FAZER LOGINElisa Martins
Levantei da cama pesada, com o corpo cansado e a mente em frangalhos. O relógio marcava cinco da manhã. Eu não tinha dormido. Na verdade, fazia dias que dormir tinha se tornado um luxo distante, algo que pertencia a outra versão de mim — uma Elisa que já não existia mais.
As preocupações se empilhavam na minha cabeça como contas atrasadas sobre a mesa da cozinha. Minha mãe no hospital. As despesas aumentando a cada dia. Medicamentos que não podiam ser interrompidos. Exames que surgiam do nada. E, para completar, o visto dela expiraria em uma semana.
Uma semana.
Eu nasci aqui. Esse era um problema a menos. Mas minha mãe não. Se a imigração descobrisse, ela seria mandada de volta para o Brasil imediatamente. Doente. Fraca. Sem tratamento. E eu sabia, no fundo do peito, que se isso acontecesse… eu a perderia.
Não ficaria aqui sem ela. Nunca.
E trazê-la de volta depois seria ainda mais impossível.
A doença já sondava o corpo dela como um predador paciente.
Respirei fundo, passando a mão pelo rosto, sentindo a pele quente e os olhos ardendo. O silêncio do apartamento era cruel. Pequeno, apertado, com cheiro de café velho e preocupação. Era tudo o que eu tinha.
As batidas na porta vieram secas, impacientes.
Meu coração disparou.
Levantei devagar, arrastando os pés pelo chão frio, e abri a porta.
Era o síndico.
Ele não sorriu. Nunca sorria.
— Senhorita Martins — disse, consultando algo no celular. — Vim avisar que a senhora tem até o fim do mês para quitar os aluguéis atrasados.
Engoli em seco.
— Caso contrário — ele continuou, sem emoção —, terá que desocupar o apartamento. Arrumar suas coisas e ir embora.
Assenti em silêncio. O que eu poderia dizer? Que minha vida estava desmoronando? Que eu estava perdendo tudo? Que não havia mais de onde tirar?
Ele se virou para sair, mas algo — ou alguém — surgiu logo atrás dele.
Helena.
Meu coração afundou ainda mais.
Ela estava impecável como sempre. Roupa social, postura reta, olhar sério. Mas havia algo diferente em sua expressão. Pena. Preocupação. Culpa.
— Bom dia, Elisa — ela disse, baixo.
O síndico se afastou, deixando o corredor silencioso demais.
— Desculpa por isso, Helena — falei rápido, sentindo vergonha queimar no rosto. — Eu não sabia que ele viria tão cedo.
— Não se desculpe — ela respondeu, entrando no apartamento sem ser convidada. — Eu sei pelo que você está passando.
Fechei a porta atrás dela.
— Você não devia ter vindo aqui — murmurei.
— Eu devia, sim. — Ela suspirou, passando a mão pelo cabelo. — E eu preciso ser direta com você.
Meu estômago se contraiu.
— Eu sei que você está passando por necessidade. — Ela me encarou. — E precisa de dinheiro. Muito dinheiro.
Não respondi. Apenas a encarei.
— Eu tomei a liberdade de te indicar para meus patrões — ela continuou. — Para ser a assistente pessoal deles.
Meu coração deu um salto de esperança.
— Assistente? — perguntei. — Mas você não é a…
— Não, Elisa. — Ela me interrompeu. — Eu sou a secretária pessoal. Cuido de tudo no ramo trabalhista. Contratos, reuniões, acordos. Você seria… outra coisa.
O ar pareceu faltar.
— Outra coisa como?
Ela demorou a responder. Isso foi o que mais me assustou.
— Assistente pessoal — repetiu. — De assuntos pessoais.
Meu corpo gelou.
— Assuntos… entre quatro paredes.
As palavras ecoaram na minha cabeça.
— O quê? — perguntei, incrédula. — Do que você está falando?
Meu coração começou a bater descompassado.
— Helena… — minha voz falhou. — Você está me oferecendo para os seus patrões como uma prostituta? É isso?
— Não fala assim — ela disse, incomodada. — Eu só juntei o útil ao agradável.
— Útil ao agradável?! — minha voz subiu. — Você enlouqueceu?
— Eu já te indiquei — ela continuou, ignorando meu tom. — Eles vão te procurar. Vão te oferecer um contrato.
— Contrato de quê?
— Um ano. — Ela foi direta. — Exclusivo. Depois disso, pode se tornar algo casual, se ambas as partes quiserem.
Meu corpo começou a tremer.
— Você precisa assinar um contrato de confidencialidade, consentimento… tudo formal.
— Não. — Balancei a cabeça. — Não, Helena. Você está maluca.
