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Capítulo 6

Autor: CANLI
last update Data de publicação: 2023-10-20 04:38:07

DAVINA

A coberta que escolhi hoje cedo, a mesma que venho usando desde os treze anos e acolhi como favorita depois que vovó confessou que costurou sozinha, mal cobre a cama, deixando um terço do colchão amostra. Acontece que, eu me recuso a trocar a coberta e pegar uma nova.

Mesmo com a porta do quarto trancada, posso ouvir a discussão dos meus pais, todo dia eles encontram uma razão nova para brigarem, mesmo que o motivo seja algo bobo como deixar a casca da laranja na pia. É besteira, todos nós sabemos que mamãe culpa papai pela partida de Pryia. Mais uma besteira. Minha irmã sempre odiou esse lugar e partiria cedo ou tarde, aconteceu que foi cedo o bastante para deixar mamãe louca.

Me jogo de volta na cama, me afogando no meio dos travesseiros alinhados.

Minha irmã costumava implicar comigo sobre isso na infância, indicando o quanto eu era estranha por ter tantos travesseiros ao meu redor que não sobrava espaço para mim no colchão.

A lembrança me faz olhar para o lado, para sua cama vazia e arrumada. Ela odiava dividir o quarto comigo, insistia que precisava do próprio espaço e privacidade, mas nossa casa nunca foi grande o suficiente para cada uma de nós ganhar um lugar exclusivo. Mesmo que eu não falasse nada, eu também odiava, Pryia era uma péssima colega de quarto e mexia nas minhas coisas.

— Davina? Você vai perder a hora. — é a voz de papai, eu não percebi que eles pararam de brigar até agora.

Pulo para fora da cama no segundo seguinte, ele não vai me dar um segundo aviso, então preciso ser rápida para conseguir uma carona.

Quando meus colegas descobriram que minha irmã havia partido para a Itália, as coisas ficaram difíceis na escola. Eu não era popular, mas exercia certo poder no grupo que fazia parte, o que era o grupo de leitura e debate. O verdadeiro inferno explodiu quando todo tipo de versão da história surgiu, algumas piadas sobre Pryia ter ido oferecer seus tributos latinos em outro lugar foram contadas aqui e ali, boa parte delas foi dita enquanto eu passava. Os garotos começaram a fazer ofertas de pagar pelo meu tempo, mas eu os ignorei. Até que algumas garotas aparecem na porta da minha sala na hora do intervalo, implorando que eu dissesse o nome do aplicativo que Pryia conheceu seu namorado italiano. O ápice. 

O lado bom é que a história estava ficando antiga e faltava menos do que quatro meses para a conclusão do ensino médio, sem falar que eu estaria completando dezoito anos em dois meses e poderia fazer minhas próprias escolhas. Quase fico feliz com isso, mas lembro que Pryia foi mais esperta e preciso ficar aqui para ajudar meus pais, porém, mamãe não me deixaria ir agora. Ela não suportaria me perder também.

— Obrigado. — murmuro para o pai, mergulho no assento do passageiro e puxo o cinto sobre mim. Ele assente, mas não diz nada o caminho todo. O clima é sempre estranho em casa e só me sinto bem quando estou trabalhando com vovó, fazendo bolos, doces ou entregas. Quando ele finalmente para na frente da escola, dou um beijo na sua bochecha e agradeço novamente.

Passo pelo portão de ferro com minha atenção redobrada, murmurando um oi para David, o guarda.

A distância do pátio principal até minha sala de aula é curta, mas ando o mais rápido possível. Com o canto do olho esquerdo, vejo Aaron se aproximar. Nós tivemos um lance, algo rápido e casual que o deixou confuso. Ele segura meu braço antes que eu tenha a chance de entrar na sala e me arrasta até a biblioteca, mas precisamente o beco na lateral.

Nossa escola é enorme, mas não recebe muitos recursos para manutenção, então alguns lugares viraram refúgio para aqueles que querem alguma privacidade. Aaron conhece todos os lugares.

— O que você quer? — questiono, puxando meu braço do seu aperto e colocando alguma distância sobre nós. Ele é maior do que eu, possui ombros largos pelos anos de natação com uma expressão relaxada que me irrita até a alma.

— Não seja tão espinhosa, baby. — diz e quero vomitar com o apelido. Sua mão vem até meu queixo e bato nela, o que faz seus olhos apertarem.

— Diga o que quer, Aaron. Eu tenho aula.

