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Interlúdio - Dia da Maldição (Parte II)

last update Data de publicação: 2026-07-14 20:32:39

Ian pensou em algo sobre a chuva que já se foi, mas esqueceu assim que o viu.

Ele não esperava que aquele velho ranzinza estivesse demonstrando irritação. Não quando Ian descobriu que ele pertencia a um grupo de hereges e havia pisado naquelas terras para rogar-lhe maldições. Afinal, Ian não estaria travando uma batalha agora se não fossem por aqueles idiotas fanáticos.

— O que você quer aqui? Morrer? — Estavam no meio de uma batalha e aquele velho só podia ser um teste que beirava entre o céu e inferno. Qual das atitudes Ian tomaria era o que lhe daria o caminho... Que pendia para o inferno, se fosse falar a verdade.

Ian não gostava da presença do maldito; os hereges carregavam a praga dos maus presságios: por onde passavam um rastro de azar era deixado. Ainda assim, ele não demonstrava medo. Era o exemplo a ser seguido e não podia haver qualquer coisa que amedrontasse os guerreiros.

Imbecil. Ian bufou por achá-lo insolente. Ele era um Lorde, o Senhor Valadares, travava batalhas, sem nenhuma derrota, e um velho ranzinza que supostamente era um bruxo estava mesmo o desafiando?

Achando piada sobre o assunto, Ian aprumou o peito e tomou uma longa respiração. Não iria demonstrar fraqueza ante a visão de um velho. A mão apertou a espada com mais força, enquanto seguia adiante com o cavalo, mas congelou assim que ouviu o primeiro grito.

Ele puxou as rédeas e Chama Negra deu duas passadas para trás amedrontado.

O que está...?

O terror o consumiu. Ao focar os olhos em um dos guerreiros que gritava no chão, enquanto um monstro lhe arrancava o coração, Ian soube que estava perdido.

— Corram! — ele gritou para todos que pudessem ouvir e comandou para que Chama Negra se pusesse a galopar para longe o mais rápido que conseguisse. — Corram, seus estúpidos! — tornou a dizer, enquanto alguns tomavam conta do que estava acontecendo.

Não havia apenas um monstro por perto, mas sete no total. Sete criaturas com o dobro da altura de um homem. Elas andavam sobre duas patas, algumas continham chifres e olhos vermelhos; outras, garras e presas afiadas. Além disso, todas conseguiam se transformar em animais ferozes — e que já havia matado boa parte dos idiotas fanáticos e guerreiros que batalhavam.

Logo atrás das criaturas, mulheres com roupas escuras os seguiam admiradas. Elas erguiam os braços para o céu como se estivessem rogando aquela praga e dançavam livremente como forma de comemoração.

Chama Negra relinchou e se ergueu perante a uma pessoa que estava próxima, antes de parar. Se segurando firme para não cair, Ian reparou que aquela pessoa era o velho ranzinza que viu instantes atrás.

Como ele...?

Ian o analisou: os cabelos grisalhos e secos, que demonstravam a idade avançada; a boca murcha e escura, que indicava o tabaco que sempre mastigava; os olhos claros, azuis como os céus da manhã, que não transmitiam emoções alguma.

Um ódio letal nasceu dentro do peito de Ian.

Você trouxe o inferno para as minhas terras, maldito!, pensou.

Irritado e eufórico, Ian puxou a espada e ergueu para atacá-lo, mas algo o fez parar. O velho não pertencia àqueles grupos. Ian soube no momento em que algumas imagens começaram a surgir como lapsos de memória.

Os tais idiotas fanáticos que invadiram as terras estavam enfeitiçados. Eram usados para distraí-lo enquanto aquelas mulheres invocavam as bestas. O velho só tentava poupá-lo de enfrentar aquilo.

Poupá-los.

E então Ian entendeu.

— O que você...? — Ian tentou perguntar, mas percebeu que o velho não estava mais prestando atenção.

Ian virou o rosto para entender o que acontecia, e percebeu que o velho tentaria algo contra um daqueles terríveis monstros.

Sentiu um pouco de alívio. Ele receberia ajuda, afinal.

No entanto, a opinião mudou no instante em que aquele monstro se transformou em uma aglomerada fumaça escura e Frankie, que estava muito próximo a ela, caiu no chão de forma involuntária.

— Frankie! — Ian gritou, olhando novamente para o velho com tamanho ódio. — Maldito miserável! — praguejou. — O que pensa que está fazendo?!

Ele não esperou pela resposta. Foi com muita pressa ver o estado de Frankie, um grande amigo — afinal, ainda mantinha uma dívida com ele. A fumaça que ainda pairava lá começou a se espalhar para perto de todos os homens e guerreiros que estavam presentes, mas Ian pouco se importou.

Ele não fugiu.

Somente quando Chama Negra se recusou a se aproximar mais, Ian desceu do cavalo e foi em direção ao amigo.

Contudo, aquele jovem guerreiro, nunca voltaria a ser como era.

E a vida, a partir dali, estaria apenas começando.

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