INICIAR SESIÓNVoltei para a casa coletiva quando a noite já tinha se fechado por completo.
O quarto era pequeno. Limpo. Silencioso demais. Deitei na cama sem tirar a roupa. O corpo exausto, a mente em guerra. Sempre que fechava os olhos, sentia o gosto dele, o peso da rejeição, a violência contida no “você não é suficiente”. Virei de lado. Nada. O vínculo pulsava como um aviso constante, uma presença que não me deixava esquecer. Quando adormeci, foi raso. Fragmentado. Acordei antes do sol, com o peito apertado e o gosto amargo da ansiedade na boca. Levantei. O refeitório ainda estava quase vazio. Peguei café preto, forte, e sentei sozinha, tentando convencer meu corpo de que aquilo era só mais um dia. Não era. — Elara? Levantei o olhar. Um homem do setor administrativo segurava uma pasta fina, expressão neutra demais para aquela hora. — Sim. Ele estendeu o documento. — Transferência oficial. Você foi realocada para o esquadrão pessoal do Alfa. O mundo inclinou. — O quê? — Ordens diretas — disse. — Deve se apresentar em trinta minutos para iniciar o treinamento. Minhas mãos tremeram ao pegar o papel. Assinatura de Darian. Alfa da Luar de Ferro. O café virou ácido no estômago. — Deve haver algum erro — falei. — Não há. Ele se afastou como se aquilo não fosse nada. Fiquei sentada, olhando para o papel, tentando entender como o homem que tinha me mandado esquecer tudo agora me puxava para mais perto. Troquei de roupa às pressas. Trinta minutos depois, estava diante do escritório dele. Bati. — Entre. Ele estava de pé, de costas, mãos apoiadas na mesa. — Isso é algum tipo de jogo? — perguntei assim que a porta fechou. Ele se virou devagar. — Não. — Então explica — exigi, erguendo o papel. — Porque ontem você disse que eu não era suficiente. Hoje me coloca no seu esquadrão pessoal? — Feche a porta — disse. — Já está fechada. — Tranque. Obedeci, o coração acelerando sem pedir permissão. — Você não deveria estar aqui — ele continuou. — Mas está. — Ótima explicação. Ele se aproximou. — Eu tentei manter distância. — Tentou pouco — retruquei. O silêncio entre nós era pesado demais. — Eu não sei como lidar com isso — disse, finalmente. — O vínculo… você… isso não estava nos meus planos. — E mesmo assim você me trouxe para perto. — Porque se você vai ser a Luna… — ele parou. — Vai precisar ser treinada. Engoli em seco. — Então agora eu sirvo? — Não distorça. — É exatamente isso que você está fazendo. Ele deu mais um passo. Perto demais. — Eu não quero você fraca — disse. — Não quero uma Luna quebrável. — E você acha que me quebrar vai me fortalecer? O olhar dele escureceu. — Você aceita ou não? Era isso. Não um pedido. Uma escolha cruel. — Aceito — respondi. Ele pareceu surpreso. — Mesmo sabendo que eu vou exigir mais do que você pode dar? — Eu sobrevivi a coisas piores. O vínculo explodiu entre nós. Forte. Urgente. A mão dele segurou minha cintura antes que eu pudesse pensar. A outra prendeu meu rosto. O beijo não foi gentil. Foi necessidade. Passei as mãos pelo peito dele, sentindo cada músculo rígido, cada tensão acumulada. Ele gemeu baixo, como se estivesse lutando contra si mesmo. — Você disse que não queria — sussurrei contra a boca dele. — Eu disse muita coisa ontem. Ele me prensou contra a mesa. O corpo dele inteiro dizia o contrário das palavras. — Isso é errado — murmurei. — Eu sei. — Você é o Alfa. — Eu sei. — Então para. Ele não parou. As mãos dele exploraram minhas costas, minha cintura, como se precisasse memorizar cada centímetro. O vínculo ardia, exigente. Quando ele se afastou, o fez bruscamente. — Chega. Fiquei ali, respirando com dificuldade, o corpo traindo tudo o que eu tentava manter firme. — É isso? — perguntei. — Você me puxa, me beija e depois manda parar? — Eu não posso perder o controle — disse. — Não com você. — Já perdeu. Ele fechou os olhos por um instante. — Se você ficar — falou —, eu vou te treinar pessoalmente. Combate. Resistência. Liderança. Até você se tornar uma Luna aceitável. A palavra cortou. Aceitável. — Mesmo que doa — acrescentou. Olhei para ele. — E se eu não for o suficiente? — Então você aprende a ser. Aceitei. Porque migalhas ainda eram algo. Saímos do prédio sem trocar mais nenhuma palavra. O campo de treino ficava atrás do quartel, um espaço amplo de terra batida, cercado por estacas de madeira e marcas antigas de combate. Não havia espectadores. Só nós dois. Darian tirou a jaqueta, jogando-a sobre um banco. — Sem armas — disse. — Quero ver como você se move. Assenti. Ele entrou na área primeiro, postura aberta, pés firmes no chão. Não parecia alguém prestes a lutar — parecia alguém