INICIAR SESIÓNFinalmente, eu estava a caminho de casa.
Minhas mãos ainda tremiam ao lembrar do que havia acontecido no clube, mas eu as apertava juntas para tentar conter um pouco o medo que ainda sentia.
Olhei para o meu relógio, o último objeto que minha mãe havia deixado, o único que consegui recuperar antes que minha madrasta, Diane, o destruísse, e busquei conforto nele.
Durante todo o caminho, fiquei pensando naquele homem louco e assustador.
Eu não me lembrava de tê-lo visto no clube antes. Um homem bonito como aquele seria impossível de ser esquecido. Porém, nem toda a sua beleza faria desaparecer o gosto ruim que ele me deixou.
“Aquele homem era completamente louco. Quem era ele?” pensei irritada ao lembrar da maneira como ele me comparou a um esquilo, como se me conhecesse.
Mas também, havia aquela promessa estranha que ainda me causava arrepios por todo o corpo. Aquele homem definitivamente era perigoso. Seu rosto sujo de sangue estava gravado na minha mente, como um lembrete medonho de como o mundo era assustador.
Por mais que aquele homem tivesse me assustado e mexido comigo, a probabilidade de encontrá-lo novamente era muito baixa. Bem diferente do pesadelo que me esperava.
A casa, que um dia eu chamei de lar, parecia um monumento sombrio a toda a desgraça que havia se instalado na minha vida.
Peckham, um bairro ao sul de Londres muito conhecido pela sua grande diversidade. Durante o dia, o bairro é cheio de vida, com mercados multiculturais, crianças correndo e brincando, e vendedores gritando das calçadas. Um grande contraste com a vida noturna daquele lugar.
O silêncio pesado, becos escuros, prédios antigos com suas fachadas desgastadas que parecem esconder segredos sinistros. À noite, o som de sirenes distantes e latidos de cachorros ecoam, enquanto postes de luz piscam, deixando trechos da rua na penumbra.
Minha casa ficava em uma das ruas laterais. Um estilo vitoriano que já teve seus dias de glória.
Suspirei olhando a casa. A pintura descascando, sinais de apodrecimento na madeira da varanda e janelas imundas. Qualquer um diria que aquela era uma das muitas construções abandonadas, mas era onde eu vivia com Diane, minha madrasta, e o filho dela, Liam.
Depois da morte do meu pai, Diane dividiu a casa para alugar, mas estava cada vez mais difícil encontrar inquilinos, o que nos deixava em uma situação cada vez pior.
Diane e Liam não trabalhavam, eu era a única provendo na casa e lidando com as contas. Nem mesmo os trabalhos domésticos básicos eles faziam, estavam mais preocupados em aparecer diante das pessoas como se fossem ricos, gastando o dinheiro que não tínhamos com roupas, maquiagens e acessórios caros.
Não fazia ideia de onde eles estavam tirando aquele dinheiro e, sinceramente, contanto que eles não me envolvessem, eu não ligava. Minha preocupação era me formar na faculdade de enfermagem e sair daquela casa, mas com o salário do Shadow of Sophia, seria impossível.
Eu tinha um plano, mas as pedras no meu caminho dificultavam cada dia mais que eu o concretizasse.
Assim que abri a porta, o alto rangido das dobradiças ecoou como um aviso sombrio. Diane apareceu em um vestido que não condizia com sua idade de 47 anos. Seus saltos estalavam na madeira do assoalho quando ela andava. Seus olhos azuis e frios me olharam dos pés à cabeça enquanto ela arrumava seu cabelo loiro, preso em um coque Chanel.
“Minha querida,” ela disse com seu sorriso manipulador levemente de lado. “Como foi o trabalho? Recebeu boas gorjetas?”
Eu conhecia bem aquela conversa e aquele sorriso. Sempre que Diane queria algo ou mentia, seu sorriso falso entortava levemente para a esquerda, algo que eu rapidamente aprendi a notar.
Coloquei minha bolsa sobre a cadeira de estofado verde, uma das peças de decoração duvidosa que Diane adorava, e fui para a cozinha pegar um copo de água. O corte na minha mão, do incidente no clube, latejava enquanto eu segurava o copo. Eu podia ouvir o som daqueles terríveis saltos me seguindo como uma maldita sombra.
“O movimento hoje não foi bem, por isso não recebi muito, mas vai dar para juntar com o da semana passada e pagar uma das contas em atraso,” falei, tentando manter a voz firme. Ela bufou atrás de mim.
