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Capítulo 2 - O silêncio depois do reencontro

作者: Maya Durand
last update publish date: 2025-11-09 16:53:10

O caminho de volta para casa pareceu mais longo do que nunca. Camille dirigia em silêncio, o rádio desligado, o pensamento longe demais. As ruas eram as mesmas, mas dentro dela, tudo estava… deslocado. O nome de Adam ainda vibrava em algum lugar do peito, como uma música antiga que o tempo não conseguiu silenciar.

Quando estacionou diante do prédio, ficou imóvel por alguns segundos, as mãos presas ao volante. “Foi só um acaso”, sussurrou para si mesma. Mas o corpo sabia a verdade, nada naquele reencontro foi simples.

Subiu o elevador com um peso estranho no peito. Entrou no apartamento silencioso, largou a bolsa, tirou os sapatos, respirou o entardecer que passava pelas cortinas. O silêncio quase a acolheu. Quase. A campainha quebrou a paz em duas. Uma, duas vezes.

Camille hesitou. Não esperava ninguém. E, ainda assim, algo dentro dela já sabia.

Ela abriu a porta.

— Oi, Cam.

A voz veio acompanhada de um sorriso ensaiado demais para ser sincero.

Lucas Miller.

O homem que ela amou.  O mesmo que a destruiu sem remorso. Eles trabalhavam juntos havia mais de 6 anos. Ele, médico e ela enfermeira da Morgan & Miller Health Center, sócios desde que o projeto cresceu. Uma parceria profissional que funcionava melhor do que o relacionamento pessoal que um dia tiveram. Mas havia dias, como aquele, em que a simples presença dele parecia demais. 

Ela pensou em barrar a entrada. Por um segundo, quase conseguiu. Mas o corpo agiu antes da razão como tantas vezes antes e recuou meio passo.

— Lucas… você não costuma aparecer sem avisar.

Ele ergueu a garrafa de vinho e a sacola, como se aquilo justificasse tudo.

— Pensei que a gente podia jantar juntos.

Camille cruzou os braços.

— Foi um dia cheio.

— Como todos.. Ele completou, tentando suavizar o clima.

Ela não respondeu. O peso da presença dele parecia ocupar o ar inteiro.

Quando Lucas colocou o jantar na bancada, Camille respirou fundo para não perder a paciência.

— Um jantar seria ótimo. Só não sei se precisava ser aqui.

O sorriso dele hesitou. Quase rachou.

— Eu só queria ver você.

— A gente se vê todos os dias, Lucas. O expediente inteiro.

Ele estudou o rosto dela, procurando algo, tentando invadir um espaço que não lhe pertencia mais.

— Você tá diferente.

— Cansada.

— Não. Eu conheço seu cansaço. Isso… é outra coisa.

Camille se afastou até a janela.

— Não começa.

— Não tô começando nada. Só queria entender.

— Não tem nada pra entender.

Ele deu um sorriso curto, incrédulo.

— Tem, sim. Você não tá bem.

— Eu tô bem, ela corrigiu, firme. Só quero silêncio hoje.

— Silêncio… ou distância?

Ela não respondeu. Não precisava.

Lucas mexeu na garrafa, evitando olhar diretamente para o que tinha causado.

— Eu sei que você ainda guarda mágoa. E eu sei que errei. Mas achei que… depois de tudo… a gente tinha reconstruído alguma coisa.

— Reconstruído? Ela deu uma risada amarga. Lucas, o que aconteceu não desaparece. O tempo não apaga. Ele só cobre de poeira.

O silêncio caiu pesado entre eles.

Ele se aproximou um passo.

— Eu quero você inteira de novo.

O peito dela apertou, não de emoção, mas de cansaço.

— Destruíram essa parte de mim... disse baixo.

Lucas engoliu seco, sem saber o que fazer com aquela verdade.

— Eu ainda acho que ela pode voltar.

— Lucas, a gente trabalha bem juntos. Isso já é mais do que eu imaginava que conseguiríamos depois de tudo. Não força o que não existe mais. Agora só quero tomar um banho e dormir.

Ele pareceu querer dizer algo, mas desistiu. Foi até a porta.

— Um dia você ainda vai deixar alguém te amar de novo.

E saiu.

Camille fechou a porta devagar. A quietude voltou, mas não trouxe paz. Porque, no fundo, outra lembrança latejava, o olhar de Adam, tão firme, tão contido, tão diferente de tudo que Lucas era. Ela se deixou cair no sofá e fechou os olhos, exausta. Mas o problema era este: o corpo dela não queria descanso. Queria lembrança. E a lembrança dele era devastadora.

Porque quando a imagem de Adam surgia, vinha inteira: o terno moldando os ombros largos, as mãos firmes, o perfume discreto, a voz grave que percorria a espinha dela como um toque. E o corpo dela reagia antes mesmo que ela percebesse: o estômago apertou, a pele esquentou, um calor lento, profundo, perigoso, começou a se espalhar.

Sete anos… Sete malditos anos… e bastou um olhar dele para o desejo que ela achava enterrado voltar com a força de um soco. Ela odiava isso. Odiava o jeito como o corpo dela ainda reconhecia o dele. Odiava lembrar do que sentia quando ele a tocava. Odiava imaginar, mesmo sem querer, como seria sentir aquele homem agora, mais forte, mais maduro, mais… proibido.

Camille respirou fundo, tentando retomar o controle. Mas não adiantava. O passado estava vivo. E o desejo também.

Era impressionante e revoltante como o corpo dela reagia sem pedir permissão. Como se tivesse acordado algo que ela passou anos enterrando. Algo que não deveria mais existir.

Ela levou a mão ao peito, tentando acalmar o coração acelerado, mas a verdade era simples demais para negar: havia sentimentos que o tempo não apagava… só adormecia. E, às vezes, tudo o que precisavam era de um único olhar para despertar outra vez. E foi nesse pensamento que a comparação, inevitável e amarga, surgiu sozinha:

Lucas nunca provocou aquilo nela. Nunca. Com ele havia rotina, convivência, amizade. Com ele havia história, mas não havia profundidade.

Mas Adam… Adam era outra coisa. Outra intensidade. Outra presença. O tipo de homem que não precisava tocar para incendiar, bastava existir por perto.

E isso era cruel. Cruel porque ela não queria sentir, mas sentia mesmo assim. Cruel porque o corpo dela lembrava. Lembrava dele.

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