Compartir

6. Círculos Perigosos

Autor: Scali Lupin
last update Fecha de publicación: 2025-06-11 13:12:45

PADGETT.

A luz da manhã atravessava as frestas das cortinas com força suficiente para incomodar, mesmo de olhos fechados. Meu corpo inteiro parecia pesado, como se eu tivesse sido arrastada por quilômetros antes de ser jogada ali.

Quando finalmente abri os olhos, o choque quase me derrubou.

O quarto ao meu redor era grande demais, bonito demais, limpo demais… para alguém como eu. As paredes eram revestidas por um papel de tom pastel, com detalhes florais discretos, e móveis de madeira escura contrastavam com a paleta clara. Os lençóis alvos, macios como nuvens, me envolviam como se eu fosse uma peça frágil de porcelana.

Sentei tão rápido que o mundo girou. Pressionei a testa com as mãos enquanto tentava ordenar os pensamentos.

Onde… onde eu estava?

O sol parecia forte demais para uma manhã de inverno. Fechei os olhos, respirando fundo, procurando alguma lembrança recente. Fragmentos vieram em flashes confusos: a floresta… a dor no tornozelo… pessoas desconhecidas me cercando… um homem de olhos vermelhos…

Antes que eu pudesse organizar tudo, a porta rangeu.

Meu coração parou.

O som de passos. Masculinos. Firmes.

Meu instinto gritou para eu fugir, mas minhas pernas estavam tão úteis quanto duas peças de pedra.

— Querida… você acordou.

A voz que invadiu o quarto me congelou o sangue nas veias.

Aiden.

O nome dele explodiu na minha cabeça com a mesma força de um trovão.

Meu estômago revirou, e por um segundo, pensei que estava sonhando de novo… ou talvez num pesadelo dentro de outro.

Ali estava ele, com aquele sorriso amaldiçoado, o mesmo que um dia me fez dizer sim a um pedido de casamento.

As covinhas nas bochechas… o cabelo loiro bagunçado… o olhar cínico mascarado de ternura.

Não. Isso não podia estar acontecendo.

— Você… — Minha voz saiu falha, cortada pelo pânico e o ódio. — Você é um maldito traidor! Como chegou aqui?

Ele inclinou a cabeça como se estivesse genuinamente confuso. Aquele ar de falsa inocência que só ele sabia fazer.

— Paddie… o que está dizendo? Estive aqui o tempo todo… cuidando de você.

Mentiroso. Manipulador.

As memórias da nossa história vieram como lâminas afiadas: promessas quebradas, mentiras bem contadas, e o olhar satisfeito dele quando… quando...

Meu corpo inteiro tremia.

Tentei gritar de novo, mas o som não saía. E então ele se aproximou da cama, como um predador chegando perto da presa.

Meus olhos arregalaram, e tentei me mover para longe, mas era como se estivesse presa. Meus músculos não respondiam.

Ele se sentou ao meu lado, o calor do seu corpo me queimando.

— Está segura agora… confie em mim.

Não! Não havia segurança possível perto dele. Eu queria fugir, gritar, lutar… qualquer coisa.

Enquanto ele falava de lembranças antigas, meu cérebro oscilava entre acreditar e odiá-lo. Entre confiar no que eu via… e no que eu sabia.

E quando o som do mar preencheu o ambiente… eu soube.

A Ilha.

A maldita ilha.

O grito que explodiu da minha garganta foi carregado de todo o desespero e ódio que eu sentia.

E então… acordei.

De verdade.

Meus olhos se abriram abruptamente, desta vez para um quarto pequeno, de cortinas pesadas e tecido grosso, por onde só passava uma fresta de luz fraca. O cheiro… era de terra molhada, madeira… e algo mais… amadeirado… masculino.

Minhas roupas estavam diferentes. Meu corpo tremia, e um suor frio escorria pela minha nuca.

Quando virei a cabeça, quase gritei de novo.

Uma silhueta.

Alguém estava ali… parado ao lado da cama.

Dois olhos vermelhos, de um tom profundo como rubis incandescentes, me encaravam.

