LOGINSabia que tinha que fazer algo, principalmente ao ver o rosto machucado de Alberto e ouvir sua voz chorosa enquanto implorava para os homens que o seguravam pelos braços:
— Por favor, não façam isso, eu só queria que ele o soltasse. Eu juro que vamos pagar a dívida! Um deles respondeu friamente: — O teu problema é saber demais, e o patrão não suporta xeretas. E o pior, dentro do santuário dele. Você não devia ter pedido para vir aqui, em sua casa. Esse é o seu fim e o da pessoa que você tanto quis proteger. Agora vem com a gente! Alberto tentou resistir, gritando: — Não, não! Vocês não podem fazer isso comigo! Mas um dos homens, quando não viu ninguém por perto, levantou a camisa, mostrou a arma no coldre, percebi que Alberto se calou imediatamente por medo. Um deles puxou Alberto pelo braço, e o outro seguia atrás. Aproveitando o escuro, corri por trás dos arbustos, subi numa árvore com agilidade. Ser pequena sempre me ajuda um pouco. A ação parecia loucura, mas só pensava em salvar Alberto, meu aluno. Antes que chegassem ao carro, pulei em cima do homem que vinha atrás do que segurava Alberto. Embora ele fosse forte e eu pequena, sabia que a gravidade trabalharia a meu favor. Joguei meu peso nele, ele caiu, bateu a cabeça, ficou desacordado. O outro se virou para ver o que estava acontecendo com o parceiro, e pro instinto Alberto o nocauteou com um soco forte embaixo do queixo. Quando ele caiu, Alberto lhe tirou a arma. Eu fiz o mesmo com o outro homem. Alberto apontava a arma para ele, mas o homem já estava desacordado, então falei: — Não, Alberto! Não é mais necessário fazer isso! Ele me respondeu, surpreso: — Professora?! Meu Deus, lhe devo a minha vida. Mas o que faz aqui? Como me encontrou? Expliquei: — Vi eles arrastando você na frente do colégio até o carro e fiquei preocupada. Então os segui e… De repente, ouvimos um barulho dentro da casa. Apontei para as câmeras e disse: — Acredito que não temos tempo para conversar. Tem câmeras nessa casa! Temos que sair daqui o mais rápido possível! Começamos a correr em direção à rua. Gritei: — Precisamos correr para as ruas mais movimentadas e esconder essas armas, para não sermos confundidos com bandidos! Alberto, só use a arma em último caso! Ele escondeu a arma dentro da jaqueta. Eu fiz o mesmo dentro da minha mochila pequena. Continuamos correndo para onde havia mais gente. Os homens não atiraram; sabiam que isso seria se expor demais. Mas continuaram a nos perseguir. Olhei para trás e contei quatro deles. — O que faremos agora? — ouvi Alberto assustado perguntar. — Temos que nos misturar com as pessoas, assim limitaremos as ações deles! — respondi, embora também sentisse medo. — Tem certeza? — Ele perguntou ofegante e desnorteado. — Não, mas ficar parado não é a opção — respondi. — Precisamos confundi-los e sempre estar onde haja mais movimento. Fizemos assim. Muito tempo depois, eu já estava cansada, não sabia o quanto havia corrido. Fiz um ziguezague por ruas comerciais movimentadas e parecia que por um instante conseguimos atrapalhar os perseguidores. Pus as mãos nos joelhos, tentei recuperar o fôlego, mas percebi que me separei de Alberto sem querer. Quando voltava para procurá-lo, vi que eles tinham me encontrado de novo, então corri novamente. Olhando para trás sem atenção, bati num muro. Não caí porque senti alguém me segurar. Foi então que ouvi o muro falar: — Ei, cuidado, garotinha, não olha por onde anda não?! Surpresa, levantei os olhos e encontrei um homem alto, perto de dois metros, com cabelos e barba castanhos. Seu semblante era frio, quase severo, e seus olhos castanhos escuros se fixavam em mim. Sua presença impunha