INICIAR SESIÓNMoema Andrade | Apartamento de Pinheiros — 8 meses depois O apartamento tinha cheiro de café e domingo. Não era metáfora. Era literal. Lucas fazia café antes de qualquer coisa — forte, do pote que ele tinha descoberto sem perguntar que era o jeito que ela preferia. O cheiro ficava pelas paredes até o meio da tarde. Ela tinha passado anos acordando pro cheiro de hospital. Antisséptico, plástico, urgência. Agora acordava pra isso. Oito meses. O lugar tinha vida nas costuras agora. O isqueiro da Priscila que ficou numa visita e ninguém devolveu. A foto torta do Matt no corredor, enquadrada errado de propósito porque ficou melhor assim. Os livros numa ordem que levou quarenta minutos de explicação pra fazer sentido. A cadeira nova que ela comprou sem consultar ninguém, e que Lucas tinha verificado a estabilidade estrutural antes de sentar — o que ela achou irritante num primeiro segundo e completamente certo no segundo. Coisas que não foram decididas. Só foram ficando. Ela estava n
Lucas Falcão | Domingo — Apartamento de Pinheiros Ele acordou antes dela. Isso não era novidade — acordava antes de todo mundo, sempre tinha acordado, o tipo de coisa que anos de operação gravam no corpo e não saem só porque a situação mudou. Mas dessa vez ficou parado. Não foi pro celular, não foi verificar janela, não foi fazer nada. Só ficou olhando o teto. A janela ainda estava aberta da noite anterior. São Paulo de domingo de manhã tinha um barulho diferente do resto da semana — mais lento, mais espaçado, como se a cidade respirasse num ritmo que ela mesma não sabia que tinha. Moema dormia de lado, o cabelo no rosto, a respiração funda. Ele saiu da cama sem fazer barulho. Foi pra cozinha, fez café, ficou na varanda com a xícara enquanto a cidade acordava devagar lá embaixo. O apartamento tinha coisas que não foram planejadas. O isqueiro da Priscila que ficou numa visita e ninguém devolveu. A foto que o Matt tinha enquadrado e pendurado na parede do corredor sem pedir — os
Moema Andrade | Noite — Apartamento de Pinheiros Todo mundo foi embora por volta das dez. Lavínia foi primeiro — a Clara tinha passado das duas horas do limite de boa vontade e estava naquele estágio de cansaço de bebê onde qualquer coisa virava motivo de choro iminente. O Augusto pegou ela no colo, a menina encostou a cabeça no ombro dele com aquele abandono total de quem confia sem reserva, e apagou quase imediatamente. Lavínia abraçou Moema na porta, rápido, firme. — Semana que vem — ela falou. Não era convite. Era programação. — Semana que vem — Moema confirmou. Isabela saiu logo depois, ainda com a mala de mão, pegando Uber direto pro hotel porque o voo de volta era cedo. Parou na porta, olhou pra Moema, depois pra Lucas que estava na cozinha lavando xícara que ninguém tinha pedido pra ele lavar. — Ele lava louça — ela falou baixinho pra Moema com a voz de quem está documentando dado importante. — Lava. — Espontaneamente. — Sempre. Isabela ficou em silêncio com aquela
Lucas Falcão | Sábado — Cartório O terno estava sem gravata. Matt tinha tentado. Apareceu no apartamento na sexta com uma gravata azul-escura numa caixinha como se fosse presente e não tentativa de negociação. Lucas olhou pra gravata. Olhou pro Matt. Matt guardou a caixinha no bolso com a dignidade de quem perdeu batalha mas não vai comentar. O cartório era menor do que Lucas imaginava — sala retangular, duas fileiras de cadeiras, mesa na frente onde o juiz de paz já estava de pé com ar de quem faz isso seis vezes por sábado e ainda assim parecia presente. Alguém tinha colocado flores brancas num vaso. Simples. Certo. Lucas chegou primeiro. Ficou parado na entrada olhando o espaço — avaliando como sempre fazia, hábito que não ia embora, mas dessa vez não era perímetro. Era só o lugar onde ia acontecer a coisa mais permanente que ele já assinou o nome. Priscila chegou na segunda fileira, sentou, cruzou os braços. Pronto. Era Priscila. Dra. Renata apareceu sem ser chamada. Eu ouvi
Moema Andrade | Quarta-feira — Apartamento de PinheirosEla ligou no meio da semana sem avisar.Não foi planejado. Estava saindo do plantão, chave na mão, esperando o elevador, e o nome do Caio apareceu na cabeça do jeito que às vezes aparecia — sem motivo óbvio, sem gatilho claro, só lá.Discou antes de pensar muito.Caio atendeu no primeiro toque.— Moema.— Você vai à cerimônia?Silêncio.— Você me convidou?— Agora sim.Ele ficou quieto. Ela entrou no elevador, segurou a porta aberta com o pé enquanto esperava ele responder.— Quando é?— A gente ainda tá decidindo. Vai ser pequeno.— Eu apareço pequeno.— Caio.— Hm.— Vai ter que falar com o Matt. — Ela soltou a porta, o elevador começou a subir. — Ele vai querer te interrogar.— Eu sobrevivi ao André.— Matt é mais difícil.Uma coisa do outro lado da linha. Não exatamente risada — mais próximo de reconhecimento, aquele som que sai quando alguém diz uma verdade que a gente já sabia mas não tinha ouvido em voz alta ainda.— Ele s
Lucas Falcão | Sábado — AsiloO asilo estava com um cheiro de almoço sendo preparado e a lugar limpo. Lucas conhecia esse cheiro — anos entrando em lugares onde pessoas velhas esperavam visita que não vinha. Esse era diferente. As enfermeiras conheciam os nomes. A televisão no corredor estava no volume que alguém tinha ajustado pra uma pessoa específica, não pro corredor inteiro.Moema tinha escolhido bem.O quarto da Dona Iracema ficava no segundo corredor à esquerda. Ela sabia porque tinha contado os passos na primeira visita e memorizou. Lucas andou do lado dela, meio passo atrás.A porta estava aberta.Dona Iracema estava na poltrona perto da janela com um livro no colo que provavelmente não estava lendo, olhando pro jardim com a expressão de quem está pensando em outra coisa completamente.Dia bom. Lucas viu antes de entrar — a postura, o jeito que os ombros estavam assentados, o queixo erguido. Tinha aprendido a diferença nas últimas semanas.— Mãe. — Moema bateu de leve no bat







