INICIAR SESIÓNNicolo Moretti
O eco dos sinos da basílica martelava meus ouvidos, cada badalada um lembrete fúnebre do espetáculo que estava prestes a encenar. O ar na igreja estava pesado, carregado com o perfume enjoativo de gardênias e o cheiro acre do suor disfarçado de centenas de pessoas que me odiavam, me temiam.
Eu, Don Nicolo Moretti, deveria estar radiante.
Hoje é o grande dia da união das famílias mais poderosas da região. O dia em que meu sangue se misturaria com o dos Caccini e enterraríamos finalmente o machado de guerra, pelo menos até eu ter a chance de cravá-lo nas costas de Caterino no momento certo.
Mas não havia aquele sentimento de felicidade em mim. Havia somente uma fria e familiar desconfiança, um nó de gelo no estômago que não se dissolvia há dias.
Eu sorria, cumprimentava os convidados com acenos de cabeça e apertos de mão firmes, mas por dentro, cada risada soava falsa, cada olhar era uma potencial facada. A máscara de Don tranquilo e satisfeito era pesada, uma armadura que eu usava há décadas, mas hoje ela estava me sufocando demais.
Mario. Meu único filho, que será o meu herdeiro. O menino que ensinei a atirar, a negociar, a comandar o respeito pelo medo. Ele tinha a fúria necessária, mas não a paciência.
A sua ambição, mas não era com frieza. E na noite passada, ele havia cometido o erro supremo, desobedecer-me. Saiu para uma despedida de solteiro imbecil, num bordel do território Caccini, depois de eu tê-lo expressamente proibido.
A união estava selada, sim, mas e a confiança?
A confiança era um artigo raro e frágil, que não se comprava com acordos de paz. Caterino era uma raposa velha. Eu o conhecia muito bem e talvez até mesmo melhor que o seu conselho mais antigo. E um homem não abandona cinquenta anos de ódio numa noite.
— Don Nicolo, tudo pronto? — Meu consigliere, Bruno, sussurrou ao meu ouvido, seu rosto sério como sempre.
— Onde está Mario? — minha voz saiu mais áspera do que eu pretendia.
— Ainda não chegou. Disseram que saiu tarde do… — ele hesitou e olhei para ele desconfiado. — Estabelecimento. Deve estar a caminho.
— Disseram? — virei-me completamente para ele, baixando a voz para um rosnado. — Eu não pago você para me trazer um disseram. Eu pago para saber. Encontre-o. Agora.
Bruno assentiu, afastando-se rapidamente. A ansiedade no meu peito transformou-se em uma brasa de raiva.
O idiota, o pequeno idiota impulsivo. Depois de tudo que lutei para construir, após engolir meu orgulho e me sentar à mesa com o homem que matou meu irmão mais novo vinte anos atrás, ele arriscava tudo por uma última noite de libertinagem.
Era por ela. Tinha que ser por causa daquela ragazza, que ele resolver fazer rebeldia a essa hora, faltando alguns minutos para esse teatro de casamento. Mário estava pensando com o pau ao se envolver com aquela cantora de ópera barata com quem se envolveu e obriguei a sumir de Nápoles. Seu que ele estava tentando apagá-la da sua cabeça e talvez até do seu coração, esquecê-la na cama de outras putas e no álcool. O problema é que, no processo, ele estava prestes a incendiar tudo o que construímos.
Os minutos se arrastaram. A igreja estava cheia e o murmúrio dos convidados começou a ganhar um tom diferente, de curiosidade mórbida.
“Onde estava o noivo?”
Olhei para o altar vazio. Aquele espaço vazio era uma afronta, um buraco negro sugando toda a fachada de normalidade que eu tanto trabalhara para erguer.
Foi quando o burburinho começou. Não vindo dos convidados comuns, mas dos meus homens. Eles se agruparam perto da entrada, vozes baixas e urgentes. Vi Bruno se aproximando deles, seu rosto pálido sob a luz dos vitrais.
Algo estava errado. Muito errado.
Meu coração, um velho órgão endurecido por décadas de violência e traições, começou a bater com uma força que me surpreendeu. Avancei em direção ao grupo, ignorando os olhares curiosos. Os homens se afastaram, seus rostos um misto de horror e hesitação.
— Bruno — gritei, minha voz ecoando na nave silenciosa, fazendo todos se virarem. — O que foi?
Ele se aproximou, seus passos pesados. Seus olhos não encontravam os meus.
— Don Nicolo… temos notícias de Mário.
— Fale, caralho! — gritei, perdendo o resto da compostura.
O nó de gelo no meu estômago explodiu em uma geada que se espalhou por todo o meu corpo.
