FAZER LOGINWaco, Texas – Tribunal Distrital.
Estela Anderson O calor de Waco parecia ter decidido instalar-se aqui dentro, pesado e espesso. Apesar do esforço do ar condicionado, os ventiladores de teto giravam com uma lentidão preguiçosa, apenas remexendo o cheiro de pó e o meu próprio nervosismo. No centro do tribunal, o Sr. Torres, o homem que eu estava prestes a destruir, depunha com a voz embargada. — Essa Sra. Brooks, ela me enganou! — ele bradou, batendo na tribuna. — Disse que era a melhor taxa de juros do mercado! Escondeu as cláusulas abusivas... Por causa desse contrato, vou perder a casa. Minha esposa, meus filhos pequenos... não temos para onde ir! A dor crua nos olhos dele era palpável. Cada palavra sobre os filhos pequenos atravessava a minha armadura como uma lâmina quente. Sob a mesa, as minhas unhas cravaram-se na palma da minha mão, escondidas. Senti um frio incômodo subir pela espinha e precisei de todo o meu autocontrole para manter a respiração regular. A verdade, aquela que eu tentava sufocar com códigos legais, era inegável: ele tinha razão sobre Evelyn, minha cliente. Desviei o olhar para o lado. Evelyn Brooks, parecia estar em outro planeta. Usava um vestido vermelho justo, decotado demais para um tribunal, e exibia uma maquiagem impecável que era, na verdade, a sua armadilha favorita. Enquanto o Sr. Torres se desintegrava em lágrimas, ela apenas o observava com um tédio cínico, quase divertida. Senti uma onda de náusea. Eu estava sendo paga para limpar as sujeiras daquela mulher. O peso do contrato nas minhas mãos parecia pesar toneladas. — Sem mais perguntas, excelência — concluiu o advogado de acusação, com um suspiro cansado e justo. O silêncio voltou a pairar, quebrado apenas pelo zumbido dos ventiladores. Era a minha vez. — Dra. Anderson? — o juiz chamou, apoiando os cotovelos na mesa. — Sua vez de interrogar. Eu não me mexi. O mundo parecia ter ficado em câmara lenta. A pausa estendeu-se, estranha, longa demais. Senti a cotovelada impaciente de Evelyn no meu braço e pisquei, regressando abruptamente à realidade. — Excelência... — a minha voz saiu rouca, irreconhecível. Limpei a garganta e levantei-me, endireitando a saia. — Peço desculpa. A defesa solicita um breve recesso de dez minutos. O juiz assentiu, surpreso com a minha falha na compostura. Saí dali sem olhar para trás, em direção ao banheiro. Lá dentro, abri a torneira com força e atirei água fria ao rosto, ignorando a maquiagem. O choque térmico foi um alívio momentâneo, uma tentativa desesperada de lavar a sensação de sujeira que me subia pela pele. Encarei o meu reflexo no espelho rachado. A imagem era a de uma advogada de elite, mas os meus olhos... estavam me traindo. O rosto cínico de Evelyn pareceu sobrepor-se ao meu no reflexo. Respirei fundo, tentando silenciar a voz da consciência que ameaçava destruir minha ascensão. — Estela, não é a hora nem o momento para ter crises de moral — Sibilei para a minha própria imagem, com uma autoridade fria. — Você precisa vencer este caso. Precisa desse dinheiro. FOCO. Vencer é a única opção. Naquele momento, eu não era a advogada justa que um dia sonhei ser. Eu era a jovem marcada pelo abandono do meu pai na infância e pela traição do meu noivo. A jovem que aprendeu, da forma mais dura, que a única segurança real neste mundo é aquela que o dinheiro pode comprar. Pratiquei a minha máscara profissional: ergui o queixo, relaxei os ombros e treinei aquele olhar cortante que desarmava qualquer testemunha. A armadura estava de volta. Verifiquei se o meu coque estava perfeito. O nojo que sentia pela Evelyn foi empurrado para um canto escuro da minha mente, substituído pela necessidade imperativa de vencer. Saí do banheiro com a postura impecável e a mente programada. O recesso tinha acabado. Voltei para a mesa com o olhar frio e vazio. Eu era, novamente, a advogada que ganhava a qualquer custo. Caminhei lentamente até a tribuna. Cada