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Capítulo 6

Penulis: Rô Santtiago
last update Tanggal publikasi: 2020-11-24 04:54:31

Acordo em uma cama enorme e macia, com lençóis de seda me cobrindo do pescoço aos pés. Fico encarando o teto e repassando a minha vida nas últimas 24 horas. Nunca imaginei que pudesse viver uma loucura assim. Ontem estava em minha vida pacata e normal, e hoje estou em um Palácio, em outro mundo, em um quarto que não tem absolutamente nada a ver comigo… Sem falar nas pessoas me olhando com medo o tempo inteiro, como se eu fosse capaz de transformar todos em besouros comedores de carne.

  Logo após o Rei sumir pelos corredores, duas mulheres apareceram e me pediram para acompanhá-las, e, depois de longas escadas e longos corredores, chegamos aqui, em um enorme quarto, com uma cama enorme, e um closet enorme. Não posso esquecer da sala de banho enorme… pelo menos eles tem vaso sanitário e chuveiro, o que me deixou um pouco mais aliviada.

   Elas queriam me ajudar a tomar banho, mas eu neguei veementemente, é claro; disse que queria apenas ficar sozinha e elas foram embora, quase correndo, agradecidas pela minha bondade.

   Levanto-me da cama e coloco o mesmo vestido azul de antes, decido colocar o shorts com fitas penduradas, que serve como um tipo de calcinha aqui, já que a minha original estava pendurada na borda da banheira, secando no banheiro. 

E espero. Alguém deve vir me buscar para fazer alguma coisa, certo?

Errado.

  Perco a noção do tempo enquanto espero alguém aparecer. Já é noite e não faço ideia de que horas são, meu estômago ronca tão alto que tenho certeza que Vanora conseguiu ouvir lá da Irlanda. Sorrio ao lembrar de minha irmã, mal se passou um dia longe e a saudade já está batendo na porta com força total... espero viver para conseguir um jeito de voltar para ela. De voltar para a minha família.

  Decido sair do quarto e procurar a cozinha sozinha. Posso ter sangue de bruxa, mas não faço a menor ideia de como fazer aparecer uma comida do nada na minha frente. Não ainda, pelo menos.

   Ando por um enorme corredor, que sai em outro corredor, mas não vejo guardas por aqui, então sigo mais tranquila até achar a escadaria. Desço calmamente, degrau por degrau, admirando a forma rústica que a escada tem. Mármore branco com cinza, simples, porém lindo e sofisticado. Tudo aqui grita riqueza, mas não posso dizer que a decoração não é de muito bom gosto.

   No fim da escadaria há um pequeno saguão, um corredor para a direita e outro para esquerda, e mais um pequeno lance de escadas para baixo. 

Acho que estou perdida. Por que raios não há ninguém nesse lugar tão grande? Não deveria ter pessoas circulando o tempo inteiro, como nos filmes de princesa? 

  Ouço um barulho vindo do corredor à esquerda e espero, ansiosa pela ajuda que chega para me salvar de um desmaio súbito. Três guardas aparecem e paralisam no lugar ao me verem ali. 

  ㅡ Olá! ㅡ digo animada, e forço um sorriso amarelo, mas nenhum deles me responde, apenas abaixam a cabeça em uma reverência tensa ㅡ Poderiam me informar em que andar fica a cozinha? 

  ㅡ Primeiro andar, Princesa. ㅡ o guarda do meio responde baixinho, com a voz vacilante. Ele está com medo? Quem tem uma arma aqui é ele!

  ㅡ E algum de vocês pode me mostrar o caminho, por favor? Sou meio nova por aqui, ainda não aprendi a me localizar em um lugar tão grande assim. ㅡ nenhum deles me responde e o silêncio permanece por longos segundos ㅡ Eu pedi "por favor". ㅡ reforço o pedido, calmamente, mas já alterando o tom de voz. O que há com eles, afinal? ㅡ Espero não precisar usar minha autoridade sobre vocês para um simples pedido. Vocês deveriam me ajudar, já que sou a Princesa Prometida que tanto aguardaram voltar. 

   O guarda do meio dá um passo à frente e abaixa a cabeça. Posso ver sua mão trêmula ao pousá-la sobre seu peito, os demais guardas dão um passo atrás e repetem o movimento do colega.

  ㅡ Perdoe-nos, Princesa, não é nossa intenção ofendê-la, muito menos desobedecer suas ordens. ㅡ ele diz, os outros concordam ainda de cabeça baixa ㅡ É apenas receio do desconhecido. ㅡ ele me sorri ao ficar ereto novamente, um sorriso estranho e amedrontado ㅡ A levarei até a cozinha, com todo o prazer.