— Eles encontraram um veículo… o carro de Mario — sua voz falhou. — Na estrada costeira, perto do farol. Ele estava… estava em chamas e, pelo cenário que nossos homens relataram, ele devia estar queimando há muitas horas.
O mundo desfocou naquele momento, senti o meu peito apertar e a minha cabeça comprimir.
O som na igreja sumiu, substituído por um zumbido agudo que elevou ainda mais a fúria que estava sentindo. Olhei para o Bruno e o agarrei pela lapela do terno, meu punho tremendo de uma fúria cega.
— E ele? Onde está Mario? — Me recuso a acreditar que o meu único filho tenha se machucado.
Bruno engoliu em seco, seus olhos finalmente se encontrando com os meus, e neles eu vi a verdade antes mesmo que ele a pronunciasse. Vi o fim de toda a minha linhagem, vi a morte usando a sua túnica negra com a maldita foice, olhando diretamente para mim com um sorriso encoberto pela porra do tecido que a escondia.
— O corpo… Don Nicolo, pelo amor de Deus… o corpo estava dentro. Carbonizado. Impossível de identificar, mas… era o veículo dele. As placas…
Não ouvi o resto. A palavra “carbonizado” ecoou na minha mente, queimando tudo em meu peito. Meu filho. Meu único filho. Minha carne, meu sangue, reduzido a cinzas num carro incendiado num desvio de estrada. A dor foi tão física que me curvei, sentindo uma pontada aguda no peito como se uma faca a tivesse perfurado.
A raiva que se seguiu foi tão absoluta, tão negra, que eu quase perdi o controle ali mesmo. Sentia o peso das minhas pistolas nas costas e o desejo de matar cada maldito que estava naquela igreja, estava me deixando enlouquecido.
Quase gritei, quase ordenei que todos os meus homens sacassem suas armas e transformassem aquela igreja maldita num banho de sangue.
Caterino. Só podia ter sido Caterino.
Uma emboscada, fomos feitos de idiotas enquanto ele nos servia aquele jantar na noite de ontem. Talvez ele tenha dado algum aviso naquelas trocas de olhares que trocamos. Mas jamais esperei que ele fosse fazer uma traição tão vil e tão completa, que beirava o genial em sua maldade. Ele sabia que Mario sairia.
Mas quem passou a informação de que meu filho sairia do hotel para ele poder armar a emboscada no lugar certo? Em um lugar onde demoraríamos horas para encontrá-lo.
Foi então que eu o vi. Ele saiu do carro e começou a caminhar em direção à nave central, com a filha pelo braço, vestida de branco, um fantasma de noiva para um noivo morto.
Don Caterino maldito, seu rosto estava sério, solene, a máscara perfeita de um homem que estava feliz por estar casando a sua única filha enquanto o seu filho estava no púlpito e conversava com alguém.
Os vi entrar na sala antes da entrada da igreja e Vincenzo passou quase que correndo em direção ao pai. Sabia que agora é um momento de preocupação. Palavras erradas podem ser o estopim de uma guerra onde todos podemos sair dessa igreja mortos. Não demorou muito para que ele saísse daquela sala e viesse em minha direção, sem os filhos.
Marzio SorrentinoSento ao lado de Mia, que ainda parece afetada pela pequena provocação que lhe fiz, antes de levá-la para o quarto que pretendo fazê-la minha de verdade. Para no dia seguinte levá-la para Sorrento, onde sua vida se transformará em um inferno pelas mãos dos meus pais.— Está pronta?Olho para ela enquanto tenta arrumar o vestido o máximo possível, confesso que deixei minha noiva um pouco mais desalinhada do que gostaria. A parte de cima do vestido está mais baixa, deixando seu colo muito mais à vista, e isso me incomoda.Entrego-lhe o meu paletó e vejo em seus olhos a falta de compreensão pelo gesto.— É minha esposa. Não quero outro homem cobiçando o que é meu.Dizer aquilo aquece meu coração, mas também o parte de um jeito que tenho certeza de que me fará sofrer amargamente em alguns dias. Observo enquanto ela veste o terno e, quando vejo que está devidamente coberta, saio do veículo e estendo a mão para que ela se coloque ao meu lado.Estamos em um dos melhores hoté
Marzio SorrentinoEstendo a mão em sua direção e olho para meu cunhado Andreas, que está ao seu lado, tentando confortá-la.— Vamos, Mia. Irei com você até o carro — diz ele, sustentando meu olhar.Seguro o desejo de sacar minha arma e matar esse idiota aqui mesmo. Engulo a raiva porque sei que, se fizer isso, terei um problema terrível com minha esposa. Acho que não cairia bem matar meu cunhado no dia das minhas núpcias. Talvez transforme uma mulher já extremamente irritada em uma possível assassina.Observo como ela está com o irmão e me recordo de que eu era exatamente assim com Mattia. Éramos um completando o outro. Imagino que, para eles, esse momento seja tão difícil quanto foi para mim ao saber que meu único irmão, meu gêmeo, havia morrido em sua primeira missão.Deixo que caminhem um pouco à frente e vejo meu pai se aproximar de Mia. Ela para, esperando que ele se aproxime e diga o que deseja. Sei que ele jamais causaria uma cena naquele momento, com tantos olhos voltados para