Meu lobo interior, mesmo ferido e fraco, recuou instintivamente. Cada parte de mim gritava: perigo.

— Estava tendo um pesadelo, lobinha?

A voz dele… baixa, rouca… vibrava no ar como um trovão abafado. E, ainda assim, havia uma calma controlada que parecia muito mais assustadora do que qualquer grito.

Minha respiração travou.

Eu não fazia ideia de quem ele era de verdade. Não sabia onde estava. Por que tinham me trazido ali? E o mais importante: como era possível esse homem… esse Lycan… exalar tanto poder?

Olhei em volta, como um animal encurralado procurando uma rota de fuga.

Ele permaneceu imóvel, os olhos rubros brilhando com uma intensidade que me deixava tonta. Não havia como negar… alguma coisa dentro de mim reconhecia o perigo nele. Meu corpo inteiro estava alerta, mas… por alguma razão, também respondia de outra forma… uma que me deixava ainda mais apavorada.

Por que meu coração estava acelerando daquele jeito?

E por que meu olhar demorava tanto nos contornos do peito nu dele… nas gotas de água ainda escorrendo da sua pele… no cabelo escuro, molhado…?

Deusa, o que havia de errado comigo?

Meu olhar caiu sobre meu próprio corpo e o pânico veio com força total.

Eu estava de camisola.

— O que… o que você fez comigo!? — A pergunta saiu mais alta do que eu pretendia, carregada de pavor.

Cenas horríveis me invadiram. Imagens dele me tocando enquanto eu dormia, mexendo em mim… Meu estômago virou ao avesso.

O homem ergueu o queixo, franzindo o cenho como se só então percebesse o rumo que meus pensamentos estavam tomando.

— O que está insinuando? — Sua voz agora tinha um tom de pedra. Fria. Letal.

Seus olhos… houve um brilho branco por um segundo, quase como um lampejo de luz… depois sumiu. Eu nem tinha certeza se vi de verdade.

— Se… se aproveitou de mim enquanto eu estava inconsciente… — sussurrei, mas mantive a firmeza.

Ele avançou um passo.

O ar ao meu redor pareceu mais denso.

— Não sou esse tipo de homem, lobinha. — O grave da sua voz cortou o espaço entre nós como uma lâmina.

A forma como disse aquilo, quase como se fosse pessoal… como se a simples acusação fosse uma afronta grave.

Por um momento, pude respirar melhor. Mas meu alívio foi curto.

— Então quem me trocou?

Ele suspirou, passou uma mão pelos cabelos úmidos e pegou uma camisa de uma poltrona próxima. Ao fazer isso, seus músculos se moveram como cordas tensionadas. Era impossível não olhar.

— A curandeira. — respondeu, vestindo a camisa devagar. — Ela te deu um banho de ervas para ajudar na sua recuperação. Acredito que já esteja melhor da sua lesão… não é?

Meu olhar caiu para meu tornozelo. Uma tala improvisada o envolvia. Mexi o pé devagar e, para minha surpresa, a dor quase tinha sumido.

O que…?

— Parece… aceitável… — murmurei, mais para mim do que para ele.

Ao erguer o olhar, dei de cara com o dele me observando.

Ele me analisava como se pudesse ver através de mim.

De novo, aquela sensação. Como se eu estivesse exposta. Vulnerável de um jeito que nem nos piores momentos com Aiden eu tinha sentido.

E então, o olhar dele desceu.

Percorreu minhas pernas, subiu lentamente pelas minhas coxas, meu quadril, minha cintura… e finalmente parou nos meus lábios.

Meu corpo reagiu com um arrepio, como se um fio elétrico percorresse minha espinha.

Aquele homem me olhava como se eu fosse dele.

"Controle-se, Padgett." Era difícil. A tensão era quase física entre nós.

Respirei fundo, reunindo a pouca coragem que me restava.

— Pare de me olhar como se eu fosse a sua próxima refeição.

Ele arqueou a sobrancelha, e pela primeira vez, vi um resquício de humor em seus olhos.