passo, acentuado pelo estalo seco do meu salto alto no chão de madeira, parecia ecoar o destino inevitável do Sr. Torres. Ele parecia encolher sob o meu olhar enquanto eu me posicionava, dominando o espaço. — Senhor Torres — comecei, minha voz saindo grave e autoritária. Cada sílaba era uma peça de um quebra-cabeça que eu estava montando para prendê-lo. — O senhor nos relatou que a Sra. Brooks o enganou com o contrato. Correto? — Foi isso que eu disse! Ela me fez assinar sem... — Responda apenas sim ou não, Senhor Torres! — Minha voz cortou a dele como uma navalha. — Sim — ele murmurou, intimidado. — Mas, na verdade, sua falha em ler e compreender o documento de vinte páginas não teve a ver com complexidade técnica, mas sim com uma falha de seu próprio discernimento, não é mesmo? — Não esperei que ele processasse a pergunta. Prossegui, afirmando com autoridade: — O senhor estava CLARAMENTE interessado em outras coisas além da taxa de juros. Pelas imagens que tive acesso nota-se seu interesse romântico pela minha cliente. O rosto dele ficou vermelho-vivo. — Isso é um absurdo! Não tem nada a ver! Ignorei o protesto. Era hora de usar a informação que eu havia desenterrado meticulosamente das cinzas da vida dele. — O senhor mencionou seus filhos. Um fato lamentável. Mas concorda que o contrato com a Sra. Brooks não foi o único fator para o seu fracasso financeiro? — Fixei meus olhos nos dele, deixando claro o que vinha a seguir: Eu sei tudo sobre você. — O senhor possui um histórico de dez anos de padrões de consumo extravagantes e irresponsáveis. Hábitos que drenaram suas reservas. Inclusive... — arqueei uma sobrancelha, — eu quero anexar esse documento a defesa. As provas de que seu endividamento antecede e é paralelo à assinatura deste contrato. O advogado de acusação saltou, tentando salvar o que restava da dignidade do cliente. — Protesto! Isso é uma tática de difamação! — Indeferido. O tribunal entende que a defesa está questionando a credibilidade do requerente — o juiz respondeu, folheando as provas. — Continue, Dra. Anderson. Virei-me para o Sr. Torres. Ele estava encurralado, o suor escorrendo pela testa. Senti uma pontada de náusea, mas a sufoquei. Eu precisava vencer.Estela Anderson No dia seguinte, cheguei à empresa com folga. Faltavam alguns minutos para as nove da manhã quando saí do elevador no andar do Recursos Humanos. Eu ainda sentia um resquício do cansaço dos últimos dias de julgamento, mas a sensação de dever cumprido me mantinha de pé. Caminhei até a recepção do RH, pronta para entender do que se tratava aquela convocação de última hora. — Bom dia — cumprimentei a recepcionista com um sorriso profissional. — Sou Estela Anderson. Recebi um comunicado ontem sobre uma reunião agendada para as nove horas. A mulher ergueu os olhos, e uma expressão sutil de reconhecimento, e talvez um leve nervosismo, passou por seu rosto. Ela já parecia estar à minha espera. — Bom dia, Dra. Anderson. Sim, fomos avisados — disse ela, mantendo o tom polido. — A reunião não será realizada neste andar. A senhora foi orientada a se dirigir à sala 306 no 40º andar. Franzindo ligeiramente a testa,
Estela Anderson Finalmente, o silêncio do meu apartamento. Quando a porta se fechou atrás de mim, encostei a cabeça na madeira e soltei um suspiro longo, sentindo a euforia da vitória ainda vibrando sob a minha pele, mas agora acompanhada por uma gratidão imensa por estar em casa. Charlie ainda não tinha chegado, o que era perfeito. Eu precisava de um tempo apenas comigo e o meu triunfo. Aquele peso que eu carregava nos ombros há semanas simplesmente evaporou. "Eu venci." "Eu provei o meu valor." Fui direto para o banheiro. Tomei um banho demorado, deixando a água quente lavar não apenas o suor e o cansaço do tribunal, mas toda a tensão acumulada. Vesti meu pijama mais confortável, aquele de seda que me fazia sentir abraçada, e fui para a cozinha. Pela primeira vez em dias, senti uma fome real. Preparei um lanche caprichado, saboreando cada mordida sem a pressa das reuniões ou a ansiedade dos prazos. Assim que terminei, arrastei-me até a cama. Meus o
