Legado Sombrio I Criaturas Noturnas

Legado Sombrio I Criaturas Noturnas

last updateTerakhir Diperbarui : 2025-03-05
Oleh:  denisecuervaTamat
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|primeiro livro da trilogia Criaturas Noturnas| Angeline acreditava ter reencontrado a paz. Aos dezessete anos, cercada por amigos e vivendo um romance arrebatador, ela se permitia sonhar com um recomeço — uma chance de esquecer a trágica perda dos pais. Mas o destino raramente pede permissão antes de mudar tudo. Um encontro sombrio em um cemitério desperta nela pesadelos perturbadores e memórias que jamais viveu. Algo antigo e perigoso a observa nas sombras, atraindo-a para uma realidade onde o bem e o mal se confundem. Perseguida por inimigos que não compreende e sufocada por segredos que ninguém ousa revelar, Angeline é empurrada para o coração de uma profecia esquecida. Para sobreviver, precisará descobrir quem realmente é — antes que suas escolhas acendam a faísca de uma guerra sangrenta. Mas quem são os verdadeiros inimigos? Em quem ela pode confiar? E quantos segredos alguém pode carregar sem deixar de ser a mesma pessoa? Descubra com Angeline o Legado Sombrio de sua família e adentre o mundo obscuro das Criaturas Noturnas.

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Bab 1

| PRÓLOGO |

Inverness, Escócia — 1752

A tempestade mergulhava o vilarejo em trevas.

O vento uivava entre as Montanhas de Krane naquela noite, chicoteando as árvores e apagando qualquer vestígio da lua no céu. Relâmpagos rasgavam a escuridão por breves segundos, revelando o caos daquela noite; casas destruídas, corpos espalhados pelas ruas e o rastro sangrento do massacre.

Evangeline corria sob a chuva.

O vestido encharcado pesava em seu corpo, os pés descalços escorregavam na pedra molhada e sua respiração queimava nos pulmões. Atrás dela, Marin e Leonora lutavam para acompanhá-la.

— Estamos... quase... che...gando... — Marin conseguiu murmurar entre uma respiração e outra.

Mas Evangeline mal conseguia ouvir.

Os gritos de seu povo ainda ecoavam em sua mente. Homens, mulheres e crianças, abatidos como animais indefesos, a maioria ainda agarrada a um fio tênue de vida. Ela havia falhado com aqueles que jurou proteger e agora a culpa pesava como uma mortalha. Com as últimas forças, subia a escadaria esculpida no interior da montanha para chegar ao seu objetivo.

O som das próprias respirações parecia pequeno diante da vastidão daquele lugar.

Leonora tropeçou em um dos degraus, apoiando a mão contra a parede de pedra áspera para não cair. O sangue escorria lentamente por sua têmpora pelo ferimento causado em algum canto da cabeça, desaparecendo entre os fios escuros grudados ao rosto pelo suor. 

Alguns passos acima, Marin e Evangeline viraram-se para trás ao perceber o vacilo.

Por um instante, os olhos cansados se encontraram.

Leonora balançou a cabeça devagar.

Aquele gesto silencioso dizia mais do que qualquer palavra. O corpo estava cedendo e ela não suportaria por muito mais tempo.  

Evangeline sentiu o desespero apertar ainda mais o peito, mas, ao erguer os olhos, avistou no alto da interminável escadaria uma enorme porta de pedra, esculpida entre as paredes rochosas da montanha. O arco antigo parecia fazer parte da própria estrutura do lugar, com rachaduras antigas cobertas por símbolos profundos que brilhavam fracamente.

Atrás daquela porta repousava a última esperança do seu clã.

Evangeline obrigou as próprias pernas a continuarem. A culpa, o medo e o horror do que havia deixado para trás ameaçavam esmagá-la a cada degrau, mas não podia parar.

Não agora.

Quando finalmente alcançaram o topo, a presença da porta diante delas pareceu sufocar o ar ao redor. 

As duas folhas de pedra negra erguiam-se como algo impossível de ter sido criado por mãos humanas. Os símbolos antigos percorriam toda a superfície, queimando fracos e em tons prateados sob a penumbra do lugar.

Evangeline parou diante dela, o peito subindo e descendo com dificuldade. Atrás, Marin escorou-se contra a parede gelada para recuperar o fôlego e Leonora quase desabou de joelhos no último degrau. 