— Para deixar claro… — disse com a voz mais baixa e arrastada do que antes, — Não sou canibal, mas… — Fez uma breve pausa, olhando novamente para minha boca. — você tem lábios bonitos e cheios. Posso achar uma função para eles… se quiser.

Meu coração perdeu uma batida.

— O quê?! — Foi tudo o que consegui dizer, as bochechas queimando.

Ele riu, no entanto, foi uma risada seca, contida. Como se estivesse rindo mais de si mesmo do que de mim.

Em seguida, o clima mudou de novo.

Ele pegou o cinto, prendeu à calça e seguiu em direção à porta.

— Tem água quente na banheira. Tome um banho e troque de roupa. Vou mandar alguém buscá-la em quinze minutos. Não se atrase.

E com isso, ele saiu.

O som dos passos ecoou pelo corredor como um aviso de que o meu pesadelo estava só começando.

E que eu tinha acabado de conhecer o homem mais perigoso da minha vida.

Continúa leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la App

Último capítulo

  • Entre a Escuridão e o Alfa   33. O rastro

    A floresta engoliu o som dos tambores em poucos minutos.Corri entre as árvores sem plano algum, as botas afundando na neve, o vestido vermelho cortando o ar noturno como uma ferida aberta no meio de toda aquela brancura. Deveria estar congelando. Em vez disso, o hidromel ainda queimava no meu sangue, e minha loba pulsava dentro de mim com uma impaciência que eu não sentia desde antes da ilha.Pela primeira vez em cinco anos, a floresta não era uma ameaça. Era um convite.Fechei os olhos por um instante e deixei o instinto assumir. O cheiro de pinheiro, de terra gelada, de pelo e suor de dezenas de machos espalhados pelas sombras. Tantas pistas, tantos rastros cruzados. E, por baixo de todos eles… tão fraco que eu mal conseguia distinguir, um aroma que eu reconheceria em qualquer lugar do mundo.Madeira queimada. Couro. Algo quente e sombrio, que me arrepiava a nuca.Minha loba rosnou, satisfeita. Abri os olhos e segui.— Não adianta fingir que está caçando outro.A voz veio de trás

  • Entre a Escuridão e o Alfa   32. Meia-noite

    Os machos começaram a se dispersar em direção à linha das árvores, risadas nervosas e provocações cruzando o ar enquanto cada um escolhia sua direção. Vi Joe entre eles, piscando para mim antes de desaparecer rumo ao norte com um sorriso que prometia travessura.Foi então que avistei Lorcan descendo da pedra elevada, caminhando sem pressa na direção da mesma linha de árvores, o casaco escuro balançando contra o vento gélido.Ele também ia participar.Meu estômago revirou de um jeito que eu não soube nomear imediatamente. Surpresa, talvez, misturada com algo mais afiado, mais quente, que preferi não examinar de perto.— Você vai participar, não vai? — Dahlia surgiu ao meu lado, os olhos brilhando de expectativa, uma mão descansando sobre a barriga redonda.— Não tenho certeza se é apropriado — hesitei, ainda observando a silhueta de Lorcan desaparecer entre as sombras das árvores. — Não sou exatamente... daqui.— Bobagem. — Ela revirou os olhos, puxando-me pelo braço na direção do gru

  • Entre a Escuridão e o Alfa   31. A caçada da Deusa

    O som dos tambores mudou completamente a energia da clareira.Onde antes havia risadas soltas e conversas desconexas, agora um ritmo mais sincronizado tomava conta de cada corpo ao redor. Pés batendo no chão gelado, mãos marcando palmas contra as coxas, vozes se erguendo numa espécie de cântico sem palavras definidas, apenas sons guturais que pareciam vir de algum lugar ancestral, anterior a qualquer linguagem.— Vem — chamou Dahlia, aparecendo ao meu lado com os olhos brilhando de empolgação, puxando-me pelo braço na direção do centro da clareira, onde a maior fogueira ardia mais alta que todas as outras. — Você precisa experimentar isso pelo menos uma vez.Deixei-me levar, o álcool que bebi antes ainda aquecendo meu sangue, a presença de Lorcan ainda queimando em algum lugar atrás dos meus pensamentos.A dança não tinha coreografia definida, nenhum padrão óbvio, apenas corpos se movendo livremente ao ritmo dos tambores, alguns em pares, outros sozinhos, todos conectados por aquela