— Elisa, escuta bem. — Ela se aproximou. — Eles querem alguém sem envolvimento emocional. Um objeto sexual.
As palavras me cortaram por dentro.
— Eles pagam bem — ela continuou. — Muito bem. Um dinheiro absurdo.
— Eu não sou um objeto! — gritei.
— Você é maior de idade. — O tom dela endureceu. — E precisa do dinheiro.
— Eu posso arrumar outro trabalho!
— Não a tempo. — Ela rebateu. — O visto da sua mãe está para vencer. O tratamento não pode parar.
Senti lágrimas queimarem meus olhos.
— Você não tem escolha.
— E a minha dignidade? — perguntei, com a voz quebrada. — Onde ela fica?
O olhar de Helena mudou. Endureceu. Ficou frio.
— Você escolhe — ela disse, sem hesitar. — Sua dignidade… ou sua mãe em um caixão.
O mundo girou.
— Não fala isso…
— É a realidade. — Ela se virou em direção à porta. — Vou pagar seus aluguéis atrasados como demonstração de boa-fé.
Abri a boca para falar, mas nenhum som saiu.
— Assim que sua mãe finalizar o tratamento, ela pode voltar para casa. — Ela parou na porta, sem olhar para mim. — Enquanto você…
Ela fez uma pausa.
— Bem, você estará nas mãos dos irmãos Roux.
A porta se fechou.
O silêncio caiu pesado sobre o apartamento.
Eu continuei ali, parada, sentindo minhas pernas fracas demais para me sustentar. Minhas mãos tremiam. Meu coração doía como se estivesse sendo esmagado.
Isso não podia estar acontecendo comigo.
Não comigo.
Mas estava.
E, pela primeira vez desde que minha mãe adoecera, eu percebi algo ainda mais assustador do que perder tudo.
Eu estava prestes a me perder também.
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Alex Roux
Ter meu irmão ali comigo era, sem sombra de dúvidas, consolador.
Não porque Cézar fosse gentil — ele nunca foi. Mas porque ele entendia. Entendia o peso. O sangue. As escolhas que não eram escolhas. Um ano. Apenas um ano em que dividiríamos tudo outra vez. Negócios, decisões… e a mulher. Assim como quando fui para Paris assumir o que era dele enquanto ele sustentava o império daqui.
Nada de novo sob o sol.
— E ela, Helena? — perguntei, apoiando o corpo na poltrona de couro. — Aceitou de bom grado?
Helena permaneceu em pé, postura impecável, mãos cruzadas à frente do corpo. Nunca demonstrava emoção quando falava de trabalho. Aquilo era essencial para sobreviver ao nosso lado.
— Não, senhor. — A voz saiu firme. — Ela relutou. Ainda não aceitou formalmente, mas vai aceitar.
— Tão certa assim? — Cézar perguntou, girando o copo de whisky entre os dedos.
— Sim. — Helena respondeu sem hesitar. — Ela precisa do dinheiro mais do que precisa da própria dignidade.
O silêncio que se seguiu foi denso.
— Pobre moça — Cézar murmurou, com um meio sorriso que nunca significava piedade. — Espero que ela seja tão apegada à dignidade quanto diz ser… e que escolha não se apaixonar. Que pense apenas na mãe.
Inclinei levemente a cabeça, observando a dança lenta do líquido âmbar no meu copo.
— Ela ficará durante esse um ano — Helena continuou. — Pelo dinheiro do tratamento da mãe. Pelas dívidas. Por tudo que tira a paz dela.
— Que assim seja — Cézar concluiu, como se estivesse selando um acordo qualquer.
Helena fez menção de sair, mas parou no meio do caminho.
— Só há um problema, senhores.
Levantei o olhar imediatamente.
— Continue — ordenei.
Ela respirou fundo. Pela primeira vez desde que entrara naquela sala, pareceu hesitar.
— Elisa é virgem.
A palavra caiu como uma lâmina afiada no ambiente.
Cézar arqueou a sobrancelha, claramente surpreso, antes de soltar uma risada baixa.
— Interessante.
— Peço que não sejam brutos com ela no início — Helena disse, firme, encarando-nos. — Não a façam sofrer.
Olhei para meu irmão de soslaio. Ele apenas deu de ombros.
— Alex, isso é com você.
Suspirei devagar.
— Eu cuidarei disso — respondi. — Com toda a delicadeza possível.
Helena assentiu, aliviada.
— Porém — continuei, sem suavizar — depois disso… você sabe, Helena. Nós não fazemos amor.
Ela engoliu em seco, mas concordou.
— Uma virgem — Cézar comentou, inclinando-se para frente. — Os primeiros dela serão nós dois.
O sorriso que surgiu em seus lábios era perigoso demais para ser chamado de simples provocação.
