FAZER LOGINUma ponte, um beco e um beijo falso de dois milhões: até onde você iria para esconder a verdade do homem mais perigoso da cidade? Aurora não tinha mais nada a perder. Com a ordem de despejo no bolso e a fome apertando o peito, a calçada fria parecia o seu único destino. Do outro lado da cidade, Endrick Brahzão, o herdeiro de um império bilionário, tinha tudo — menos a liberdade. Naquela mesma noite, um flagrante proibido na área VIP de uma boate coloca a cabeça do garoto a prêmio. O pai, um magnata implacável, exige provas de que o filho segue as regras da elite. Em um ato de desespero no meio do beco, Endrick puxa Aurora para um beijo e a apresenta como sua esposa secreta. O acordo é simples: três dias sob o mesmo teto, uma farsa perfeita para enganar a família e dois milhões de reais na conta dela para recomeçar a vida. O que o herdeiro não esperava é que a garota simples da roça não aceitaria ser apenas uma peça silenciosa em seu jogo. Trancados na mesma suíte e cercados por espiões, eles precisarão manter a mentira viva — enquanto os segredos de ambos ameaçam virar o jogo antes do retorno do bilionário.
Ver maisA boca de Yann tinha gosto de uísque e perigo.
Pressionado contra a parede de veludo do camarote privativo, Endrick Brahzão mantinha as mãos firmes na cintura dele, puxando-o para ainda mais perto. Os lábios se encontravam com uma urgência difícil de conter. O calor entre os dois era denso, quase sufocante, abafado pela penumbra luxuosa do segundo andar da casa noturna.
— Eu estava louco para pôr as mãos em você de novo... — murmurou Endrick contra o pescoço de Yann, a respiração pesada, impaciente.
Enquanto falava, desabotoava os primeiros botões da própria camisa com dedos trêmulos de pressa e desejo.
Yann sorriu de lado, com aquela calma provocadora que sempre deixava Endrick à beira da insanidade. Então entrelaçou os dedos nos cabelos escuros dele e o puxou de leve pela nuca.
— Ficou com saudade, herdeiro?
— Você não faz ideia. — A voz de Endrick saiu rouca, carregada de fome.
Sem esperar mais nada, ele voltou a beijá-lo.
A mão deslizou devagar pelas costas de Yann, como se quisesse decorar cada centímetro de um corpo que já conhecia, mas do qual nunca se cansava. Por alguns instantes, os dois se perderam naquilo que haviam tentado esquecer — ou fingido esquecer.
Do outro lado da espessa parede de alvenaria, a poucos metros dali, o grave da música fazia o asfalto frio da avenida vibrar.
Na calçada, essa mesma vibração subia pela sola gasta do sapato de Aurora.
Ela não olhava para as luzes de néon da fachada, nem para os carros importados que paravam diante da entrada principal. Com a bolsa de pano vazia pendurada no ombro e as mãos enfiadas nos bolsos do casaco, caminhava como quem já não sentia o próprio corpo. O último mês de aluguel vencera naquela noite. O dinheiro deixado por seu pai adotivo — um homem simples, da roça, que lhe dera tudo o que tinha e mais um pouco de amor — tinha acabado até o último centavo.
Aurora não tinha casa. Não tinha para onde voltar. Não tinha ninguém a quem pedir socorro.
E a fome começava a fincar pontadas cruéis no estômago.
A ponte alta de Porto Ilha Bela parecia, agora, o único destino possível.
Ao passar em frente à casa noturna, ouvindo o riso abafado da gente rica que gastava em um único drinque o que ela precisaria para sobreviver por três meses, Aurora soltou um suspiro torto, amargo, quase sem som.
Para alguns, a vida vale a pena.
A frase ecoou apenas dentro dela.
Sem paciência para encarar aquele desfile de luxo e frivolidade, dobrou à esquerda e entrou no beco lateral — um corredor estreito de concreto úmido, iluminado apenas por uma lâmpada fraca presa a um poste torto.
Era o caminho mais curto até o rio.
Lá em cima, no camarote, a ilusão de Endrick durou exatamente mais dez segundos.
Um bipe seco e urgente cortou o ar.
O som vinha do rádio preso à cintura do segurança que ele havia subornado para vigiar a porta. Em seguida, a voz do homem explodiu pelo comunicador, entrecortada de pânico:
— Senhor Endrick! Ele entrou no elevador! Está subindo com a escolta! Seu pai descobriu que o senhor está aqui!