Dominic Stone Assim que Estela saiu da sala, a atmosfera de celebração se tornou irrelevante para mim. Eu não precisava de champanhe ou de tapinhas nas costas, eu já tinha conseguido o que queria. Saí do escritório do meu pai logo após Estela se retirar e fui até a mesa da secretária.— Rosely, os papéis que a Dra. Anderson acabou de entregar. Agora — ordenei, sem sequer olhá-la nos olhos. Ela me entregou a pasta com as mãos levemente trêmulas.Abri a pasta com calma. Folheei folha por folha até encontrar a nona. Lá estava, a assinatura dela, firme e elegante.Retirei o contrato de casamento com cuidado, fechei a pasta e a coloquei de volta na mesa.Caminhei até o meu escritório e fechei a porta. O silêncio daquela sala era o cenário perfeito para o meu triunfo. Sentei-me na minha poltrona de couro, deslizando os dedos sobre o nome dela no papel. Peguei o celular e disquei para Maycon.— Feito. Ela já assinou — anunciei, minha voz carregada de uma satisfação gélida.Ouvi
John Stone, Dominic, Richard e Thomas se entreolharam. Eu via as engrenagens nas cabeças deles girando. Não era o que esperavam ouvir em uma comemoração, mas a lógica comercial e de imagem era impecável.John assentiu.— Brilhante! É exatamente o que precisamos! Eliminamos o risco futuro e limpamos nosso nome de uma vez por todas.Richard e Thomas concordaram imediatamente, murmurando sobre como aquela era uma saída inteligente.Dominic, porém, foi quem reagiu de forma mais intensa. Ele pegou sua taça e se aproximou de mim, reduzindo o espaço pessoal. Seus olhos brilhavam de uma forma que me causou um calafrio, e aquele sorriso de canto, surgiu em seu rosto.— Estela, Estela... você sempre me surpreendendo. Boas ações para gerar empatia... Não apenas advogada, mas estrategista de relações públicas. Você é muito mais visionária do que eu pensava.John Stone, levantou a taça novamente, chamando a atenção de todos.— É isso! — declarou ele. — Estela já tem a visão de uma
Assim que passamos pelas portas de vidro do prédio, o barulho da rua foi abafado, e eu finalmente consegui respirar fundo, sentindo o silêncio do hall de entrada como um bálsamo para os meus nervos.No entanto, assim que continuei a caminhar, uma tontura me invadiu. Senti tudo rodar e minhas vistas se escureceram por um instante. Tive que parar bruscamente e me escorar em alguém para não cair. Foi então que a ficha caiu: eu mal havia me alimentado direito nos últimos dias. — Estela? O que houve? — Ouvi a voz preocupada de Thomas me perguntando.Abri os olhos devagar e vi que todos estavam me encarando com expressões de preocupação. Thomas segurava meu braço com firmeza. Ele, que sempre mantinha aquela postura fria e metódica, agora parecia realmente apreensivo comigo.— Me desculpem, eu estou bem. Acho que foi apenas a emoção da vitória — eu disse, forçando um sorriso para tranquilizá-los.— Calma, ainda precisamo
Os doze jurados se levantaram e foram escoltados para a sala de deliberação. O destino da Stone & Construction, e o meu próprio futuro, agora estava nas mãos deles. O tribunal foi liberado enquanto o júri se retirava. A sala de audiências esvaziou-se lentamente, mas Dominic, Thomas, John e eu permanecemos em uma das salas de conferência, aguardando. O ambiente estava carregado de uma tensão que era quase audível. O sucesso ou o fracasso estava agora nas mãos de doze estranhos, e o meu trabalho tinha terminado. Eu não podia fazer mais nada a não ser esperar. Dominic estava sentado em uma poltrona de couro, aparentemente calmo, mas notei que sua perna balançava imperceptivelmente. Eu, por outro lado, estava à beira de um ataque de nervos. Andava pela sala, revisando mentalmente cada palavra do meu argumento final, cada vírgula, cada olhar que troquei com os j







