INICIAR SESIÓNHanna
Voltei ao escritório depois do maldito almoço com Porter sentindo como se estivesse costurando meus próprios pedaços com linha fraca. O trabalho sempre foi meu abrigo: números, contratos, metas, tudo organizado, previsível, seguro. Pessoas, por outro lado… eram a parte descontrolada da equação. Liguei o computador, respirei fundo e tentei me afundar nos e-mails. Foi então que vi. Um e-mail diferente. Assunto: Convite para Entrevista – Processo Seletivo Avançado. Meu coração bateu mais rápido. Li uma vez. Depois outra. E a terceira só para ter certeza de que não estava imaginando. Uma multinacional de tecnologia super conhecida queria me entrevistar. Eu. Logo eu. Bem no dia em que minha vida pessoal rachou no meio. Pela primeira vez naquele dia, senti esperança se infiltrando por entre as rachaduras. Não consegui conter — liguei para Sabrina. — SABRINA! — quase gritei quando ela atendeu. — Meu Deus, que susto! — ela riu. — O que aconteceu? — Recebi um convite para a entrevista. Aquela entrevista. — NÃO! — ela berrou, já rindo. — Hanna, pelo amor de Deus, é HOJE? — Daqui dois dias… mas eu tô tremendo. — A gente vai comemorar. Hoje. Sem discussão. E claro, eu aceitei. O bar estava movimentado, mas aconchegante. Uma luz quente, música ambiente, pessoas conversando animadas. Sabrina já estava lá, lindíssima como sempre. Abracei-a com força. — À minha irmã foda — ela disse, levantando a taça. — E ao meu futuro emprego — respondi, rindo. Brindamos. Eu contei da vaga, da empresa, da posição. Sabrina me olhava como se eu fosse uma estrela prestes a nascer no céu. Foi no meio da explicação que senti. Aquela presença. Eu não ouvi, não percebi pela visão periférica — eu senti. O ar pareceu mudar de temperatura. Um arrepio subiu pela minha nuca. Olhei por reflexo na direção da porta. Dois homens acabavam de entrar. E não eram só bonitos. Eles tinham presença. Daquelas que preenchem o ambiente inteiro sem pedir licença. O primeiro — moreno, olhos verdes intensos, rosto sério, impecavelmente vestido — era quase impossível de ignorar. Não era só atraente: era magnético. O tipo que a gente sente antes de ver. O segundo — loiro, sorriso largo, olhar brincalhão — carregava uma autoconfiança leve, quase sedutora. Carisma puro. Os dois pareciam energia e opostos perfeitos caminhando lado a lado. Sabrina me cutucou. — Hanna… por favor… olha aquele moreno. Eu nem acredito. — Eu tô tentando não olhar. — Não tá funcionando. Tentei voltar para a conversa, mas quando ergui a taça novamente, algo aconteceu. Eles passaram pela nossa mesa. Devagar. Como se estivessem avaliando o ambiente. O moreno — o dos olhos verdes — olhou diretamente para mim. Foi um segundo. Um único segundo. Mas meu coração tropeçou dentro do peito. Não foi um olhar curioso. Não foi um olhar casual. Foi um olhar… atento. Como se quisesse me decifrar. A falta de ar veio de leve. O loiro percebeu, claro, porque sorriu para Sabrina. Um sorriso que ela devolveu na hora, riscando sem vergonha nenhuma. Eles pararam alguns metros além, conversaram entre si, e seguiram para o bar. Eu tentei disfarçar, mexendo no cabelo. — Hanna… — Sabrina riu. — Você tá vermelha. — Eu só… me assustei. — Aham, claro. Com a beleza dele. Sendo sincera? Até eu fiquei sem ar. Revirei os olhos. Mas por dentro… eu também estava tentando entender o que tinha acontecido. Minutos depois, quando achava que o universo já tinha brincado o suficiente comigo, uma voz masculina surgiu ao lado da nossa mesa. — Desculpem interromper… — disse o loiro, com um sorriso que parecia ter sido projetado para causar impacto. — Mas minha amiga aqui — apontou para mim — deixou cair isso. Olhei para baixo. Meu crachá do trabalho estava no chão. Quando me abaixei para pegar, outra mão pegou ao mesmo tempo. A dele. E o toque — simples, acidental — me deu um arrepio quente. Nossos olhos se cruzaram de perto. Era ele. O moreno. Os olhos verdes estavam ainda mais intensos de perto. Profundos. Observadores. Perigosamente atentos. Ele entregou meu crachá sem sorrir. Mas