  Concordo, em silêncio, e o sigo pelo último lance de escadas e viramos à esquerda. Passamos por um salão gigante que possui um piano e uma harpa dourada em um canto, pesadas cortinas verdes, que cobrem do teto ao chão as janelas e vitrais, e uma mesa esplendorosa encostada em uma das paredes. Mais um corredor, três portas à esquerda e uma porta dupla à direita, e finalmente chegamos a cozinha. Eu realmente precisarei de um mapa para conseguir chegar a algum lugar aqui dentro.

   Há duas mulheres conversando animadamente quando entramos no local, uma delas foi a que me levou ao quarto, a outra ainda não conheço.

   ㅡ Princesa! ㅡ exclamam ao mesmo tempo, ao realizarem uma exagerada reverência. 

   ㅡ Estou com fome. ㅡ decido ser direta e sincera, pois meu estômago dói devido a falta de alimento por tantas horas seguidas ㅡ Como ninguém foi me buscar para jantar, eu vim atrás da comida sozinha, espero que não se importem pela invasão em seu ambiente de trabalho. 

  ㅡ Perdão, Vossa Alteza! ㅡ a mulher desconhecida exclama, claramente horrorizada ㅡ Não houve jantar formal hoje, por isso ninguém foi buscá-la em seus aposentos. Porém foi um erro gravíssimo de minha parte não ter enviado seu jantar por um criado. Perdoe-me, por favor, e aceito qualquer punição que achar necessária.

  O quê? Punição?

  ㅡ Não irei te punir! ㅡ digo, horrorizada.

  ㅡ Não? ㅡ ela exclama, junto com o guarda.

  ㅡ Eu jamais faria isso! Quem vocês acham que eu sou? ㅡ pergunto, ofendida, e me sento em uma pequena mesa de madeira onde há pães doces, salgados e um bolo, começo a comer e falo de boca cheia: ㅡ Tem algo para beber?

  ㅡ Sim, claro! ㅡ a mulher diz e coloca um líquido de uma jarra de metal em um copo na minha frente, bebo tudo em uns poucos goles e estendo o braço, pedindo mais; não há tempo para pensar em educação a mesa agora, meu estômago grita por comida ㅡ Me perdoe, Princesa, é que ouvimos histórias sobre a senhorita... Não sabemos em quê acreditar.

   ㅡ De mim? ㅡ ela confirma e vejo a outra mulher e o guarda se aproximarem, receosos ㅡ Me conte o que ouviram, então. Ninguém melhor para desmentir boatos sobre mim do que eu mesma, não acham?

  Eles se entreolham e é o guarda quem fala primeiro:

   ㅡ Disseram que a senhorita tem o poder de hipnotizar as pessoas… que as fazem de marionetes para realizar seus desejos.

  ㅡ E que a senhorita é má com os criados, que é mimada e dá punições severas em quem a desobedece ou aborrece. ㅡ disse a cozinheira.

  ㅡ Disseram para não ficarmos perto da senhorita por muito tempo, pois seus feitiços são muito poderosos e podem nos alucinar. ㅡ disse a mulher que me ajudou quando cheguei ㅡ Todos ficaram com medo de serem enfeitiçados, não sabemos qual seu verdadeiro poder.

  Uau! Um misto de choque e raiva é o que eu sinto internamente, mas mantenho minha face calma enquanto mastigo. Eu cheguei aqui há algumas horas, e já inventaram mentiras a meu respeito. E o que deu nesse povo para sair me contando essas coisas? Se eu fosse realmente uma pessoa ruim, eles estariam tão encrencados agora.

  ㅡ Primeiro: ㅡ levanto meu dedo para que esperem enquanto bebo mais um gole do delicioso suco ㅡ Isso tudo é mentira. E vocês não deviam sair por aí contando essas coisas. A fofoca morre quando encontra alguém sensato que prefere guardar para si, mesmo que seja algo tão chocante assim, do que espalhar para outros. Segundo: eu jamais puniria alguém só porque não fez o que eu pedi. Por acaso sou uma criança de 3 anos? Sou uma adulta que, até ontem, vivia uma vida normal, onde Reis, princesas e magia só chegavam até mim através de livros. Ainda preciso aprender muitas coisas por aqui, mas punição não é uma delas. E terceiro... se algum de vocês souber como hipnotizar uma pessoa, me ensine, pois não faço a menor ideia de como fazer isso, mas acho que pode ser muito útil em um futuro próximo. 

