FAZER LOGINAcordei já se passava do meio dia tomei um banho demorado lavando o meu cabelo, sorte que aqueles idiotas não acertaram muito em meu rosto mas o corpo está horrível, depois de pronta peguei minha bolsa e sair do quarto, todos estavam a mesa almoçando, me sento sem cumprimentar ninguém.
__boa tarde filha, dormiu bem?__minha tia me olha preocupada, tantos anos e ela não acostuma. __boa tarde__limito a falar__a Maria?__espero que eles não tenham feito nada com ela. __ela já foi, melhor você ficar aqui por uns dias. __não, eu não vou ficar. __mas filha, você não está bem, deixa eu cuidar de você. __mas nada, tenho muito o que descobri ainda. __muita para descobrir?__pergunta com ironia__é isso mesmo que estou ouvindo? Quantos dias que você está aqui? Seis, sete dias? E o que você conseguiu até agora?__ele se levanta__vai, me diz o que a grande Diana Prado conseguiu? Diz a sua tia o que você anda fazendo naquele maldito lugar__já me levanto alterada, respeito ele, mas nem por isso vou aceitar passar por isso__ela não sabe ainda dos detalhes. __Mathias, já basta, deixa a menina. __menina?__fico frente a frente com ele__sua sobrinha querida está noiva e estava se esfregando igual uma qualquer com uma traficantezinha de merda__respiro fundo tentando me segurar, mas juro que tá difícil. __não, eu não estou noiva, eu não vou me casar e já deixei isso bem claro, então vamos parar por aqui. __sim você irar se casar__estreito o olhos para a maneira que ele fala__você tem dois meses para resolver essa merda toda que você veio resolver e, depois volta e vai casar com o Valentin. __não, eu não vou, sempre te respeitei, mas isso não significa que vou fazer suas vontades, sou adulta e posso decidir o que faço ou deixo de fazer. __olha os modos mocinha, isso por que só tem uma semana que está naquele lugar__ele segura em meu queixo me fazendo olhá-lo__você não tem escolhas, já decidimos, precisamos dessa aliança. __precisa de alianças? pois bem, trás sua filha e case ela, não sou moeda de troca__ele me olha com fúria, eu não desvio o olhar, ele sabe que não tenho medo__estava levando na esportiva, não tinha tempo para discuti, mas isso mudou no momento que vocês armaram aquele circo todo, só não estraguei aquele showzinho de vocês porque tinha muita gente, seria humilhante e teria muita repercussão, se não quiser ser humilhado, desiste enquanto há tempo__olho para o Valentin, que está me olhando de maneira indecifrável__da próxima vez que for fazer alguma aliança, pelo menos faça com uma mulher, assim eu posso tirar uma casquinha antes de dar um chute na bunda. Tento me afastar mas ele me segura, respiro fundo, ele não está colaborando. __te proibo de sair dessa sala__puxo meu braço com força. __o senhor não manda em mim__o ódio e visível, nunca vi ele desse jeito. __você é uma irresponsável, vai colocar tudo a perder. __não, eu não sou, ainda não comi esse caô de ontem a noite__ele desvia o olhar__o senhor sabe muito bem que quando saio para uma missão deixo o celular, vou descobrir quem está por trás de tudo o que aconteceu naquela casa e, só espero que o senhor não tenha nenhum envolvimento, pois pode ter certeza, não pouparei ninguém e, digo mais, não aceito mais nenhum castigo vindo do senhor. __tá me ameaçando? é isso? __entenda como quiser, e aparti de hoje faça você mesma os seus trabalhos sujos. Saio deixando ele gritando para que eu volte, faço pouco caso, ele não vai me manipular, não vou ser moeda de troca. __que merda você faz aqui?__pergunto assim que vejo o Taigo. __adivinha?