INICIAR SESIÓNNoah Benson
Me levanto, fecho seu moletom, ajeito o cobertor sobre ele e volto para minha cama. Foi a coisa mais estranha, porém deliciosa, que fiz nos últimos tempos. Mas isso eu não vou contar para ninguém. Dormi feito pedra, e quando acordei, Simon não estava mais no quarto. O colchão onde ele dormiu estava dobrado, junto com os cobertores e um bilhete. "Cara, desculpa pelo transtorno e… muito obrigado por me ajudar." Levantei-me, tomei um banho e me organizei para ir à escola. Estávamos no último ano do ensino médio, e logo iríamos para a faculdade. Meus pais devem estar na cozinha tomando café e vou me juntar a eles. Desci as escadas devagar, tentando fazer os degraus não rangerem tanto. O cheiro do café me alcançou antes de eu entrar na cozinha — forte, preciso, do jeito que meu pai gosta. A mesa já estava posta, como sempre: tudo simétrico, tudo no lugar. Minha mãe organizava as frutas em uma tigela de vidro como se fosse uma pintura. — Bom dia, querido — disse ela, com aquele sorriso leve, meio cansado. Meu pai nem levantou os olhos do jornal. — Bom dia, filho. Me sentei e peguei uma fatia de pão. Passei manteiga sem olhar direito, só pra ocupar as mãos. O silêncio entre nós era civilizado, quase elegante, e mesmo assim desconfortável como uma roupa de festa usada na segunda-feira de manhã. — E as notas do simulado de ontem? — ele perguntou, finalmente, como se tivesse lido num manual que era o momento certo de dizer isso. — Foram boas. Nada demais. A mentira foi pequena, mas necessária. Tive dificuldade em matemática, mas ele não precisava saber agora. Talvez nem depois. Minha mãe me ofereceu suco. Agradeci baixo. Ela sempre tenta fazer tudo parecer simples. Como se esse esforço silencioso mantivesse a casa funcionando. Talvez mantenha mesmo. Terminei rápido e me levantei. Antes de sair, ela ajeitou a gola da minha camisa com um carinho rápido, quase disfarçado. Meu pai apenas ergueu os olhos por um segundo e assentiu. Na rua, o ar parecia mais leve. Mais verdadeiro. Respirei fundo antes de seguir caminho. Quando cheguei à sala de aula, notei a ausência de Simon. Será que ele piorou? Assisti a todas as aulas, tentei ligar para ele no intervalo, mas ele não atendeu. Comecei a ficar preocupado e resolvi ir até sua casa assim que saísse da escola. Simon não apareceu. Nenhuma mensagem, nenhum aviso. Só o espaço vazio na carteira ao meu lado, que pareceu maior do que o normal desde o primeiro sinal da manhã. Tentei focar na aula de biologia, mas as palavras da professora se embaralhavam como peças de um quebra-cabeça sem imagem. Peter me cutucou com o cotovelo quando ela fez uma piada sobre mutações genéticas. Sorri por reflexo, mas meu pensamento estava preso naquela noite — Simon suando frio, o rosto pálido, a dor escondida sob um sorriso forçado. — Ei, cê vai querer ir à casa do Josh hoje? — perguntou Peter no intervalo. — Não sei… — respondi, mexendo no zíper da mochila só pra ter algo pra fazer com as mãos. — Tenho umas coisas pra resolver em casa. Era mentira. O que eu tinha era uma sensação incômoda no peito, uma ansiedade que não sabia explicar. Talvez fosse só preocupação. Talvez fosse algo que eu ainda não sabia nomear. Na aula de literatura, tentei escrever no canto do caderno, como sempre faço quando não quero pensar demais. Mas o traço saiu trêmulo, as letras disformes. Eu estava ali, de corpo presente, mas minha cabeça seguia voltando pro Simon. Ele nunca faltava sem avisar. Nem quando estava mal. Quando o sinal final tocou, guardei o material num impulso e me despedi dos meninos com um aceno apressado. Peguei meu Audi TT, presente de aniversário do meu pai. Só havia uma coisa a fazer agora: ir até ele. Saber se estava tudo bem. Ou, pelo menos, tentar.Era manhã em São Paulo. O céu nublado, o ar úmido, o silêncio confortável. Simon preparava café. Noah trocava Eduardo, agora com seis meses e olhos atentos. A casa estava cheia de vida. Era um lar feliz e cheio de cor e amor. Romeu Santana havia assumido a Benson & Co. A fusão com a Vértice avançava com ética e transparência e nome Benson, antes sinônimo de poder e silêncio, agora era símbolo de reparação. Simon e Noah se dedicavam integralmente à Axis & Co. e ao Projeto Essência e Liberdade. A sede em São Paulo funcionava como centro estratégico. Unidades em Natal, Recife, Lisboa, Buenos Aires e Luanda já estavam em operação. Naquela manhã, Simon sentou-se à mesa com um caderno onde escrevia as ideias que surgia ao longo do dia. Noah se aproximou. — Está escrevendo o quê? — Os últimos acontecimentos do projeto para o documentário. — Devíamos escrever a nossa história — sugeriu. — É uma boa ideia. — Ele assentiu, rindo — O mundo precisa saber em como transformamos nossa dor em
