INICIAR SESIÓNNyla
Preciso manter a calma.
Olho para o Ronan com a expressão mais desdenhosa e desinteressada que Sybella poderia entregá-lo nesse momento.
Abro um sorriso curto, mantenho o olhar afiado para ele.
“Marido, todos nós interpretamos papéis. O seu agora é de ser um marido que não enche o meu saco, o que acha?” Respondo com frieza fingida.
Ele abre um sorrisinho curto e afirma com a cabeça. Sua atenção se volta para a taça de vinho que está à sua frente e ele a beberica.
Seguro a respiração o máximo que consigo, tentando controlar a aceleração do meu coração.
Observo o ambiente com mais cuidado, mantendo a minha mente concentrada em minha função.
Ronan é um homem muito observador, preciso tomar cuidado com ele.
Procuro pelo grande salão a presença de meu pai. Noto que ele está com alguns membros da nossa própria alcateia conversando.
A tensão no ambiente não é tão palpável como estava sendo durante a cerimônia, mas ela ainda existe.
Duas convidadas nobres se aproximam da nossa mesa, há um sorriso largo em seus rostos, mas o olhar é o mais preocupante. Consigo sentir a inveja delas em minha direção.
“Parabéns pelo belíssimo casamento! A escolha da decoração é de fato...” uma delas declara e olha ao redor com certa antipatia na expressão. “Interessante.”
Coloco em meu rosto o olhar mais frio e duro que Sybella já demonstrou ter na vida.
“Acho que para vocês de ranks mais baixos na alcateia haja realmente uma certa dificuldade para compreender tamanha profundidade e elegância na decoração do nosso casamento. É algo divino, afinal, a nossa união...” digo com a voz aveludada, mas cheia de veneno. Coloco a minha mão em cima da do Ronan. “Foi feita pelas estrelas e pela nossa belíssima e amada deusa da lua.”
O olhar das duas convidadas decai e toda a antipatia se transforma em desprezo, algo que Sybella sempre conseguiu despertar nos outros.
A mão do Ronan se mexe e ele, de forma sutil, se afasta do meu toque assim que as convidadas vão embora.
“Agora sim, eu estou conseguindo te reconhecer...” ele murmura em minha direção.
Mantenho meu rosto passível. Não posso levantar mais suspeitas.
“Se você me dá licença, irei andar um pouco. Interagir com os convidados,” informo.
Não espero sua resposta, levanto-me e afasto-me da mesa com passos calmos e elegantes.
“Aí está a minha nora!” Garrick anuncia animado, com a voz alta o bastante para chamar a atenção de todos ao redor e marcar a própria presença como se o salão inteiro lhe pertencesse.
Meu sogro se aproxima de mim junto com alguns membros do próprio conselho.
São homens poderosos e influentes na alcateia Montanha Solitária. Não posso cometer nenhum deslize sequer agora. Um gesto em falso, uma palavra mal colocada, e tudo pode se voltar contra mim.
Busco entre os convidados novamente o meu pai e eu o encontro me encarando. Seu rosto severo demonstra tudo o que ele não pode dizer em voz alta: não posso cometer um erro sequer agora. É um aviso mudo, duro, que pesa mais do que qualquer ordem dita diante de todos.
“Olá, alfa Garrick. É uma honra e felicidade fazer parte da sua família.”
Ele solta uma risada áspera e estridente. O som não carrega acolhimento algum, apenas deboche e uma diversão cruel que me faz manter ainda mais a postura.
“Vamos ver quanto tempo essa felicidade e honra vão continuar!” Ele rebate.
Abro um sorriso modesto.
“Tenho certeza de que irá perpetuar por gerações esse marco que está sendo o meu casamento com Ronan. A paz e a prosperidade para as duas alcateias é o que eu mais almejo alcançar com essa nossa união.”
Garrick estreita o olhar em minha direção, como se estivesse me avaliando. Os outros convidados fazem o mesmo.
“Bem, só saberemos disso no momento em que um filhote vier. O relógio de vocês, fêmeas, está sempre contado.”
Não abaixo o olhar. Não cedo ao desconforto que suas palavras provocam.
