Compartir

Capítulo 03

Autor: S.R.Silva
last update Fecha de publicación: 2025-08-21 10:21:49

Ele me olhou demoradamente, como quem pesa cada sílaba antes de soltar.

— Não é da sua conta.

A frieza de sua voz foi como um balde de água gelada despejado sobre mim. Parte de mim queria responder, gritar, jogar de volta cada migalha de desprezo que ele me oferecia. Mas não fiz nada. Apenas respirei fundo e engoli o gosto amargo que subia pela garganta. Gael virou as costas e saiu, batendo a porta com força suficiente para fazer o berço tremer.

O barulho acordou Bruno, que começou a chorar. Peguei-o nos braços, balançando suavemente.

— Ei, meu amor, não chora… a culpa não é sua. É daquele seu pai… idiota e… e… — minha frase se perdeu quando ele soltou uma risadinha inesperada, como se tivesse entendido e acabei rindo com ele.

A madrugada foi um borrão de mamadeiras, choros e silêncio. Quando finalmente amanheceu, percebi que não tinha saído do quarto dos meninos. Dormi mal, encolhida na poltrona, com o baby doll amarrotado e manchado de leite. Um perfume adocicado, ainda pairava no ar provavelmente trazido por Gael na noite anterior. A ironia era cruel: minha primeira noite como esposa foi passada cuidando de dois bebês que nem eram meus, enquanto meu marido se divertia com outra mulher.

Depois de um banho rápido, vesti um vestido simples que havia trazido da casa da minha avó. Desci as escadas guiada pelo som de vozes vindo da sala de jantar.

Gael estava sentado à cabeceira da longa mesa de mármore, concentrado em algo no tablet. Ao lado dele, Paulina Vieira impecável, como se já estivesse pronta para uma sessão de fotos. Uma blusa branca justa, maquiagem perfeita e aquele sorriso satisfeito que parecia feito sob medida.

Por um instante, pensei em voltar para o quarto e fingir que tinha me perdido no caminho. Mas não podia viver me escondendo.

— Bom dia. — Minha voz saiu firme, ainda que baixa.

Paulina me analisou de cima a baixo, como quem avalia um produto defeituoso. O sorriso dela se contraiu, tornando-se algo quase imperceptível, mas carregado de veneno.

— Que surpresa ver você acordada tão cedo. Achei que estivesse… ocupada com as crianças.

Gael não levantou os olhos.

— Francisca vai cuidar deles esta manhã — disse, seco, como se eu fosse apenas mais um detalhe sem importância.

Sentei-me na extremidade oposta da mesa. Uma das empregadas trouxe café e pão fresco. Paulina continuou:

— Você sabe trocar fraldas? — perguntou, como se estivesse me entrevistando para um emprego. — Bebês sentem quando a pessoa não tem jeito… e choram ainda mais.

Levantei os olhos e sorri com calma, sem me deixar atingir.

— Estou aprendendo. Ontem à noite nos entendemos muito bem. Eles dormiram tranquilos.

Vi o brilho no sorriso dela desaparecer por um instante. Talvez não esperasse que eu tivesse algo positivo para contar.

Gael finalmente largou o tablet e me encarou.

— Preciso que esteja pronta às duas da tarde. Temos um evento beneficente.

Franzi o cenho.

— Evento?

— Primeira vez que vamos aparecer como casal. — Ele falou como quem anuncia um compromisso de negócios, não algo pessoal. — Mariane vai te levar para escolher algo adequado. — Seu olhar percorreu meu vestido simples como quem avalia um erro.

Paulina soltou uma risadinha baixa, mexendo no café.

— Gael, não acha cedo demais? Creio que Leandra precise de mais tempo para se adaptar ou ela será comida viva pelas as mulheres que esperavam ser as futuras senhora Lubianco. 

Ele não respondeu. Apenas me lançou um olhar direto, deixando claro que não havia espaço para discussão. Respirei fundo. Minha avó dependia de mim para que esse acordo fosse cumprido, e, por mais que eu quisesse discutir, me mantive calma. 

Depois do café, subi para o quarto dos meninos. Bruno já estava acordado, sentado no berço, emitindo sons desconexos que me arrancaram um sorriso involuntário.