Um sorriso desdenhoso cresce no seu rosto e aperto a alça da mochila com mais força. Até um tempo atrás, eu costumava achar sua personalidade cativante, principalmente quando tinha seus olhos castanhos em mim.

— Quero um favor. 

Bufo. 

Ele não pode estar falando sério.

— Não.

— Você nem sabe o que vou pedir. — Sua voz se agita, embora sua expressão não mude.

Ergo uma sobrancelha e cruzo os braços na altura dos seios.

— Isso tem algo a ver com Timmy, certo? Você quer que eu fale com ele por você.

Algo passa pelos seus olhos, deixando o castanho mais escuro, quase preto. Ele abandona a expressão relaxada por uma carranca mal-humorada, porém isso só dura o intervalo de alguns segundos.

— Se você pedir, então ele fará.

Mordo a parte interna da bochecha, odiando ter permitido que caras como Aaron e Timmy entrassem na minha vida, embora Timmy só tenha sido um amigo. Melhor amigo.

Empurro meu nariz para cima, assim como Pryia costumava fazer quando estava pronta para encerrar uma conversa que não queria manter e sorrio para ele de forma amável.

— Sinto muito, Aaron. Isso não vai acontecer. — empurro o corpo dele para o lado e faço o caminho de volta para o corredor. Acontece que eu só consigo andar três passos antes da sua mão agarrar minha nuca e me puxar contra seu peito.

Eu gemo de dor quando ele puxa parte do meu cabelo e minha cabeça inclina para trás.

— Não vire as costas para mim, Davina. Nunca. 

- O que está acontecendo aqui!? - Tom pergunta, sua voz saindo amarga e cheia de acusação.

Seus olhos, castanhos e puxados, como os da mãe, pelo que vi nas fotos em sua rede social, alcançam os meus por um segundo, então ele olha para o cara parado ao meu lado e sua boca aperta em uma linha fina.

Tudo o que eu precisava.

- Nada. - Aaron diz, jogando o braço ao redor do meu ombro. 

Golpe errado, mas ele não tem como saber.

- Davina? - Tom pergunta, ignorando Aaron e o braço ao meu redor, embora sua atenção esteja focada justamente nesse ponto. 

Suspiro.

Me desprendo do toque de Aaron e dou um passo para frente. 

-Estávamos conversando. - digo e os olhos de Tom voltam a me encontrar, não consigo ignorar a fagulha de decepção lá, mas dizer a verdade só vai dificultar as coisas para ele aqui dentro. Aaron é problemático, mas tem muitos seguidores e não posso arriscar ficar na linha de frente de sua atenção agora. 

- Vão para a aula. - ele rosna, fazendo bom uso do seu poder. Aaron b**e continência e sai assoviando.

- Sinto muito. - eu murmuro quando passo por ele, baixo o suficiente para que só nós dois escutemos. Por um lado, não sei porque estou me desculpando quando não fiz nada, mas deve ser a maneira como ele continua me olhando. 

- Sra. Carter? Um minuto, por favor

Travo no lugar, minha respiração ondulando quando ouço seus passos atrás de mim. 

Ele não deveria falar comigo aqui, não quando estamos sozinhos. Alguém pode perceber.

- O quê? - pergunto, mas minha voz é tão baixa e rouca que mais parece um grunhido.

Tom olha para os lados antes de acabar com a distância entre nós, então quando tem certeza que não há ninguém perto, seus dedos tocam e minha bochecha e lábios.

- Senti sua falta nesse fim de semana.- seu tom é doce, tão doce que quero sorrir, mas não posso. Ele e eu não vai mais acontecer.

- E sua noiva? - a ruga aparece entre suas sobrancelhas e seu corpo fica tenso, mas tudo que ele faz é balançar a cabeça. Eu ainda tinha esperança que ele negaria.

- Eu não a amo.

- Ela está esperando seu bebê. - acuso, me afastando do seu toque. 

- Sim, ela armou para mim. Vou casar com ela só para dar uma família para a minha filha. 

Entorto o nariz.

- Ótimo, então volte para ela e fique longe de mim.

- Não, Davina. Não posso. Quero você.

Bufo.

- E você espera que eu seja sua amante ou o quê? Não vai rolar, professor. - minhas palavras são amargas e não espero por uma resposta quando viro de costas e sigo direto para a sala. Infelizmente, ele terá a primeira aula e precisarei fingir que sua presença não me incomoda. 