“Se é essa a sua maior preocupação, alfa Garrick, te garanto que haverá filhotes correndo pelos territórios muito em breve. Nós da alcateia Ventos do Norte temos esse nome por que conseguimos nos espalhar para qualquer lugar, igual ao vento. Temos lobas muito férteis.”
“Quem sabe, talvez a alcateia Montanha Solitária tenha que mudar de nome para Montanha dos Lobos depois de tantos filhotes nascerem.” Provoco com humor.
Alguns conselheiros riem comigo e o alfa Garrick até me lança um sorriso curto, quase surpreso, como se ele não esperasse que eu fosse sustentar o jogo naquele mesmo tom.
“Espero não estar interrompendo uma conversa muito importante.” Hallstein.
Garrick balança a mão, negando de forma despreocupada.
“Sybella estava apenas se gabando de algo que ela ainda não consegue garantir ser verdade.” Garrick responde com acidez na voz.
Meu pai se coloca ao meu lado de forma elegante, mas também protetora. Para quem vê de fora, seu gesto pode até parecer afetuoso. Eu, porém, conheço bem demais o tipo de proteção que ele oferece.
“Tenho certeza de que nós, da alcateia Ventos dos Nortes, sempre garantimos tudo o que declaramos.” Hallstein informa autoritariamente. “Agora, vocês me permitem um momento a sós com a minha princesa? Essa noite será a última dela sob minha proteção, quero aproveitar.”
Garrick e os outros convidados se afastam.
Meu pai segura a minha mão com força que machuca e me leva para um canto mais reservado do salão.
“Você controla sua língua,” Hallstein diz com frieza perto do meu ouvido. Sua voz sai baixa, mas carregada de ameaça. “Sua função é manter tudo sob controle, se algo der errado, sua mãe será a primeira a sofrer o golpe, entendeu?”
Sinto minhas pernas bambearem com sua ameaça. Seu olhar é severo e cruel.
Antes que eu consiga respondê-lo, Ronan surge de repente.
“Sybella, esposa? Está na hora de irmos.”
QUATRO ANOS DEPOISQuatro anos.Às vezes, ainda parece estranho pensar em quanto a minha vida muda em tão pouco tempo.Se alguém me dissesse, quando eu ainda vivia escondida atrás do nome de Sybella, que um dia eu estaria aqui, sentada na varanda da minha própria casa, ouvindo meus filhos discutirem sobre quem encontrou primeiro uma concha na areia, eu provavelmente teria rido.Talvez nem sequer acreditasse.Minha vida nunca foi minha de verdade durante muito tempo.Eu cresci acreditando que preciso sobreviver a cada dia. Aprendi a abaixar a cabeça, a aceitar ordens, a esconder quem sou e, principalmente, a não esperar nada de bom do futuro.Agora, olhando para tudo o que construímos, percebo que a vida consegue ser surpreendente de maneiras que nem mesmo a minha imaginação seria capaz de alcançar."Robin! Você pegou a minha!"A voz de Liliane atravessa a varanda e me faz fechar os olhos por um segundo.Respiro fundo. Lá está. A paz que tanto desejo. Ou quase."Eu não peguei!" Robin g
Nyla A festa começa com música, risadas e o cheiro delicioso de comida espalhado pela brisa do mar.As mesas estão distribuídas perto da areia, decoradas com flores claras, conchinhas, velas protegidas por pequenos vidros e tecidos leves que se movem com o vento. Lanternas penduradas entre as árvores iluminam tudo com um brilho dourado e suave, como se a própria ilha tivesse decidido celebrar conosco.Olho ao redor e sinto meu peito se encher.Lobos, feiticeiros, crianças, antigos mercenários, pessoas da ilha e da antiga Montanha Solitária estão todos juntos. Alguns dançam perto do píer. Outros comem, conversam, riem, brindam. Não existe medo no ar. Não existe tensão. Existe apenas uma felicidade barulhenta, viva, quase inacreditável.Por muito tempo, achei que nunca faria parte de algo assim.Agora estou no centro disso.Com um vestido de noiva, uma aliança no dedo e Ronan segurando minha mão como se não quisesse me soltar nunca mais.“Você está quieta.” Ronan comenta perto do meu o