— Bom dia, meu amor… — falei, pegando-o no colo.

Breno acordou logo depois, esfregando os olhos com as mãozinhas fechadas. Equilibrei os dois nos braços, sentindo aquele calorzinho de vida contra meu peito. Foi quando aconteceu.

— Mamã… — Breno murmurou, ainda meio sonolento.

Fiquei estática e senti meu coração errar uma batida.

— O que você disse? — perguntei, quase sussurrando.

— Mamã… — repetiu, e então encostou a cabeça no meu ombro, como se buscasse abrigo.

Não sei explicar o que senti naquele momento. Talvez fosse amor, talvez fosse apenas um instinto de proteção. Mas foi como se, em um único segundo, todos os olhares frios, as humilhações e o desprezo de Gael perdessem importância.

Aquele bebê, que mal me conhecia, me chamou de mãe. Talvez por confusão, talvez por carência… mas, para mim, soou como um pedido silencioso: Fica comigo.

Foi então que ouvi passos firmes no corredor. Quando me virei, Gael estava parado na porta, observando a cena.

Continúa leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la App

Último capítulo

  • Esposa por Conveniência    Prólogo

    Quinze anos depois Às vezes eu paro no meio do corredor, respiro fundo e deixo esse número ecoar dentro de mim. Quinze anos desde que tudo aquilo que um dia pareceu impossível se transformou exatamente nisso: vida. Cheia, barulhenta, caótica, imperfeita… e absolutamente minha. A casa estava em festa. Balões coloridos ocupavam cada canto da sala, o cheiro de bolo recém-assado se espalhava pelo ar e as risadas ecoavam como se quisessem ultrapassar as paredes. Era aniversário dos gêmeos. Mais um. E, ainda assim, parecia sempre o primeiro. — Para de mexer nas minhas coisas, Bruno! — Breno gritou do pé da escada, segurando o chapéu de aniversário como se fosse um troféu. — Suas coisas? — Bruno respondeu, indignado. — Tudo aqui é nosso! Até porque você nasceu depois de mim por dois minutos! Revirei os olhos, rindo sozinha, enquanto ajeitava a bolsa no braço. Dois minutos. Quinze anos depois, eles ainda discutiam por isso. Bruno e Breno eram idênticos no rosto, mas completam

  • Esposa por Conveniência    Capítulo 248

    Leandra Felix Um ano depoisÀs vezes eu repito esse número em silêncio, como se ele precisasse ser testado, confirmado, validado. Um ano desde que tudo finalmente começou a se encaixar. Não porque a dor tenha desaparecido algumas feridas não somem, apenas aprendem a respirar conosco, mas porque, pela primeira vez, a sensação de justiça deixou de ser uma promessa distante e passou a ser realidade.Rafaelky e Juliana foram condenadas.Escrever isso ainda me causa um arrepio estranho, uma mistura de alívio e um peso que só quem esperou demais por respostas consegue entender. A sentença foi alta, proporcional a tudo o que fizeram, a cada decisão cruel, a cada consequência ignorada. Quando ouvi o juiz ler as palavras finais, não comemorei. Não chorei. Não gritei.Eu apenas fechei os olhos… e pensei na minha mãe.Pensei em seu sorriso cansado, no jeito como ela sempre arrumava meu cabelo atrás da orelha quando eu estava nervosa. Pensei no cheiro do perfume que ela usava só em ocasiões esp

  • Esposa por Conveniência    Capitulo 247

    Gael LubiancoO telefone tocou cedo demais para ser algo banal. Não precisei olhar a tela para saber que aquela ligação carregava um peso diferente. Ainda assim, olhei. Murilo. O nome piscando como um ponto final que se aproximava.Atendi no primeiro toque.— Pegaram — ele disse, sem rodeios. — Juliana Pacheco foi presa há menos de uma hora. Tentava deixar o país.Fechei os olhos por um instante, apoiando a mão na bancada da cozinha. O ar entrou nos pulmões de um jeito diferente, mais profundo, mais livre.— Tem certeza? — perguntei, mesmo sabendo que Murilo não ligaria para dar falsas esperanças.— Flagrante — confirmou. — Documentos falsos, dinheiro, tentativa clara de fuga. Não tem mais como escapar.Um silêncio breve se instalou entre nós. Não era incredulidade. Era assimilação. Anos de tensão, desconfiança e vigilância finalmente encontravam um desfecho concreto.— Obrigado — respondi, por fim. — Por tudo.— Ainda não acabou — Murilo ponderou. — Mas agora o jogo virou de vez.A l

