INICIAR SESIÓNMaia, após tomar um banho demorado, sentou-se para jantar. O vapor da comida caseira preenchia o ambiente, mas a atmosfera no aposento ainda era de uma quietude pensativa. Ana permanecia ao seu lado, de pé, observando-a com a discrição de sempre, até que Maia decidiu mudar o tom daquela noite.
— Ana, sente-se e jante comigo.
— Não… Isso não é certo, senhorita — falou Ana apressadamente, recuando um passo, surpresa com o convite.
Percebendo a reação defensiva da criada e as barreiras invisíveis que existiam entre elas, Maia falou de forma decidida, sem deixar espaço para discussões:
— Eu decido o que é certo. Sente-se e jante comigo.
Ana obedeceu, acanhada, ocupando apenas a borda da cadeira. Maia terminou sua refeição em silêncio e, ao conclusão, cruzou os braços sobre a mesa, fixando o olhar na moça.
— Ana, você acredita em vida passada ou premonições?
Surpresa, a criada olhou assustada, deixando os talheres de lado.
— Eu… senhorita, nunca ouvi falar de vida passada, mas acredito em pessoas que podem prever o futuro. Por que pergunta? Ouviu algo sobre isso?
— Não. O pesadelo que tive pareceu real demais — respondeu Maia, com a voz baixa e firme. — Na verdade, ser um aviso do que está por vir. Por isso vim para a fazenda; precisava de silêncio para pensar. Sente-se, vou lhe contar tudo.
Ana inclinou-se para a frente enquanto Maia relatava o que vira. À medida que as palavras saíam, o rosto da criada mudava de preocupação para puro horror. Ao terminar de ouvir o relato sobre a traição cruel que a patroa sofrera no "pesadelo", Ana levantou-se num salto, revoltada.
— O que a senhorita pretende fazer? — perguntou Ana, com a voz nervosa e as mãos inquietas.
— Eu estou pensando — respondeu Maia, mantendo a calma.
— Não aceite! Cancele essa festa! — exclamou Ana, com o senso de justiça falando mais alto.
Maia sorriu diante da reação sincera. Aquele momento era o teste que faltava; ver a fúria nos olhos da criada deu a ela a certeza absoluta de que sua lealdade era real.
— Calma. Não posso cancelar. É o meu aniversário e já está tudo preparado — disse Maia, fazendo um sinal sutil para que ela baixasse o tom de voz. — Mas vou precisar da sua total fidelidade e, principalmente, que guarde segredo. O que preciso fazer é impedir que esses fatos aconteçam.
Ana pensou por alguns instantes, e seus olhos brilharam com determinação.
— Entendi. Então vamos pegar esses traidores! — falou ela, agora mais animada.
— Mais ou menos isso. Precisamos de provas e também descobrir se há mais alguém ajudando — explicou Maia, pensativa. — Ricardo é apenas o filho de um primo distante da Majestade. O fato de ele será adotado pelo rei esconde algo muito maior, e eu preciso investigar.
Maia silenciou por um momento. Decidiu omitir a parte que envolvia o General Caspian; preferiu guardar aquele segredo estratégico apenas para si por enquanto.
— O que a senhorita vai fazer primeiro? — perguntou Ana.
— Já escrevi para o meu pai. Só ele tem o poder de descobrir a verdade sobre o passado de Juliana. Mas vamos dar um passo de cada vez.
— Aquela víbora… a senhora devia era expulsá-la de casa logo! — Ana disparou, ainda indignada.
— Para saber o que o inimigo faz, temos que mantê-lo por perto. Ela não pode saber, nem desconfiar de nada. Agora, vamos descansar. Amanhã à tarde, no máximo, voltaremos para a capital.
O cansaço daquele dia intenso finalmente cobrou o seu preço. Elas se prepararam para dormir e, pela primeira vez desde que havia retornado no tempo, Maia sentiu um vislumbre de paz. Para que seu plano funcionasse, era vital ter alguém genuinamente fiel ao seu lado.
No meio da noite, Maia acordou sob a escuridão total do quarto. Sentiu o toque gelado de uma lâmina pressionando seu pescoço, enquanto uma voz sussurrava bem perto de seu ouvido:
— Se não deseja a morte, não grite. Minha lâmina é afiada.
O tom abafado deixava claro que não era um blefe. Uma mão firme e desconhecida tapou sua boca. Maia manteve uma postura surpreendentemente calma e apenas concordou com a cabeça.
— Vou retirar a mão, mas se fizer qualquer movimento para chamar atenção, sua cabeça será o meu prêmio.