NylaUma batida na porta nos tira daquele momento íntimo e faz meu coração acelerar de imediato. Sinto minhas mãos quase suarem enquanto a realidade me alcança de uma vez só. Está na hora.“Já estamos prontos, luna Nyla.” Kylan informa da porta.Ele abre um pouco mais e pisca, surpreso ao me ver. Por um instante, fica sem reação. Então um sorriso largo se abre em seu rosto.“Está lindíssima, luna Nyla.” Ele elogia.Sinto o rosto aquecer.“Obrigada, Kylan.”Mamãe se coloca ao meu lado e estende o braço para que possamos sair do quarto já na posição correta.Eu olho para o gesto dela e depois para seu rosto, e a emoção volta com força, preenchendo meu peito de um jeito que quase me faz perder o fôlego.É ela quem vai me conduzir até Ronan. Não um pai que me usa, nem uma família que me rejeita, mas minha mãe, a mulher que me ama antes de qualquer título, antes de qualquer poder, antes de qualquer destino.Seguro seu braço com cuidado, sentindo naquele simples toque tudo o que ela represe
Nyla“O que será que esse casamento vai trazer para nós?” Kaede questiona, ansiosa e animada.“Só espero que não seja mais nenhuma nova entidade. Aqui já está ficando muito cheio.” Willa comenta, humorada.Solto uma risada baixa, tentando não mexer demais o rosto enquanto Gabe passa mais um toque de cor em meus lábios.“Vai trazer fortalecimento, confiança, amor e quem sabe alguns filhotinhos?” sugiro, esperançosa.O silêncio que vem dentro de mim é imediato.Depois sinto as duas se emocionarem.Kaede tenta esconder primeiro, mas não consegue. Willa se aquece como se tivesse recebido uma promessa antiga. E eu também me emociono. A ideia de ter filhos com Ronan ainda parece grande demais, delicada demais. Mas já não me assusta como antes. Imaginar uma criança com o sorriso dele, talvez com meus olhos, talvez com magia correndo no sangue, talvez com um lobo interior cheio de personalidade, faz meu peito se encher de uma esperança tão doce que quase dói.“Acredito que está tudo pronto.”
NylaSEIS MESES DEPOIS“Nossa, você está a noiva mais linda que eu já vi!” Junny comenta, emocionada, enquanto coloca meus sapatos próximos de mim para que eu possa calçá-los.A voz dela vem carregada de uma alegria tão sincera que meu coração aperta.Estou sentada diante do espelho grande do quarto, cercada por tecidos claros, pequenas caixas de acessórios, flores delicadas e aquela agitação suave que só existe antes de algo muito importante acontecer. O ar está perfumado com óleo de flores, maresia entrando pela janela aberta e um pouco da magia leve que Gabe usa para manter alguns detalhes no lugar.Mamãe está atrás de mim, finalizando mais alguns enfeites presos em meu cabelo. Os dedos dela se movem com cuidado, quase com reverência, ajeitando cada mecha como se estivesse tocando algo precioso. Gabe está ao meu lado, ajustando os últimos detalhes da maquiagem com uma concentração séria demais para alguém que insiste em dizer que não se emociona com essas coisas.Junny se ajoelha p
NylaFico sem palavras enquanto meus olhos se enchem ainda mais de lágrimas. A única coisa que consigo fazer é confirmar com a cabeça, primeiro uma vez, depois outra, como se ainda precisasse garantir que aquilo é real. Ronan solta uma respiração trêmula, como se estivesse prendendo o ar desde o começo do jantar, e então coloca a aliança no meu dedo com cuidado.Quando o anel se encaixa, sinto meu coração transbordar de uma forma que nunca experimentei antes. Não é apenas uma joia. É uma escolha. É uma promessa. É um recomeço. Sem conseguir conter a emoção, me inclino para frente e o beijo.Ronan ri contra a minha boca quando quase o derrubo no chão. Seguro seu rosto entre minhas mãos e beijo seus lábios com toda a emoção que não consigo transformar em palavras. Ele me abraça pela cintura, me puxando para perto, e o vínculo entre nós se ilumina de um jeito tão forte que sinto Willa chorando dentro de mim.Kaede está quieta.Mas sua emoção também me alcança.Minha mãe bate palmas anima







