เข้าสู่ระบบAcordei com o coração na garganta. Hoje era o dia. A padaria. Bruce. L.
Clark tinha me dado permissão para sair — "vai, faz o que quiser, você é minha esposa, não minha prisioneira" — mas eu sabia que aquela liberdade tinha um preço. Ele estava me vigiando. Eu sentia. Vesti um jeans e uma blusa simples. Nada que chamasse atenção. Peguei o celular roubado, as provas, e saí. A padaria estava igual. O cheiro de pão quente. As mesas de madeira. O balcão onde Bruce passava as manhãs amassando farinha. Ele estava lá. Sentado numa mesa no fundo, a muleta encostada na cadeira. O rosto ainda machucado, o olho roxo, mas os olhos brilharam quando me viu. — Iza — ele disse, a voz rouca. — Bruce. Sentei na frente dele. O silêncio entre nós era pesado, cheio de coisas que não tínhamos dito. Ele sorriu. Um sorriso triste, cansado. — Cê sabe que eu sempre quis fazer bolos, né? — ele começou, a voz baixa. — Mas a droga da minha perna me impediu de realizar o meu sonho. Olhei para a muleta. Para a perna dele. Sempre soube que ele tinha problemas, mas nunca perguntei. — Sou um dependente de antibióticos pra não sentir dor — ele continuou, os olhos fixos na mesa. — Me sinto sempre um fracasso. Menos quando tô com você. Meu coração apertou. — Bruce— — Mas olha você. — Ele riu, sem graça. — Casada com outra pessoa. — Não foi minha escolha! — Eu segurei a mão dele. — Foi tudo forçado. Ele ameaçou sua vida. Ameaçou meu pai. Eu não tive escolha. Ele me olhou nos olhos. Por um longo momento, eu vi a dúvida, a dor, e depois — algo parecido com esperança. — Eu sei — ele sussurrou. — Eu sei que você não queria aquilo. Ele pegou um prato com uma fatia de bolo. Colocou na minha frente. — Prova. Peguei o garfo. Uma mordida. O sabor explodiu na minha boca — chocolate, framboesa, algo que só ele sabia fazer. — É o meu favorito — falei, os olhos marejando. — Só você faz ele assim. Ele sorriu. Um sorriso genuíno. — Eu sei. Por isso que fiz. Nossos olhos se encontraram. Eu não sei quem se moveu primeiro. Mas de repente, os lábios dele estavam contra os meus. Quentes. Farinhados. Verdadeiros. O beijo que eu esperava há meses. E então a porta da padaria se abriu. — Já está me traindo, sua vadia? A voz de Clark cortou o ar como uma faca. Nós nos separamos. Bruce se levantou, a muleta na mão, o rosto vermelho de raiva. — Não fala assim dela, seu filho da puta! Clark riu. Um som frio, controlado. — Um aleijado tentando bancar o herói. Que engraçado. — Ele deu um passo à frente. — Se eu tirar a sua muleta, você não mata nem uma mosca. Senti o sangue ferver. — Clark, toma cuidado — falei, a voz tremendo de raiva. — Eu tenho provas contra você. Muitas. Ele virou o rosto para mim. O sorriso ainda nos lábios. — Quem te deu? — ele perguntou, a voz baixa, perigosa. — O "L"? Meu coração parou. — O que você— — Eu sou a porra desse L! — ele gritou, a voz ecoando na padaria vazia. O chão sumiu debaixo de mim. — Não... isso não é possível... — Você acha que eu ia deixar você se encontrar com outra pessoa? — Clark deu um passo à frente. — Eu criei o "L". Eu te manipulei. Eu sabia de cada passo seu. Ele avançou e agarrou meus cabelos, puxando com força. — Larga ela! — Bruce gritou, tentando correr. Mas a muleta escapou. Ele tropeçou, caiu no chão, o rosto batendo contra o piso. — Bruce! — gritei, lutando contra o aperto de Clark. Bruce tentou se levantar, mas a perna não respondeu. Ele bateu o punho no chão, frustrado. — Não consigo... — ele sussurrou, os olhos cheios de lágrimas. — Eu sou um inútil... Clark riu, arrastando para fora da padaria. — Você é pior que inútil. Você é uma distração. Eu lutei. Chutei. Mordi. Mas ele era mais forte. A última coisa que vi antes de ser arrastada para fora foi Bruce no chão, tentando se arrastar, os olhos fixos em mim. — Iza! — ele gritou. — Iza! A porta se fechou. E eu soube que aquela era a última vez que ia vê-lo vivo.A sala de reuniões do advogado era pequena e austera. Nada de luxos, nada de desvios. Apenas uma mesa de madeira gasta, estantes abarrotadas de livros de direito, e um homem de cabelos brancos e olhos cansados que ouviu a história de Isla sem interromper.O Dr. Almeida era amigo de Clara — mais um dos seus contactos misteriosos. Fora procurador durante trinta anos antes de se reformar e dedicar-se a casos pro bono. "Contra gente como o teu pai", explicou ele."E então?", perguntou Isla depois de lhe entregar a pen. "É suficiente?"Almeida enfiou a pen no computador e passou longos minutos a ler. O silêncio era ensurdecedor.Finalmente, tirou os óculos e esfregou os olhos."É suficiente para abrir uma investigação. Para congelar contas. Para deter preventivamente." Ele fez uma pausa. "Mas não é suficiente para o manter preso. O teu pai tem advogados. Tem contactos. Tem um império.""Então não serve de nada.""Não disse isso. Serve para comprar tempo. Serve para o enfraquecer. E serve p
