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Capítulo 8

Author: Liliana Souza
Liliana permanecia sentada no banco frio da delegacia, o corpo ainda tremendo de forma incontrolável sob o tecido pesado do casaco que uma policial lhe havia oferecido. A poucos metros dali, os delinquentes que a atacaram estavam agachados num canto, ouvindo as reprimendas severas dos oficiais.

Quando Pedro chegou, apressado, deparou-se imediatamente com o estado deplorável da noiva, o sangue ainda minava dos ferimentos abertos em suas mãos, o tornozelo direito exibia um inchaço alarmante e a barra do vestido estava imunda, manchada de terra e restos de grama. Ele franziu a testa, desgostoso, e se agachou rapidamente à frente dela.

— Liliana, o que aconteceu desta vez? — Perguntou Pedro, com um tom de impaciência na voz. — Você arranjou confusão de novo?

Ao receber a ligação da delegacia, ele sequer esperou pelos detalhes. A irritação por ter sua rotina interrompida falou mais alto enquanto dirigia até lá.

Liliana ergueu o rosto, revelando olhos que pareciam dois poços vazios, desprovidos de qualquer brilho. Se ela não tivesse resistido desesperadamente até conseguir tatear o celular caído no chão, e se uma viatura não estivesse passando naquele exato momento, o desfecho daquela noite teria sido trágico. No entanto, a primeira reação de Pedro foi presumir que a culpa era dela.

Ela forçou um sorriso, mas as lágrimas traíram seu esforço, escorrendo sem parar por suas faces pálidas. Aquela expressão de dor silenciosa provocou um aperto estranho e inexplicável no peito de Pedro. Ele abriu a boca para dizer algo, talvez para suavizar o tom, mas foi interrompido por um policial que se aproximou, indicando que já podiam ir embora.

Sem hesitar um segundo, Liliana se levantou e caminhou em direção à saída, mancando levemente. Pedro agradeceu ao oficial com um aceno breve e apressou o passo para alcançá-la. Ele estendeu a mão para segurar o pulso dela, na intenção de ampará-la, mas recuou instantaneamente ao notar a pele esfolada e o sangue seco que contrastava de maneira chocante com a tez alva.

Seus cílios tremeram, denunciando um breve momento de desconforto.

— Como você conseguiu se machucar desse jeito? — Indagou ele.

Liliana não respondeu. Apenas continuou caminhando em silêncio, fitando o horizonte noturno.

A falta de resposta fez brotar uma irritação crescente em Pedro. Ele não conseguia decifrar aquele comportamento; não sabia que tipo de birra ela estava fazendo, mas aquela frieza, aquela barreira invisível que ela erguera, o deixava profundamente incomodado.

— Esquece. Te levo para casa. — Bufou ele, resignado, guiando-a até o carro.

Durante todo o trajeto de volta, Liliana se manteve muda. Para Pedro, aquela quietude era excessiva e perturbadora. Antigamente, sempre que se metia em problemas, ela fazia um escândalo, chorava alto e exigia que ele resolvesse tudo. Hoje, porém, parecia que a alma dela havia sido drenada do corpo.

O clima dentro do veículo se tornou sufocante, pesado como chumbo, e nem uma única palavra foi trocada até estacionarem em frente ao prédio dela.

— Liliana. — Chamou Pedro quando ela abriu a porta do carro.

Ela olhou para trás por um instante, sem expressão, e seguiu para dentro do edifício. Pedro a seguiu. Poucos minutos depois, para a surpresa dele, Liliana retornou à sala trazendo uma pilha de objetos nos braços. Eram todos os presentes que ele lhe dera ao longo dos anos.

Diante do olhar atônito do noivo, ela jogou tudo dentro de uma lixeira de metal decorativa e, com um movimento decidido, acendeu o isqueiro.

As chamas lamberam o papel de presente, estalando e consumindo as caixas com voracidade. Pedro ficou paralisado por um momento, até que a indignação o fez reagir. Ele deu um passo à frente.

— O que você está fazendo? Ficou louca?

— Ontem, quando você não apareceu no cemitério... onde você estava? — Perguntou Liliana, fixando os olhos nele, determinada a capturar qualquer mico expressão em seu rosto.

O olhar de Pedro vacilou. Ele suspirou, desviando o foco para a fogueira improvisada.

— Tive uma emergência na empresa e acabei ficando preso lá. — Mentiu ele. — É por isso que você está agindo assim?

O rosto de Liliana, já pálido, perdeu o restante da cor. A última centelha de esperança que ainda residia no fundo de sua alma se apagou definitivamente. Ela não o questionou mais. Apenas desviou o olhar e observou o fogo devorar aquilo que, um dia, ela tratara como seus tesouros mais preciosos, até que tudo se transformasse em uma montanha de cinzas cinzentas.

— Já descarregou a raiva? — Perguntou Pedro, num tom de quem testa o terreno.

Antes que ela pudesse responder, o celular dele tocou. Ele atendeu, trocou algumas frases curtas e sua expressão mudou, tornando-se ansiosa. Desligou rapidamente e se voltou para Liliana.

— Olha, tudo isso que você queimou... vou pedir para minha assistente comprar tudo de novo e mandar entregar aqui.

— Não precisa. — Respondeu Liliana, com a voz rouca e desgastada. — Eu não preciso mais de nada disso.

O coração de Pedro falhou uma batida, uma sensação ruim que ele preferiu ignorar, atribuindo tudo ao drama habitual dela. Ele massageou as têmporas, cansado.

— Tudo bem. Quando você se mudar para a minha casa depois do casamento, eu compro o que você quiser. — Ele checou as mensagens no celular mais uma vez, e seus pés já se moviam involuntariamente em direção à porta. — Tenho um compromisso urgente agora. E como faltam três dias para a cerimônia, não é bom que os noivos se vejam. Então, não vou te visitar nesses dias.

Já na soleira da porta, ele parou e olhou para trás, a impaciência transbordando na voz:

— Liliana, vê se amadurece. Eu não posso ficar limpando a sua bagunça para sempre.

Dito isso, ele girou os calcanhares e saiu em passos largos, sem olhar para trás.

Liliana permaneceu imóvel, observando as costas dele desaparecerem no corredor. Um sorriso amargo, carregado de dor e libertação, curvou seus lábios.

— Adeus, Pedro.

Sua voz saiu leve como um sopro, dissipando-se no ar assim que foi pronunciada. Pedro, que já estava perto do elevador, pareceu hesitar por uma fração de segundo, como se tivesse ouvido algo, mas logo retomou a caminhada, convencido de que fora apenas impressão.

Sozinha, Liliana sacou o celular. A mensagem de Joaquim brilhava na tela: [Um bilhão já foi transferido. Saia do país antes do casamento.]

Com uma calma metódica, ela terminou de empacotar seus poucos pertences essenciais. Deixou as chaves e a procuração do apartamento para Susana resolver e seguiu direto para o aeroporto. Não havia mais nada que a prendesse ali.

No terminal de embarque, parou diante de uma lixeira. Retirou o chip do celular, partiu-o ao meio com força e jogou os pedaços fora, caminhando em seguida para o portão de embarque sem olhar para trás uma única vez.

Quando o avião taxiou, ganhou velocidade e finalmente rasgou as nuvens, a cidade lá embaixo foi se reduzindo a um pontinho insignificante até desaparecer por completo.

A partir daquele momento, montanhas e oceanos a separariam daquela vida. Não havia mais volta, nem laços, nem dívidas.
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