O vulto removeu a mão sem pressa. Com tranquilidade, Maia sentou-se na cama, ajeitou os trajes e soltou um riso baixo, carregado de deboche:
— Sua lâmina é mesmo afiada? Que bom. Seria uma vergonha morrer com uma faca cega no meu pescoço.
O homem segurou o cabo da arma com mais força, pego de surpresa pelo sarcasmo dela na escuridão.
— Você sabe quem sou? — a voz perguntou, fria e desconfiada.
— Eu sabia que você viria — Maia respondeu com indiferença, escorando-se no encosto da cama. Mesmo na escuridão profunda, conseguia sentir o poder avassalador de sua presença.
— Você é mais calma do que imaginei — o homem murmurou em um tom baixo, rouco e perigosamente tranquilo. — A maioria das mulheres estaria chorando ou implorando pela própria vida agora.
Maia ajustou a colcha ao redor do corpo e ergueu o olhar na direção dele, desafiando o breu que cobria o rosto do invasor.
— E a maioria dos homens não colocaria uma faca no pescoço de uma mulher adormecida no meio da noite — respondeu ela, com uma frieza cortante.
Um silêncio breve e denso se instalou no quarto antes que o homem soltasse um riso abafado, curto e sem humor.
— Então realmente os boatos não fazem justiça a você. Não é apenas uma marquesa mimada.
Maia estreitou os olhos.
— Depende. Pretende continuar agindo como um reles ladrão de estrada?
O homem inclinou levemente a cabeça, observando-a com uma intensidade que ela quase podia sentir na pele.
— Estou começando a acreditar que os rumores sobre a sua ingenuidade estão completamente errados.
— Já terminou de me avaliar? — perguntou Maia com serenidade. — Ou pretende me matar de uma vez?
— Isso vai depender da resposta que me der agora. Por que mandou aquela carta para a Torre do Oráculo?
— Quero que sobreviva — Maia declarou, baixando ainda mais o tom, transformando a conversa em um pacto compartilhado. — Há um plano silencioso que corre por todo o reino, e ele terá início na minha festa. Não pretendo ser a peça de descarte de ninguém. Por isso, preciso do poder e do alcance da Torre. Existem segredos que vão além do que consigo descobrir sozinha. Assim que eu voltar para a capital, enviarei uma carta indicando o que precisa ser investigado.
O homem deu um passo à frente, a ameaça vibrando em cada palavra:
— Se isso for uma armadilha… eu voltarei. E garanto que não será para conversar.
— Eu não esperaria nada menos de você — ela respondeu, com um aceno sutil de cabeça.
Em um movimento fluido, silencioso e quase sobre-humano, ele desapareceu na escuridão, deixando para trás apenas o rastro do vento frio e uma adaga cravada profundamente na madeira da cabeceira como prova de que tudo aquilo fora real.
Maia caminhou até a cabeceira e arrancou a adaga com força. Ela observou o metal brilhando sob o fraco luar que entrava pela janela. A primeira grande peça do seu jogo de xadrez político estava posicionada. Agora, ela estava pronta para voltar à capital e enfrentar a serpente que dormia sob o seu próprio teto.
O silêncio de Maia pesou na tenda mais do que qualquer resposta. Ela não encarou a criada; manteve os olhos cravados no pergaminho amarrotado sobre a mesa de madeira.— Rainha? — Maia soltou um riso curto, destituído de qualquer humor, enquanto ajustava as fivelas de suas luvas de montaria. — Para ser rainha, Ana, primeiro preciso garantir que continuemos vivos amanhã. Não pense num futuro que sequer existe. Pense em sobreviver à noite de hoje.Sem esperar por mais questionamentos, Maia deixou a tenda.Lá fora, a escuridão do início da noite começava a cobrir o acampamento. Caspian a aguardava junto aos cavalos. A luz vacilante das tochas projetava sombras longas sobre seu rosto, mas não conseguia disfarçar a mudança drástica em sua postura. Ele já não parecia apenas o guerreiro cauteloso e distante de poucas horas atrás; havia um peso sombrio em seu olhar, o fardo de um homem que acabara de descobrir que toda a sua vida fora erguida sobre uma mentira de Estado.Seguindo as ordens rec
O capitão adiantou-se, querendo acalmar os ânimos:— Senhorita, mandei homens investigarem o local da emboscada. Deixei claro que deveriam refazer todo o percurso, desde o momento em que seus pais saíram do acampamento.Ao ouvir isso, Maia apoiou as duas mãos sobre a mesa rústica, cravando o olhar no tampo de madeira.— Se eles querem guerra, é exatamente o que terão — declarou, com a voz gélida. — Não terei piedade de ninguém.Caspian a observou em silêncio por um instante e falou, pausando cada palavra:— Seus pais não cairiam em uma emboscada tão facilmente. Pelos feitos que ouço sobre o marquês, ele sabia que você não estava na capital. Existe algo nessa história que não está claro.Passando a mão pelo cabelo, Maia absorveu o raciocínio dele.— Ele tem razão, Maia — disse Ana, apressada.— Guerreiro? Quem é este homem? — o capitão perguntou, franzindo o cenho em surpresa ao notar a postura de Caspian.Lançando um olhar discreto de advertência para Ana, Maia interveio:— Não leve a
