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7. A Vítima É Sempre Louca

Aвтор: Sylvvia
last update publish date: 2026-03-06 19:28:38

ISADORA

A cadeira de plástico da delegacia da mulher não era nada anatômica. O que, para uma fisioterapeuta, já devia constar como crime. Contudo, não era mais desconfortável do que o olhar da atendente. Apertei os dedos no colo, tentando manter a voz firme.

— Eu tô sendo seguida. Já vi o mesmo carro preto duas vezes. E ontem, três motoqueiros me cercaram. Um deles falou o nome do meu ex. Eu reconheci a voz.

A policial digitava devagar, sem me encarar.

— A senhora tem alguma prova concreta? Placa do carro? Fotos? Testemunhas? Câmera de segurança?

É, tinha sido um erro ir ali, porque eu não tinha nada daquilo. Só tinha o medo de vítima. E o instinto de enxergar padrões, para não sofrer violência novamente.

— Meu ex-marido está preso. Isso não significa que ele parou de mandar em gente aqui fora. Eu sei que ele mandou me vigiar. Eu sei!

A policial suspirou.

— A senhora está fazendo acompanhamento psicológico?

A pergunta doeu tanto quanto um tapa. Balancei a cabeça rapidamente, como se isso ajudasse a processar a pergunta sem sentido.

— Sério? O que isso tem a ver com o fato de eu estar sendo perseguida? Quer dizer que sou louca agora?

— É só o protocolo, senhora. Às vezes, vítimas de violência têm episódios de... hipervigilância. Não é loucura. É apenas medo.

— Eu não tô imaginando coisas! Eu sei o que viv com Jonas e do que ele é capaz de fazer. Mandar seus capangas me vigiarem é o mínimo!

Ela não respondeu. Só voltou a digitar, como se preenchesse um formulário qualquer. Na parede, um cartaz: uma mulher com o rosto machucado e a legenda "Você não está sozinha". Quis rir. Quis chorar. Quis arrancar aquele cartaz da parede e gritar: "Mentira! A gente tá sozinha nessa merda, sim!"

A policial finalmente me encarou, o que me fez pensar que, talvez, o grito não tenha sido contido por minha garganta. Talvez, tivesse saído como um murmúrio. Ou até mais alto que isso. A expressão dela era a mesma de quem vê um animal ferido, se movimentando em círculos, tentando morder o próprio rabo.

— Eu vou registrar a ocorrência. Mas, como o agressor está preso, não há como pedir medida protetiva. Se a senhora se sentir ameaçada de novo, pode voltar. Instale câmeras de segurança onde mora; com as imagens, podemos investigar melhor.

Saí da delegacia com a sensação de quem escalou o Monte Everest e gritou o mais alto que pôde — só não havia ninguém para ouvir.

O sol do meio-dia queimava minha pele, mas eu sentia frio por dentro. Nem a polícia acreditava em mim. A lei apenas me protegia de Jonas, mas e do resto? Eu estava por minha conta.

Na volta para casa, fiquei checando o caminho atrás de mim com frequência. Um carro branco me seguiu por duas quadras. Não era o mesmo de sempre, mas meu corpo reagiu do mesmo jeito: suor nas mãos, respiração curta, pernas trêmulas. O motorista buzinou algumas vezes, o que só piorou a situação, a cada buzina, um estrondo dentro de mim. Quando virou na esquina seguinte, suspirei de alívio.

E se eu realmente precisasse de mais sessões de terapia?

Quando cheguei ao apartamento, vi Camila na cozinha, cantarolando uma música pop e virando panquecas na frigideira. Mesmo que o aroma de manteiga fosse um dos meus favoritos, não me deixei ser levada por ele: entrei muda, fui direto para o banheiro e lavei o rosto com água gelada.

Eu tinha a certeza de que, quando eu chegasse à cozinha, ela me encheria de perguntas.

Sylvvia

E aí? prontas para a conversa com Camila?

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