Conhecia Cézar como conhecia a mim mesmo. Ele sempre fora o mais cruel. Impulsivo. Capaz de ir longe demais apenas para testar limites. Eu era o oposto. O estrategista. O que pensava antes de agir.
Na maior parte do tempo.
— Envie o contrato para ela — falei, encerrando o assunto. — Hoje.
— Sim, senhor. — Helena se retirou, fechando a porta atrás de si.
O silêncio voltou a tomar conta da sala.
Cézar caminhou até o bar, serviu dois copos de whisky e me entregou um deles.
— Então… — ele disse, sentando-se à minha frente. — Uma virgem desesperada, um contrato bem redigido e um ano inteiro.
— Não confunda desespero com fraqueza — respondi.
— Ah, maninho… — ele sorriu. — Toda necessidade cria uma brecha.
Levei o copo aos lábios, sentindo o álcool descer queimando.
— Só não ultrapasse limites — adverti.
— Desde quando nós respeitamos limites? — ele retrucou.
— Desde que eles nos mantêm vivos.
Ele riu.
— Você mudou.
— Não. — Encarei-o. — Eu aprendi.
Ficamos em silêncio por alguns segundos. Minha mente, no entanto, já trabalhava. Eu não conhecia Elisa Martins, mas já sabia o suficiente para entender que aquele acordo não seria simples.
Uma mulher pressionada pelo mundo.
Uma mãe entre a vida e a morte.
Um contrato que prometia salvação… ao custo de algo que não se recupera.
— Você acha que ela vai quebrar? — Cézar perguntou, mais sério agora.
— Não sei — respondi com honestidade. — Mas sei que não devemos subestimá-la.
— Toda mulher quebra.
— Nem todas. — Apoiei os cotovelos nos joelhos. — Algumas apenas aprendem a sobreviver melhor.
O nome dela ecoou na minha mente.
Elisa Martins.
Ainda não nos conhecíamos. Ainda não tinha assinado nada. Mas, de alguma forma, ela já estava ali. No centro das decisões. No centro do risco.
E eu odiava admitir isso, até para mim mesmo.
Porque quando uma peça começa a interferir no tabuleiro…
ela deixa de ser apenas uma peça.
— Um ano — Cézar repetiu. — Depois disso, cada um segue seu caminho.
— Um ano — concordei. — E depois disso, Cézar. Você não pisa mais os pés aqui.
— Nossa maninho, achei que me amasse.
— Uma coisa não tem nada haver com a outra, esse um ano será o último desse acordo.
— Okay, ano passado em Paris, esse ano aqui em Las Vegas e depois acabou .
— Sim! — Digo.
Mas algo dentro de mim dizia que nada ali seria tão simples.
E eu nunca ignorava esse tipo de pressentimento.
{...}
Devion SantoroO barulho daquela casa era uma das minhas coisas favoritas no mundo.Talvez porque durante muitos anos eu tive medo do silêncio.Silêncio lembrava ausência.Lembrava saudade.Lembrava morte.Mas naquela casa… nunca existia silêncio.Sempre tinha alguém falando alto.Alguém brigando.Alguém rindo.Alguém correndo.E naquela manhã não era diferente.— EU NÃO VOU SAIR ASSIM! — o grito de Anelise ecoou pela cozinha inteira.Revirei os olhos tomando café tranquilamente.— Você vai sim. — Alec respondeu sem nem levantar os olhos do jornal.— Meu cabelo tá horrível!— Seu cabelo tá exatamente igual ao de sempre. — Aurora rebateu passando frutas para Elisa.— Isso porque vocês não entendem nada!— Graças a Deus. — murmurei baixo.As duas me ouviram.Claro que ouviram.Anika imediatamente estreitou os olhos pra mim.— A culpa é sua!— Minha? — começo a rir. — Vocês estão surtando desde ontem!— Porque você está feliz demais com esse trote. — Anelise acusa apontando o dedo pra mi
Devion SantoroÓbvio que em todos esses anos da minha vida não houve um único momento em que eu não sentisse falta do meu pai.Nenhum.Às vezes era algo pequeno.Um vazio no peito quando eu via algum amigo sendo abraçado pelo pai na formatura.Outras vezes era algo brutal.Como nos meus aniversários.Ou quando consegui entrar na universidade.Ou quando fiz dezoito anos.Ou quando comecei a trabalhar oficialmente nos restaurantes da família.Porque em todos esses momentos… eu pensava nele.Pensava no quanto Rodrigo Santoro estaria orgulhoso.Mas mesmo sentindo falta dele, eu nunca me senti sozinho.Nunca.Aurora praticamente me criou junto com Alec.Elisa era a melhor mãe do mundo.Tina e Alice eram minhas tias malucas oficiais.Anika e Anelise eram minhas miniaturas infernais favoritas.E Alec…Bom, Alec nunca tentou ocupar o lugar do meu pai.E talvez justamente por isso tenha se tornado uma das pessoas mais importantes da minha vida.Ele me ensinou tudo.A dirigir.A administrar.A
