ANMELDENNão podia ficar ali, logo alguém subiria e, se me vissem naquela situação, poderia ser pior. Minha mão latejava, o corte havia aberto e o sangue corria quente pela ferida.
Voltei para o meu quarto, trancando a porta e passando a tranca que eu havia instalado após uma noite em que Liam chegou bêbado e tentou arrombar a minha porta.
Fui até meu armário, pegando o pequeno kit de primeiros socorros que montei depois que Diane “acidentalmente” me empurrou dos últimos degraus da escada. Ainda me faltavam algumas coisas, mas consegui fazer um curativo provisório até conseguir ir a um hospital, ou a farmácia.
Sentada na cama, respirei fundo, secando minhas lágrimas. O que eu esperava? Diane só me via como uma forma de ter dinheiro sem precisar levantar do seu sofá brega. Desde que meu pai a apresentou como sua noiva, eu senti algo estranho nela, mas ainda tentei criar algum tipo de relacionamento.
Claro, ela jamais tomaria o lugar da minha mãe, mas nada impedia que nos dessemos bem, já que ela, na época, era a noiva do meu pai.
Puxei uma foto que eu escondia da minha mãe. Ela tinha de ficar dentro de um livro, na minha mesa de cabeceira, para que Diane jamais a encontrasse.
Toquei o rosto sorridente na foto, sua grande barriga coberta por um vestido amarelo-claro que parecia uma extensão de seus longos cabelos dourados ondulados. Seus olhos de um profundo azul-escuro transmitiam tanta alegria e gentileza. Eu sentia falta deles, de seu toque amoroso.
“Teria sido tão diferente com você aqui, mamãe.” sussurrei, sentindo um nó se formando na minha garganta.
As lembranças de nós três, antes da minha mãe ficar doente, brincando no parque. Meu pai empurrando o balanço enquanto minha mãe gritava para ele ter cuidado. As risadas altas pela casa enquanto eu corria, fugindo do banho enquanto minha mãe me perseguia com a toalha nas mãos.
Um soluço baixo me escapou e mordi o lábio, tentando contê-lo.
“Sinto tanto a falta de vocês, papai… mamãe.”
Meu peito se apertou. A dor sempre ali, na superfície, arranhando a minha pele, pronta para sair. Abracei meu corpo, me envolvendo como se para manter unido o que restava de mim.
O som de sirenes distantes ecoava em Peckham, um lembrete constante dos perigos que espreitavam lá fora.
Um carro preto estacionou na rua, os faróis apagando lentamente, e meu coração disparou. Rapidamente me afastei da janela, fechando as cortinas, como se aquela barreira de tecido fino fosse o suficiente para me afastar das desgraças que rondavam na noite.
O som de paços no corredor, se aproximando da porta do meu quarto, me deixaram em alerta. Me apoiei contra a madeira marcada pelo tempo. O cheiro forte do cigarro, a fumaça entrando pelas frestas, o som dos saltos afundando no carpete, como uma música sinistra de um preságio ruim.
“Liliam, querida. Você tem visitas.” a voz enjoativamente doce de Diana me fez tremer. Olhei para o relógio, vendo que já passada da 01 am. Engoli em seco, pressionando minhas mãos contra a porta com mais força.
“Não estou esperando visitas.” respondi mantendo a voz firme.
As palavras de Diane ecoavam na minha mente. Ela havia me vendido e tudo indicava que a tal visita era essa pessoa. Voltei para a janela, meu coração disparado. Olhei para baixo, pensando se seria possível saltar do segundo andar da casa e não ter ferimentos graves na queda.
“Merda…” disse entre os dentes.
Não dava tempo de montar uma corda para escapar e eu não conseguiria fugir se quebrasse minha perna na queda. Diane bateu com mais força na minha porta, me assustando.
“Saia agora, sua putinha de merda!”
A porta balançava com violência, o trinco lutando bravamente para mantê-la no lugar enquanto as dobradiças rangiam. Eu não tinha onde me esconder e nem para onde fugir.
Olhei novamente para a janela, o coração acelerado, a respiração presa na garganta enquanto eu pensava no que eu seria capaz de fazer para escapar daquele inferno.
De repente, as dobradiças se quebraram com um forte impacto. Liam empurrou a madeira para o lado, seus olhos castanhos frios e sorriso de lado me fazendo dar um paço para trás.
