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6. Uma Caverna De Sangue

Autor: Sylvvia
last update Data de publicação: 2026-03-05 03:30:16

LORENZO

Desci os corredores como se fosse o próprio Lúcifer indo tomar conta do inferno que o pai construíra. Era ali onde eu conversava com meus desafetos. Escutei os gritos antes de abrir a porta:

— Por favor! Eu não fiz nada! Eu só...

Entrei na sala tendo a certeza de que o destino do crápula capturado era todo meu. E eu faria o que bem entendesse. O homem amarrado à cadeira se calou no mesmo instante em que me viu. O silêncio que se seguiu era mais pesado que qualquer ameaça.

A Caverna era bem simples: um cômodo com três paredes de concreto e uma de vidro. Uma cadeira no centro, luz branca direta. E o cheiro — sempre o cheiro — de sangue seco, mijo e medo.

Entreguei o terno a Thiago, meu Underboss, que me esperava em silêncio. Arregacei as mangas da camisa, pois não queria sujá-las. Não era preciso perguntar o nome do homem — isso eu já sabia— , porém gostava de seguir o protocolo.

— Nome?

— Ricardo. Eu... eu trabalho no porto. Empilhamento de carga... — respondeu o sujeito, com a voz trêmula.

— Talvez seja verdade. Pena que não importa.

O primeiro soco foi leve. O segundo, do outro lado, foi para manter a simetria e o tom vermelho em ambas as faces. O terceiro, um tapa de palma aberta, só pelo estalo que eu apreciava ouvir.

— Eu juro! Eu não sei do que estão falando! Eu... — tentou se explicar, mas suas palavras foram cortadas pelo choro. E pelo cheiro de mijo.

Por que a imagem de Don Ettore aparecia naquelas situações? Eu sempre via o rosto dele na face à minha frente. Contudo, também escutava suas risadas dentro de mim, e tinha a certeza de que elas me assombrariam para sempre. Por isso, eu não dava risadas... nunca. Nem de alegria, nem de sarcasmo, nem por crueldade.

E gostava de me manter desse jeito.

— Acredita mesmo que eu não sei o que você fez no porto, quando ninguém estava vendo?

O infeliz reafirmou sua posição de trabalhador.

— Você acaba de perder a chance, Ricardo, de confessar e receber uma morte rápida como recompensa. Confesse logo e, talvez, eu reconsidere torturar você... muito.

— Eu não sei do que o senhor está falando, eu...

— Você vendeu uma menina de quatorze anos para um cliente do Distrito Golden. Sua filha, Ricardo? Para quem? E em troca de quê?

Seus olhos assustados me diziam que ele procurava uma resposta. Antes que eu ouvisse suas desculpas de merda, repeti vagarosamente.

— Você vendeu uma menina de quatorze anos. Sua filha.

O homem virou uma múmia antes mesmo de ser morto. Reclinando-me o suficiente para que meus dedos alcançassem o seu punho, girei-o com precisão e o estalo do osso se partindo foi claro — uma nota bonita de se ouvir. O grito que se seguiu, nem tanto. Muito menos o mijo.

— Caralho, você mijou no meu sapato? — praguejei.

Fiz um gesto para que Thiago o erguesse.

— O que você ganhou?

Mais um soco, agora no estômago. Coloquei o sapato sujo em cima da cadeira. Meu Underboss precisou de dois gestos para entender: o homem devia limpá-lo, com a língua. E assim o fez para que eu não a cortasse. Puxei o desgraçado pelos cabelos desgrenhados até a parede de vidro.

Na outra sala, uma luz se acendeu. Havia uma adolescente curvada, abraçada aos joelhos. Uma enfermeira lhe fez os primeiros socorros, lhe deu banho e comida.

— Você podia tê-la vendido para mim. Eu te pagaria muito mais e a foderia todos os dias — vesti minha pior máscara. — Mas nunca a jogaria num esgoto, machucada e sangrando, para morrer.

O homem se remexia, dizendo que não sabia que a descartariam depois de usá-la.

— Diga quem a comprou e te darei o direito de escolha: você morre aqui e a garota fica livre... ou fica vivo e ela será minha putinha — blefei.

— Pode ficar com ela, Don Maranzano! Foi o Batista. Sim, o da Batista Holdings, o novo rico de quem estão falando nos jornais.

Senti aquele frio na espinha — não de medo, mas de puro ódio.

— Ok. — Larguei aquele merda no chão. — Rasteje até a saída. Não teremos mais problemas.

A mentira foi dita sem emoção alguma.

Ricardo se jogou ao chão, desesperado para fugir. Sequer notou quando fiz um gesto para Thiago atirar. O desgraçado foi para o inferno no mesmo instante.

— Você sabe quem é esse tal Batista?

Thiago limpava a arma.

— Sim. Não se preocupe, ele afundará no oceano com um paralelepípedo amarrado às costas.

— A Casa Donna Lucia já foi notificada? — perguntei, enquanto recolocava meu terno.

— Sim, Sônia falou que mandaria uma psicóloga para buscá-la ao amanhecer — respondeu o assassino.

Assenti.

Casa Donna Lucia: o abrigo que fundei em nome da minha mãe. A única coisa boa que me restava. Lucia Maranzano: a mulher a quem meu pai matou aos poucos, até o dia que resolveu assassiná-la. E, por isso, eu o matei. Se sentia algum remorso, era por não o ter matado antes.

— Por que você não conta a verdade a Dante?

Virei o rosto devagar.

— Você é pago para matar. E recebeu minha benção para foder meu irmão — comentei. — Não confunda isso com o direito de me questionar.

Ele não respondeu. Minha fala demonstrou que ele já tinha ido longe demais.

— E se Dante souber de algo pela sua boca... — prossegui — você vai desejar morrer afogado. Será um alívio perto do que vou fazer com você."

Ia sair da Caverna quando o ponto no ouvido chiou.

— Lorenzo? — era Valentina, minha Capo. — Temos um problema.

— Fale — ignorei o fato de ela não me chamar de Don. Ela nunca me chamava assim quando estávamos a sós.

— Amélia Calderón deu um passo em falso. Entrou em contato com um presidiário. O nome dele é Jonas Guerra.

Procurei na memória por esse nome, e ninguém me veio à mente.

— Por que uma mulher como ela se rebaixaria tanto? — murmurei.

Sem comentários, Valentina esperou por ordens.

— Descubra tudo sobre esse cara — ordenei. — Quem ele é, o que quer, e por que ela foi atrás dele.

— Entendido — assentiu. — E você?

— Vou para casa — respondi, deixando o cansaço transparecer na voz. — Precisamos de informações. Quando formos visitar os Calderón... seremos a última visita que eles receberão.

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