INICIAR SESIÓNO interior da nave não parecia um refúgio. Parecia um erro caro demais para admitir falha.
O ar dentro da nave tinha cheiro de metal limpo. Não era desagradável. As portas se fecharam atrás de nós com um som limpo, quase elegante, e o ruído da cidade morreu do lado de fora como se nunca tivesse existido. A luz branca permaneceu constante, forte demais para ser acolhedora. — Não solta a minha mão — Lisa disse às minhas irmãs, sem saber se falava para ela ou para mim. Camila encostada em meu ombro. O corpo pequeno estava quente, pesado, confiando em mim de um jeito que me deu vontade de gritar. Diana permanecia alerta, os olhos correndo de um lado para o outro, absorvendo tudo com uma atenção tensa. O túnel se abriu em um corredor largo, curvo, que parecia não ter fim. Não havia cantos. Nada ali era reto o suficiente para servir de referência. As paredes pareciam se mover levemente conforme caminhávamos, criando a sensação de que o espaço estava sempre se ajustando a nós. As pessoas caminhavam em silêncio, guiadas por linhas luminosas no chão. Setas suaves. Tons claros de azul e verde. Cores associadas à calma, à confiança, à obediência. Tudo ali tinha sido estudado. Testado. Aprovado. Tudo ali era feito para não provocar medo. Funcionava. As pessoas avançavam em silêncio. Não porque alguém tivesse pedido silêncio, mas porque provavelmente ninguém sabia o que dizer. O ar mudou de imediato. Mais leve. Mais frio. Artificialmente perfeito. Lisa sentiu o corpo reagir antes da mente. — Máscaras podem ser removidas — anunciou a voz da nave. — O ambiente é controlado. As irmãs tiraram as máscaras quase ao mesmo tempo, aspirando o ar como se fosse novidade e talvez fosse. Lisa manteve a dela por alguns segundos a mais. Não por necessidade. Por desconfiança. Ela finalmente tirou a máscara e nada aconteceu. Nenhuma queimação. Nenhuma vertigem. A Terra não tinha tentado matá-la. Isso ficou guardado. O espaço era vasto demais para parecer seguro. Fileiras intermináveis de assentos, luz branca contínua, paredes lisas sem marcas. Pessoas acomodadas em silêncio obediente, olhos atentos demais para quem dizia estar salvo. Ninguém comemorava. Lisa se sentou com as irmãs e sentiu o impulso estranho de contar cabeças, como se números pudessem explicar ausências. O pai não estava ali. Ela tentou sufocar o pânico antes que ele subisse pela garganta Um movimento à frente cortou o ar pesado do setor. Um homem em uniforme preto absoluto caminhava pelo corredor central. Seus passos não faziam barulho, mas tinham o peso de uma sentença; era a postura de quem não precisava de pressa para ser obedecido. Ele não usava capacete, um privilégio que, em Aethelgard, era o mesmo que ostentar uma coroa. O rosto era jovem, de ângulos agudos e uma rigidez que parecia esculpida em granito, mas foram os olhos que paralisaram Lisa: escuros, inteligentes e perigosamente atentos. Ele parou ao lado de um casal que murmurava. Não precisou erguer a voz. — Silêncio. — A palavra saiu baixa, uma vibração grave que pareceu ressoar nas placas de metal do chão. O casal se encolheu como se tivesse sido golpeado. Lisa sentiu um arrepio elétrico percorrer sua espinha, uma mistura de medo e uma curiosidade proibida. O homem continuou andando, observando o ambiente não como um guarda, mas como um predador avaliando a integridade de sua jaula. Quando ele passou por ela, o tempo pareceu sofrer uma distorção. Por um segundo longo demais para ser coincidência, o olhar dele cravou-se no dela. Não havia a crueldade cega dos outros oficiais. Havia um cálculo faminto, uma faísca de reconhecimento que Lisa não soube explicar. Ele não desviou o rosto; ele a leu. Estudou a curva de seu pescoço, o tremor leve em suas mãos, e por um milésimo de segundo, a rigidez de sua boca relaxou quase imperceptivelmente. Ele seguiu em frente sem desacelerar, deixando para trás o rastro de sândalo e ozônio. Lisa soltou o ar que nem percebeu ter prendido, o coração martelando contra as costelas. — Quem é ele? — sussurrou uma das irmãs, a voz trêmula. Lisa demorou a responder, ainda sentindo o peso daquele olhar marcado na pele. — Alguém que não precisa de permissão para destruir — Lisa respondeu, mas no fundo, ela sentia que ele era o único ali que realmente estava vivo. A nave tremeu levemente. — Preparar para decolagem — anunciou a voz. — Permaneçam sentados. Confiança no processo garante a sobrevivência coletiva. As luzes se ajustaram, simulando um céu que não existia. Uma projeção do planeta girou no teto, azul demais, limpo demais. Um mundo que já não era deles. Lisa fechou os olhos por um instante. Quando abriu, sentiu o impacto. Não físico. Emocional. A Terra estava ficando para trás. Ela tentou imaginar o pai olhando para o