Alec GordomaOs anos passaram rápido demais.Rápido ao ponto de às vezes eu acordar assustado no meio da madrugada, olhando para o teto e tentando entender em que momento minha vida saiu daquele caos absoluto para se transformar nisso aqui.Família.Amor.Casa cheia.Risadas.Vida.E mesmo assim... a saudade nunca foi embora.Ela apenas aprendeu a existir junto da felicidade.- Pai! PARA DE ANDAR! - Anelise grita do alto da escada. - Você vai amassar meu vestido!- Quem mandou vocês demorarem três horas pra se arrumar? - retruco, arrancando gargalhadas de Devion.Meu garoto estava escorado no batente da porta da sala usando um terno preto impecável. O cabelo escuro penteado para trás, os olhos idênticos aos de Rodrigo carregando aquele mesmo ar protetor e gentil.Às vezes aquilo ainda me assustava.O filho de Elisa era praticamente a reencarnação do pai.E eu sabia que ela pensava a mesma coisa, porque muitas vezes eu pegava minha sogra olhando para ele com os olhos marejados.- Você
Aurora GordomaA dor que se instalou no meu peito era tão devastadora. Eu não aguentava mais perder ninguém, por mais que eu nem soubesse que ele estava lá, agora sei e dói, dói absurdamente, algo foi arrancado de mim. E a dor é sufocante.Dois dias haviam se passado, e minhas meninas ainda estavam na UTI, e o velório do meu menino que não conhecemos, aconteceria nessa tarde. Demos o nome dele de Theo. E só de pensar que Anika e Anelise iriam crescer sem a terceira metade delas, isso me doía cada vez mais.Eu nunca imaginei que fosse possível amar alguém tão profundamente sem sequer ter visto seus olhos abertos. Nunca imaginei que alguém pudesse deixar uma marca tão profunda em mim sem nunca ter respirado fora do meu ventre.Mas Theo existiu.Ele existiu dentro de mim.Ele cresceu ali.Ele ouviu minha voz.Ouviu o coração do pai dele.Sentiu as irmãs ao lado.E agora… ele não estava mais aqui.O quarto do hospital parecia silencioso demais naquela manhã cinzenta. O cheiro forte de álc
Alec GordomaMinha mulher foi levada para a sala de cirurgia e, no instante em que aquelas portas se fecharam diante dos meus olhos, eu senti como se o chão tivesse desaparecido sob os meus pés.Cesárea de emergência.Essas palavras ecoavam dentro da minha cabeça como uma sentença cruel.Eu estava completamente fora de mim.As mãos tremiam.O coração batia tão forte que chegava a doer no peito.E o pior de tudo era a sensação de impotência. Eu podia enfrentar investidores, chefs arrogantes, criminosos, imprensa, o inferno inteiro se fosse preciso… mas não podia entrar naquela sala e tirar a dor da mulher que eu amava.Aurora estava sofrendo.E eu não podia fazer nada.Absolutamente nada.— Alec… respira. — Tina segurou meus ombros quando comecei a andar de um lado para o outro pelo corredor da maternidade.— Como que eu vou respirar, Tina? — passei as mãos pelos cabelos nervoso. — Ela tava com dor… ela tava desesperada…Minha voz falhou miseravelmente.Porque a imagem dela agarrada em
Aurora GordomaA dor veio como uma onda.Forte. Repentina. Cruel.Eu estava sentada no sofá da sala, tentando respirar normalmente enquanto organizava algumas roupinhas das meninas que Alice havia trazido lavadas e passadas no dia anterior. O ar-condicionado estava ligado, uma música baixa tocava ao fundo e, ainda assim, eu sentia calor.Muito calor.Meu corpo inteiro parecia pesado.As costas doíam.As pernas estavam inchadas.E minhas filhas pareciam decididas a fazer uma festa dentro da minha barriga.— Ai… — soltei baixinho, fechando os olhos ao sentir outra fisgada forte atravessar meu ventre.Instintivamente levei a mão até a barriga enorme.Respira, Aurora.Respira.A dor diminuiu por alguns segundos e eu consegui abrir os olhos novamente.Olhei para o relógio na parede.Onze e quinze.Alec já devia estar no restaurante em reunião.Suspirei fundo tentando relaxar.Mas então veio outra.Mais forte.Muito mais forte.— Ah! — arqueei o corpo automaticamente, apertando o tecido do







