INICIAR SESIÓNAda Williams
Minha voz saiu mais firme dessa vez.
Ou talvez só desesperada.
Ele me encarou pela fresta estreita.
Então deu um passo para trás lentamente.
E sorriu.
Aquele sorriso falso e educado demais.
O tipo de sorriso que clientes manipuladores davam antes de tentar te ferrar.
— Calma, Ada…
Ele levou a mão até o bolso do casaco e puxou um papel dobrado e meio amassado.
Um selo vermelho marcava a parte inferior.
Ele estendeu o documento em direção à fresta.
Engoli seco.
— Eu só vim entregar isso.
Mantive uma mão firme na porta enquanto via ele estender a mão com o papel, esperando eu pegar.
Não confiava nele nem por um segundo.
Foi então que ele voltou a falar.
A voz mais baixa, mais ameaçadora.
— Então… você pensou no que eu te propus?
Meu cérebro travou.
Propôs?
Droga.
O que aquele cara tinha proposto pra Ada fictícia mesmo?
Forcei a mente imediatamente.
E então vieram os flashes.
Rápidos.
Duene segurando flores.
Ada desviando dele na cidade.O pai dela fechando a porta na cara dele.A mãe dizendo para ela nunca ficar sozinha perto daquele homem.E então…A proposta, o casamento.
Meu estômago embrulhou.
Claro.
O nojento queria um relacionamento com ela.
Mais memórias surgiram lentamente.
Os pais de Ada estavam com medo por conta da influência que Duene tinha, por causa de seus contatos.
Ele tinha prioridade sobre os camponeses.Se quisesse ferrar alguém…
conseguia.Engoli seco novamente.
Então era isso.
Respirei fundo antes de responder:
— Eu… já lhe disse. Sou comprometida.
Vi algo escuro passar pelos olhos dele.
Mas continuei.
As memórias ainda vinham aos poucos.
O pai da Ada original sempre mandava ela dizer aquilo.
Que estava prometida desde pequena.
Que o noivo tinha ido para a guerra.Que logo retornaria.Mentira.
Tudo mentira criada para manter aquele homem afastado.
Então repeti exatamente aquilo, como a Ada fictícia fazia.
— Ele vai voltar em breve.
Duene perdeu a paciência imediatamente.
O sorriso sumiu.
Ele avançou contra a porta outra vez.
A madeira estremeceu violentamente.
— Isso de novo?!
Meu corpo inteiro congelou.
— Esse homem provavelmente já morreu! Você não entende?!
Ele empurrou a porta outra vez.
Mais forte.
— Uma jovem como você não pode ficar sozinha esperando um cadáver!
O medo subiu pela minha garganta como gelo; me encolhi dando passos para tras.
A corrente da porta rangeu perigosamente.
— E-Eu já disse! Ele vai voltar! — Gritei com a voz trêmula.
Droga!
Eu precisava fazer ele parar ou aquela porta acabaria cedendo.
Pensa.
PENSA!
E então falei a primeira coisa desesperada que veio à mente.
— Eu recebi uma carta!
Ele parou.
Instantaneamente.
— O quê?
Estava com tanto medo que meu corpo estava quase entrando em pane.
— Ele… ele chega semana que vem!
Silencio pesado do lado de fora.
Consegui ver perfeitamente a expressão dele pela fresta estreita.
Aquele olhar…
Quase animalesco e possesso.
— Mentindo agora, Ada?
Ele deu outro passo em direção à porta.
Seus olhos me cansando do lado de dentro, como se fosse um animal raivoso.
— Você não faz ideia do erro que está cometendo!
Empurrou novamente.
Eu gritei ainda mais alto antes mesmo de pensar:
— ELE VAI CHEGAR SEMANA QUE VEM!
Minha voz ecoou pela casa inteira.
— E se você não parar com isso… eu vou contar tudo pra ele!
Silêncio novamente.
Duene ficou congelado do lado de fora, pensativo e confuso, hesitante.
