LOGINAlém disso, ela conhecia a amiga o suficiente para saber que esta não estava sentindo prazer em mentir para a família e a maior parte dos amigos, só deixando de fora os dois mais próximos.
Gabriel, por sua vez, não tinha com quem dividir o desconforto que estava sentindo. Ele ia passar à condição de casado e depois à de divorciado sem nem ao menos amar, realmente, uma mulher. É claro que depois ele poderia encontrar alguém, mas ainda assim não era agradável a situação. Ele ainda não tinha falado com os pais nem com o irmão justamente porque não queria fazer toda aquela encenação na frente deles. É claro que também não iria contar a verdade, porque a família nunca iria concordar com aquilo, mas quanto menos eles participassem, melhor.Além disso, ainda tinha que conviver com o seu pensamento escapando, constantemente, para imagens de sua futura esposa, com sonhos cada vez mais frequentes em que ela era a protagonista, com um desejo de estar mais perto dela, de fazer carinho nela, de beijar sua boca, passar as mãos pelo seu corpo. Pensamentos, sonhos e desejos inúteis que ele queria, mas não conseguia reprimir.Alguns dias depois ele conversou, enfim, com a mãe e fingiu ter feito o pedido espontaneamente. Alegou ter sido esta a razão para não tê-la convidado para o jantar. Os preparativos também já tinham começado e a data tinha sido escolhida. Os dias voaram e o momento do casamento chegou, tendo sido tão estranho quanto fora o do pedido.Mas um problema ainda maior estava por vir. E esse problema é chamado de lua de mel.Lua de mel é o período de celebração privada dos cônjuges, que sucede ao casamento. Há diversas versões sobre como se originou o termo lua de mel. A que reponta mais à antiguidade é de dois mil anos antes de cristo, na Babilônia. Dizem que o pai da noiva oferecia ao genro hidromel, uma mistura de água e mel, para ser consumida nos trinta dias imediatos ao casamento, quando os noivos comemoravam, só entre eles, a união matrimonial. Na época, a contagem dos dias era feita pelo calendário lunar, razão pela qual esse período de comemoração ficou conhecido como "lua de mel".
No entanto, naquele momento, não havia uma lua brilhando no céu, mas uma chuva torrencial do lado de fora, com direito a relâmpagos e trovoadas, que refletiam bem o humor do lado de dentro do quarto de hotel em que Viviam e Gabriel estavam.Não havia também a doçura do mel, mas o gosto amargo da solidão que ambos estavam sentindo, mesmo na presença um do outro.Tudo tinha começado no momento em que Viviam se dera conta de que ela e o suposto marido teriam que viajar juntos. Os pais a conheciam muito bem e sabiam que ela jamais deixaria de viajar se o casamento fosse real. Ela imaginava que, mesmo eles morando em um bairro distante, ficar na cidade e dizer que tinha ido viajar seria muito arriscado, o que ficou comprovado quando, antes da viagem, eles quiseram todos os contatos do hotel onde o casal iria se hospedar, em Orlando, na Flórida.A garota tinha decidido que, já que era para sair em lua de mel de mentira, que pelo menos houvesse algum tipo de diversão. Como os pais sempre pouparam, ela nunca havia tido a oportunidade de conhecer os parques de diversão, quando adolescente, então iria fazê-lo naquela oportunidade. Gabriel, que era um crianção, não somente não se opôs, como ficou bastante animado.Em um primeiro momento, as coisas não ficaram tão estranhas entre eles, e eram como dois amigos viajando juntos. Ele era gentil com ela, fazendo algumas coisas que não eram parte de suas obrigações contratuais, como carregar sua bagagem, e os dois conversavam com facilidade, pois tinham sempre, pelo menos, o teatro, a música, as artes em geral como um assunto de interesse comum.Como ninguém os conhecia na Flórida, ela reservou dois quartos e eles dormiram separados nas primeiras duas noites. Então, não havia nenhum constrangimento. O problema foi que, no terceiro dia, Leandro não conseguiu ligar para o celular de nenhum dos dois, que só dava mensagem de “fora de área”, e, quando ligou para o hotel e pediu para falar com os Oliveira, a recepcionista falou muito claramente que havia um Sr. Oliveira no 1205 e uma Sra. Oliveira no 1207.“Honey, imagina se são seus pais te ligando, ao invés de mim? Tudo isso iria por água abaixo, meu bem. Tratem de ficar em um quarto só, ok? Parece que eu preciso pensar em tudo por vocês dois.” Bufou.