Evangeline tocou nos símbolos com cuidade. A magia reagiu imediatamente, atravessando sua pele como gelo e fogo ao mesmo tempo. 

As runas cintilaram... e se apagaram.

Nada.

A porta permaneceu intacta.

Um suspiro escapou de seus lábios.

As suas mãos se apoiaram nos joelhos trêmulos, que latejavam com o peso do vestido encharcado. Os fios negros de seu cabelo caíam como um véu, escondendo o rosto marcado pela exaustão e o sofrimento. Gotas d'água escorriam pelas pontas, estilhaçando-se no solo como pequenos cristais liquefeitos.

Como salvar seu povo se ela sequer conseguia abrir uma porta?

— Apenas... respire fundo. — Marin tocou suavemente no ombro. — Não pode falhar agora.

Evangeline fechou os olhos.

Desde o nascimento, carregava o legado dos Grievers. Um poder ancestral que jamais desejou possuir. Durante toda a vida, sentiu-se aprisionada pelas expectativas de seu clã, obrigada a ser símbolo de esperança quando, na verdade, só queria ser livre.

Mas agora já não importava.

Não havia mais tempo para ter medo.

Evangeline cerrou os punhos, tentando renovar suas forças, buscando nas profundezas de si mesma a coragem que acreditava já ter perdido.

Marin e Leonora trocavam olhares inquietos.

Ela ergueu a mão trêmula. 

As palavras fluíram por seus lábios em um murmúrio hesitante, as runas ameaçaram pulsar com maior intensidade. No entanto, o peso da magia era como uma maré contrária, resistindo ao seu comando. O seu corpo vacilou, os joelhos fraquejaram e seu corpo parecia tombar a qualquer momento.

Ela tentou novamente e com um novo e forte suspiro.

— Aperio! — a palavra de poder escapou de seus lábios e reverberou nas profundezas da câmara.

As runas explodiram em luz.

A porta tremeu violentamente antes de se abrir com um estrondo profundo. Um vento gelado escapou do interior da montanha, como se o próprio santuário respirasse depois de séculos.

As três entraram.

A câmara era vasta, silenciosa e sufocante. Musgos cobriam as paredes de pedra, pilares antigos sustentavam o teto perdido na escuridão e um cheiro intenso de umidade pairava no ar. Candelabros enferrujados pendiam precariamente nos pilares, suas velas derretidas e inutilizadas pelo passar das eras. A atmosfera pulsava com uma aura de desolação; se pudesse nomear aquele espaço, chamaria de "sombrio". Não apenas por sua aparência, mas pela opressiva sensação que exalava de cada canto.

― Incendium. ― sua voz cortou o silêncio como um comando firme.

As velas que se acenderam uma a uma, revelando de forma tímida os contornos do santuário. À medida que a luz tremulante expandia seu alcance, ela se aproximou do centro do recinto, os olhos atentos buscando o que sabia estar ali, repousando solitário no esquecimento.

Evangeline avançou sem hesitar até o altar.

Bem no centro, havia um púlpito estranhamente intacto como se o tempo tivesse poupado aquela única peça que sustentava a essência do seu povo. 

Evangeline aproximou-se sem desviar os olhos.

Mesmo consumido pelo anos, um poder irradiava uma presença quase viva. Ela conhecia aquele livro. Foi apresentada ao Grimório apenas uma vez, no dia em que se tornou a sucessora de sua linhagem. Agora, diante dele novamente, também entendia que seria a última vez. As runas entalhadas em sua capa pulsavam lentamente, como um coração adormecido e naquele instante, Evangeline desejou se entregar ao mesmo torpor. Porque continuar de pé, quando se sentia morta dentro da própria mente, era quase insuportável.

A melancolia que a envolveu foi subitamente interrompida por um estrondo ensurdecedor. A porta, que até então parecia impenetrável, tremeu como se atingida por uma força superior. O impacto ecoou pelo recinto como o som de mil cascos batendo contra o chão.

Marin e Leonora se entreolharam, aterrorizadas.

Então uma voz ecoou pelas sombras, chamando-a pelo nome feito um fantasma, fazendo Evangeline congelar. 

Leonora avançou imediatamente.

— O demônio... está aqui...

Marin se colocou diante de Evangeline.

— Termine o que veio fazer! — disse, sua voz resoluta, mas baixa o suficiente para que a sacerdotisa soubesse que era um apelo.