que já tinha vencido antes mesmo de começar. — Ataque — ordenou. Avancei. Ele desviou com facilidade, segurou meu braço e me puxou para frente, usando meu próprio impulso contra mim. Caí de lado, o ar escapando dos meus pulmões. — Levanta. Me ergui rápido demais, ainda desequilibrada. Ele veio em seguida. Um golpe direto, controlado, mas forte o suficiente para me fazer recuar dois passos. Defendi como pude, os braços queimando com o impacto. — Você pensa demais — disse. — O inimigo não espera. Tentei um chute baixo. Ele pulou para trás, girou o corpo e me derrubou de novo, dessa vez com a perna presa na minha. — E você se anuncia — continuou. — Seus ombros entregam o movimento. Rolei no chão e levantei com raiva. Ataquei outra vez, mais rápido, mais agressiva. Acertei o braço dele. Pouco, mas acertei. Ele sorriu de canto. — Melhor. Veio para cima de mim com força total agora. Cada golpe era preciso, sem desperdício. Ele não queria me machucar — queria me cansar. Conseguiu. O suor escorria pelas minhas costas. A respiração ficou irregular. Mesmo assim, continuei. — De novo — ele disse. Avancei fingindo um ataque frontal e mudei o eixo no último segundo. Ele percebeu tarde demais. Meu ombro acertou o peito dele. Não o derrubei, mas o fiz recuar. — Você aprende rápido — murmurou, antes de me pegar pela cintura e me lançar ao chão. Dessa vez, caí de costas. Ele ficou sobre mim, um joelho ao lado do meu quadril, mão firme prendendo meu pulso acima da cabeça. — Morta — disse, baixo. O vínculo pulsou forte demais. Usei a perna livre para empurrá-lo, girei o corpo e consegui escapar, ainda que por pouco. Levantei arfando, as mãos tremendo. — Você luta com raiva — ele observou. — Isso te dá força… e te deixa vulnerável. — Então me ensina a controlar — retruquei. Ele me encarou por um segundo longo demais. — É isso que estou fazendo. Avançou mais uma vez. Dessa vez, não recuei. Aguentei. Defendi. Cedi quando precisava e ataquei quando vi brechas. Quando ele me derrubou de novo, eu já estava rindo sem fôlego. — O quê? — perguntou. — Você ainda vai se arrepender de ter começado isso. Ele estendeu a mão para me ajudar a levantar. — Provavelmente. Segurei. E naquele instante, eu soube: ele não estava me poupando. Estava me preparando para sobreviver a qualquer coisa. Mesmo a ele.POV Aeron Isabel chorava como se o mundo estivesse acabando. Um choro forte, indignado, cheio de personalidade. Elara já havia feito tudo. Amamentou. Trocou a fralda. Ninou. Cantou. Victor tentou distrair com truques de magia. Ilian andou com ela pelos corredores. Até Mirela tentou embalar a pequena. Nada funcionou. Ela havia passado por todos os colos possíveis. Menos um. Desci os corredores do castelo com Isabel nos braços enquanto seus berros ecoavam pelas paredes de pedra. — Tudo bem, pequena — murmurei, tentando acalmá-la. — Já estamos chegando. O quarto ficava em uma ala reservada. Discreta. Silenciosa. Perto da enfermaria. Ali havia tudo o que era necessário para cuidar dele. Empurrei a porta. O cheiro de cloro invadiu meus pulmões imediatamente. Era forte. Limpo. Frio. O som dos aparelhos também estava lá. Bip. Bip. Bip. Regular. Constante. Ainda era estranho para mim sentir tudo com tanta intensidade. Meus sentidos haviam mudado. Meu corpo também. Mas eu
POV ElaraO sol brilhava alto sobre a praça da capital.As bandeiras tremulavam ao vento enquanto uma multidão ocupava cada espaço possível das ruas, dos telhados e das janelas. Era um mar de vozes, de expectativa, de esperança.E diante de todos eles…Aeron estava ajoelhado.O sumo sacerdote segurava a coroa com ambas as mãos, elevando-a lentamente antes de colocá-la sobre a cabeça dele.O ouro da coroa brilhou à luz do sol quando finalmente tocou seus cabelos.— Pelo direito de sangue, pelo direito de honra e pela vontade do povo — proclamou o sacerdote — eu coroo Aeron como rei.Aeron se levantou.Altivo.Forte.Majestoso.O povo explodiu em gritos.Eu senti um chute forte dentro da minha barriga.— Ai! &mdas
POV ElaraO mundo estava desmoronando ao nosso redor.Tiros ecoavam pela praça.Explosões faziam o chão tremer.Soldados gritavam, armas se chocavam, magia iluminava o ar com flashes violentos.Mas nada disso existia para mim.Nada.Porque Aeron estava morrendo.Eu estava ajoelhada ao lado dele, as mãos pressionadas contra o peito ensanguentado, tentando inutilmente conter o sangue que escorria entre meus dedos.— Não… não… não… — minha voz saiu quebrada.Ele estava tão pálido.Fraco.Os olhos quase fechando.— É pó de prata — disse a Bruxa Vermelha.A voz dela foi firme.Fria.Sentenciosa.— Fatal.Meu corpo inteiro gelou.