O sangue de Endrick gelou.
A respiração travou na garganta, e por um segundo o mundo inteiro pareceu inclinar sob seus pés. A mente disparou num cálculo brutal: se Orestes Brahzão atravessasse aquela porta e o encontrasse nos braços de outro homem, não haveria explicação possível. Não haveria perdão. Não haveria herança, futuro ou liberdade.
Haveria ruína.
— Veste a roupa e sai pela porta de serviço. Agora! — ordenou ele, já abotoando a camisa de seda com movimentos desajeitados.
A voz saiu baixa, mas carregada de desespero.
Do lado de fora, passos pesados ecoaram no corredor acarpetado. A voz grossa e autoritária de seu pai já podia ser ouvida esbravejando contra os gerentes da boate.
Sem tempo para pensar, Endrick correu até o fundo do camarote, empurrou o painel de madeira que escondia a saída de emergência e despencou pela escada.
No instante seguinte, o estrondo da porta principal sendo arrombada explodiu no andar de cima.
Ele desceu os degraus de três em três, quase tropeçando na própria pressa, e lançou todo o peso do corpo contra a barra de ferro da porta metálica no térreo.
A porta se abriu com violência.
Endrick foi lançado para o beco exatamente no momento em que Aurora passava por ali.
A colisão foi inevitável.
O corpo alto e sólido dele bateu em cheio contra a estrutura leve e exausta dela. Aurora soltou um arquejo, perdeu o equilíbrio e só não caiu no chão porque as mãos rápidas de Endrick se fecharam em sua cintura. A bolsa de pano escorregou de seu ombro e despencou no asfalto molhado, espalhando o pouco que carregava — entre eles, a folha amassada da ordem de despejo.
— Mas que droga... — Endrick praguejou, ofegante, virando o rosto por reflexo para trás.
— Dá para olhar por onde anda, seu bruto? — Aurora disparou, tonta, tentando se soltar do aperto dele.
Mas antes que conseguisse dar um único passo, a porta metálica tornou a ranger.
Quatro homens de terno escuro saíram primeiro, abrindo passagem.
Então Orestes Brahzão surgiu.
O velho magnata vestia um sobretudo impecável, e o rosto duro estava deformado por uma mistura perigosa de fúria e satisfação. Havia algo quase triunfante em seus olhos — a certeza de que, enfim, apanharia o filho em flagrante.
— Cadê a sujeira que me disseram que você estava aprontando aqui dentro, seu moleque? — vociferou Orestes, a voz ricocheteando nas paredes de concreto do beco. — Você achou mesmo que ia continuar me fazendo de idiota?
A atmosfera pesou de imediato.
Aurora sentiu o ar rarear.
Os seguranças se espalharam, fechando a passagem. O beco estreito, que já parecia opressor, transformou-se numa armadilha sem saída.
Endrick também sentiu.
Sentiu o abismo se abrindo sob os pés.
Então, por um breve segundo, olhou para a garota que ainda segurava pela cintura.
Ela cheirava a sabão barato e chuva antiga. Estava pálida, com os lábios ressecados, as roupas simples demais, gastas demais, deslocadas demais daquele universo. Uma estranha. Uma desconhecida. Uma ninguém.
Ou, talvez, sua única saída.
Movido por um instinto frio e desesperado de sobrevivência, Endrick a puxou para mais perto, colando o corpo dela ao seu. Passou um braço por seus ombros com intimidade forçada, como se aquele gesto fosse natural, como se a cena já estivesse ensaiada havia muito tempo.
Aurora enrijeceu inteira.
— Ficou maluco, pai? — disse Endrick, sustentando o olhar do velho com uma audácia nascida do puro desespero. — Que história de sujeira é essa? Eu só queria um pouco de privacidade antes de dar a notícia.
Orestes freou.
As sobrancelhas grossas se fecharam, e o olhar desconfiado deslizou do rosto do filho para a jovem humilde tremendo sob o braço dele.
— Do que você está falando? — rosnou. — Quem é essa zé-ninguém?
Os dedos de Endrick apertaram o ombro de Aurora com mais força — um aviso mudo para que ela não dissesse nada.
Então ele lançou a mentira no meio da noite como quem atira a própria última bala:
— Essa zé-ninguém... é a minha esposa.
Orestes olhou Aurora da cabeça aos pés, como se avaliasse um animal perdido na chuva.
Mas não respondeu de imediato.
