela, no sorriso tímido que aparecia quando ela esquecia por alguns segundos o mundo quebrado que carregava. Foi nesse segundo de distração que Suzane se aproximou demais sem que eu me desse conta, afinal ela era mestra nisso. E então, sem aviso, ela me beijou. Foi rápido, invasivo, e completamente desnecessária - sua marca registrada Meu corpo reagiu antes mesmo da minha mente processar. Empurrei Suzane para trás com firmeza, os dedos ainda tensos, o sangue subindo à cabeça. — Nunca mais faça isso — eu rosnei, a voz baixa, dura, cortante. — Nunca. Ela arregalou os olhos, surpresa, ferida no orgulho. Era uma bela mulher , mas não era a ideal para mim . A conhecia de muitos anos , mas nunca a vi com outros olhos por mais que ela vive
CAPÍTULO BÔNUS - LILIANEu não queria sair. Essa foi a primeira coisa que pensei quando Lorenzo, com aquele jeito calmo e decidido que parecia não aceitar muitas réplicas, disse que tinha chamado uma amiga para me ajudar a comprar roupas novas. Não era só timidez. Era algo mais profundo, mais feio, mais difícil de admitir: eu tinha medo de ocupar espaços que não eram meus. Medo de vitrines brilhantes demais. De espelhos limpos demais. De pessoas que olham e sabem, mesmo sem perguntar, de onde você veio. — Você não tem nada legal pra curtir o dia — ele disse, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. — E eu vou sair, resolver umas coisas. Depois a gente se encontra pra almoçar. “A gente.” A palavra ficou ecoando na minha cabeça. Eu queria dizer não. Juro que queria. Mas ele tinha sido tão… legal comigo. Gentil sem ser invasivo. Firme sem ser bruto. Me salvou da piscina, da rua, de mim mesma — como é que eu diria não agora? Além disso, eu sabia que minhas roupas não combinavam
CAPÍTULO BÔNUS - LORENZOJá era noite quando o silêncio finalmente tomou conta do quarto. A iluminação baixa do abajur lançava sombras suaves pelas paredes, e foi só então que me permiti parar por um segundo inteiro. Lilian dormia na minha cama, encolhida de lado, como se o próprio corpo tentasse ocupar menos espaço no mundo. Os cabelos escuros espalhados pelo travesseiro, a respiração irregular, ainda marcada por sobressaltos invisíveis. Ela parecia frágil demais para carregar tudo o que carregava. Eu estava na sala interna do hotel, sentado em uma poltrona que custava mais do que muitos carros populares, com um copo de uísque intocado na mão. Newton andava de um lado para o outro, inquieto. Amir estava encostado na parede, braços cruzados, expressão dura, prática. Os dois me encaravam como se eu tivesse enlouquecido. — Então… — Newton quebrou o silêncio, coçando a nuca. — O que você vai fazer com essa garota? A pergunta ecoou mais forte do que deveria. — Eu não sei — respondi c
CAPÍTULO BÔNUS - LILIANEu costumava achar que a palavra desmoronar era exagero. Algo dramático demais para explicar perdas pequenas, dias ruins, frustrações cotidianas. Hoje, sei que não é. Desmoronar é quando tudo o que te sustentava vira pó ao mesmo tempo. É quando não sobra chão, nem teto, nem futuro. Só o vazio. Meu nome é Lilian. E minha vida acabou no dia em que meu pai decidiu apostar o que nunca teve. Ele sempre gostou de jogos. Baralho, apostas clandestinas, qualquer coisa que prometesse dinheiro fácil. Minha mãe brigava, implorava, chorava para que ele saísse dessa vida , mas ele nunca lhe dava ouvidos Eu fingia que não via, que não ouvia os sussurros atravessando as paredes finas da nossa casa, enquanto minha mãe tentava convencê-lo , mas nunca chegavam a lugar algum e esse era o ponto.A gente era pobre, mas era uma pobreza digna. Até deixar de ser. Meu pai era um homem sonhador e foi esse sonho que nos colocou na boca do inferno e de frente com a morte . Ele sem







