INICIAR SESIÓNNão havia relógios. A ausência de marcadores temporais tornava a espera elástica, quase cruel, transformando segundos em ciclos intermináveis de ansiedade. Lisa perdeu a conta de quantas vezes forçou o ar para dentro dos pulmões antes que o painel final, no centro da sala estéril, se acendesse com uma única palavra, fria e definitiva:
COMPATÍVEL Ela não sentiu alívio. Sentiu o peso de uma sentença. Sabia que tinha atravessado o portal, mas não fazia ideia do preço que a Arca cobraria pelo ingresso. Ao sair da sala, as suas pernas estavam trêmulas, o corpo processando com atraso o impacto psicológico do teste. O corredor, antes apenas funcional, agora parecia estreito, como se as paredes de polímero estivessem a fechar-se sobre ela. Foi então que o viu. Ele estava a poucos metros, conversando com outro oficial. A postura era relaxada demais para alguém que carregava uma arma de alto calibre, uma descontração que emanava perigo. Pela primeira vez, Lisa permitiu-se realmente observá-lo, despida da pressa do interrogatório. A mandíbula era marcada e firme, talhada por uma disciplina que parecia vir de gerações de oficiais. O cabelo escuro, curto nas laterais, mantinha um volume rebelde no topo, a única insurreição que ele se permitia contra o Sistema. Mas eram os olhos que prendiam a atenção: um tom de âmbar instável, que oscilava entre o dourado metálico e um mel profundo sob a luz artificial, emoldurados por cílios densos que tornavam seu olhar, ironicamente, quase íntimo. O físico dele não era ornamental. Ele era compacto, eficiente; menos um soldado de desfile e mais uma lâmina forjada. Tinha uma altura imponente, mas a agilidade inquieta de quem fora treinado para vencer antes mesmo de aprender a falar. Uma cicatriz antiga cortava-lhe a sobrancelha esquerda, um detalhe discreto que gritava que ele já sobrevivera ao que ela ainda temia. O outro soldado afastou-se com uma reverência mecânica. Quando Lisa passou pelo oficial, o ar ao redor dele pareceu vibrar. Ele não se moveu, mas a inclinação mínima de sua cabeça calculou a distância exata entre o dever e a curiosidade. Ele falou baixo, um barítono que não chegaria aos microfones do teto, mas que vibrou nos ossos de Lisa: — Você entende que não passou como deveria. — Não era uma pergunta. Era uma constatação. Lisa não diminuiu o passo, embora o coração batesse contra as costelas como um pássaro enjaulado. — E ainda assim, passei. Ele girou o corpo com uma fluidez letal, obrigando-a a parar pelo simples peso de sua presença. O olhar âmbar fixou-se nela, medindo sua resistência, sobrepondo a imagem dela à resposta rebelde que ela digitara na tela: “Eu tentaria salvá-la sem destruir tudo.” Um canto mínimo da boca dele contraiu-se. Não era um sorriso; era o reconhecimento de uma anomalia perigosa... e fascinante. — Cuidado — murmurou ele, dando um passo à frente, invadindo o espaço dela até que Lisa pudesse sentir o calor que emanava de seu corpo. A voz soou como um aviso de tempestade no horizonte. — A prova não mede o que você pensa. Mede o que você está disposta a perder. E você parece segurar coisas demais. Lisa parou bruscamente, o fôlego curto pela proximidade. A frieza militar dele tinha uma rachadura, e por ali saía algo intenso e sombrio. — Pessoas que tentam salvar todo mundo — ele continuou, a voz agora apenas um sussurro que roçou a orelha dela enquanto ele se inclinava — costumam ser as primeiras que o Sistema usa para dar o exemplo. Não seja o exemplo de ninguém. Ela abriu a boca para questionar, para perguntar por que ele, o braço armado da Estação, estava lhe dando um conselho que soava como traição. Mas ele se afastou antes que ela pudesse formular o pensamento. Lisa ficou estática no corredor, observando-o desaparecer na geometria perfeita da Estação. O cheiro de sândalo e metal ainda flutuava no ar. Ela sentiu, com uma certeza desconfortável e elétrica, que não tinha sido apenas avaliada por um superior. Tinha sido marcada por um igual. E o pior: ele a vira de verdade, e agora ela não tinha onde se esconder.O Laboratório Central de Criptografia era um santuário de silêncio e luz neon. Lisa, sentada diante do console principal, sentia os olhos de Jason e da General Oliver pesarem sobre suas costas como lâminas. Seus dedos, ainda trêmulos, dançavam sobre o teclado holográfico. Ela estava entregando os códigos de acesso à cópia que Jason recuperara.— Pronto — Lisa sussurrou, a voz desprovida de qualquer esperança. — O arquivo está aberto.A General Oliver aproximou-se, observando a torrente de dados fluindo pelas telas. Eram fórmulas químicas, registros de população, protocolos de controle atmosférico. Era o suficiente para convencê-la de que o legado de Thomas fora neutralizado.&md
