FAZER LOGINEu sempre achei engraçado como as pessoas conseguiam formar uma opinião sobre alguém em menos de cinco segundos. Na Westbrook, então, isso era praticamente uma disciplina obrigatória.
O filho dos empresários. A garota popular. O atleta. O nerd. O estranho. O invisível. E eu... Bom, eu era o problema. Nem precisava abrir a boca.
Bastava entrar pelo portão da escola para metade dos professores respirarem fundo, como se já esperassem que eu fosse incendiar alguma sala antes do intervalo.
Lucas caminhava ao meu lado enquanto atravessávamos o corredor principal.
— Aposto vinte reais que você leva uma advertência antes do almoço.
Sorri.
— Só vinte?
— Estou sendo otimista.
— Covarde.
Ele riu.
Lucas era praticamente meu irmão. A gente se conhecia desde os dez anos, quando nossas mães trabalhavam no mesmo hospital. Enquanto minha mãe fazia plantões intermináveis como enfermeira, a dele dirigia ambulâncias.
Nós crescemos esperando uma pela outra terminar o expediente. Foi ali que nossa amizade começou.
— Cara... — Lucas olhou discretamente para frente. — Acho que você já ganhou a primeira bronca do dia.
Levantei a cabeça. O inspetor Martins vinha em minha direção. Outra vez.
— Carter.
— Senhor Martins.
— Gravata.
Olhei para o próprio pescoço. Ela continuava completamente torta.
— Está aí.
— Arrume.
— Ela está funcional.
— Carter...
Suspirei teatralmente. Arrumei a gravata por dois segundos. Assim que ele virou as costas... Afrouxei novamente.
Lucas segurava a risada.
— Um dia ele infarta.
— Espero que não seja por minha causa.
Seguimos caminhando.
Na verdade... Eu não fazia aquilo porque gostava de desafiar autoridade. Fazia porque, depois de anos ouvindo que eu nunca seria bom o suficiente, descobri que era muito mais fácil interpretar o papel do garoto rebelde do que tentar agradar pessoas que já haviam decidido quem eu era.
Era cansativo tentar convencer os outros. Então eu simplesmente parei.
***A primeira aula ainda demoraria alguns minutos para começar. Entrei na sala. Como sempre, fui direto para o fundo. Última fileira. Perto da janela. Meu lugar desde o primeiro ano.
Lucas sentou ao meu lado.
Enquanto esperávamos o professor, tirei um caderno da mochila. Não para estudar. Nunca. Abri na última página. Peguei um lápis. E comecei a desenhar.
As linhas surgiam quase sem que eu pensasse. Primeiro uma roda. Depois um chassi. Motor. Suspensão. Detalhes. Era um projeto de motocicleta.
Eu fazia isso desde criança. Desenhava qualquer veículo que passasse pela minha cabeça. Carros. Motos. Motores. Peças. Era a única hora em que minha mente realmente ficava em silêncio.
— Cara...
Lucas olhou por cima do meu ombro.
— Você desenhou isso agora?
Dei de ombros.
— Estava entediado.
— Você sabe que isso é absurdo, né?
Fechei o caderno.
— Não exagera.
— Não estou exagerando. Você podia vender esses desenhos.
Sorri sem humor.
— Primeiro alguém teria que querer comprar.
Antes que ele respondesse... A porta da sala abriu. Os alunos começaram a entrar. Entre eles...Helena Albuquerque.
Ela caminhava segurando alguns livros contra o peito. Tudo nela parecia organizado demais. Os cabelos perfeitamente penteados. O uniforme impecável. Até a mochila parecia nova.
Ela cumprimentava os colegas com pequenos sorrisos. Sem exageros. Sem chamar atenção. Mas, por algum motivo... As pessoas naturalmente abriam espaço para ela passar.
Sofia entrou logo atrás. As duas sentaram na primeira fileira.
Lucas percebeu meu olhar novamente.
— Você está encarando.
— Não estou.
— Está sim.
Revirei os olhos.
— Só estou tentando entender uma coisa.
— O quê?
— Como alguém consegue gostar tanto de estudar.
Lucas riu.
— Talvez ela esteja se perguntando como alguém consegue gostar tanto de advertência.
Ponto para ele.
***Se existe uma coisa que aprendi convivendo com Sofia é que ela observa absolutamente tudo. Inclusive coisas que eu preferia não perceber.
Sentamos na primeira fileira. Como sempre. Antes mesmo de abrir meu caderno, ela se inclinou discretamente.
— O garoto problema olhou para você.
Continuei organizando meus lápis.
— Não olhou.
— Olhou.
— Sofia...
— Juro.
Respirei fundo.
— Você precisa parar de criar romances onde eles não existem.