céu naquele momento. Tentou convencer a si mesma de que ele ficaria bem, de que aquilo era temporário, de que tudo fazia parte de um plano que ela ainda não entendia. Mas algo estava errado. A nave começou a subir. Sem janelas reais, apenas dados projetados. Altitude. Velocidade. Segurança. Tudo controlado. — Vocês estão seguros agora — disse a voz. — O passado ficou para trás. Lisa olhou ao redor. Pessoas acreditavam.O Laboratório Central de Criptografia era um santuário de silêncio e luz neon. Lisa, sentada diante do console principal, sentia os olhos de Jason e da General Oliver pesarem sobre suas costas como lâminas. Seus dedos, ainda trêmulos, dançavam sobre o teclado holográfico. Ela estava entregando os códigos de acesso à cópia que Jason recuperara.— Pronto — Lisa sussurrou, a voz desprovida de qualquer esperança. — O arquivo está aberto.A General Oliver aproximou-se, observando a torrente de dados fluindo pelas telas. Eram fórmulas químicas, registros de população, protocolos de controle atmosférico. Era o suficiente para convencê-la de que o legado de Thomas fora neutralizado.&md
O silêncio na Sala de Correção tornou-se denso, uma redoma onde apenas as respirações de Jason e Lisa existiam. A revelação de que a General Oliver era a mãe de Jason pairava no ar como uma névoa tóxica. Ele a olhava com uma mistura de adoração e desespero, os olhos percorrendo o corpo dela como se procurasse uma rachadura na armadura emocional que ela erguera.— Ela vai voltar em logo, Lisa — Jason sussurrou, a voz rouca, quase um lamento. — Se eu não sair daqui com uma resposta, com o código de recuperação daquele cartão... ela vai apagar você. E eu não posso ver isso acontecer. Eu não posso.Ele se aproximou mais, o calor do seu corpo contrastando com o frio metálico da cadeira de contenç&at
O Setor de Detenção de Alta Segurança não se parecia com as celas rústicas dos rebeldes na Terra. Aqui, tudo era de um branco ofuscante. Lisa foi presa a uma cadeira metálica no centro de uma sala cujas paredes eram feitas de um vidro polarizado, dando a sensação de que o vácuo do espaço a observava de todos os lados. Não havia sombras onde se esconder.A General Oliver estava sentada à sua frente, mas não havia mesas, papéis ou luzes sobre o rosto. Apenas o silêncio pressurizado da Estação.— Sabe por que chamamos este lugar de Sala de Correção, Lisa? — Oliver começou, sua voz suave ecoando nas paredes lisas. — Não é pela tortura física. A dor é primitiva, e você já
O som das botas da Polícia de Elite ecoava pelos dutos de ventilação, cada vez mais próximo. A luz vermelha de alerta do terminal piscava sobre o rosto de Jason, acentuando as linhas duras de sua mandíbula. Ele estendeu a mão, a palma aberta, aguardando.— Lisa, agora! — ele ordenou, a voz num sussurro urgente. — Eles vão derrubar essa porta em segundos. Se você estiver com isso na mão quando eles entrarem, eu não poderei impedir o que virá a seguir.Ela olhou nos olhos de Jason. Ele parecia desesperado, uma mistura de protetor e carrasco. Lisa precisava que ele acreditasse nela. Precisava que ele baixasse a guarda por tempo suficiente para que ela pudesse sair daquele perímetro.— Você disse que faria qu
O terminal ejetou dois pequenos cartões de memória com um clique mecânico que soou como um tiro no silêncio da subestação. Lisa os pegou com a rapidez de um reflexo nervoso. Ela olhou para a porta, depois para o próprio ombro. Em um ato de desespero visceral, ela descolou a borda do curativo. A ferida, ainda aberta e sensível, latejou. Ignorando a pontada de dor lancinante, ela pressionou um dos cartões contra a carne viva e fechou o curativo por cima, selando o segredo com seu próprio sangue. Se eles a revistassem, procurariam em bolsos e dobras; ninguém esperaria que ela usasse a própria dor como cofre.Jason entrou no segundo seguinte. A arma estava erguida, o cano apontado para a sombra até que o reconhecimento o atingiu. Ao ver o rosto dela, pálido e banhado pela luz azul fantasmagórica da tela, ele
Lisa não parou para observar os pedaços caírem. Precisava agir. Se ele percebesse que ela ouvira a conversa com Elias, as portas daquele apartamento nunca mais se abririam.— Falta pouco — Jason respondeu, recuperando o controle e aproximando-se. Ele estendeu a mão para tocar o rosto dela, mas Lisa se levantou com agilidade, fingindo que ia buscar sua bota no chão. — A general vai querer o relatório em breve. Mas você está segura aqui, Lisa. Nada vai te acontecer enquanto estiver comigo.— Eu sei — ela mentiu, forçando um sorriso melancólico que pareceu convencê-lo. — Só estou... Precisando de roupas limpas. Vou para o meu apartamento trocar de roupa. Depois podemos ir ao laboratório de diagnósticos, posso processar os dados finais