Ele ergueu um dedo, o movendo em negativa. “Nem pense nisso. Mesmo quebrada, você ainda vale alguma coisa.”
Me joguei no chão, caindo de joelhos diante deles. “Não façam isso comigo, por favor.”
Diane entrou no quarto sorrindo de uma orelha a outro. Mas logo sua expressão mudou quando ela percebeu a foto da minha mãe sobre a cama. Seu rosto ficou vermelho, seu peito subindo e descendo com a respiração irregular enquanto ela avançava na minha direção, agarrando meus cabelos e os puxando com força.
Eu gritei, agarrando seu pulso, tentando me libertar enquanto era arrastada para fora do quarto.
“Como você ousa?! Eu te criei, sua ingrata!” Diane gritava enquanto me puxava. Me debati, tentei me segurar no batente da porta, mas Liam chutou minha mão com força.
“Você não pode fazer isso comigo!” tentei segurar no aparador do corredor, que caiu no chão, derrubando tudo o que estava sobre ele. “Me solta!”
Não importava o quanto eu lutasse, o quanto eu implorasse, Diana continuou a me puxar. Minha cabeça doía. Seus dedos apertando meu couro cabeludo, prestes a arrancar meus cabelos.
Os degraus batiam contra as minhas costas com violência, meus dedos escorregando pelas grades do corrimão enquanto as lágrimas corriam pelo meu rosto. Já não suportava mais aquilo.
Quando chegamos ao térreo, alguém bateu na porta. Um sorriso grotesco surgiu no rosto de Diana.
“Como eu disse, você tem visitas e é melhor cooperar sem causar problemas.”
No segundo que ela me soltou, tentei correr para a cozinha, mas Liam desferiu um forte soco na minha barriga que me fez vomitar e sair de joelhos, abraçando meu estômago.
“Será que você é tão burra que não consegue seguir uma ordem tão simples?” ele disse, o desdém transbordando de suas palavras. “Seja realmente útil, ao menos uma vez nessa sua vida de merda.”
A porta da frente rangeu.
Ergui meus olhos, meu corpo tremendo com espasmos e dor. Fiquei ali, de joelhos, vendo um homem alto e muito forte na soleira da porta. Na escuridão que o cobria, não consegui ver detalhes de seu rosto, mas eu sentia uma pressão esmagadora ao perceber que ele estava me olhando.
Minha voz morreu, prendi a respiração com o medo que me consumia. O homem deu um passo a frente, seu olhar jamais se desviando de mim.
“Como o combinado. Ela resistiu um pouco, então tivemos que discipliná-la, mas no geral está be…” antes que Diane terminasse de falar, o homem lhe deu um forte tapa, que a fez cair no chão.
Liam correu para socorrer a mãe que segurava a boca, o sangue escorrendo por seus dedos.
“Foi dada uma ordem clara que ela não deveria ser tocada.” a voz fria e ameaçadora do homem fez parecer que até as paredes tremiam de medo dele.
Diana e Liam ficaram pálidos e mudos. O homem agarrou meu braço, me puxando para que eu ficasse de pé. Segurei sua mão, levando o último fio de esperança que eu tinha até minhas palavras.
“Por favor…” engoli em seco, tentando conter o tremor da minha voz. “Por favor, eu não tenho nada a ver com isso.”
“Não é problema meu. Agora ande logo, o Boss está esperando.” o homem puxou do bolso um lacre preto, envolvendo meus pulsos com ele.
Ao ouvir o termo “Boss” todo o meu corpo pareceu amolecer. Minhas pernas falharam e tropecei, sendo arrastada pelo homem até o carro preto que eu havia visto da minha janela.
Não havia como fugir quando o chefe da máfia te chama. Diana não só havia me vendido, como me vendeu para o homem mais perigoso de toda a Londres. O corvo de olhos vermelhos.
