INICIAR SESIÓN"Lentamente, sem pressa alguma, os olhos dele percorreram cada centímetro do meu corpo. Foi um olhar denso, profundo, quase palpável. Naquele segundo, sob a intensidade daquela avaliação, senti-me absolutamente desprotegida, como se estivesse desnudada no meio da rua por aquele olhar faminto e maduro. Meu coração martelava contra as minhas costelas, acelerado, descompassado. Ainda assim, por mais que meu pudor me mandasse desviar a atenção, meus olhos pareciam hipnotizados, incapazes de se soltar da sua face impecável e marcante. Ele claramente sabia o poder que exercia; tinha a plena consciência de que era deslumbrante. Ver uma jovem garota como eu paralisada por sua presença era apenas mais um detalhe cotidiano para o seu ego. BIBI! O som estridente de uma buzina cortou o ar como um chicote, quebrando o transe elétrico em que eu me encontrava. Um susto percorreu minha espinha e dei um pequeno pulo para trás, desviando o olhar bruscamente. "
Ver másO cheiro de fumaça e carne queimada nunca abandonou totalmente as minhas narinas. Durante doze longos meses, esse odor impregnou minha pele, disfarçado sob os perfumes importados mais caros e o álcool forte com que tentei anestesiar o inferno que minha vida se tornara. Mas a minha dor nunca foi de luto. Nunca foi de saudade. A dor que queimava minhas entranhas era feita do mais puro, gélido e concentrado ódio.Eu passei um ano inteiro vivendo no rescaldo da destruição causada por um monstro. Quando o jatinho particular explodiu no ar e caiu no interior de São Paulo, virando uma bola de fogo que reduziu tudo a cinzas e detritos carbonizados, o mundo inteiro achou que eu era o viúvo devastado. A perícia médica foi categórica: a arcada dentária encontrada entre os destroços, queimada pela fumaça de combustível, batia com precisão cirúrgica com os relatórios odontológicos de Rand. A ciência oficial assinou o atestado, fecharam o caixão lacrado, e todos choraram a morte da jovem e bela esp
O que o público e a perícia médica jamais desconfiariam era de um detalhe macabro que planejei com meses de antecedência. Antes mesmo de colocar o pé no jatinho, eu havia providenciado a morte perfeita. Um dentista clandestino no subúrbio havia moldado e implantado estrategicamente alguns dentes falsos com arcada modificada em fragmentos ósseos sintéticos e biológicos — obtidos no mercado negro de necrotérios —, os quais deixei escondidos no compartimento de bagagem da aeronave. Quando os peritos fossem escavar as cinzas e os detritos carbonizados, encontrariam exatamente o que precisavam para fechar o caso sem sombra de dúvidas: amostras odonto-legais forjadas que confirmariam, com precisão cirúrgica, que os restos mortais pertenciam à jovem esposa de Dhehanks. Ninguém desconfiou de nada. A ciência oficial foi a minha maior aliada.Seis meses se passaram. A Suíça me acolheu com seu ar gélido, suas montanhas cobertas de neve e sua discrição inabalável. Sob o nome de Valerie Vance, uma
O estalo metálico da câmara da Glock ecoando pelas paredes de madeira do escritório ainda ressoava nos meus ouvidos quando a porta da frente foi desferida com uma sequência de batidas violentas. Não eram batidas de um funcionário hesitation. Era o peso da autoridade. Ajustei o paletó sobre a arma velada na minha cintura, engoli o gosto amargo de fel e caminhei até o hall de entrada. Ao abrir, me deparei com o Delegado Barcellos, acompanhado de dois peritos da Polícia Civil vestindo jaquetas pretas com o brasão emborrachado e um promotor de justiça cujo rosto estampava aquela severidade burocrática de quem já havia tirado suas próprias conclusões antes de ouvir a primeira palavra. — Dhehanks — disse Barcellos, sem qualquer preâmbulo ou o mínimo decoro de pêsames. Seu olhar varreu meu rosto, demorando-se na barba por fazer de três dias e nos meus olhos injetados. — Precisamos conversar. O relatório preliminar da equipe de busca e salvamento dos destroços do jatinho acaba de chegar do I
O silêncio do meu escritório nunca pareceu tão pesado, tão sufocante, tão carregado de um fedor invisível de traição. A poeira dançava no feixe de luz que cortava as cortinas de veludo, e cada ponteiro do relógio de parede soava como uma martelada no meu esterno. Ela estava morta. Rand estava morta. Era o que o mundo dizia. Era o que os jornais gritavam nas manchetes sensacionalistas. Era o que a perícia da Polícia Civil e da Aeronáutica tentava me vender com seus relatórios frios, cheios de termos técnicos como "fadiga de material", "combustão instantânea" e "ausência de sobreviventes". Uma tempestade de fogo a cinco mil pés de altitude. Um caixão lacrado contendo cinzas, pedaços de metal derretido e um punhado de matéria orgânica irreconhecível que os legistas diziam, com uma margem estatística fria, pertencer a uma jovem de dezoito anos. Mas a minha intuição não funciona com estatísticas. Ela funciona com o estômago. E o meu estômago estava se retorcendo em nós secos, em uma n












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