POV ElaraO primeiro tiro veio como um trovão.Depois outro.E outro.Eu nem tive tempo de reagir.Mas algo reagiu por mim.Uma onda de magia explodiu ao meu redor no exato instante em que as balas foram disparadas. O ar brilhou em vermelho intenso, como brasas vivas, e uma barreira se formou ao meu redor com um estalo poderoso.As balas bateram contra ela e ricochetearam, caindo no chão de pedra.Meu coração disparou.Eu virei a cabeça.E então vi.A avó de Aeron caminhava pela praça como se o caos ao redor não existisse.Os cabelos vermelhos dançavam ao vento carregado de sangue e fumaça. A magia vibrava ao redor dela como um campo vivo, pulsante, antigo.A Bruxa Vermelha.A mais poderosa que já existiu.Ela ergueu uma mão em minha direção, os olhos ardendo como chamas.— Vá, menina — disse ela, a voz firme mesmo no meio da guerra.Foi tudo o que precisei ouvir.A batalha explodiu novamente ao meu redor.Espadas se chocavam.Gritos ecoavam.O cheiro metálico de sangue invadia o ar.
POV Elara— Tirem as correntes.Minha voz saiu firme.Mais firme do que eu me sentia por dentro.Um silêncio pesado caiu sobre a praça.Darian franziu o cenho.Casimir virou a cabeça lentamente para mim.— Elara… — disse ele.Havia algo na voz dele.Incredulidade.— Se eu vou fazer o que ele pediu — continuei — preciso que o vínculo esteja ativo.Minha voz falhou no final.— As correntes de prata estão enfraquecendo Aeron.Adalberto inclinou a cabeça, analisando.— Interessante — murmurou.Casimir me encarava.E eu vi.A dor.O ressentimento.Algo mais profundo.— Você… — ele começou, com a voz baixa — vai abrir mão disso tão rápido?Meu coração apertou.Mágoa.Ciúme.Descrença.Eu queria explicar.Queria dizer tudo.Mas não podia.Não ali.Não agora.— Tirem as correntes — ordenou o rei.Dois soldados se aproximaram de Aeron.Cada elo de prata foi aberto com dificuldade. A corrente caiu no chão com um som pesado de metal.Quando o último pedaço foi retirado, Aeron levantou lentamente
POV ElaraEu não consegui respirar por um momento.Aeron.Aquele… não podia ser ele.Meu olhar percorreu o corpo dele lentamente, como se minha mente estivesse tentando negar o que via.Magro.Muito mais magro do que eu jamais o tinha visto.As correntes de prata cravavam na pele como serpentes cruéis, rasgando carne a cada pequeno movimento. O sangue escorria por braços, peito, pernas… pingando no chão de pedra da praça.A cabeça dele estava raspada.O rosto inchado.Cortes profundos marcavam a pele, alguns ainda abertos.Os olhos… mal conseguiam focar.Meu coração se partiu.— Aeron… — sussurrei.Meu corpo se moveu antes mesmo de eu pensar.Dei um passo na direção dele.Outro.Mas uma mão forte segurou meu braço.Casimir.— Elara — disse ele baixo.A força do toque dele me fez voltar à realidade.