O silêncio na Sala de Correção tornou-se denso, uma redoma onde apenas as respirações de Jason e Lisa existiam. A revelação de que a General Oliver era a mãe de Jason pairava no ar como uma névoa tóxica. Ele a olhava com uma mistura de adoração e desespero, os olhos percorrendo o corpo dela como se procurasse uma rachadura na armadura emocional que ela erguera.— Ela vai voltar em logo, Lisa — Jason sussurrou, a voz rouca, quase um lamento. — Se eu não sair daqui com uma resposta, com o código de recuperação daquele cartão... ela vai apagar você. E eu não posso ver isso acontecer. Eu não posso.Ele se aproximou mais, o calor do seu corpo contrastando com o frio metálico da cadeira de contenç&at
O Setor de Detenção de Alta Segurança não se parecia com as celas rústicas dos rebeldes na Terra. Aqui, tudo era de um branco ofuscante. Lisa foi presa a uma cadeira metálica no centro de uma sala cujas paredes eram feitas de um vidro polarizado, dando a sensação de que o vácuo do espaço a observava de todos os lados. Não havia sombras onde se esconder.A General Oliver estava sentada à sua frente, mas não havia mesas, papéis ou luzes sobre o rosto. Apenas o silêncio pressurizado da Estação.— Sabe por que chamamos este lugar de Sala de Correção, Lisa? — Oliver começou, sua voz suave ecoando nas paredes lisas. — Não é pela tortura física. A dor é primitiva, e você já
O som das botas da Polícia de Elite ecoava pelos dutos de ventilação, cada vez mais próximo. A luz vermelha de alerta do terminal piscava sobre o rosto de Jason, acentuando as linhas duras de sua mandíbula. Ele estendeu a mão, a palma aberta, aguardando.— Lisa, agora! — ele ordenou, a voz num sussurro urgente. — Eles vão derrubar essa porta em segundos. Se você estiver com isso na mão quando eles entrarem, eu não poderei impedir o que virá a seguir.Ela olhou nos olhos de Jason. Ele parecia desesperado, uma mistura de protetor e carrasco. Lisa precisava que ele acreditasse nela. Precisava que ele baixasse a guarda por tempo suficiente para que ela pudesse sair daquele perímetro.— Você disse que faria qu
O terminal ejetou dois pequenos cartões de memória com um clique mecânico que soou como um tiro no silêncio da subestação. Lisa os pegou com a rapidez de um reflexo nervoso. Ela olhou para a porta, depois para o próprio ombro. Em um ato de desespero visceral, ela descolou a borda do curativo. A ferida, ainda aberta e sensível, latejou. Ignorando a pontada de dor lancinante, ela pressionou um dos cartões contra a carne viva e fechou o curativo por cima, selando o segredo com seu próprio sangue. Se eles a revistassem, procurariam em bolsos e dobras; ninguém esperaria que ela usasse a própria dor como cofre.Jason entrou no segundo seguinte. A arma estava erguida, o cano apontado para a sombra até que o reconhecimento o atingiu. Ao ver o rosto dela, pálido e banhado pela luz azul fantasmagórica da tela, ele
Lisa não parou para observar os pedaços caírem. Precisava agir. Se ele percebesse que ela ouvira a conversa com Elias, as portas daquele apartamento nunca mais se abririam.— Falta pouco — Jason respondeu, recuperando o controle e aproximando-se. Ele estendeu a mão para tocar o rosto dela, mas Lisa se levantou com agilidade, fingindo que ia buscar sua bota no chão. — A general vai querer o relatório em breve. Mas você está segura aqui, Lisa. Nada vai te acontecer enquanto estiver comigo.— Eu sei — ela mentiu, forçando um sorriso melancólico que pareceu convencê-lo. — Só estou... Precisando de roupas limpas. Vou para o meu apartamento trocar de roupa. Depois podemos ir ao laboratório de diagnósticos, posso processar os dados finais