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Autor: Autora NB
last update Data de publicação: 2026-04-16 21:22:26

Rodrigo Santoro

Dois meses.

Dois meses desde que o contrato tinha expirado. Dois meses desde que Elisa deixou oficialmente de ser uma moeda de troca naquela família doente. Dois meses desde que Cézar e Alex desapareceram como se ela nunca tivesse existido.

E, mesmo que tivessem aparecido, eu não teria permitido.

Não agora.

Não depois de tudo.

Elisa estava livre. Livre no papel, livre do medo imediato, livre das amarras jurídicas que a prendiam àquele sobrenome maldito. Mas eu sabia — liberdade
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Último capítulo

  • Irmãos Roux - Contos Proibidos    100

    Devion SantoroO barulho daquela casa era uma das minhas coisas favoritas no mundo.Talvez porque durante muitos anos eu tive medo do silêncio.Silêncio lembrava ausência.Lembrava saudade.Lembrava morte.Mas naquela casa… nunca existia silêncio.Sempre tinha alguém falando alto.Alguém brigando.Alguém rindo.Alguém correndo.E naquela manhã não era diferente.— EU NÃO VOU SAIR ASSIM! — o grito de Anelise ecoou pela cozinha inteira.Revirei os olhos tomando café tranquilamente.— Você vai sim. — Alec respondeu sem nem levantar os olhos do jornal.— Meu cabelo tá horrível!— Seu cabelo tá exatamente igual ao de sempre. — Aurora rebateu passando frutas para Elisa.— Isso porque vocês não entendem nada!— Graças a Deus. — murmurei baixo.As duas me ouviram.Claro que ouviram.Anika imediatamente estreitou os olhos pra mim.— A culpa é sua!— Minha? — começo a rir. — Vocês estão surtando desde ontem!— Porque você está feliz demais com esse trote. — Anelise acusa apontando o dedo pra mi

  • Irmãos Roux - Contos Proibidos    99

    Devion SantoroÓbvio que em todos esses anos da minha vida não houve um único momento em que eu não sentisse falta do meu pai.Nenhum.Às vezes era algo pequeno.Um vazio no peito quando eu via algum amigo sendo abraçado pelo pai na formatura.Outras vezes era algo brutal.Como nos meus aniversários.Ou quando consegui entrar na universidade.Ou quando fiz dezoito anos.Ou quando comecei a trabalhar oficialmente nos restaurantes da família.Porque em todos esses momentos… eu pensava nele.Pensava no quanto Rodrigo Santoro estaria orgulhoso.Mas mesmo sentindo falta dele, eu nunca me senti sozinho.Nunca.Aurora praticamente me criou junto com Alec.Elisa era a melhor mãe do mundo.Tina e Alice eram minhas tias malucas oficiais.Anika e Anelise eram minhas miniaturas infernais favoritas.E Alec…Bom, Alec nunca tentou ocupar o lugar do meu pai.E talvez justamente por isso tenha se tornado uma das pessoas mais importantes da minha vida.Ele me ensinou tudo.A dirigir.A administrar.A

  • Irmãos Roux - Contos Proibidos    98

    Alec GordomaOs anos passaram rápido demais.Rápido ao ponto de às vezes eu acordar assustado no meio da madrugada, olhando para o teto e tentando entender em que momento minha vida saiu daquele caos absoluto para se transformar nisso aqui.Família.Amor.Casa cheia.Risadas.Vida.E mesmo assim... a saudade nunca foi embora.Ela apenas aprendeu a existir junto da felicidade.- Pai! PARA DE ANDAR! - Anelise grita do alto da escada. - Você vai amassar meu vestido!- Quem mandou vocês demorarem três horas pra se arrumar? - retruco, arrancando gargalhadas de Devion.Meu garoto estava escorado no batente da porta da sala usando um terno preto impecável. O cabelo escuro penteado para trás, os olhos idênticos aos de Rodrigo carregando aquele mesmo ar protetor e gentil.Às vezes aquilo ainda me assustava.O filho de Elisa era praticamente a reencarnação do pai.E eu sabia que ela pensava a mesma coisa, porque muitas vezes eu pegava minha sogra olhando para ele com os olhos marejados.- Você

  • Irmãos Roux - Contos Proibidos    97

    Aurora GordomaA dor que se instalou no meu peito era tão devastadora. Eu não aguentava mais perder ninguém, por mais que eu nem soubesse que ele estava lá, agora sei e dói, dói absurdamente, algo foi arrancado de mim. E a dor é sufocante.Dois dias haviam se passado, e minhas meninas ainda estavam na UTI, e o velório do meu menino que não conhecemos, aconteceria nessa tarde. Demos o nome dele de Theo. E só de pensar que Anika e Anelise iriam crescer sem a terceira metade delas, isso me doía cada vez mais.Eu nunca imaginei que fosse possível amar alguém tão profundamente sem sequer ter visto seus olhos abertos. Nunca imaginei que alguém pudesse deixar uma marca tão profunda em mim sem nunca ter respirado fora do meu ventre.Mas Theo existiu.Ele existiu dentro de mim.Ele cresceu ali.Ele ouviu minha voz.Ouviu o coração do pai dele.Sentiu as irmãs ao lado.E agora… ele não estava mais aqui.O quarto do hospital parecia silencioso demais naquela manhã cinzenta. O cheiro forte de álc

  • Irmãos Roux - Contos Proibidos    96

    Alec GordomaMinha mulher foi levada para a sala de cirurgia e, no instante em que aquelas portas se fecharam diante dos meus olhos, eu senti como se o chão tivesse desaparecido sob os meus pés.Cesárea de emergência.Essas palavras ecoavam dentro da minha cabeça como uma sentença cruel.Eu estava completamente fora de mim.As mãos tremiam.O coração batia tão forte que chegava a doer no peito.E o pior de tudo era a sensação de impotência. Eu podia enfrentar investidores, chefs arrogantes, criminosos, imprensa, o inferno inteiro se fosse preciso… mas não podia entrar naquela sala e tirar a dor da mulher que eu amava.Aurora estava sofrendo.E eu não podia fazer nada.Absolutamente nada.— Alec… respira. — Tina segurou meus ombros quando comecei a andar de um lado para o outro pelo corredor da maternidade.— Como que eu vou respirar, Tina? — passei as mãos pelos cabelos nervoso. — Ela tava com dor… ela tava desesperada…Minha voz falhou miseravelmente.Porque a imagem dela agarrada em

  • Irmãos Roux - Contos Proibidos    95

    Aurora GordomaA dor veio como uma onda.Forte. Repentina. Cruel.Eu estava sentada no sofá da sala, tentando respirar normalmente enquanto organizava algumas roupinhas das meninas que Alice havia trazido lavadas e passadas no dia anterior. O ar-condicionado estava ligado, uma música baixa tocava ao fundo e, ainda assim, eu sentia calor.Muito calor.Meu corpo inteiro parecia pesado.As costas doíam.As pernas estavam inchadas.E minhas filhas pareciam decididas a fazer uma festa dentro da minha barriga.— Ai… — soltei baixinho, fechando os olhos ao sentir outra fisgada forte atravessar meu ventre.Instintivamente levei a mão até a barriga enorme.Respira, Aurora.Respira.A dor diminuiu por alguns segundos e eu consegui abrir os olhos novamente.Olhei para o relógio na parede.Onze e quinze.Alec já devia estar no restaurante em reunião.Suspirei fundo tentando relaxar.Mas então veio outra.Mais forte.Muito mais forte.— Ah! — arqueei o corpo automaticamente, apertando o tecido do

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