  • Esposa por Conveniência    Capítulo 246

    Juliana PachecoSempre soube que o fim não viria com aviso prévio. Pessoas como eu não recebem despedidas elegantes nem oportunidades de redenção. O que existe é fuga. Antecipação. Frieza. E, acima de tudo, controle.Ou pelo menos era nisso que acreditava.O espelho do quarto refletia uma mulher impecável. O cabelo preso com precisão, a maquiagem discreta, escolhida não para agradar, mas para não chamar atenção. Nada extravagante. Nada memorável. Um rosto comum o suficiente para desaparecer em meio a outros tantos em um aeroporto internacional.A mala estava aberta sobre a cama. Apenas o essencial. Roupas neutras, documentos falsos guardados no fundo duplo, dinheiro em espécie dividido em compartimentos diferentes. Tudo planejado há semanas. Meses, talvez. Desde o momento em que percebi que Rafaelly havia se tornado um risco maior do que um trunfo.Filhos são assim. Úteis enquanto obedecem. Perigosos quando começam a querer existir por conta própria.O celular vibrou sobre a bancada d

  • Esposa por Conveniência    Capitulo 245

    Leandra FelixA decisão nasceu pesada, densa, como tudo que vinha se acumulando dentro do peito desde que as verdades começaram a aparecer. Não foi impulso. Foi necessidade. Havia perguntas que não aceitavam mais o silêncio como resposta, e feridas que só cicatrizariam depois de serem expostas à luz.Gael percebeu antes mesmo que as palavras fossem ditas. Bastou o olhar fixo demais, a inquietação contida, o jeito de quem respirava fundo como se estivesse se preparando para atravessar uma tempestade.— Preciso ir à delegacia — a frase saiu firme, apesar do nó na garganta. — Preciso vê-la.Ele não perguntou quem. Não precisou.O silêncio que se seguiu foi breve, mas carregado. Gael encostou-se à bancada da cozinha, cruzou os braços e analisou cada traço do rosto à sua frente, como se buscasse qualquer sinal de hesitação que justificasse uma negativa.— Tem certeza? — perguntou, por fim. A voz calma, mas os olhos atentos demais.— Tenho — respondi, sem desviar o olhar. — Se não for agora

  • Esposa por Conveniência    Capítulo 244

    Gael LubiancoO dia amanheceu cinza, pesado, como se o céu tivesse decidido refletir exatamente o que se passava dentro de mim. Eu estava acordado antes mesmo do despertador tocar, encarando o teto do quarto enquanto Leandra dormia ao meu lado, exausta, o corpo ainda tenso mesmo durante o sono. Uma das mãos dela repousava sobre o travesseiro, a outra sobre o peito, como se precisasse se certificar de que ainda estava respirando.Aquilo me atingiu de um jeito que nenhuma palavra seria capaz de explicar.Levantei-me com cuidado para não acordá-la. Caminhei até a janela e afastei levemente a cortina. O jardim estava silencioso, bonito demais para contrastar com o caos que se desenhava fora daqueles muros. Meus filhos dormiam tranquilos nos quartos ao lado, alheios ao fato de que alguém tinha tentado, mais de uma vez, destruir tudo aquilo.E eu não ia permitir uma terceira tentativa.Ainda estava parado ali quando o celular vibrou na minha mão. O nome de Murilo apareceu na tela, e eu soub

Más capítulos
Explora y lee buenas novelas gratis
Acceso gratuito a una gran cantidad de buenas novelas en la app GoodNovel. Descarga los libros que te gusten y léelos donde y cuando quieras.
Lee libros gratis en la app
ESCANEA EL CÓDIGO PARA LEER EN LA APP
DMCA.com Protection Status