Três dias se passaram sem notícias de Viktor. Três dias de silêncio tenso, de olhares para a porta cada vez que a campainha tilintava, de dormir com um olho aberto.Kai mantinha a padaria a funcionar, mas a rotina estava diferente. Havia farinha no balcão e medo no ar. Os clientes habituais não notavam nada, mas Isla via tudo — a forma como Kai verificava a rua antes de abrir, o taco de baseball que agora estava encostado atrás do balcão, a nova fechadura na porta das traseiras."Estás a transformar a padaria num bunker", disse ela naquela manhã, enquanto bebia o café."Estou a ser prudente.""Estás a ser paranóico.""São coisas diferentes." Ele sorriu, mas o sorriso não chegou aos olhos.A campainha tilintou. Ambos se viraram, tensos.Era Clara. Mas não vinha sozinha. Atrás dela, um homem de cabelos escuros com entradas prematuras, óculos de aro fino, e um ar de quem passara demasiadas noites em claro."Bom dia", disse Clara, como se aparecer com um estranho fosse a coisa mais normal
A padaria fechou mais cedo nesse dia.Kai baixou as persianas com movimentos calmos, mas Isla via a tensão nos seus ombros. Clara partira logo após a mensagem, dizendo que tinha "assuntos a tratar". O quadro das papoilas estava agora pendurado na parede da padaria, as flores vermelhas a contrastarem com o ambiente rústico."Devias ir embora", disse Isla, pela terceira vez. "Devias desaparecer por uns dias. Eu enfrento-o sozinha.""Já falámos sobre isso.""Kai...""Não." Ele virou-se para ela, os olhos duros mas não frios. "Não vou fugir. E tu também não.""Não é fuga. É estratégia.""É fuga. E eu não fujo."Isla passou as mãos pelo cabelo, frustrada. "Tu não sabes do que ele é capaz. Eu vi o que ele fez a pessoas que o tentaram enfrentar. Não são só ameaças. Ele arruína vidas. Ele compra pessoas. Ele...""Ele o quê? Ele é um homem. Um velho com dinheiro, como tu disseste." Kai aproximou-se. "Eu não tenho medo de velhos com dinheiro. Tenho medo de perder quem amo. Isso sim."A palavra
Na manhã seguinte, Isla apareceu na padaria.Era a primeira vez que ia lá desde a noite em que fugira. A fachada modesta, o toldo verde, a montra onde Kai expunha os pães como obras de arte. O cheiro de fermento e açúcar queimado que saía pela porta entreaberta e envolvia a rua como um abraço.Ela parou na entrada. O coração martelava."Vais ficar aí parada o dia todo, ou vais entrar?" A voz de Kai veio do interior, abafada mas divertida.Isla empurrou a porta. A campainha tilintou.Kai estava atrás do balcão, as mãos cobertas de farinha, o avental manchado. Parecia exausto — provavelmente não dormira —, mas os olhos brilhavam quando a viu."Bom dia", disse ele, como se ela aparecer ali fosse a coisa mais natural do mundo."Bom dia.""Há croissants acabados de sair do forno. E café. Muito café."Ela sentou-se a uma das mesas pequenas, as mãos a tremerem ligeiramente. Kai trouxe-lhe um prato com um croissant dourado e uma caneca de café preto."Não pus açúcar. Lembrei-me que não gostas
O passado de Isla não era uma história bonita.Começava num bosque. Sempre começava num bosque. Ela tinha oito anos, um vestido amarelo que a mãe cosera à mão, e um pai que ainda não se tinha transformado no monstro que o dinheiro criaria. Nesse bosque, ela apanhava flores silvestres. Margaridas. Papoilas."O meu pai era um homem bom", disse Isla, sentada no chão da cave da galeria, as costas apoiadas na parede fria. Kai estava ao seu lado, não a tocava, apenas ouvia. "Antes do dinheiro. Antes da empresa. Antes de tudo."Ela contou-lhe como o pai herdara uma fortuna inesperada de um tio distante. Como o dinheiro o transformara lentamente, como uma doença. Primeiro, vieram os carros. Depois, as festas. Depois, as mulheres. Depois, a crueldade."A minha mãe morreu quando eu tinha doze anos. Não foi o dinheiro que a matou. Foi a tristeza. Ele destruiu-a aos poucos, com silêncios, com ausências, com desprezos. E quando ela se foi, eu fiquei sozinha com ele."Kai não disse nada. Mas a sua
Clara aproximou-se lentamente, os sapatos de sola macia quase não fazendo som no chão de madeira. O cabelo prateado brilhava sob as luzes da galeria, e o seu sorriso enigmático permanecia no lugar."Bem", disse ela, a voz neutra como a de uma jurada num tribunal. "Isso foi bastante mais interessante do que catalogar gravuras."Isla endireitou-se. "Desculpe, Clara. Eu não queria trazer problemas para a galeria.""Problemas?" Clara arqueou uma sobrancelha. "Minha querida, eu vendo arte. A arte é feita de problemas. De paixão. De fogo." Ela olhou para o quadro das papoilas. "Aquele ali chama-se 'Ignis'. Fogo. Sabem porquê?"Kai e Isla ficaram em silêncio."Porque o artista o pintou depois de perder tudo. A casa. A família. A sanidade. Durante um ano, ele não conseguiu pintar nada. Estava bloqueado. Destruído. E então, uma noite, ele pegou na tinta mais vermelha que encontrou e despejou-a toda. Sem pensar. Sem planear. Apenas sentindo." Clara virou-se para eles. "O fogo não destrói apenas