seu olhar falava mais do que qualquer gesto. — Obrigada — murmurei, um pouco sem voz. — De nada — respondeu, firme. A voz grave, calma, segura. O loiro sorriu e se apresentou primeiro. — Eu sou Enrico. E esse aqui é o Ethan. — Bateu de leve no ombro firme do amigo. — E você é…? — Hanna — respondi. — Sabrina — completou minha irmã, sorrindo mais do que o necessário para Enrico. Eles se sentaram? Não. Eles pairaram. Ethan permaneceu olhando para mim por alguns segundos, como se analisasse cada microexpressão. Havia algo enigmático nele, um misto de intensidade e controle. Um tipo de homem que, sem dizer uma palavra, já transmite alerta ao corpo inteiro. E ele notou meu nervosismo. Tenho certeza. Porque ergueu a sobrancelha de forma quase imperceptível. Uma pergunta silenciosa. Enrico, por outro lado, se inclinou empolgado. — Estão comemorando algo? — Uma entrevista — respondeu Sabrina antes de mim. — Minha irmã foi chamada para uma empresa enorme. — Impressionante — ele disse, genuinamente animado. — Deve ser pra alguém muito competente. Senti minhas bochechas esquentarem. Mas enquanto Enrico falava, eu sentia o peso do olhar de Ethan. Não era invasivo. Não era grosseiro. Era… curioso. Como se tentasse entender por que meus olhos fugiam do dele. E justamente por fugir… ele continuava olhando. Por fim, Ethan tocou o braço de Enrico, chamando-o com um breve aceno. — Vamos? — disse ele, num tom que parecia firme demais para ser apenas uma sugestão. — Claro, claro. — Enrico piscou para Sabrina. — A gente se vê por aí. Eles se afastaram. Mas antes de entrar no fluxo de pessoas, Ethan virou o rosto para trás. E olhou para mim uma última vez. Um olhar que percorreu minha pele como um rastro elétrico. Um olhar que dizia: vi você. e não vou esquecer. Respirei fundo, tentando recuperar a compostura. Sabrina deu um tapa leve no meu braço. — Hanna. — O quê? — Se esse homem olhar pra você assim mais uma vez, você vai engravidar pelo olhar. Revirei os olhos, mas ri. E ali, entre vinho, barulho e o coração descompassado, percebi: Talvez… só talvez… a vida estivesse prestes a me levar para um lugar completamente diferente.HannaO cheiro de querosene e plástico frio do avião é o meu novo perfume para a madrugada. Estou sentada na poltrona da janela, o celular no modo avião, o bilhete na mão — prova física da loucura que acabamos de cometer. O relógio marca pouco mais de meia-noite. Porter só apareceria de manhã, e eu tinha que chegar antes.A ansiedade é um motor vibrando em meu peito, fazendo minhas mãos tremerem. Eu fecho os olhos e recito o plano de Ethan: chegar antes de Porter e contar a verdade primeiro.— Mãe, eu preciso ser honesta. Eu não estou mais casada com Porter. — Ensaio baixinho, sentindo o nó na garganta.Não é só dizer sobre o divórcio. É sobre a traição, sobre Porter ser um mentiroso, sobre como ele me quebrou e sobre como ele está manipulando tudo para me fazer parecer a vilã.— Ele me traiu. Ele tinha um caso com a assistente dele. E é por isso que ele está tentando manipular você agora.A voz da minha mãe, a decepção em seu rosto, o medo de ela me julgar em vez de Porter… tudo isso
HannaEthan me afasta, mas ainda segura meus braços, e o brilho em seus olhos é a única coisa que me impede de desabar. Não é mais apenas o meu chefe; é o homem que decide ir para a guerra por mim.— Que plano? — Minha voz é pura ansiedade, misturada com uma ponta de esperança desesperada.— Eu não vou deixar ele controlar a narrativa. Ele está voltando com os papéis do divórcio e com uma história manipulada. Ele quer que sua mãe pense que você é a traidora que fugiu para os braços do chefe rico.— Ele faria isso — murmuro, fechando os olhos. O medo de decepcionar minha mãe, de ter minha vida reescrita por Porter, é paralisante.— E nós vamos impedi-lo.Ethan pega o meu celular novamente. Eu já sabia que ele havia acionado o advogado no Brasil na noite anterior para uma notificação legal, mas agora o jogo havia mudado.— Eu já enviei um Cessa e Desista através do meu advogado para Porter. Ele sabe que estou de olho. Mas a próxima jogada dele será amanhã de manhã, na casa da sua mãe, p