Minha vida se transformou em um terreno estéreo muito rápido, mas me recuso virar alguém que não respeito. Quando Pryia foi embora e meus pais iniciaram sua guerra fria, eu me senti perdida e sobrecarregada. Tom veio e ofereceu seu apoio, no início, pensei que ele só estava sendo gentil, mas seus olhares gritavam algo mais e acabamos nos beijando. Me senti renovada. Desenvolvemos uma espécie de romance e a cada vez que ele me tocava, uma parte de mim melhorava. Tom nasceu no Japão, assim como seu pai, mas sua mãe é brasileira. Ele é jovem, recém formado em história e bonito, muito bonito. Eu não sabia que ele tinha uma noiva até duas noites atrás, quando resolvi verificar suas redes sociais e esbarrei numa foto deles juntos num jantar em família.

Cretino.

Afundo na cadeira, colocando minhas coisas na mesa a minha frente. Alguns colegas falam comigo e retribuo, respondendo algumas perguntas sobre o fim de semana até que Tom entra e inicia a aula. 

Pego meu celular de dentro do bolso e vou nas conversas que troquei com Sissy. Eu geralmente não confio em muitas pessoas, mas ela não me conhece além das redes sociais, e eu precisava falar com alguém sobre Tom. Acabei contando tudo sobre o que tivemos, apesar de que nunca fomos além de beijos e toques. Ela acabou revelando que também já ficou com seu professor de inglês e acabamos falando um pouco sobre tudo, principalmente sobre minha irmã e pais. Fecho nossa conversa quando percebo que ela ainda não visualizou a última mensagem que enviei e fico navegando pela internet. 

Um burburinho inicia quando Tom encerra a aula e outro professor assume, mas tudo que posso ouvir é o nome de Timmy.

Puxo Miranda pelo ombro e pergunto o que aconteceu.

- Você não soube? Timmy foi baleado quatro dias atrás.

No intervalo, Aaron me pressiona novamente e acabo prometendo que falarei com Timmy, mas eu sei que é só uma desculpa para ir visitá-lo.

Descobrir o endereço do hospital é fácil, porém é distante e preciso pegar uma carona com um colega, que coincidentemente, trabalha perto. 

O lugar é diferente do que imaginei, principalmente porque cheira a dinheiro e gente rica. Não fico impressionada quando a recepcionista me olha como se eu fosse uma intrusa, mas também não fico intimidada. Ela me dá um número e um passe, informando que tenho apenas vinte minutos de visita.

Estou pronta para bater na porta quando escuto gritos, duas vozes masculinas.

- Você prometeu! - um deles grita e identifico como a voz de Timmy. 

Com quem ele está falando?

Curiosidade agita meu corpo e checo os lados antes de descansar a cabeça contra a porta.

- Isso era se você morresse, cara. - o outro diz, uma nota clara de deboche. 

Minhas sobrancelhas sobem.

Se ele morresse!?

É melhor eu voltar outra hora.

- Qual é o seu problema com ela, afinal? Ela não é a Pryia, Fantasma. - Timmy continua gritando e travo no lugar.

Ele acabou de falar...

- Cala a boca, porra! Não existe Fantasma aqui, apenas o Gutemberg. Lembre-se disso, ninguém pode saber sobre minha outra vida.

A porta se abre antes que eu possa processar todas as informações e caio para dentro do quarto, aos pés do culpado pela ruína da minha família.

- Ora.. ora.. o que temos aqui?

 

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Último capítulo

  • Ligados pela vingança   FINAL

    DAVINAO auditório está lotado, mas me sinto estranhamente só enquanto caminho pelo palco. O diploma em minhas mãos é um símbolo de tudo o que conquistei, mas também de tudo o que perdi. Seis meses atrás, eu nunca teria imaginado estar aqui sem meu pai na plateia. Minha mãe não veio. Ainda está no sítio de Vincent, levando uma vida tranquila ao lado de outras mulheres que, como ela, carregam cicatrizes. Sinto saudades, mas compreendo. Ainda assim, ver minha avó sentada na primeira fila me traz um pequeno alívio.Quando ergo os olhos, encontro os rostos que se tornaram minha nova família. Timmy, com seu ar protetor e seu sorriso torto, veste um terno azul profundo que reflete sua ousadia e estilo. Meia-noite, ou Huxley, como o chamo agora, carrega sua aura de mistério em um terno vinho, sóbrio e imponente. Gutemberg, o Fantasma, que já não é mais tão fantasma assim, está em um cinza chumbo, impecável como o menino rico que sempre foi. Vincent, encostado, displicente, mas atento a cada