“Leandro, você tá louco? Como eu vou ficar no mesmo quarto que o Gabriel? Isso não é um casamento de verdade...”“E nem ninguém vai morrer por dividir um quarto, principessa!”E foi assim que eles dividiram um quarto pelo resto dos dez dias de duração da viagem, tendo o desconforto, para ambos, começado de imediato, assim que ele levou suas malas e seu corpinho para o 1207.Durante o dia, não havia qualquer problema, pois eles iam aos parques, andavam nos brinquedos juntos, assistiam às atrações, faziam suas refeições, conversavam o tempo todo, riam muito, implicavam um com o outro como grandes amigos. Mas, quando entravam no quarto, havia falta de intimidade suficiente e, talvez pior, uma vontade de adquirir essa intimidade que nenhum dos dois ousaria mencionar.Além disso, durante a noite ele saía sozinho, e voltava já no meio da madrugada. Ele a convidava sempre, dizia que ela precisava se soltar mais, se divertir, beber, dançar. Contudo, ela achava que o convite acontecia por ele ser educado, cavalheiro, mas não porque ele quisesse realmente a companhia dela. Provavelmente, ele conhecia muitas mulheres nos clubs que ele estava frequentando, pensamento que incomodava Viviam, mas que ela também não tinha qualquer direito de verbalizar. Ele, ali, não precisava manter nenhuma aparência de marido dela.Gabriel, por sua vez, quando saiu à noite pela primeira vez, logo no início da viagem, pensou no programa para os dois, não para ir sozinho. Gostava demais da companhia dela, do papo fácil, do riso solto, das brincadeiras que já existiam entre os dois, apesar de não terem nenhuma conotação sexual, nem romântica. Porém, quando ela não quis ir com ele, o rapaz achou que seria estranho, que ela poderia ficar desconfiada, se ele dissesse que, então, ficaria no hotel também. Por isso ele foi, e até trocou alguns beijos com uma menina, mas não curtiu muito. Só chegou tarde ao quarto porque ficou tomando uns drinques no bar do hotel.Nas outras noites, continuou saindo apenas porque era desconfortável passar a noite toda no mesmo quarto que ela, sabendo que, no papel, ela era mulher dele, mas, na realidade, só uma nova amiga e, principalmente, sua contratante. Que eles tinham trocado alianças, mas elas sequer estavam em seus dedos, naquele momento, porque tudo era uma grande farsa e desejá-la não iria ajudar em nada quando eles tivessem que pisar novamente o solo novaiorquino, recolocar as alianças e fingir para Deus e o mundo.Ele sequer ia aos clubs onde ela julgava que ele estava se divertindo como se não houvesse amanhã. Simplesmente escolhia um bar não muito movimentado e passava a noite toda lá, bebendo e observando os turistas. Depois ia sempre parar no bar do hotel, onde ficava conversando com Don, o barman, com quem fez amizade.
Na última noite dos dois em Orlando, Gabriel resolveu tentar, mais uma vez, fazer com que ela saísse um pouco. Dessa vez, foi mais insistente e recorreu a algo que ele achou que seria a única coisa capaz de convencê-la.“Vamos, Viviam! Se você for comigo, ao invés de ir para uma balada, a gente pode ir pra um karaokê. O que acha? Leandro me disse que você adora cantar e que é realmente boa. Eu adoraria ouvir. Vamos?”O convite era realmente tentador e Viviam cedeu. Um sorriso enorme brotou do rosto de Gabriel, mas ele disfarçou, não a deixando perceber. Ela tomou um banho, perfumou-se, vestiu-se e o encontrou na recepção do hotel, meia hora depois, quando os dois seguiram para um bar com um karaokê realmente bom, repleto de opções.Ela cantou algumas músicas e deixou o falso marido de boca aberta, desde a primeira até a última nota. Sua voz era simplesmente maravilhosa!Além disso, ele se pegou surpreso com a transformação da menina que frequentava os parques com ele, durante o dia, com sua franjinha e rabo de cavalo quase infantis, tênis, shorts jeans e camisetinhas comportados, em uma mulher exuberante, com os cabelos soltos, a franja penteada de lado, uma blusa e uma calça coladas no corpo e uma bota de saltos altíssimos, na qual ela se equilibrava com total desenvoltura. Uma mulher maravilhosa, que dominava o palco sem fazer nenhuma força para isso.Ele, por sua vez, também era bastante afinado e sua voz era rouca, sexy, o que arrancava suspiros das mulheres solteiras presentes no local. Viviam se percebeu feliz com o fato de parecerem estar juntos, o que, certamente, foi o único fator que evitou que uma daquelas garotas se aproximasse dele e que ele, por sua vez, aproveitasse a oportunidade.