Marzio SorrentinoLargo o livro da contabilidade e tento relaxar em minha cadeira, não estou conseguindo me concentrar em mais nada desde que aconteceu o casamento. Na verdade, desde que saímos daquele hotel e ouvi a minha esposa falar, tudo o que não esperava. Já passou mais de um mês desde o nosso casamento e meus únicos momentos de tranquilidade são quando observo Mia à distância, fora isso tudo virou um inferno.Viro a cadeira em direção à grande janela de onde podia observá-la de longe, Mia estava caminhando pelo caminho entre a plantação de girassóis. Via o seu lindo sorriso enquanto ela colhia algumas das flores e entregava para o jardineiro que lhe acompanhava. Olhando de longe, me questiono como aquela pequena garota tão gentil com os empregados e com os soldados que cuidam da sua segurança pode ter um gênio pior que o demônio?É impossível olhar para a minha esposa e não sentir tesão por ela, Mia é uma mulher linda e extremamente forte, pude comprovar isso em nossas núpcias,
Mia FritzRespiro fundo e caminhamos até o andar de baixo da mansão Carter, onde meu casamento estava organizado. Uma coisa sem sentido para mim, já que poderia ter o meu casamento em Munique ou até mesmo em Sorrento. Mas, como o casamento da minha sobrinha será em dois dias aqui, acredito que para todos seria melhor ser feito aqui.Hoje deveria ser um momento em que eu olharia para os detalhes, que fixaria tudo o que estava vendo em minha mente, mas tudo em meu interior me alertava que estava fazendo o maior erro da minha vida, que estava em perigo.Pela janela do quarto, antes de descermos, meu olhar percorreu pelos convidados. Todos me eram familiares, assim como a meus irmãos. São pessoas importantes que circulavam por nossa casa em jantares que meu pai Fritz sempre fez questão de dar.Via dentre eles um olhar que pingava o desejo sedento por sua vendetta. O ódio dela é tão tangível que meus pés se fixaram no chão. Por um instante, os nossos olhos se fixaram. Aqui de cima, consegui
SinopseCasamento Arranjado | Diferença de idade | Inimigos para Amantes | Vingança | Romance de Máfia | Casal Forçado | Amor e Ódio | Sobrevivência | Drama Familiar.Mia Fritz foi obrigada a se casar com Marzio Sorrentino, o herdeiro mais temido e irresistível da família italiana. Ele jurou destruir a família de Mia, ela é lançada em um universo de sangue e traições onde cada gesto pode ser um erro fatal.Marzio tem um plano de vingança cuidadosamente arquitetado com seu pai e sua mãe. Mia é a peça central.O que ele não esperava? Desejá-la tanto quanto odeia tudo o que ela representa.Entre beijos tomados à força, alianças forjadas no fogo e onde cada passo pode ser o último, Mia precisa sobreviver a um jogo onde a confiança é uma arma rara e o amor, um risco mortal.À medida que traições vêm à tona e velhas rivalidades voltam a queimar, Mia descobre que alianças são a coisa mais importante em seu mundo.Ela pode ser exatamente a adversária que esse mundo sombrio temia.Agora, presa
Fabrizia LeoneA promessa que selaram na casa dos meus pais em Pádua não era apenas palavras, era uma força viva que moldou nossos dias a partir dali. O abraço do meu pai, solene e pesado de significados não ditos, e o olhar de Damiano, limpo de qualquer sombra, foram o alicerce sobre como construímos nossa vida.Deixamos aquele lugar mais leve, como se um fardo imenso tivesse sido finalmente compartilhado e, assim, dissipado.Sorrento nos recebeu de braços abertos, seu sol quente e o mar azul-turquesa sendo o cenário perfeito para nosso recomeço. A vida, finalmente, ganhava uma doce normalidade. Damiano mergulhou de corpo e alma em seu trabalho ao lado de Giovanni, sua lealdade inabalável sendo a espinha dorsal da confiança que o consigliere depositava nele.Ele encontrou em Marco, um soldado de olhos tranquilos e mãos calmas, para ser o guarda-costas de Ciara. Era uma forma de protegê-la, sim, mas também de libertá-la, dando-lhe a segurança para que ela pudesse fazer o que desejava.