E foi justamente aquele silêncio calculado que fez Endrick entender que acabara de empurrar a única inocente daquela noite para dentro da parte mais podre da sua vida.
Quase quarenta quilômetros separavam a mansão do terror da estrada onde um veículo tinha parado de existir como carro.Sob a chuva, o sedã de luxo estava tombado na ribanceira, de rodas para o alto, com a lataria aberta em vincos violentos e o motor soltando fios finos de fumaça que a água não apagava de todo. O asfalto acima permanecia vazio. Sem poste aceso. Sem tráfego constante. Sem testemunha.Dentro da cabine destruída, Vanessa ainda respirava.Pouco. Com dificuldade. Cada entrada de ar parecia raspar por dentro antes de alcançar os pulmões.O sangue escorria da testa e desaparecia pela lateral do rosto. Uma das pernas seguia presa entre ferragens dobradas. O ombro estava numa posição errada. A consciência ia e voltava em golpes curtos, sem estabilidade suficiente para mantê-la desperta por muito tempo.Ninguém na festa sentira falta dela. Ninguém no conglomerado ainda percebera sua ausência.Vanessa se quer chegou a participar da cerimonia inicial. Saiu de casa. Às p
A porta blindada isolava tudo.Tiros. Gritos. Motores. Nada atravessava o aço.Dentro do bunker, o silêncio não trazia alívio. Só fazia o tempo pesar mais.Endrick permaneceu diante do painel, os olhos alternando entre os monitores e a estrutura técnica do sistema.— Se tentarem romper essa entrada com carga pesada, comprometem a estrutura acima. Quem planejou o ataque conhece a casa. Sabe que o bunker não foi feito para ser tomado por fora. Essa porta só abre se alguém daqui liberar.Orestes ouviu em silêncio.Ainda estava sentado, mas já não parecia um homem acostumado a ocupar a cabeceira de nada. As mãos continuavam manchadas com o sangue do irmão. Ele as olhava de vez em quando, como se não reconhecesse nem aquilo.Então ergueu o rosto para a tela morta do sistema de comunicação externa.— A transmissão caiu no momento certo.A voz ainda saía irregular, mas agora tentava recuperar encadeamento.— O apagão na área da mata interrompeu o sinal de fora. Os geradores da mansão su
A cozinha industrial da mansão já não parecia parte da festa.O inox refletia apenas luz de emergência. Panelas estavam no chão. Bandejas tombadas. Pratos quebrados. Cheiro de gordura, gás e comida esquecida no fogo.Garçons e cozinheiros se encolhiam atrás de bancadas e fogões industriais, sem saber se o pior vinha do salão ou dos jardins. Lá fora, as rajadas ainda cortavam a noite em intervalos irregulares. Cada sequência fazia a estrutura vibrar de leve.Yann entrou primeiro.Arma em punho. Passo baixo. Olhos correndo pela cozinha, pelas portas laterais, pelos acessos de serviço.Logo atrás vinha Endrick, quase arrastando Orestes. O pai já não mantinha a postura de minutos antes. O terno estava manchado. A respiração saía curta. Os pés falhavam nas mudanças de direção.Aurora fechava o grupo.A barra do vestido, pesada de sangue e sujeira, prendia seus movimentos. Ela segurou o tecido com uma mão, puxou para o lado e rasgou o que atrapalhava. Deixou a seda no chão e co
A mesa principal ocupava o centro do salão como um altar caro demais para admitir ruína.Mogno escuro. Prata polida. Cristal fino. Vinte e quatro lugares reservados para o núcleo do império Brahzão e para os nomes que orbitavam seu poder mais de perto.Ao redor, espalhadas pelo salão, as outras mesas acomodavam o restante dos convidados. Quinhentas pessoas. Risos contidos. Taças erguidas. Perfumes densos. Conversas feitas de favores, cálculo e aparência.Na cabeceira, Orestes.Postura intacta. Tom seguro. A presença de quem passara a vida inteira exigindo que o mundo se organizasse ao seu redor.À direita dele, Thenório já bebia como se a noite fosse dele. Cada dose parecia ampliar alguma coisa que nele nunca estivera realmente sob controle. A insolência. O prazer de ser temido. A convicção de que ninguém ali teria coragem de tocá-lo.Do outro lado da mesa, Endrick e Aurora mantinham a encenação.Os noivos. Os rostos da celebração. A imagem que a noite precisava.Mas, p






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