A noite foi ótima. Os dois se divertiram como há muito tempo não faziam. Além de cantar, beberam, conversaram, comeram, riram, compartilharam algumas histórias sobre suas vidas que não estavam nos relatórios. Sem nem mesmo perceber, os dois começaram a trocar olhares maliciosos, a tocar um no outro enquanto falavam, a aproveitar a música alta como uma ótima desculpa para falarem ao pé do ouvido.O karaokê já tinha acabado e uma música ambiente tocava no bar.Same bed, but it feels just a little bit bigger nowOur song on the radio, but it don't sound the sameWhen our friends talk about youAll that it does is just tear me downCause my heart breaks a littleWhen I hear your nameAnd all just sounds like ooh, ooh, ooh, ooh, ooh“Ai, eu simplesmente amo essa música!” Disse Viviam, movimentando-se lentamente ao som dela, de olhos fechados.“É maravilhosa.” Gabriel respondeu, baixo. Ele gostava da música também, mas o elogio era para a mulher sentada no banco de bar à sua frente.Então, sem pensar nas consequências, ele passou os dedos pelos cabelos dela, depois o polegar pela maçã do rosto, macia como um pêssego, até finalmente tocar o lábio inferior dela, que continuava de olhos fechados, entregue a suas carícias.Quando, finalmente, ela abriu seus olhos, era ele quem tinha fechados os seus, e suas bocas estavam muito próximas. Quase se tocavam, como no dia do casamento, mas, naquele dia, o “beijo” que eles tinham trocado tinha sido super rápido e havia mais de cinquenta pessoas em volta, testemunhando-o. Tinha sido totalmente dentro do script, sem emoção alguma, sem desejo algum.“Não, Gabriel.” Ela disse, empurrando o corpo dele, ainda que com delicadeza, e tirando-o quase de um transe.“Por quê?”“Porque a gente vai dormir no mesmo quarto de hotel quando sair daqui, e depois vai passar um ano vivendo na mesma casa... E vai ser muito estranho se a gente tiver ficado juntos. A gente precisa manter o profissionalismo pra essa coisa dar certo, ok?”“Não! Não tá ok pra mim, não...” Mostrou-se irritado. “Você é linda e eu quero beijar você. Não tem nenhuma cláusula que proíba a gente de fazer isso naquela porcaria de contrato.”Viviam preparava um jantar especial para receber o marido, que chegaria, naquela noite, de uma viagem de quinze dias que ele havia feito para promover seu primeiro filme por algumas cidades do interior dos Estados Unidos. Não era nenhuma superprodução de Hollywood, e sim uma comédia romântica lançada diretamente em DVD, Blu-Ray e em emissoras de TV por assinatura, mas a oportunidade representava muito paraGabriel, que tinha sido especialmente convidado para o papel principal pelo produtor, que o vira atuando no teatro logo depois de sua peça ter sido, finalmente, transferida para a Broadway.A garota sorriu, ao pensar em como muitas coisas tinham mudado, ao longo do tempo, mas não o seu hábito de cozinhar refeições especiais para o marido. No início da relação dos dois, quando ela ainda tentava negar os sentimentos que começava a nutrir por ele, o ato de manusear os ali
Gabriel tivera dias muito difíceis, mas mantivera sua rotina durante todo o tempo. Além de ser uma pessoa que levava a sério as responsabilidades que assumia, julgou que a melhor maneira de sentir menos a tristeza que invadira sua vida era ocupar a mente o máximo possível.Naquela manhã tinha ido à academia, onde encontraraFelipo, para quem, pressionado, uma vez queViviam não atendera várias ligações de Lisa, dissera apenas ter brigado com a esposa. Não julgara ser, ainda, o momento para entrar em detalhes, ou talvez esse momento sequer fosse chegar, um dia. Talvez a melhor saída fosse dizer a todos que eles tinham se desentendido e optado pelo divórcio, ao invés de expor ambos, contando que haviam negociado suas vidas e encarado desagradáveis consequências em virtude disso.O rapaz fizera Box e musculação, nadara um pouco, tomara