Evangeline acenou firme.

Quando abriu o Grimório, uma onda de energia atravessou seu corpo.

As páginas começaram a brilhar. Símbolos ancestrais se moveram diante de seus olhos. O poder do livro invadiu sua mente e naquele momento ela sentiu que poderia controlar a própria tempestade lá fora ou moldar o mundo como quisesse.

Sem hesitar, retirou a adaga do seu pai do corselete e com um suspiro profundo, estendeu a palma da mão esquerda, seu olhar fixo e determinado. Um movimento deliberado cortou a linha do meio, e a dor aguda subiu por seu braço como uma corrente elétrica. Ignorou o ardor, focando no sangue que agora escorria em um fluxo escarlate para dentro do Grimório. Suas palavras vieram baixas, quase como sussurros, mas carregadas de uma força que parecia ressoar no tecido da própria realidade.

O ar vibrou.

As velas se acenderam violentamente ao redor do altar enquanto símbolos brilhantes flutuavam pela sala. A magia passou a consumir suas forças, mas ela continuou. Precisava terminar.

Precisava esconder o legado antes que fosse tarde.

Os olhos de Evangeline reviraram através das órbitas ao mesmo tempo que uma corrente silenciosa de energia percorreu sua espinha e uma onda de calor pulsante a dominou. O sangue que escorria de seus dedos fluía para dentro do livro, espalhando-se como raízes vivas, traçando runas ancestrais com precisão assombrosa.

O estrondo da pedra maçica atingindo o chão ecoou violentamente pela câmara, fazendo a montanha estremecer sob os pés delas. Fragmentos de rocha se espalharam pelo recinto enquanto poeira subia pelo ar como uma névoa espessa.

E então ele entrou.

Os passos ressoavam lentos, firmes e sem nenhuma pressa. 

O vampiro atravessou as sombras com uma elegância cruel, como de alguém que já sabia ter vencido. Seus olhos negros pareciam devorar toda a luz ao redor. Marin e Leonora permaneceram imóveis diante dele, mas Maundrell sequer lhes concedeu um olhar. As duas eram insignificantes perto daquilo que realmente desejava e quando seu olhar encontrou Evangeline no altar, um sorriso lento surgiu em seus lábios.

— Finalmente encontrei você. 

Evangeline, ainda com a mão sobre o Grimório, despertou de seu transe e endireitou-se, mesmo diante da presença esmagadora ergueu o queixo com dignidade. O medo, que outrora a consumia, era agora uma lembrança distante.

— Não o temo mais, demônio da noite. ― disse firmemente ― Pode matar-me se quiser, mas jamais terá meu poder.

Maundrell soltou uma breve risada.

— Acha mesmo que quero matar logo... você? ― Uma expressão de prazer sádico dançou em seus traços enquanto ele se aproximava mais, a passos lentos e calculados. ― Há destinos piores que a morte, querida Evangeline.

Ela sustentou seu olhar.

— O seu fim está mais próximo do que imagina.

O sorriso de Maundrell se alargou em um gesto quase teatral.

Ele inclinou ligeiramente a cabeça, como um predador entretido pela resistência de sua presa. 

― Então foi isso o que acabou de fazer? Prever o meu fim? ― perguntou com uma voz repleta de ceticismo. ― Não há nada capaz de me destruir. 

A convicção em sua voz ressoou, ecoando como uma verdade incontestável no silêncio que se seguiu.

― Não agora, mas logo virá.

Evangeline sequer piscou, o fogo em seu olhar desafiando a escuridão que emanava dele.

Por um breve instante, a expressão de Maundrell se alterou. 

Foi algo sutil, quase imperceptível, mas suficiente para fazer a certeza cruel em seus olhos vacilar pela primeira vez, como se apenas naquele momento ele começasse a compreender que havia algo além do desespero naquela câmara. 

Evangeline aproveitou aquela hesitação e enquanto o vampiro tentava decifrar suas intenções, ela esperava silenciosamente a conclusão do ritual, sentia o próprio poder fluir para dentro do Grimório junto ao selo recém-formado. O alívio percorreu seu corpo enfraquecido quase de forma dolorosa quando havia conseguido. 

E, quando ele finalmente percebeu, já era tarde demais.