Ela sorriu.
— Eu não crio romances. Eu observo possibilidades.
Ignorei. Era melhor assim.
Peguei meu planner. Abri na página do dia. Anotei os horários. As disciplinas. As atividades. Depois comecei a separar os materiais da aula. Tudo exatamente como fazia todos os dias.
Minha mãe dizia que organização era um reflexo da mente. Meu pai dizia que pessoas disciplinadas chegavam mais longe. Eu acreditava nos dois. Ou pelo menos tentava.
Enquanto organizava minhas folhas, ouvi algumas risadas no fundo da sala. Não precisei olhar. Sabia exatamente quem era. Daniel Carter.
Ele parecia completamente à vontade em um ambiente onde quase todo mundo tentava parecer perfeito. Era curioso. Enquanto alguns alunos passavam horas tentando conquistar popularidade... Ele simplesmente agia como se não se importasse. E, ironicamente... Era um dos mais conhecidos da escola.
Sofia cochichou outra vez.
— Você nunca reparou nele?
— Não.
— Nem um pouquinho?
Levantei os olhos.
— Eu nem conheço ele.
— Mas acha bonito?
Revirei os olhos.
— Você desiste fácil demais da dignidade.
Ela gargalhou.
— Isso foi um "sim".
— Isso foi um "não tenho tempo para essa conversa".
Antes que ela respondesse, o professor Arthur entrou na sala. O silêncio se instalou quase imediatamente. Ele era um dos professores mais respeitados da Westbrook. Também um dos mais exigentes.
Colocou uma pasta sobre a mesa. Olhou rapidamente para a turma.
— Bom dia.
Todos responderam em coro.
Ele caminhou lentamente entre as carteiras.
— Último ano. Alguns de vocês entrarão nas melhores universidades do país. Outros ainda não decidiram o que fazer. Mas existe uma habilidade que todos precisarão desenvolver antes de sair daqui. Trabalho em equipe.
Meu estômago apertou. Nunca gostei de trabalhos em grupo. Não porque não gostasse das pessoas.Mas porque normalmente eu acabava fazendo tudo sozinha.
O professor continuou.
— Este semestre teremos um projeto interdisciplinar que valerá cinquenta por cento da nota final.
Alguns alunos começaram a cochichar. Eu apenas anotei. Projeto. Cinquenta por cento. Interdisciplinar.
Professor Arthur sorriu discretamente. Um sorriso que, por algum motivo, parecia esconder alguma surpresa.
— Mas falaremos disso nos próximos dias. Hoje teremos apenas uma atividade diagnóstica.
Suspirei aliviada. Ainda havia tempo. Muito tempo. Ou pelo menos era isso que eu pensava. Sem imaginar que aquele projeto... Seria exatamente o motivo que colocaria meu caminho e o de Daniel Carter na mesma direção.
E que, quando isso acontecesse... Nenhum dos dois sairia igual.
DanielNa manhã seguinte, cheguei à escola mais cedo do que de costume. Não porque tivesse uma prova. Nem porque o professor tivesse marcado alguma reunião. Eu simplesmente não conseguira dormir direito. A mensagem de Melissa continuava na minha cabeça: "Espere até descobrir o que eu posso fazer para tirar você da vida dela."Eu já tinha recebido ameaças antes. Mas aquela parecia diferente. Não tinha insultos. Não tinha provocação. Era uma promessa. E eu não sabia até onde ela estava disposta a ir.Guardei o celular no bolso e entrei no prédio.O corredor ainda estava quase vazio. Alguns funcionários organizavam as salas, enquanto poucos alunos caminhavam em direção aos armários. Foi quando ouvi alguém me chamar.— Daniel.Virei. Era o professor Henrique, responsável pelo projeto de inovação.— Bom dia.— Bom dia.Ele segurava uma pasta grossa.— Preciso falar com você e com Helena.— Aconteceu alguma coisa?— Nada ruim.Ele sorriu.— Na verdade, vocês foram selecionados para repres
HelenaNa segunda-feira, acordei com a sensação de que alguma coisa havia mudado. Não sabia exatamente o quê.Talvez fosse a mensagem da noite anterior. Talvez fosse a sensação de estar sendo observada. Ou talvez fosse simplesmente o peso de perceber que, pela primeira vez, meu relacionamento com Daniel estava deixando de ser apenas uma história bonita entre duas pessoas.Estava começando a interferir em tudo. Na escola. Na minha família. Nas minhas amizades. E, principalmente, na maneira como eu enxergava meu próprio futuro.Meus pais sempre tinham planejado cada etapa da minha vida. Boas notas. Uma universidade excelente. Uma carreira promissora. Um futuro seguro.Eu nunca tinha questionado nada disso. Até Daniel aparecer. Ele não tinha entrado na minha vida para destruir meus planos. Mas, de alguma maneira, estava me fazendo perceber que talvez aqueles planos nunca tivessem sido realmente meus.***Quando cheguei à Academia Westbrook, encontrei Daniel no corredor. Ele estava cerca