Em um piscar de olhos, um ano havia se passado. Os preparativos para o casamento estavam sendo finalizados. Cassian foi até a casa do meu avô, para pedir formalmente a minha mão em casamento e receber a bênção dele. Amy e Chloe estavam comigo quando escolhi o meu vestido, elas seriam as minhas damas de honra e todo o processo do casamento estava sendo maravilhoso, até a manhã da semana que antecedia o grande dia. Eu estava no apartamento de Cassian, pois, como ficava no centro, era mais fácil me locomover para a faculdade e para resolver os preparativos do casamento. Fui acordada com uma grande confusão, gritos e o som de coisas sendo quebradas vinha da sala. “O que está acontecendo?” perguntei enquanto saía do quarto, amarrando meu hobby e correndo na direção do barulho, mas eu não estava preparada para o que eu vi. Rebecca Shaw estava segurando um vaso, arremessando contra os seguranças que tentavam contê-la, mas o que mais me chocou foi a sua aparência. Roupas gastas, cabelos
Eu compreendia a preocupação do meu avô, mas não consegui evitar ficar irritada com suas palavras. Cassian não me tratava daquela maneira, suas ações eram claras, mesmo que ele não dissesse abertamente que me amava, eu conseguia sentir aquele sentimento em cada olhar, cada toque, cada palavra sussurrada em meus ouvidos.Me levantei, irritada com o rumo que aquela conversa havia tomado.“Não sei como era o pai de Cassian, mas está claro que o senhor o está confundindo Cassian com ele.” disse com a voz firme, olhando para o homem com expressão séria e fria diante de mim. “Cassian não é esse tipo de homem e o senhor não pode me impedir de estar ao lado dele.”“Minha criança, eu não a estou proibindo de vê-lo.” Meu avô estendeu sua mão na minha direção. Por um momento, pensei em recusá-lo, mas meu coração ficou pesado e eu aceitei, voltando a me sentar no sofá. “Sim, eu conheci o antigo Boss e sei que Cassian Moore não tem nada de seu pai. Mas o ato dele assumir uma relação com você, minh
Eu poderia me perder dentro daquela tempestade e não me arrependeria. Seu sorriso de lado, provocativo, me desafiando a desaparecer com a distância entre nossos lábios enquanto seu perfume quente me cercava, arrepiando minha pele com o calor de seu corpo. Estendi meus braços, tocando de forma desajeitada seu rosto, sentindo a aspereza de sua barba com as pontas dos meus dedos. A posição em que estávamos me lembrou dos filmes de super-heróis americanos, o que me fez sorrir com a comparação. Acredito que Cassian estaria mais para um anti-herói do que um dos mocinhos. “Por que você sumiu por tanto tempo?” questionei, entrelaçando meus dedos em seu
Os homens de Cassian levaram Daniel para fora, jogando-o dentro de uma van vermelha. Meu avô permaneceu em completo silêncio durante todo aquele tempo, observando com o maxilar tenso os nós de seus dedos brancos por conta da força com a qual ele segurava sua bengala. Me aproximei, tocando sua pele fria com as pontas dos meus dedos. Ele me olhou por um longo momento e suspirou, como se estivesse cansado demais, derrotado. “Agora eu consigo compreender.” ele disse com um sussurro baixo. Ele cobriu minha mão com a dele, dando tapinhas leves. “Era disso que ela estava fugindo.” “A mamãe era uma mulher forte, ela sempre foi, mesmo em seus últimos momentos.” disse, te
“É mentira, você nunca teria capacidade para fazer algo assim?” tombei a cabeça de lado e estendi minha mão na direção de Diane. Seus olhos se arregalaram enquanto eu agarrava seus cabelos com força e os puxava para cima. “Me solta! Isso dói!” “Eu peguei uma faca de pão, aproveitando um descuido de Daniel quando ele me levou comida e a escondi. Lian apareceu, bêbado, acreditando que eu estaria fraca e vulnerável demais para me defender.” Puxei os cabelos de Diane com mais força, expondo seu pescoço e apontando a arma para o lugar exato onde apunhalei Lian. “Foi bem aqui. O sangue se espalhou rápido pelo chão enquanto ele tentava cobrir as feridas com as mãos.”
Tentei me levantar e correr, mas Daniel agarrou meu cabelo, me puxando de volta e me jogando no chão, para longe da porta da frente. Caí sobre o ombro, o som seco da batida do meu corpo contra o piso liso.“Daniel, por favor.” tentei falar, mas fui silenciada com um forte tapa no meu rosto.Minha visão escureceu, a sensação fria do piso contra o meu rosto enquanto um zumbido fino ecoava em meus ouvidos.“Você fugiu de mim, Lilian. Da única pessoa que te ama em todo esse mundo.” Ele voltou a agarrar os meus cabelos, me puxando para cima. “Você precisa aprender que não pode fazer esse tipo de coisa.”“E você vai aprender a implorar pela sua vida.”