“Isso é ridículo!” a voz de Diane subiu, furiosa. “Apenas me dê a droga do dinheiro e vê se trabalha mais. Não podemos viver assim.”
Respirei fundo, sabendo exatamente para que aquela mulher queria o dinheiro. Ela o gastaria com roupas ou se divertindo com algum menino com menos da metade da sua idade, assim como fez com a herança que meu pai havia nos deixado.
Olhei sobre o ombro e ela estava acendendo um cigarro, sua expressão furiosa enquanto resmungava algo sobre ser boa demais para aquela vida.
Apenas passei por ela, ignorando suas reclamações. Eu só queria ir para o meu quarto e dormir um pouco, mas assim que me virei em direção à escada, dei de cara com Liam descendo.
Por mais que sua personalidade fosse idêntica à de sua mãe, a aparência dele era completamente diferente. Com cabelos castanhos claros e olhos castanhos, ele encantava as jovens inocentes e ricas para que lhe dessem presentes e até mesadas. E o que elas mais gostavam era uma cicatriz que ele tinha no canto da boca.
A história que Liam contava era que ele havia entrado em uma briga com um membro de gangue, mas a verdade era que ele havia caído da bicicleta quando tinha onze anos e aberto o lábio.
Tentei passar por ele, me espremendo entre seu corpo musculoso e alto e a parede, mas ele agarrou meu cotovelo, me impedindo de prosseguir.
“Por que a pressa, irmãzinha?”
Aquele sorriso até poderia conquistar quem não o conhecia, mas a mim causava apenas nojo e repulsa. Seu aperto aumentou, me machucando. Ele aproximou o rosto, seu olhar me causava tremores por conta das sombras que dançavam nele.
“Estou cansada, Liam. Amanhã preciso acordar cedo para o trabalho.” Ele estalou a língua, me soltando de forma brusca, quase me fazendo cair da escada.
“Aquele lugar paga uma miséria. Como espera que vivamos com as esmolas que você ganha?” Seu sorriso aumentou. Ele se inclinou, aproximando o rosto do meu. “Você tem muito potencial para ganhar muito dinheiro, irmãzinha. Posso te apresenta para alguns amigos.”
A risada de Diana ecoou pela casa. Trazendo um arrepio de medo por todo o meu corpo. Minhas pernas tremeram enquanto Liam apertava mais sua mão, me puxando para ele. O cheiro de cigarro me atingiu, a fumaça densa nos rodeava. Mãos translúcidas com longos dedos que tentavam alcançar minha garganta.
“Não diga tolices, Liam. Nossa Liliam não pode se sujar.”
Puxei meu braço com força, escapando de Liam. Apertei o relógio no meu pulso, tentando acalmar a minha mente enquanto subia rapidamente as escadas.
Enquanto eu subia as escadas, o rangido do assoalho ecoando como um lamento, ouvi-os discutir. Diane queria parte do dinheiro que Liam havia ganho de uma de suas namoradas, mas ele se recusava a dar e dizia estar atrasado para um encontro.
Com a mão na maçaneta do meu quarto, o cheiro de cigarro de Diane invadindo o corredor, ouvi-a gritar no andar de baixo. “É tudo culpa do infeliz do James. Se não tivesse deixado aquela miséria, estaríamos vivendo como a realeza.” O tom de desdém, o completo desrespeito que Diane tinha pela memória do meu pai, fazia o meu sangue ferver.
Toquei o relógio no meu pulso, sentindo a dor da perda, e me virei, disposta a jogar tudo para o alto e confrontá-la, mas minhas pernas congelaram quando ela continuou falando. “Pelo menos aquela putinha vai ser útil para alguma coisa. Aquele cara pagou um bom preço por ela, e nós vamos poder aproveitar mais a vida, como merecemos.”
Meu sangue pareceu congelar em minhas veias.
Cobri minha boca com a mão e dei alguns passos para trás, batendo com as costas na parede do corredor. Escorreguei, sentando no chão de carpete sujo, tomado pela poeira. Uma lágrima rolou pelo meu rosto, o pânico crescendo no meu peito.
Eu tinha um péssimo pressentimento.
Algo estava prestes a acontecer comigo e eu não poderia imaginar o quanto minha vida ainda podia mudar.