HelenaPassei boa parte da noite olhando para o celular. A mensagem de Melissa continuava na minha cabeça: "Só espero que ele descubra a verdade antes que seja tarde."Eu sabia que aquilo era uma tentativa de me assustar. Sabia que ela queria me fazer perder o controle. Mas havia algo diferente dessa vez. Ela não estava apenas ameaçando. Estava observando. Sabia onde eu estava.Sabia que eu e Daniel tínhamos ido à praça. E isso significava que alguém estava acompanhando nossos passos.Na manhã seguinte, acordei decidida a contar tudo para Daniel. Não queria mais esconder nada. Quando cheguei à escola, porém, ele não estava no portão. Procurei por ele no corredor. Nada. Na sala, também não. Sentei em meu lugar e tentei me concentrar na aula, mas minha atenção não conseguia permanecer nos livros. Até que o celular vibrou.Era uma mensagem dele. "Precisamos conversar."Meu coração apertou. Respondi imediatamente: "Aconteceu alguma coisa?"Ele demorou alguns minutos: "Depois da aula."F
HelenaNaquela manhã, acordei com uma sensação diferente. Não era medo. Pela primeira vez em vários dias, não era.Era uma espécie de tranquilidade que eu quase tinha esquecido como era sentir. Talvez porque, depois de tudo o que Melissa vinha fazendo, eu finalmente tivesse entendido uma coisa: eu não podia permitir que as ameaças dela decidissem o que eu sentia.Daniel tinha deixado isso claro. Ele estava comigo. E eu estava com ele. Mesmo que o mundo inteiro resolvesse questionar aquilo.Desci para tomar café e encontrei meus pais à mesa. Meu pai levantou os olhos do jornal assim que me viu.— Bom dia.— Bom dia.Minha mãe sorriu.— Dormiu bem?— Muito.Meu pai me observou por alguns segundos.— Está feliz?A pergunta me pegou de surpresa.— Estou.Ele abaixou o jornal.— Por causa dele?Meu rosto esquentou.— Pai...Minha mãe segurou uma risada.— Augusto, deixe sua filha tomar café.Ele voltou a olhar para o jornal, mas havia um pequeno sorriso em seu rosto.— Só estou perguntando
HelenaNos dias seguintes, aprendi que o medo podia ocupar espaços pequenos. Ele estava na vibração do celular. No som de passos atrás de mim no corredor. Em uma porta que se fechava. Em um olhar demorado demais. E, principalmente, em cada mensagem de número desconhecido.Melissa não precisava aparecer na minha frente para me lembrar de que estava ali. Ela tinha encontrado uma maneira muito mais eficiente de entrar na minha cabeça. Na segunda-feira de manhã, acordei com uma nova mensagem: "Você realmente acha que ele vai continuar escolhendo você quando souberem de tudo?"Fiquei alguns segundos olhando para a tela. Depois bloqueei o número. Não respondi.Não queria dar a ela exatamente aquilo que estava procurando. Minha reação. Mas, quando cheguei à escola, outra mensagem apareceu: "Bonita a sua coragem. Pena que ela não vai durar."Apaguei novamente. Respirei fundo. Eu precisava continuar.***Assim que entrei no corredor principal, encontrei Daniel. Ele estava conversando com Luca
HelenaPassei a noite inteira pensando nas palavras de Melissa. "Você deveria tomar cuidado."Por mais que eu tentasse convencer a mim mesma de que aquilo não passava de uma provocação, havia alguma coisa diferente na forma como ela tinha falado. Não parecia ciúme. Parecia ameaça.Ainda assim, decidi não contar nada aos meus pais.Meu pai já estava desconfiado demais em relação a Daniel. Se eu chegasse em casa dizendo que Melissa estava tentando criar problemas, provavelmente ele concluiria que aquele relacionamento estava trazendo complicações demais para a minha vida.E eu não queria dar a ele mais motivos para me afastar de Daniel.Na manhã seguinte, cheguei à escola alguns minutos antes do sinal. Daniel estava encostado no armário, mexendo no celular. Assim que me viu, guardou o aparelho.— Bom dia.Sorri.— Bom dia.Ele me observou por alguns segundos.— Você dormiu?— Mais ou menos.— Ainda pensando no que a Melissa falou?Parei.— Como você sabe?— Porque ontem você disse que n