__ele se aproxima e me puxa para um abraço__saudade de tu garota. __deixa de mentira__ele sorrir, aí tem coisa. __três anos pô, agora sério, foi um ano para me recuperar dos três tiros que você me deu. __deu sorte que não te matei seu idiota, agora me diz o que faz aqui__ele coça a cabeça nervoso__vamos porra, abre a merda da boca. __eu moro aqui__me olha, sei que ele quer me falar algo, conheço esse idiota__você está armada?__já estreito os olhos__você sabe que eu só cumpro ordens, que eu tenho mó respeito pelo seu tio, devo muito a ele__começa a enrolar, já sei que vem merda, e sei que não irei gostar. __deixa de enrolação, você sabe que eu odeio mentiras, então abre logo esse bico. __eu vou entrar na favela como seu namorado. __eu acho que nao ouvir direito__isso só pode ser armação do meu tio__Taigo, fala logo, já estou perdendo a paciência. __e quando você teve__brinca me deixando com mais raiva__Diana, eu tô aqui a dois anos, conheço todos naquela favela como a palma d da minha mão__meu odio triplicou ao ouvi isso__quando você mandou a Maria seu tio mandou o pessoal dele também, eu entro e saio daquela favela a qualquer hora, eu trabalho com eles__eu não estou ouvindo isso, como ele pode fazer isso__desculpa__sei que ele só está cumprindo ordens, preciso descobrir o que ele quer nessa. Olho para trás vendo meu tio e o Valentin parados, eles me olham com um sorrisinho no rosto, não posso acreditar que ele fez isso pelas minhas costas, o que ele pensa que está fazendo.Dois anos se passaram desde a noite em que o penthouse no alto da cidade se transformou em escombros e manchetes de jornal.Com o tempo, a memória coletiva se apagou. A polícia arquivou o caso com a anotação burocrática de “autoria desconhecida”. As manchetes pararam de circular, e os rostos que um dia assustaram e fascinaram o público deixaram de ser impressos nas primeiras páginas.Mas elas não cruzaram fronteiras distantes nem se esconderam em países estrangeiros. Apenas trocaram o barulho das armas pelo silêncio necessário para recomeçar.A nova vida se ergue no interior de Minas Gerais, onde a terra é vermelha e fértil. São quarenta hectares de pasto verde cortados por um rio de águas cristalinas e geladas. Aqui, o céu é imenso, limpo e livre do rastro tóxico da pólvora e da fumaça urbana. A casa de madeira branca tem a pintura desgastada pelo sol e pelo vento, e na ampla varanda de madeira escura, um cachorro de pelagem dourada dorme tranquilamente, sem se preocupar com ameaças.
A luz do dia tenta penetrar pelas frestas da janela, mas as cortinas grossas mantêm o quarto mergulhado em penumbra. É um hotel simples, daqueles que não fazem perguntas e não guardam registros por muito tempo. O ar carrega o cheiro forte de café queimado vindo do corredor e um leve rastro de mofo característico de lugares pouco frequentados. Ela desperta com o som da televisão no volume máximo. Se espreguiça devagar, os músculos ainda rígidos pela tensão da noite anterior, mas sem perder a postura de alerta que carrega consigo há anos. Estou sentada na poltrona perto da parede, a arma apoiada no colo, os dedos repousando suavemente sobre o cano. Meus olhos não se desviam da tela. Ninguém sabe nossos nomes verdadeiros. Para o mundo, somos apenas duas sombras que surgiram do nada para abalar o império construído sobre sangue e corrupção. Diana e Gabriela são apenas rótulos, nomes escolhidos para caber na história que estamos escrevendo. Mas há títulos que carregam um peso muito mai