Em um piscar de olhos, um ano havia se passado. Os preparativos para o casamento estavam sendo finalizados. Cassian foi até a casa do meu avô, para pedir formalmente a minha mão em casamento e receber a bênção dele. Amy e Chloe estavam comigo quando escolhi o meu vestido, elas seriam as minhas damas de honra e todo o processo do casamento estava sendo maravilhoso, até a manhã da semana que antecedia o grande dia. Eu estava no apartamento de Cassian, pois, como ficava no centro, era mais fácil me locomover para a faculdade e para resolver os preparativos do casamento. Fui acordada com uma grande confusão, gritos e o som de coisas sendo quebradas vinha da sala. “O que está acontecendo?” perguntei enquanto saía do quarto, amarrando meu hobby e correndo na direção do barulho, mas eu não estava preparada para o que eu vi. Rebecca Shaw estava segurando um vaso, arremessando contra os seguranças que tentavam contê-la, mas o que mais me chocou foi a sua aparência. Roupas gastas, cabelos
Eu compreendia a preocupação do meu avô, mas não consegui evitar ficar irritada com suas palavras. Cassian não me tratava daquela maneira, suas ações eram claras, mesmo que ele não dissesse abertamente que me amava, eu conseguia sentir aquele sentimento em cada olhar, cada toque, cada palavra sussurrada em meus ouvidos.Me levantei, irritada com o rumo que aquela conversa havia tomado.“Não sei como era o pai de Cassian, mas está claro que o senhor o está confundindo Cassian com ele.” disse com a voz firme, olhando para o homem com expressão séria e fria diante de mim. “Cassian não é esse tipo de homem e o senhor não pode me impedir de estar ao lado dele.”“Minha criança, eu não a estou proibindo de vê-lo.” Meu avô estendeu sua mão na minha direção. Por um momento, pensei em recusá-lo, mas meu coração ficou pesado e eu aceitei, voltando a me sentar no sofá. “Sim, eu conheci o antigo Boss e sei que Cassian Moore não tem nada de seu pai. Mas o ato dele assumir uma relação com você, minh
Eu poderia me perder dentro daquela tempestade e não me arrependeria. Seu sorriso de lado, provocativo, me desafiando a desaparecer com a distância entre nossos lábios enquanto seu perfume quente me cercava, arrepiando minha pele com o calor de seu corpo. Estendi meus braços, tocando de forma desajeitada seu rosto, sentindo a aspereza de sua barba com as pontas dos meus dedos. A posição em que estávamos me lembrou dos filmes de super-heróis americanos, o que me fez sorrir com a comparação. Acredito que Cassian estaria mais para um anti-herói do que um dos mocinhos. “Por que você sumiu por tanto tempo?” questionei, entrelaçando meus dedos em seu
Os homens de Cassian levaram Daniel para fora, jogando-o dentro de uma van vermelha. Meu avô permaneceu em completo silêncio durante todo aquele tempo, observando com o maxilar tenso os nós de seus dedos brancos por conta da força com a qual ele segurava sua bengala. Me aproximei, tocando sua pele fria com as pontas dos meus dedos. Ele me olhou por um longo momento e suspirou, como se estivesse cansado demais, derrotado. “Agora eu consigo compreender.” ele disse com um sussurro baixo. Ele cobriu minha mão com a dele, dando tapinhas leves. “Era disso que ela estava fugindo.” “A mamãe era uma mulher forte, ela sempre foi, mesmo em seus últimos momentos.” disse, te
“É mentira, você nunca teria capacidade para fazer algo assim?” tombei a cabeça de lado e estendi minha mão na direção de Diane. Seus olhos se arregalaram enquanto eu agarrava seus cabelos com força e os puxava para cima. “Me solta! Isso dói!” “Eu peguei uma faca de pão, aproveitando um descuido de Daniel quando ele me levou comida e a escondi. Lian apareceu, bêbado, acreditando que eu estaria fraca e vulnerável demais para me defender.” Puxei os cabelos de Diane com mais força, expondo seu pescoço e apontando a arma para o lugar exato onde apunhalei Lian. “Foi bem aqui. O sangue se espalhou rápido pelo chão enquanto ele tentava cobrir as feridas com as mãos.”
Tentei me levantar e correr, mas Daniel agarrou meu cabelo, me puxando de volta e me jogando no chão, para longe da porta da frente. Caí sobre o ombro, o som seco da batida do meu corpo contra o piso liso.“Daniel, por favor.” tentei falar, mas fui silenciada com um forte tapa no meu rosto.Minha visão escureceu, a sensação fria do piso contra o meu rosto enquanto um zumbido fino ecoava em meus ouvidos.“Você fugiu de mim, Lilian. Da única pessoa que te ama em todo esse mundo.” Ele voltou a agarrar os meus cabelos, me puxando para cima. “Você precisa aprender que não pode fazer esse tipo de coisa.”“E você vai aprender a implorar pela sua vida.”