Tentando decidir se eu estava blefando ou não.
Meu peito subia e descia rápido demais.
Então ele jogou a carta pela fresta com brutalidade.
O papel caiu no chão.
Ele me encarou por mais alguns segundos.
Completamente fora de si, então sorriu novamente.
Só que daquela vez…
O sorriso parecia diferente, pior que antes, mais assustador.
— Veremos se essa história é verdade mesmo…
Meu sangue gelou.
Ele começou a se afastar lentamente da porta.
— Se ele não aparecer até o fim da semana que vem…
A luz da lua iluminou parcialmente o rosto dele.
— Nosso casamento será no final do mês.
Meu corpo inteiro congelou.
Então ele virou as costas e foi embora.
Só quando os passos desapareceram completamente percebi que minhas pernas tremiam.
Soltei a madeira da mão.
Ela caiu no chão com um barulho seco.
E eu deslizei sentada contra a parede em frente à porta.
Minha respiração estava completamente descontrolada.
— Que… porra foi essa…?
Minhas mãos tremiam enquanto pegava o papel jogado no chão.
Abri rapidamente e comecei a ler.
A cada linha…meu desespero aumentava.
[Nova Ordem Imperial]
[Toda mulher sem marido ou representante masculino responsável que possua terras deverá oficializar casamento ou tutela administrativa.]
[Mulheres desacompanhadas não possuem autorização legal para administrar propriedades rurais independentemente.]
[O não cumprimento resultará em confisco imediato das terras pelo senhor local.]
Ada WilliamsQuando terminei de arrancar a última erva daninha da plantação, estiquei as costas e soltei um gemido baixo.— Ai... minhas costas...Nunca pensei que fosse sentir saudade de uma cadeira de escritório.Olhei ao redor da pequena propriedade.O sol já estava alto, perto do horário do almoço, e pela primeira vez desde que acordei naquele mundo eu havia terminado quase todas as tarefas antes do meio do dia.Tudo graças àquela habilidade.Sorri de lado.Quem diria?Ontem eu tinha chamado aquela tal de Verificação Minuciosa de inútil.Hoje ela praticamente tinha cortado meu trabalho pela metade.Mesmo sendo dificil acostumar com essas janelas sobre as coisas, pelo menos funcionava.E muito bem.Respirei fundo enquanto limpava as mãos no avental.— Certo...Chega de ficar escondida.Cruzei os braços enquanto observava o horizonte.Eu não podia simplesmente esperar aquele perseguidor maluco aparecer de novo na minha porta.Muito menos ficar sentada esperando uma guerra destruir a
Ada WilliamsTalvez.Só talvez.Eu tivesse encontrado uma vantagem.A ideia surgiu tão de repente que meu coração chegou a acelerar.Mas eu me obriguei a respirar fundo.Calma.Muita calma.Porque, considerando minha sorte desde que acordei naquele mundo, era bem provável que eu tivesse uma ideia brilhante e, cinco minutos depois, o sistema aparecesse para estragar tudo.Ou me ameaçar de morte.Ou os dois.— Não se anima.Murmurei para mim mesma.— Toda vez que você se anima, alguma coisa dá errado.Ajustei a postura e continuei andando em direção às plantações.O vento balançava os campos ao redor da fazenda.Até que aquele lugar era bonito.Espero que quando toda essa loucura passar, eu possa parar e admirar um pouco.Cheguei à plantação e comecei a trabalhar.Puxando ervas daninhas.Verificando as mudas.Tentando descobrir o que precisava de água.O que precisava de sombra.O que precisava desesperadamente era de um milagre.De vez em quando ativava a habilidade de verificação.As