   As duas mulheres sorriem, envergonhadas, e o guarda solta um suspiro audível de alívio. Mordo mais um pedaço do pão doce e peço para sentarem comigo à mesa. 

  ㅡ Agora... quero saber o nome de vocês, o que fazem neste Palácio, e quem inventou essas coisas sobre mim. 

   Conversamos por horas, e acabei descobrindo várias coisas sobre cada um deles.

  A cozinheira se chama Kira, é uma mulher baixinha e de personalidade aparentemente forte. Seus cabelos loiros, presos em um coque no alto da cabeça, lhe dão um ar sério, que se desfaz assim que sorri com seus lábios finos e suas bochechas rosadas; seus olhos verdes brilham ao falar com amor que trabalha na cozinha desde criança, pois aprendeu com sua falecida mãe, que aprendeu com sua avó… é uma função que vem passando de geração em geração em sua família.

   A outra mulher é a Winnie, é arrumadeira do Palácio, e filha única de Kira. Seus longos cabelos loiros e seus olhos azuis lhe dão um aspecto de princesa da Disney. Rosto redondo, lábios em formato de coração, e ainda fica corada toda vez que sorri, uma fofa! Sabe aquelas mulheres, que serão eternas meninas, e que dão vontade de apertar? Essa é Winnie.

   O guarda é Sean. Um homem sério. Seus cabelos e barba são escuros como uma noite de tempestade, seus olhos tão negros que parecem brilhar, e a junção de suas características lhe dão um aspecto de durão. O nariz parece que já foi quebrado em algum momento de sua vida, é bem grande e meio torto, mas não altera em nada sua beleza rústica.

   Logo percebo que fiz amigos. Eles me contam com prazer das suas aventuras dentro desse lugar quando eram crianças, todos eles nasceram e cresceram aqui, conhecem tudo como a palma da mão. E logo descubro quem espalhou os boatos antes mesmo de minha chegada.

  Keara. Irmã do Rei. A Princesa deste Palácio. Eles me dizem que ela é uma boa menina, de personalidade forte e um tanto quanto mimada por seu irmão, por isso acreditaram no que ela disse, mas me garantiram que iriam espalhar a verdade para todos.

  ㅡ E que verdade seria essa? ㅡ pergunto e olho nos olhos de cada um, que me sorriem de volta. 

  ㅡ Que a senhora é uma verdadeira dama. ㅡ Kira diz, estufando o peito com orgulho em seu rosto.

  ㅡ Que a nossa futura Rainha é boa. ㅡ Winnie diz, com sua voz meiga, e eu aperto sua mão ㅡ Que é nossa amiga. E que pode ser amiga de todos também.

   Sim, definitivamente eu quero esses três como meus amigos. 

 Sean e Winnie me acompanham pelo caminho até meu quarto quando já é madrugada. Ao subirmos o primeiro lance de escadas, vejo um movimento de pessoas no corredor a direita. Olho, no modo automático, e vejo o Rei caminhando em nossa direção, acompanhado de um grupo de guardas. Nossos olhares se encontram por um breve momento, mas que é suficiente para me fazer lembrar de sua voz rouca sussurrando meu nome em meus sonhos. Mas logo a imagem de nosso primeiro contato real me vem à cabeça. A voz dele me chamando de bruxa ecoa em minha mente, e me dá o ânimo necessário para subir a escadaria a minha frente o mais rápido que consigo. 

Meus mais novos amigos me seguem, tendo que correr para me alcançar, já que foram pegos de surpresa com minha súbita pressa. E, antes de sumir no corredor, arrisco uma última olhada para baixo, e vejo o Rei parado no meio do caminho, com seu rosto virado em minha direção, o que me faz travar no lugar. Seu semblante sério parece cansado, mas seus olhos demonstram um brilho diferente… seria um toque de alívio, talvez? Mas pelo quê? Não sei dizer. Pois logo sua voz reverbera por todos os lugares, cortando nosso breve contato visual.

ㅡ Não é seguro perambular pelos corredores a esta hora da noite. Leve a Princesa para o quarto imediatamente, Sean. ㅡ diz, e desce a escadaria, sumindo no saguão com seus guardas fortemente armados.

Ainda fico parada por alguns segundos, tentando entender o que se passa na cabeça desse homem.

Winnie logo segura minha mão e voltamos a andar, com Sean a nossa frente. Sinto que terei muito trabalho para me encaixar por aqui… ainda mais com um Rei que, claramente, não gosta de mim.

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