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5. Sombras do passado

Autor: Scali Lupin
last update Data de publicação: 2024-12-14 09:47:43

LORCAN

Após deixar a desconhecida sob os cuidados da curandeira, na segurança da minha cabana, segui direto para a tenda do conselho. O clima dentro do espaço era mais denso do que o ar antes de uma tempestade.

Dahlia estava sentada ao lado direito da mesa, com as costas eretas e os olhos dourados faiscando entre cansaço e irritação. Ela mantinha distância física e emocional de Cassian, que ocupava a cadeira mais próxima da minha, do lado oposto. O jeito como ele balançava a perna, inquieto, e lançava olhares discretos para a companheira, denunciava a tensão entre os dois.

Mas ela sequer o reconhecia. Seus olhos o ignoravam com a precisão de quem está furiosa demais para perdoar.

Eme, sempre delicada, parecia dividida entre o desconforto e a culpa. Olhava de um para o outro como uma mãe preocupada tentando acalmar duas crianças briguentas. Perseus… Perseus estava como sempre: isolado no próprio mundo, girando uma moeda entre os dedos, com o olhar perdido em algum ponto da madeira da mesa.

Meus ombros pesavam como se carregassem o peso de uma alcateia inteira. Na verdade, era exatamente isso.

— Alguém pode me explicar o que diabos aconteceu na fronteira? — perguntei, apoiando as mãos sobre a mesa, minha voz baixa, mas carregada da autoridade que a posição de Alfa exigia.

Cassian foi o primeiro a falar, como era de se esperar.

— Simples, Alfa. — Cruzou os braços, o tom rígido como pedra. — Eme e Perseus trouxeram uma completa desconhecida para o nosso território. Quando cheguei ao local, informei que ela seria interrogada. A fêmea tentou fugir, e eu fiz o que era necessário para contê-la.

Dahlia soltou uma risada seca e amarga. Um som que mais parecia uma lâmina cortando o ar.

— Se vai contar, pelo menos conte direito — disparou ela, inclinando-se para trás na cadeira com um gesto de desdém. — Meus pais já tinham avisado que a trariam para você. Ela estava cooperando até você aparecer com toda a sua arrogância de macho beta e ameaçar prendê-la com os braceletes lunae e ainda deslocar o tornozelo machucado dela.

Cassian rosnou baixo, o olhar escurecendo.

— Arrogante, não. Precavido. Talvez você devesse tentar um pouco disso antes de sair simpatizando com estranhos… ainda mais nesse estado. — Seu olhar desceu para a barriga dela, agora bem visível.

Dahlia ergueu o queixo num desafio mudo, os olhos faiscando de puro ódio.

— Ela estava machucada, Cassian! Já tinha dificuldades para andar. Você acha mesmo que ela conseguiria me atacar? E, além disso… eu senti. Ela não tinha intenção de fazer mal a ninguém.

Cassian bufou, com uma risada sem humor.

— Sentiu? — Ele avançou o tronco para frente, como se estivesse pronto para explodir. — Dahlia, você sempre faz isso! Sempre acha que pode sentir o melhor das pessoas… Você esqueceu que estamos cercados por inimigos? Que estamos cada vez mais indo para o sul? Que qualquer passo em falso pode ser o suficiente para pôr todo mundo aqui em risco?

Ela mordeu o lábio, os olhos marejados de raiva, mas manteve a postura.

— Essa sua mania de tratar todo desconhecido como uma ameaça está te cegando, Cassian.

— E a sua mania de confiar em qualquer um vai acabar te matando. — Ele rebateu sem pensar.

Silêncio. Um silêncio pesado.

Eme limpou a garganta, como se tentasse suavizar o impacto.

— A culpa foi minha, Alfa. — Sua voz saiu baixa, com um tremor de vergonha. — Quando fomos até a Ilha das Devas buscar a planta que pediu, encontramos a garota ferida… fraca… ela mal conseguia respirar. Não tive coragem de deixá-la para morrer.

Perseus, como sempre, só acrescentou para defender o ponto de sua companheira:

— Não vimos motivos imediatos para matá-la. — Continuou rolando a moeda entre os dedos, sem levantar o olhar.

Fechei os olhos por um segundo. A Ilha das Devas… Um lugar que nenhum lobo em sã consciência escolheria visitar por vontade própria. Cheio de ervas venenosas para nossa espécie e completamente isolado. Só quem tem um bom motivo se arriscaria lá. Isso, por si só, já tornava aquela loba um problema.

— Entendo porque trouxeram ela. — Abri os olhos e encarei Cassian. — Mas sua abordagem foi precipitada.

Ele enrijeceu.

— Alfa…

— Não termine a frase. — Minha voz o cortou como aço. — Você está emocional demais, Cassian. Desde que soube da gravidez da Dahlia, está andando sobre um fio. E eu entendo. — Fiz uma breve pausa. — Mas não posso permitir que essa sua impulsividade coloque todos em risco. Não mais.

Ele abaixou o olhar, reconhecendo a bronca.

Cassian e eu éramos amigos desde criança, eu o conhecia como ninguém, assim como ele me conhecia. Eu sabia que suas atitudes não eram em vão, havia motivos para ele ser tão desconfiado e inseguro. Houve um tempo em que ele confiou em alguém e isso custou muito para a nossa alcateia. 