  • Ligados pela vingança   124

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  • Ligados pela vingança   123

    DAVINA— Davina. — Aaron falou, o tom evidentemente preocupado.Antes que eu pudesse reagir, três homens avançaram. Dois deles agarraram Aaron, o empurrando contra a mesa enquanto ele lutava para se soltar. Um soco acertou sua costela, e ele gemeu de dor. Outro golpe, agora no rosto, e o sangue manchou seu queixo.— Parem! — gritei, tentando avançar, mas mãos fortes me seguraram. Eu chutei e me debati, mas foi inútil.O tio de Vincent me segurou com facilidade, seus dedos apertando meus braços como ferro.— Eu gosto do seu espírito. Mas agora… — Ele ergueu a mão.Um golpe forte atingiu minha nuca. O mundo girou.O último som que ouvi antes de perder a consciência foi a risada cruel daquele homem.Acordei com o cheiro metálico de sangue e um latejar cortante na cabeça. A dor na minha cabeça era insuportável, como se meu cérebro estivesse tentando se expandir dentro do crânio. O ambiente era sufocante, composto por móveis escuros e paredes cinzas, com uma parede cheia de monitores exibi

  • Ligados pela vingança   122

    DAVINAEu respiro fundo, me preparando para o que vem a seguir, mas no último momento, uma voz inesperada invade o fone. Uma voz que me faz prender a respiração, a garganta apertando instantaneamente. É Vincent.— Davina... — Ele diz, e a suavidade de sua voz me choca. — Meu tio fugiu. Está sendo protegido por Jimmy.O ar parece congelar por um segundo. Eu não sei se entendi direito, mas o que ele acabou de dizer? O que significa isso?A tensão no carro se intensifica. Aaron solta um resmungo irritado, as palavras saindo de sua boca em um tom baixo, mas cheio de desprezo.— Italianos fodidos... — Ele murmura, os olhos fixos na tela à sua frente.Mas o tom da voz de Vincent muda. Algo em sua fala, em seu jeito de se comunicar, muda completamente. Ele fala diretamente comigo, e sua voz carrega uma advertência, uma preocupação que me faz calafrios subirem pela minha espinha.— Cuide-se, Davina. Baby, eu... — Ele diz, e a seriedade é palpável. — É bom que vocês, idiotas, protejam, minha g

  • Ligados pela vingança   121

    DAVINAEu sinto os olhos em nós enquanto descemos as escadas, os passos de Gutemberg firmes ao meu lado, os nossos dedos entrelaçados com naturalidade. O calor da sua mão na minha me dá uma sensação de segurança, embora eu saiba que, por mais que o toque dele seja suave, o que está por vir não será fácil. Cada degrau que descemos ecoa dentro de mim, cada movimento meu parece mais pesado que o anterior. Mas o que me surpreende é a calma dele. Como se ele soubesse exatamente o que fazer. Como se, de alguma forma, ele já tivesse aceitado o risco e soubesse que a batalha que se aproxima não é mais sobre escolha. É sobre obrigação.Chegamos ao fim das escadas e, ao olhar para a sala, vejo todos esperando. Timmy, com a expressão cerrada e os punhos provavelmente apertados. Aaron, sempre com olhar de cálculo, examinando tudo com a frieza de quem já está pensando no próximo movimento. E Meia-noite, que observa todos com a autoridade de quem já viu e fez de tudo. Nada está fora de lugar, e, po

  • Ligados pela vingança   120

    DAVINANós temos um plano.Eu repito isso mentalmente enquanto ajusto a calça jeans apertada, sentindo o tecido moldar minhas pernas com uma precisão quase incômoda. O peso da faca contra a minha pele dentro da bota me traz uma estranha sensação de segurança. Timmy me ensinou a usá-la, golpes curtos, certeiros, direto onde dói mais. Eu lembro de suas mãos segurando as minhas, do calor do seu corpo quando ele sussurrava que, no fim das contas, o elemento surpresa era a melhor arma de todas.Deslizo a pistola para dentro da cintura da calça. Meia-noite me ensinou a manejá-la, ensinou a não tremer na hora de puxar o gatilho. "Se hesitar, morre", ele sempre diz.O clique discreto da porta se abrindo me faz erguer os olhos para o espelho. Gutemberg entra no quarto sem pedir permissão, como se pertencesse a ele. E talvez pertença, não o quarto, mas o momento. Seu olhar percorre meu corpo de cima a baixo, e tem algo estranho ali. Não é desejo, não é desaprovação. É algo no meio, algo carrega

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