تسجيل الدخولDominic
A luz da manhã raramente mente, mas a mente humana é especialista em criar ilusões. Aos poucos, os primeiros raios de sol invadiram o quarto de hóspedes pelas frestas das cortinas de veludo, rasgando a penumbra que testemunhara a noite mais intensa da minha vida. Abri os olhos devagar, sentindo o peso do sono entorpecido finalmente abandonar meu corpo. O calor ao meu lado na cama de casal confirmava que eu não estava sozinho. Puxei o corpo da mulher ao meu lado para mais perto, envolvendo sua cintura com o braço e enterrando o rosto na curva do seu pescoço. Inspirei profundamente, buscando a fragrância de lavanda que incendiara minha alma horas atrás, mas o que atingiu minhas narinas foi um perfume doce, artificial e floral demais. No mesmo instante, o meu lobo interior se ergueu em alerta nas sombras da minha mente. Ele rosnou baixo, inquieto, incomodado com aquela presença. O meu animal não reconhecia o cheiro da mulher em meus braços. Não havia o estalo de pertencimento, não havia a eletricidade que fizera meu sangue ferver no escuro. Contudo, ao roçar os lábios na pele do seu ombro, senti resquícios sutis daquela essência morna e inebriante da noite anterior. Forcei meus pensamentos a se acalmarem. Julguei que a inquietude do meu lobo fosse apenas a transição do transe avassalador da escuridão para a realidade da manhã, ou talvez o excesso do perfume caro que ela usara para se preparar para mim. Laura se espreguiçou lentamente sob os lençóis. Ela se virou de frente, abrindo um sorriso delicado, e envolveu meu pescoço, selando nossos lábios em um beijo de bom dia. Retribuí o toque de forma contida, ignorando o aviso visceral do meu peito e tentando convencer a mim mesmo de que aquela garota de traços nobres era a promessa da Deusa da Lua. — Bom dia, meu Alfa... — murmurou ela, a voz suave carregada de uma modéstia estudada. — Bom dia — respondi, a voz rouca. Antes que eu pudesse puxá-la para um novo abraço, os olhos de Laura se pousaram no centro do colchão. A expressão suave do seu rosto desmoronou em uma careta de absoluto desprezo e aversão. No lençol branco de algodão, havia uma mancha nítida e escura de sangue seco, o testemunho silencioso da entrega e da virgindade colhida no escuro. — Ai, que nojo! — exclamou Laura, encolhendo as pernas rapidamente e saltando da cama com um sobressalto de repulsa, cobrindo o corpo com o robe de seda. Encarei-a do colchão, franzindo o cenho diante daquela reação exagerada. — É a prova do amor que fizemos esta noite, Laura — declarei, mantendo o tom firme, observando cada movimento dela. — É o selo da sua entrega ao seu companheiro. — Não me interessa! — rebateu ela, cobrindo a boca e dando dois passos para trás, encarando o tecido sujo como se fosse uma praga. — É nojento, Dominic! Eu não quero encostar nisso de jeito nenhum! Me dá náuseas só de olhar! Permaneci em silêncio por alguns segundos, avaliando o pavor estampado na face da jovem. Era uma atitude fútil e mimada, muito distante da entrega apaixonada e quase desesperada da mulher que chorara de prazer sob o meu corpo poucas horas atrás. No entanto, contive o julgamento do meu lobo. Ela era uma nobre recatada e mimada do sul; fazia sentido que tivesse pavor de sangue ou que se sentisse envergonhada com a exposição do ato. — Vá tomar um banho — disse ela, ajeitando o cabelo e tentando recuperar a postura refinada, embora o olhar ainda fugisse da mancha no lençol. — Eu vou mandar chamar a empregada para trocar toda essa roupa de cama imediatamente antes que alguém veja esta sujeira. Instintivamente, inclinei a cabeça, captando o tom imperioso e desdenhoso com que ela mencionou a serva da casa. — Vá para a sua suíte se vestir — respondi, levantando-me da cama e vestindo minha calça social. — Seu pai e sua mãe já devem estar nos aguardando no salão para formalizarmos o acordo. Enquanto caminhava em direção ao banheiro, o silêncio daquela mulher continuava a ecoar na minha cabeça. Por que a garota que encarara a tempestade do meu poder nas sombras parecia tão rasa e fútil sob a luz do sol?( Asher)A Sala Solar da Cidadela era o coração privado da Casa Real. Diferente da imponência intimidadora do Salão do Trono, ali as paredes de pedra eram cobertas por tapeçarias quentes de lã vermelha, e a grande lareira de arco queimava continuamente, preenchendo o ar com o perfume acolhedor de lenha de carvalho e giesta.Naquela tarde, no entanto, a atmosfera trazia uma solene gravidade.Sentados às cabeceiras da grande mesa oval de jacarandá estavam meu pai, o Imperador Dominic, e minha mãe, a Sovereign Maya. Diante deles, sobre um coxim de veludo azul, repousavam os dois símbolos do novo destino que traçávamos: o diário restaurado de Roland D’Aven e a Tiara de Prata dos Guardiões do Ocidente — uma relíquia recuperada das profundezas do baú de Velia.Eu estava de pé ao lado da cadeira de Lyra. Ela vestia um traje nobre de seda cinza-prateada com bordados de fio de ouro nos punhos. O anel de selamento da Casa Real reluzia em seu dedo, mas a sua expressão não transparecia surpresa n