Um sorriso sinuoso curvou os lábios de Evangeline, sua expressão, transformando-se em um reflexo triunfante. Antes que ela pudesse arriscar qualquer ação, Maundrell atravessou a distância entre eles com um movimento sobrenatural e a pressionou contra a parede, seus pés se afastaram do chão.

A mão fria apertou seu pescoço.

— O que você fez?

Evangeline arfou, sentindo o ar desaparecer.

Mesmo assim, sorriu.

— Vá... para o inferno.

Os dedos magros de Maundrell apertaram ainda mais, cravando-se na pele dela como garras. Antes que Maundrell pudesse esganá-la, uma dor aguda atravessou suas costas.

O vampiro rugiu.

Evangeline caiu no chão enquanto Maundrell se virava lentamente.

Marin permanecia atrás dele, o peito arfante, mas a expressão impetuosa.

— Tire suas mãos imunda da minha menina.

O rosto do vampiro se contorceu em ódio.

Num movimento brutal, arrancou a adaga do próprio ombro e o sangue escorreu pela lâmina.

― Ainda não exterminei todos vocês?

Os olhos dele deslizaram da adaga para Marin.

Não houve hesitação em seus movimentos. A lâmina atravessou o coração dela com crueldade, arrancando o ar de seus pulmões junto ao grito dilacerado de Evangeline. Marin cambaleou para trás antes de cair de joelhos, o sangue escorrendo lentamente da ferida aberta.

Leonora correu imediatamente até ela, tomada pelo choque e pela urgência de salvá-la.

Evangeline tentou impedi-la, alertá-la para se afastar, mas a voz falhou em desespero.

Maundrell já estava em movimento, sua rapidez sobre-humana transformando a cena em um borrão de horror. Antes que Leonora pudesse sequer reagir, o vampiro a alcançou. Com um gesto brutal e frio, ele torceu o pescoço da jovem. 

O estalo seco ecoou pelo santuário.

Tudo havia acabado.

Evangeline voltou-se para o Grimório, os olhos queimando com as lágrimas e estendeu a mão na direção dele mesmo com o corpo à beira do colapso, uma última centelha de poder atravessou seus dedos.

— Evanesco.

As runas na capa brilharam intensamente.

Maundrell entendeu no mesmo instante.

— NÃO! — o grito ecoou furioso pela câmara enquanto ele avançava em direção ao Grimório, tentando alcançá-lo antes que o feitiço fosse concluído.

O livro começou a se desfazer entre suas mãos em partículas prateadas, consumido lentamente pela própria magia até desaparecer completamente diante dele.

Evangeline olhou para os corpos caídos de suas cuidadoras espalhados pela câmara. O sangue de Marin ainda escorria lentamente criando uma poça entre as pedras enquanto o silêncio daquele massacre parecia sufocar o ar ao redor. As lágrimas desceram quentes contra o rosto coberto de poeira e exaustão.

Então viu a adaga de seu pai caída próxima a ela.

A lâmina prateada refletia fracamente a luz das tochas.

Com movimentos trêmulos, Evangeline a alcançou e fechou os dedos ao redor do cabo com força, como se tivesse medo de que até aquilo lhe fosse arrancado.

Ela ergueu os olhos para Maundrell.

— A morte virá ao seu encontro... assim como você trouxe para todos nós. — o olhar dela encontrou o dele, carregado de dor, ódio e algo muito pior. — E você viverá o resto de seus dias com o medo do fim que se aproxima.

Maundrell permaneceu imóvel, sua expressão fria como mármore, mas seus olhos, antes inabaláveis, tremeram por um segundo, causado por uma fagulha de desconforto.

Evangeline fechou os olhos por um breve momento, como alguém finalmente aceitando o próprio destino. Então, antes que o medo pudesse alcançá-la, cravou a lâmina ensanguentada contra o próprio coração. O ar deixou seus pulmões em um último suspiro doloroso e seu corpo tombou imóvel sobre a pedra fria da câmara.

Por um instante, tudo permaneceu em absoluto silêncio.

Então o símbolo ancestral marcado em seu antebraço começou a brilhar.

Uma luz rompeu na escuridão em um brilho violento, deslizando como fogo líquido antes de se desprender de seu corpo e cortar o ar da câmara até desaparecer na escuridão acima.

Maundrell observou o símbolo desaparecendo lentamente da pele de Evangeline sem desviar os olhos sequer por um segundo, levando embora o último vestígio daquele legado.

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