— E você, Dahlia… — Girei meu foco para ela. — Eu admiro sua compaixão. Mas o mundo não funciona só com boas intenções. Tente, pelo menos, não se colocar de bandeja diante de alguém que ainda não sabemos se é amiga ou inimiga.

Ela respirou fundo, assentindo.

Cassian manteve a cabeça baixa e os punhos cerrados. Seu instinto de proteger estava se tornando uma bomba-relógio.

— Por hoje, é o suficiente. — Suspirei, esfregando o rosto com as mãos. — Vocês dois, vão descansar. Amanhã conversaremos de novo.

— Sim, Alfa. — Os dois disseram em uníssono, mas o clima entre eles continuava tenso.

Antes de sair, Cassian tocou meu ombro e murmurou, num fio de voz:

— Obrigado… irmão.

Assenti em silêncio, vendo-os desaparecer pela abertura da tenda.

Virei-me para os dois que restaram.

— Agora… vocês. — Cruzei os braços. — Quero saber todos os detalhes. Desde o momento em que puseram os pés na Ilha até decidirem trazer uma estranha para dentro do meu território. E quero saber o que já descobriram sobre ela… por menor que seja a informação.

Minha mente latejava com mil perguntas… Quem era aquela loba? Por que estava naquele lugar amaldiçoado? Que segredos trazia nos ossos frágeis e na pele marcada? E por que, por todas as malditas estrelas no céu, meu lobo reagia a ela de um jeito que nunca havia reagido a ninguém?

Havia algo nela… Algo que ainda estava por vir.

E eu precisava estar preparado.

A qualquer custo.

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Último capítulo

  • Entre a Escuridão e o Alfa   23. O silêncio que grita

    Saí da tenda de Fenwick sem rumo certo, as botas afundando na neve com uma força que não era necessária, como se cada passo pudesse descarregar um pouco do que fervia dentro de mim.“Vá até a fonte”, ela tinha dito. “Pergunte a ele”.Mas eu não conseguia. Não ainda. Não sabia se conseguiria olhar para Lorcan sem que toda aquela raiva explodisse antes mesmo de ele abrir a boca.Andei sem prestar atenção onde meus pés me levavam, a mente presa entre a imagem da cicatriz de Fenwick e a lembrança do próprio Lorcan, gentil demais, cuidadoso demais, para ser o mesmo homem capaz daquilo.Foi só quando o silêncio ao redor mudou de qualidade que percebi onde tinha parado.O casarão dos órfãos erguia-se à minha frente, cinzento contra o céu ainda mais cinzento, e o ar ali parecia sempre mais pesado que no resto do acampamento.Aproximei-me sem pensar muito, meus sentidos ainda à flor da pele pela discussão de minutos atrás. Foi por isso, talvez, que os ouvi antes de os ver.Uma voz baixa. Calma

  • Entre a Escuridão e o Alfa   22. A cicatriz

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    O segundo dia de treino começou com um sorriso que eu não esperava encontrar no meu próprio rosto.— Se continuar sorrindo assim antes de eu nem ter atacado, vou achar que está subestimando meu treino de novo — disse Lorcan, girando o bastão com aquela facilidade irritante que fazia tudo parecer fácil demais.— Estou só me divertindo antecipadamente com sua cara quando eu finalmente te acertar.— Isso vai levar um bom tempo pra acontecer.— Veremos.O ar gelado da manhã mordia meu rosto, mas o corpo já não doía tanto quanto no dia anterior. Vesti a capa mais grossa que ele tinha mandado através de Sofia, e mesmo com o frio cortante, senti algo parecido com disposição.A verdade é que eu segurava mais do que mostrava. Meus músculos ainda lembravam movimentos antigos, de uma vida inteira atrás, quando eu era a filha mais velha do Alfa Alistair e cada tarde da minha infância tinha sido moldada para um dia ocupar o lugar dele. Anos de instrução, de disciplina, de mestres contratados só

  • Entre a Escuridão e o Alfa   19. Instinto e Cautela

    — O Alfa quer te ver. Agora.Troquei um olhar com Marius, que apenas ergueu as sobrancelhas e voltou a mexer o caldeirão, como quem já esperava esse tipo de convocação repentina fazer parte da rotina.— Disse o motivo? — perguntei, limpando as mãos na túnica.— Não. Só falou pra te levar até o pátio de treino.Pátio de treino.Segui Joe através do acampamento, a neve estalando sob as botas, tentando adivinhar o que aquilo significava. Não me lembrava de ter feito nada que justificasse uma bronca — pelo menos não nos últimos dois dias.Quando chegamos, encontrei Lorcan no centro de um espaço aberto cercado por estacas de madeira, sem camisa apesar do frio cortante, testando o peso de dois bastões de treino nas mãos.Alguns lobos observavam de longe, curiosos.— Chamou por mim? — perguntei, parando a uma distância segura.— Chamei. — Ele jogou um dos bastões na minha direção sem aviso.Consegui pegá-lo por puro reflexo, quase deixando cair pela surpresa do peso.— O que é isso?— Treino.

  • Entre a Escuridão e o Alfa   18. Atrás da cortina

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