(Asher)A brisa da noite no terraço mais alto do Palácio de Prata trazia o perfume sutil das flores de jasmim e a quietude que Valência não conhecia há meses. Abaixo de nós, a cidade repousava sob um luar prateado, com as lanternas das ruas brilhando como pequenas brasas espalhadas pela escuridão.Depois da tempestade que fora a Grande Assembleia, das acusações expostas e da ruína dos traidores, o palácio finalmente silenciara. As intrigas da corte, as sombras da guerra e o peso dos títulos pareciam ter ficado do outro lado das pesadas portas de carvalho.Lyra estava de pé junto ao parapeito de mármore, envolta num manto macio de lã branca. O vento leve brincava com os seus cabelos escuros, soltos sobre os ombros, e a luz da lua refletia-se nos seus olhos azuis-acinzentados, dando-lhes um tom quase místico.Aproximei-me sem pressa, ouvindo o som suave dos meus passos contra a pedra fria. Parei ao seu lado, apoiando os braços no parapeito e olhando para o mesmo horizonte que ela contem
(Asher)O Salão do Trono brilhava sob a luz de centenas de lustres de cristal. Os tecidos de seda dourada e as tapeçarias azuis das Grandes Casas cobriam as paredes de granito, enquanto o ar cheirava ao perfume pesado de mirra e ao calor humano de quase duzentos nobres, generais e embaixadores.No entanto, por baixo do espetáculo de opulência, a tensão era palpável. O murmúrio das conversas parecia o sibilar de serpentinas antes de um bote.No topo da plataforma de sete degraus, o meu pai, o Imperador Dominic, e minha mãe, a Sovereign Maya, ocupavam os tronos gêmeos. Dominic vestia a armadura cerimonial de ferro e ouro; Maya trazia o manto real de veludo escuro e a coroa de espinhos de prata. O olhar dos meus pais era uma tempestade contida de gravidade e expetativa.Eu permanecia de pé ao lado direito do trono, a mão repousada no pomo da minha espada, com a armadura da Primeira Guarda reluzente. Abaixo, flanqueando as grandes colunas de mármore, os cavaleiros de Damon mantinham as mã
( Asher)O odor de pergaminho antigo, cera de abelha e ferro frio impregnava a quietude da Biblioteca Secreta. Lá fora, os sinos da catedral marcavam a meia-noite, mas, dentro daquela câmara escavada na rocha nua de Valência, o tempo parecia suspenso.O baú que Damon trouxera das ruínas da fronteira estava aberto sobre a mesa circular de marta-negra. Ao lado dele, duas lâmpadas de óleo projetavam uma luz dourada e trêmula sobre as dezenas de tomos, pergaminhos e documentos selados que recheavam o interior do baú de carvalho.Lyra estava curvada sobre os papéis, os seus dedos ágeis deslizando com uma reverência quase sagrada pelo velino amarelado. As mechas dos seus cabelos escuros caíam sobre os ombros, e nos seus olhos azuis-acinzentados brilhava a chama de quem reatava o fio da própria história.— Esta é a caligrafia de meu pai — murmurou ela, a voz embargada por uma emoção contida enquanto segurava um pequeno diário de couro surrado. — Ele manteve este diário durante a fuga de Veli
(Dominic) O eco da chuva batendo contra os vitrais do Salão do Trono era o único som capaz de quebrar o silêncio pesado do Castelo de Valência. Lá fora, o reino adormecia sob a tempestade, mas ali dentro, a atmosfera carregava o peso de mil decisões que só cabiam a nós dois. Eu observava a sala com o olhar atento que a coroa me exigia. Meus dedos repousavam no braço esculpido do trono de carvalho, mas, para ser sincero, minha mente estava longe dos relatórios de estado e dos acordos de paz. Pelo canto do olho, eu a observava. Maya estava de pé junto à grande mesa de mapas, cercada por selos reais, decretos pendentes e relatórios das fronteiras. Ela vestia o veludo escuro da casa real, elegante e soberana, mas com a mesma intensidade inquieta de sempre. O jeito como sua mente brilhante analisava cada detalhe do reino era algo impressionante — a determinação no olhar, o cenho levemente franzido enquanto estudava os relatórios de guerra e alianças. Sempre fui um rei treina
MayaO sol do meio-dia mal conseguia rasgar a densa camada de nuvens cinzentas que cobria os pinheiros ao redor da Cidadela de Prata. Eu estava no gabinete imperial, revisando os registros de suprimentos da guarda, quando a porta pesada de carvalho se abriu com um rangido seco.Damon entrou.O capitão da Primeira Guarda trazia as vestes de viagem cobertas de poeira e lama seca das estradas do Leste. O seu elmo de combate estava preso à sela, e o seu rosto exibia as marcas profundas de quem cavalgara sem trégua por dias e noites, enfrentando o vento gélido da fronteira. Atrás dele, dois cavaleiros de escolta traziam um pesado baú de carvalho forrado com ferro, selado com o emblema da antiga província de Velia.— Capitão — ergui-me da mesa, a minha voz cortando o silêncio da sala. — Você retornou mais rápido do que o previsto. O que encontrou nas ruínas do Rio Prata?Damon fez uma reverência rápida, tirando as luvas de couro e jogando-as sobre a mesa de mapas. A sua respiração ainda es