Ele está caído no chão. O sangue escorre e embebe o carpete branco como tinta derramada. Ao lado, ela limpa a lâmina na calça do corpo com a mesma calma de quem tira poeira de uma mobília.Recarrego a arma contando os estalos metálicos. Três cartuchos usados. Dois guardas abatidos na entrada. A contagem está feita.Sangue. Morte. O cheiro forte de pólvora impregnado no ar. Nada disso é novidade para mim. Passei oito anos nesse mundo sujo. Já me chamavam de "Killer" muito antes de eu cruzar o caminho dela.Ela se levanta e guarda a faca no coldre interno da jaqueta.— Aqui acabou. Mas lá fora ainda não — diz, séria.Verifico o carregador e encaixo um novo com precisão.— Eu sei. Ele nunca trabalhou sozinho. Raízes profundas demais para serem cortadas de uma vez só.Ela pega o celular e disca um número sem hesitar. A voz que sai é fria, sem qualquer emoção — o tom de quem dá ordens definitivas.— Execução total. Sem exceções. Policiais, políticos, empresários. Todos os nomes ligados a e
Ele está caído no chão. O sangue escorre e embebe o carpete branco como tinta derramada. Ao lado, ela limpa a lâmina na calça do corpo com a mesma calma de quem tira poeira de uma mobília. Recarrego a arma contando os estalos metálicos. Três cartuchos usados. Dois guardas abatidos na entrada. A contagem está feita. Sangue. Morte. O cheiro forte de pólvora impregnado no ar. Nada disso é novidade para mim. Passei oito anos nesse mundo sujo. Já me chamavam de "Killer" muito antes de eu cruzar o caminho dela. Ela se levanta e guarda a faca no coldre interno da jaqueta. — Aqui acabou. Mas lá fora ainda não — diz, séria. Verifico o carregador e encaixo um novo com precisão. — Eu sei. Ele nunca trabalhou sozinho. Raízes profundas demais para serem cortadas de uma vez só. Ela pega o celular e disca um número sem hesitar. A voz que sai é fria, sem qualquer emoção — o tom de quem dá ordens definitivas.
A porta se fecha com um baque surdo. O clique da trava ecoa pelo ambiente como um disparo seco.Ele não se levanta. Apenas gira o copo de uísque entre os dedos longos, me observando com a calma de quem tem todas as peças do tabuleiro sob controle.— Foram mais rápidas do que o esperado. Impressionante. Usaram o duto ou o poço?Eu não respondo. Palavras não ferem. Aço sim.Avanço um passo. A lâmina de vinte centímetros surge na minha mão num movimento tão rápido que ele mal consegue acompanhar. Atrás de mim, dois passos de distância, ela segura a pistola firme, a mira direcionada ao peito dele. Os dedos dela estão brancos de tanta pressão no gatilho.— Não se mova — diz, a voz trêmula mas carregada de firmeza.Ele abre um sorriso lento e ergue as mãos num gesto de falsa rendição.— Uma faca e uma arma... contra mim e todos os meus homens? Vocês são corajosas. Ou apenas desesperadas.Ele não está assustado. Nunca esteve. Ele está calculando cada possibilidade, traçando rotas de fuga e f
O prédio de Mathias se ergue na escuridão como um túmulo de vidro e aço. Doze andares de silêncio controlado, onde cada canto é vigiado e cada movimento é registrado. Para ele, esse lugar é um império inatingível. Para nós, é só mais um alvo.Gabriela caminha ao meu lado, a respiração ritmada e controlada, a jaqueta grossa fechada até o pescoço para proteger o ferimento que eu costurei poucas horas atrás. Sei que o ombro dela ainda lateja sob o curativo, mas ela não deixa transparecer. A teimosia dela pode ser perigosa, sim. Mas também pode ser a nossa maior vantagem.— 4h16. Pronta? — pergunto baixo, conferindo o relógio luminoso no pulso.Ela assente lentamente, a mão fechada com firmeza no cabo da pistola que eu entreguei a ela. O metal brilha fracamente sob a luz da rua.— Pronta desde que você fechou o ferimento — responde, sem hesitação.A grade de ferro da ventilação cede com um rangido abafado, quase perdido na escuridão. Pó de ferrugem e resíduos acumulados por anos caem no m