Depois de ter passado o domingo todo sendo cuidada por Samantha,Viviam se viu completamente sozinha, na segunda-feira, e a vontade de desaparecer não passava, assim como as lágrimas continuavam teimando em lavar seu rosto. No entanto, ela tinha um compromisso, naquela tarde, com alguns adolescentes que precisavam dela para treinar para uma competição que, considerando as circunstâncias de vida deles, era algo de importância inestimável. Além disso, considerando as novas circunstâncias de vida dela própria, dedicar-se ao clube do coral voltaria a ser a melhor parte de seus dias, assim como tinha sido durante bastante tempo, no passado.É claro que ela agora também tinha a Broadway e ela adorava seus momentos cantando, dançando e atuando em frente a uma grande plateia, bem como se entusiasmava com os aplausos e elogios que recebia. No entanto, a vida de atriz de musicais não era s
Gabriel sentiu as lágrimas escorrerem por seu rosto, silenciosamente. Naquele momento, queria ser uma criança novamente, e poder correr para o colo de Carol, deitar sua cabeça nele e soluçar, até ser vencido pelo cansaço, como tinha feito tantas vezes, sem ter nenhuma consciência sobre o quanto aquilo destruía sua mãe. Porém, não contava com tal opção naquela hora, era claro, então fez aquilo que os adultos fazem quando não se sentem aptos a encarar seus problemas, e foi caminhando pelas ruas de Nova York até o bar mais próximo.Afogou as mágoas em algumas louras bem geladas, tentando afastar a lembrança da decepção que lhe provocara uma certa garota, mas não conseguia esquecer absolutamente nada, nem por um segundo. Ficava sendo assombrado por cada palavra dita durante a discussão que tiveram, se pegava tentando entende
Enquanto pensava no futuro que queria ter ao lado da esposa, na família que desejava formar com ela, coincidentemente, passou por uma joalheria e, lembrando-se de que nunca havia comprado um presente de verdade para ela, resolveu escolher um anel com um solitário, que ela poderia usar junto à aliança. Já podia imaginar o discurso que faria, e que seria como o pedido de casamento e os votos matrimoniais, que não tinha tido realmente oportunidade de fazer, juntos.Levou a joia consigo para o teatro, trabalhou em sua peça e, depois, seguiu para casa, onde esperava encontrar sua garota, que também voltava da labuta naquele mesmo horário. Chegando lá, porém, foi recepcionado porLeandro e Robert, que tinham ido fazer uma surpresa aViviam no teatro, uma vez que o primeiro não tinha assistido ao espetáculo da amiga, na noite de estreia, por estar fora do país com sua pró
Viviam andava de um lado para o outro, com o celular na mão, há mais ou menos meia hora, quandoGabriel entrou em casa. Estava tão tensa que sequer percebeu a presença dele, ou parou de andar, quando ele falou com ela. Então, ele andou na direção da garota, segurando-a, e fazendo com que ela parasse e o encarasse."Oi, meu amor." Repetiu o cumprimento que já havia feito, ao adentrar o quarto."Oi, amor." Ela respondeu, com um sorriso e dando um selinho nele, mas continuou visivelmente tensa."O que você tem,Vivi?" Inquiriu, apreensivo."Gabriel, você não sabe quem me ligou.""Não, eu não sei." Riu. "Por que você não me conta?""Eu recebi... um telefonema... de Maureen Holmes." Falou, pausadamente. "Não de uma secretária dela, ou de uma assessora dela... de Maureen Holmes!" Quase gritou."Calma, meu amor. Vem cá." Ped