Hanna Acordo com o braço de Ethan me envolvendo com firmeza, a luz do sol lutando contra as cortinas fechadas. O peso dele sobre mim não é sufocante; é uma âncora que me impede de flutuar de volta para o caos que Porter tentou impor ontem. O Dia 2 começa com uma sensação de trégua. Uma trégua forçada, talvez, mas que eu aceito de bom grado. Eu me viro devagar para olhar para ele. Ethan já está acordado, me observando com aqueles olhos verdes profundos que sempre parecem ler minha alma. Havia uma sombra de cansaço em sua expressão, mas a determinação da noite anterior — de que ele cuidaria de tudo — ainda estava lá. — Dormiu? — pergunto, a voz rouca. — Sim. Depois de enviar algumas mensagens. Eu sei exatamente para quem. Para o advogado no Brasil, acionando o contra-ataque contra Porter. A simples ideia de Ethan usando todo o poder dele para me proteger acalma os demônios que Porter cria. — Obrigada — digo, e a voz falha um pouco. Não só pelo que ele fez, mas pelo que ele é para
Ethan O beijo termina, mas a fúria não. Não é minha. É um instinto protetor primitivo que me consome. A maneira como ele a ameaçou, como ele tenta arrastá-la de volta para o pântano que criou… isso me faz querer atravessar a cidade e arrancar aquele sorriso cínico da cara dele. Hanna ainda está nos meus braços, o coração dela batendo rápido contra o meu peito, mas eu sinto a tensão retornando. — O que foi, amor? — pergunto, segurando o rosto dela, forçando-a a olhar para mim. — O que sua irmã disse na mensagem? Ela balança a cabeça, tentando se desvencilhar do pensamento, mas eu não deixo. Porter não vai estragar isso. — Ele a ameaçou — Hanna murmura, os olhos arregalados de indignação. — A Sabrina. Ele disse que se ele "cair", arrasta as duas. Ele está controlando tudo, Ethan. Ele está jogando. Minha mandíbula trava, um músculo pulsando perto da têmpora. — Jogando? Ele não está jogando. Está se afogando — rosno. — E quando se afoga, agarra qualquer coisa para tentar subir. El
PorterEu pratico o sorriso no retrovisor antes de tocar a campainha.Relaxo a postura. Ombros abertos. Expressão calma. O marido perfeito.A campainha ecoa, e três segundos depois a porta se escancara.— Porter! — A mãe de Hanna diz, surpresa, mas feliz. — Meu Deus, quanto tempo! Entra!Entro como se nada tivesse mudado.Como se a minha vida não estivesse desmoronando pelas mãos de uma garota que tomou decisões precipitadas e influenciada pela pessoa errada.Como se eu ainda pertencesse àquele lugar.— Senti falta de vocês — digo, com o tom exato de saudade doce.Ela abre espaço, mas o olhar dela demora meio segundo a mais no meu rosto.Um detalhe mínimo, mas eu percebo tudo.Talvez ela tenha ouvido algo.Talvez esteja começando a juntar as peças.Não importa.Eu controlo a narrativa.— Sabrina está aí? — pergunto, casual.A resposta vem antes da mãe abrir a boca.— Tô aqui. — Sabrina aparece no corredor com os braços cruzados.Aí está a insolência.— Sabrina — digo, sorrindo. — Semp
HannaA tarde está ensolarada, mas há um frio constante no meu peito — daquele tipo que não importa a temperatura, nunca vai embora.E, mesmo assim, estou feliz.Quase flutuando.Ethan caminha ao meu lado, segurando minha mão como se tivesse medo de me perder de vista. O polegar dele faz círculos lentos na minha pele, e aquilo sozinho já me desmonta.— Parece que estou sonhando — murmuro.Ele me olha por cima dos óculos escuros, com aquele sorriso que bagunça tudo dentro de mim.— Pode tocar pra conferir. Eu sou real.— E é isso que eu tô fazendo — respondo, apertando a mão dele.Ele ri, aquele riso baixo que arrepia minha espinha.No restaurante, ele puxa minha cadeira antes de se sentar — um gesto pequeno, mas que sempre me pega desprevenida.O garçom mal se afasta, e Ethan já me encara como se tivesse esperado dois meses por isso.— Que foi? — pergunto, rindo.— Nada. — Ele passa o dedo pela minha mão devagar. — Eu só… tinha esquecido como você fica bonita na luz do dia.Meu rosto