  • Entre a Escuridão e o Alfa   30. A vitória lhe cai bem

    Um assobio ecoou por trás de mim.— Duas semanas! — gritou alguém da plateia que se formara ao redor da mesa, animado. — Alfa, ouviu isso? Parece que vamos garantir que sua convidada especial fique bem mais tempo por aqui!Risadas explodiram ao redor. Senti o rosto esquentar, mas não desviei o olhar da mesa, nem da direção de Lorcan, que permanecia parado a poucos passos, os braços cruzados, o rosto cuidadosamente neutro demais para ser genuíno.— Cuidado com o que deseja — retruquei, alto o suficiente para que ele ouvisse também. — Duas semanas são tempo mais que suficiente para eu descobrir todos os segredinhos sujos dessa alcateia.Mais risadas, e dessa vez até um resquício de sorriso torto cruzou os lábios de Lorcan antes que ele conseguisse disfarçar.— Aceito a aposta — declarou Marius, embaralhando as cartas com o mesmo movimento sutil de antes.Distribuí minhas próprias cartas com uma destreza que espelhava exatamente os movimentos que tinha acabado de observar, os dedos escor

  • Entre a Escuridão e o Alfa   29. Jogo de cartas

    PADGETT.A clareira central tinha se transformado em outro mundo.Fogueiras enormes cercavam o espaço todo, tantas que o calor delas se misturava numa única onda quente que subia pelo ar da noite, desafiando o inverno que insistia em tudo ao redor. Era estranho sentir aquele calor no rosto enquanto a neve ainda cobria o chão sob meus pés, como se, por uma noite, a própria natureza tivesse decidido fazer uma pausa na crueldade do clima.— Se continuar parada aí admirando o fogo, vai acabar derretendo antes da meia-noite. — A voz de Dahlia surgiu ao meu lado, divertida.Virei-me e a encontrei com um sorriso largo, as mãos apoiadas na barriga redonda, os olhos brilhando com a energia contagiante da celebração ao redor.— Está mais quente do que eu esperava, acho que nem preciso desse casaco — comentei, ajustando o sobretudo sobre os ombros.— Ah, querida. — Ela ergueu uma sobrancelha, maliciosa. — A magia dessa noite é que as fogueiras não são as únicas por fazer você suar..Cruzei os

  • Entre a Escuridão e o Alfa   28. Uma lua quase cheia

    LORCAN.O amanhecer mal tinha rompido quando reuni os patrulheiros na borda leste do acampamento, o frio cortante mordendo a pele mesmo através das camadas de couro que eu vestia.— Sei o que essa noite significa para todos vocês — comecei, encarando cada rosto à minha frente, principalmente os jovens, alguns mal tinham completado dezenove invernos. — E por isso quero perguntar, não ordenar: algum de vocês, entre os solteiros e os recém-acasalados, prefere participar da celebração e deixar a vigia para outro turno?Silêncio. Nenhuma mão se ergueu, nenhum olhar vacilou.Nilo, um dos mais jovens, foi o primeiro a falar, o queixo erguido com uma convicção que me surpreendeu.— Prefiro ficar de vigia, Alfa. — Sua voz saiu firme, sem hesitação. — Minha companheira vai entender. E prefiro isso a saber que algo pode acontecer enquanto todos dançam distraídos.Um murmúrio de concordância percorreu o grupo inteiro.— Ninguém aqui precisa de ordem para saber o que é certo — acrescentou outro, m

Más capítulos
Explora y lee buenas novelas gratis
Acceso gratuito a una gran cantidad de buenas novelas en la app GoodNovel. Descarga los libros que te gusten y léelos donde y cuando quieras.
Lee libros gratis en la app
ESCANEA EL CÓDIGO PARA LEER EN LA APP
DMCA.com Protection Status