A poeira subia alta na trilha enquanto viajavam a galope. Maia atiçava sua montaria com uma urgência quase desesperada, como se tentasse escapar de um inimigo invisível. Caspian a seguia a uma curta distância, com um sorriso discreto no canto dos lábios, enquanto Ana, logo atrás, mantinha o semblante carregado de preocupação diante daquele ritmo acelerado.Após algum tempo de corrida intensa, Caspian emparelhou seu garanhão ao cavalo de Maia.— Nesse ritmo, é melhor dar um descanso aos cavalos — avisou ele, a voz firme sobrepondo-se ao som dos cascos.Maia reduziu a velocidade aos poucos. Embora sua vontade inicial fosse contrariá-lo e continuar, olhou para o próprio cavalo e percebeu que havia exigido demais da montaria. Tomada por uma pontada de culpa, ela puxou as rédeas e esperou que Ana se aproximasse.— Vamos parar um pouco à beira do rio — disse Maia, tentando disfarçar o cansaço na voz. — Os cavalos precisam descansar e se refrescar.— Valha-me Deus... Achei que estávamos fugi
As palavras de Maia pairaram no ar fresco da manhã como uma névoa densa. A insinuação de que ele desconhecia coisas sobre si mesmo havia tocado em uma ferida invisível, e Caspian não era homem de recuar diante de enigmas ou provocações.Dando um passo lento e intimidador em direção a ela, ele estreitou os olhos, a voz descendo uma oitava, fria e direta:— Inclusive a você?Maia sentiu o peso da presença dele. Ela desviou o olhar por uma fração de segundo, fingindo ajustar a manga de seu vestido para disfarçar o próprio desconforto. A proximidade física de Caspian a lembrava de que, apesar de toda a sua mente calculista, ele ainda era uma força da natureza implacável — e que ela estava jogando um jogo perigoso ao atiçar o passado que ele sequer lembrava de ter.Ela caminhou alguns passos pelo pátio, afastando-se daquela pressão sufocante. Após alguns segundos de silêncio, onde apenas o farfalhar das folhas e o som distante de um cavalo podiam ser ouvidos, ela se virou para encará-lo co
Assim que a porta pesada se fechou após a saída de Caspian, o silêncio no salão principal durou pouco. Maia respirou fundo, contendo a descarga de adrenalina que aquela negociação exigira, e chamou Ana e Marcos imediatamente.— Tudo está acertado — anunciou ela, cruzando os braços. — Agora precisamos organizar o próximo passo. Marcos, vou precisar que contrate guardas de confiança para proteger esta propriedade. Eu, Ana e Caspian partiremos o quanto antes ao encontro de meus pais.— Continuo achando essa ideia um perigo sem tamanho — Ana interveio, com a franqueza habitual estampada no rosto preocupado.— Concordo com a Ana, senhorita — Marcos deu um passo à frente. — Sabemos que a senhorita possui um dom especial. Por que se arriscar dessa maneira se pode resolver as coisas de outra forma?Maia olhou para os dois, os únicos em quem realmente podia confiar naquele mundo de aparências.— Sim, eu tenho meus recursos. Mas tudo tem um preço nesta vida — explicou Maia, com a voz baixa e sér
O silêncio que se seguiu à pergunta de Caspian pesou no salão principal. Ele permanecia de pé, com os braços cruzados e o corpo tenso, esperando uma resposta que justificasse aquela aliança. Maia não se moveu. Mantendo os dedos entrelaçados sobre a mesa de madeira rústica, ela o encarou com a mesma tranquilidade de quem antecipava cada movimento do oponente.— Minha proposta é simples, senhor Caspian, embora exija coragem — Maia começou, a voz num tom baixo e firme que ecoou pelas paredes de pedra. — Você quer uma garantia de que meus homens o seguirão e de que terá os recursos necessários para erguer seu exército. Eu preciso de um escudo legal que impeça a corte de Telrion de confiscar os bens de minha família e o comando de nossas tropas através de um matrimônio forçado. A solução para ambos está diante de nós.Caspian inclinou a cabeça levemente, os olhos semicerrados em pura desconfiança.— E qual seria essa solução?— Nós dois vamos nos casar.A declaração caiu no ambiente com a