Ada WilliamsEu fiquei encarando o teto por um longo tempo naquela noite.Longo mesmo.Foi um daqueles momentos em que você está tão cansada que deveria estar dormindo, mas seu cérebro decide que aquele é o horário perfeito para analisar todos os seus problemas.E eu tinha muitos.Decidi recapitular tudo para evitar de deixar algo passar.Primeiro: eu estava presa dentro de um livro.Segundo: uma cidade inteira estava destinada a ser destruída.Terceiro: eu tinha um perseguidor nojento tentando me forçar a casar com ele.Quarto: eu precisava encontrar um marido em sete dias.Quinto: aparentemente, se eu ignorasse as missões do sistema, eu morria.Suspirei.— Que maravilha.Virei para o lado.Depois para o outro.A cama continuava dura.O travesseiro continuava horrível.E minha vida continuava um desastre.Fechei os olhos.O pior era que nada daquilo parecia um jogo; quanto mais eu observava aquele mundo, menos aquilo parecia um simples sistema ou algo artificial.As pessoas eram reai
Ada WilliamsMinha visão escureceu por um segundo.Só um segundo.Mas foi o suficiente para que meu cérebro finalmente processasse o que estava segurando.Até aquele momento, uma parte de mim ainda insistia que tudo aquilo era só mais um sonho idiota.Mas não.Aquele cara estranho tinha mesmo ido até mim me ameaçar, e aquela carta estava mesmo entre meus dedos.Engoli em seco e aproximei o papel da luz prateada que entrava pela fresta da porta. O luar não era forte, mas era suficiente para iluminar o selo vermelho preso na parte inferior.Meu olhar ficou preso nele por alguns segundos e então as memórias vieram.Não como antes, em flashes violentos.Dessa vez foi mais sutil, foi natural.Como se eu estivesse me lembrando de algo que sempre soube.Aquele brasão, aqueles três forcados cruzados junto à coroa.Eu conhecia aquilo.Ou melhor...A Ada daquele corpo conhecia.Era o símbolo do conde responsável por toda aquela região agrícola, pelos impostos, pelas colheitas e pelas leis locais
Ada WilliamsMinha voz saiu mais firme dessa vez.Ou talvez só desesperada.Ele me encarou pela fresta estreita.Então deu um passo para trás lentamente.E sorriu.Aquele sorriso falso e educado demais.O tipo de sorriso que clientes manipuladores davam antes de tentar te ferrar.— Calma, Ada…Ele levou a mão até o bolso do casaco e puxou um papel dobrado e meio amassado.Um selo vermelho marcava a parte inferior.Ele estendeu o documento em direção à fresta.Engoli seco.— Eu só vim entregar isso.Mantive uma mão firme na porta enquanto via ele estender a mão com o papel, esperando eu pegar.Não confiava nele nem por um segundo.Foi então que ele voltou a falar.A voz mais baixa, mais ameaçadora.— Então… você pensou no que eu te propus?Meu cérebro travou.Propôs?Droga.O que aquele cara tinha proposto pra Ada fictícia mesmo?Forcei a mente imediatamente.E então vieram os flashes.Rápidos.Duene segurando flores.Ada desviando dele na cidade.O pai dela fechando a porta na cara de
Ada WilliamsMeu corpo inteiro entrou em alerta no instante em que ouvi aquela voz.Fria e baixa.Mas estranhamente familiar.Senti meu estômago afundar antes mesmo de entender o motivo.Então vieram alguns flashes.Rápidos e desconexos.Um homem me observando da estrada.Olhares longos demais.Sorrisos desconfortáveis.A Ada fictícia desviando o caminho para evitar cruzar com ele.O pai dela ficando na frente da porta com expressão dura.Proteção.Porque aquele homem já perturbava Ada fazia muito tempo.Só que agora…Ela estava sozinha.Ou melhor.EU estava.Seu nome veio como um raio na minha cabeça: Duene Esparza, um dos mensageiros e subordinados da nobreza local.Meu coração começou a bater tão forte que achei que ele conseguiria ouvir do lado de fora.Fiquei completamente imóvel no meio da cozinha escura, tentando nem respirar direito.— Que droga…agora mais essa?Talvez se eu fingisse que não estava ali…Ele iria embora.Silêncio.Então—TOC. TOC.Mais duas batidas.Dessa vez m