A rotina ficou mais intensa após o julgamento. Livres dos problemas e da pressão que antecedeu aqueles dias, agora Noah, Simon e sua equipe podia se concentrar na expansão da Essência e Liberdade. O mapa estava sobre a mesa. Mariana marcava os próximos destinos: Bogotá, Toronto, Luanda. Enquanto Simon revisava os relatórios. Noah organizava os arquivos de comunicação e Romeu falava com os coordenadores jurídicos. A Essência e Liberdade havia se tornado uma rede, não apenas de acolhimento. Mas de articulação política. — Estamos em dez países diferentes— disse Mariana. — E com potencial para dobrar isso nos próximos dois anos. Simon olhou para Noah. — A gente precisa crescer, mas temos que nos preocuparmos para que esse crescimento não seja desordenado. Romeu entrou na sala com um envelope na mão. — Temos algo importante para resolvermos. É sobre o bebê da Noely — disse. — A família materna não quer assumir. Estão pedindo que a guarda seja transferida para você, Noah. Simon fic
O tribunal estava lotado. Havia jornalistas, ativistas, advogados e muitos curiosos. Mas o que se julgava ali não era apenas um crime. Era um legado construído sob o preconceito e a arrogância. Charles Benson, ex-presidente da Benson & Co., estava sentado diante do juiz. Cabeça baixa, olhando para o chão. O rosto envelhecido, ninguém estava ali por ele. Não havia nenhum aliado. Romeu entrou na sala em cadeira de rodas. Simon e Noah o acompanharam. Linda Benson estava presente, mas não como testemunha. Sentou-se discretamente na última fileira, estava ali apenas como uma mãe apoiando um filho. O promotor iniciou a sessão. — O réu é acusado de tentativa de homicídio, formação de quadrilha e obstrução de justiça. A vítima, Sr. Romeu Santana, sofreu um ataque brutal no estacionamento da Benson & Co. E as provas indicam que o mandante foi Charles Benson. Romeu prestou depoimento em tudo o que foi dito. Estava firme e esperançoso de a justiça seria feita. — Eu fui atacado por tentar p
O quarto do hospital estava em silêncio. Romeu respirava com ajuda de aparelhos. O corpo ainda imóvel. Mas os sinais vitais estavam estáveis. Simon o visitava todos os dias. Noah também fazia isso sempre que podia. Às vezes, sentia-se culpado pelo que aconteceu com ele. Linda havia enviado flores. E Mariana cuidava dos boletins médicos e da segurança. O ataque havia acontecido meses antes, no estacionamento da Benson & Co. Romeu saía de uma reunião quando foi abordado por dois homens encapuzados. A pancada na cabeça foi precisa e violenta. Passou por duas cirurgias delicadas e ainda estava em coma. A polícia investigava. Mas sem pistas concretas até aquele momento. Nós tínhamos suspeitas, mas sem provas concretas, não foi possível avançar. Até que Mariana recebeu uma denúncia anônima. Um ex-funcionário da segurança interna da Benson & Co. Que nos enviou documentos, e-mails e gravações. — Foi Charles Benson — disse o homem. — Ele mandou silenciar o Romeu. Achava que ele uma ameaça
O prédio era simples. Três andares, fachada neutra, janelas largas. Mas por dentro, tudo pulsava. Cada parede carregava um significado, cada espaço tinha um propósito. A primeira unidade internacional do projeto Essência e Liberdade havia sido inaugurada em Lisboa. Não por acaso: Portugal era ponte entre continentes, entre histórias, entre línguas. Um lugar onde passado e futuro se encontrava. Simon caminhava pelos corredores com os olhos atentos. Cada sala tinha um nome: Escuta, Acolhimento, Recomeço. Nada foi escolhido ao acaso. Cada palavra representava um passo na jornada de quem chegava ali. Ele lembrava das conversas intermináveis com Noah sobre como seria esse espaço. Queriam que fosse mais que um prédio. Queriam que fosse um abraço. Noah vinha logo atrás, conversando com os voluntários que organizavam os últimos detalhes da coletiva. A imprensa estava do lado de fora, ansiosa. Era um marco histórico para o projeto — e para eles. — Está tudo pronto — disse Mariana, entregando
A proposta chegou com força total. Uma marca internacional, conhecida por campanhas progressistas e impacto social, queria unir forças com a Axis & Co. Não apenas como parceria comercial. Mas como um símbolo. Como uma bandeira. Simon leu o contrato com atenção, cada cláusula parecia pesar toneladas. Mariana estava ao lado, destacando riscos e oportunidades com a precisão de quem já enfrentou batalhas corporativas. — Eles querem usar a Essência e Liberdade como modelo — disse Mariana, com a voz firme. — Replicar em outros países. Com vocês como rosto. Noah, sentado à frente, permanecia em silêncio. O peso da decisão não era financeiro. Era o peso da exposição. Desde o início, o projeto nasceu como um grito contra o silêncio, mas agora seria um megafone global. — Continuaremos muito expostos. Será que saberemos lidar com isso? — perguntou Noah, quebrando o silêncio. — Como garantimos que não vire vitrine? Simon fechou o documento e respirou fundo. A lembrança dos primeiros dias volt