uma aura enigmática e forte. Fiquei estática, fascinada, sem saber ao certo como reagir, apenas absorvendo aquele encontro inesperado.Ele me segurou firme para que eu não caísse e perguntou: — Garota, para onde está indo com tanta pressa? Está sozinha? Fala a minha língua? Neguei com a cabeça. Queria pedir ajuda, mas percebi que os homens se aproximavam de novo. Desvencilhei-me rapidamente para não colocá-lo em perigo. E ainda de longe ouvi ele dizer: — Ei, espera, garotinha, para onde está indo? Ignorei, continuei correndo. Os homens, ao me verem perto dele, mudaram a postura, fingindo uma conversa casual, como dois conhecidos entre a multidão. Eu, porém, dobrei numa rua mais deserta tentando despistá-los. Eles caminharam calmamente, seguindo meu rastro, e, vendo que o homem ficou para trás, retomaram a corrida na minha direção. Mas eu nunca entrei naquela rua. Escondi-me atrás de uma floricultura e, depois, voltei para a rua anterior onde havia encontrado o homem. Minha intenção era pedir ajuda, mas ele já não estava mais ali. Sem pensar duas vezes, tentei correr para pegar um táxi e fugir dali. Mas infelizmente, ouvi a voz dos homens novamente — aparentemente eles perceberam que eu havia retornado e começaram a me perseguir outra vez. À minha frente, avistei um restaurante e entrei, sentindo as minhas pernas bambas. O local era pouco movimentado, o que me deixou tensa, mas não tinha alternativa. Ouvi os homens do lado de fora, dizendo: — A maldita garota entrou no restaurante, Gabriel. — Vamos pegá-la agora, ela não pode escapar, Michael. Percebi que não havia garçom à vista e aproveitei para me esconder embaixo de uma mesa, protegida pela toalha longa, fiquei encolhida. Os homens entraram, procurando por todo lado. — Ela sumiu! — disse um deles. — Maldição, onde está? — praguejou o outro. Nesse momento, para meu alívio e apreensão, um garçom saiu da cozinha e entrou no salão principal, dizendo: — Boa noite, bem-vindos ao Restaurante Flor do Luar. Um dos homens, tentando disfarçar, falou educadamente: — Boa noite, poderia nos informar se entrou alguma garota aqui recentemente? — Garota? Não que eu tenha visto senhor — respondeu o garçom naturalmente. Enquanto falavam, um cliente sentou-se exatamente na mesa onde eu estava escondida. O garçom se aproximou dele e disse: — Boa noite, senhor Macedo, o que deseja hoje? Ele respondeu com a voz firme: — Boa noite César, o de sempre, pode trazê-lo, imediatamente, sim? Estou com fome. — Sim, senhor e pra já! Fiquei com o coração descompassado quando reconheci a voz. Era o mesmo homem que eu trombei, queria poder falar com ele para pedir ajuda, mas sabia que não podia seria um risco, por isso fiz o possível para ele não me notar ali. Depois, o garçom se virou para os homens que me perseguiam, e perguntou para eles, como se fossem clientes: — E vocês senhores, desejam algo mais? Um deles respondeu: — Sim, e enquanto peço algo para comer, meu amigo quer ver a sua cozinha, tem problema? — Problema nenhum, senhores — respondeu o garçom sorrindo educadamente. Um dos homens sentou à frente da mesa onde eu estava. O outro foi para a cozinha, mas logo voltou ao perceber que eu não estava lá como ele pensou. E enquanto o homem que estava sentado naquela mesa esperava o seu pedido. Eu esperava que os homens na mesa frente não me descobrissem ali. Estava muito assustada e para piorar, parecia que estava prestes a espirrar. Tentei segurar, resmungando mentalmente pela minha má sorte. E sem poder mais me segurar espirrei.Narrado por Yuri O aeroporto de Guarulhos era um caos de pessoas, malas e sons. Eu odiava isso. Odiava a imperfeição. Odiava o Brasil. Já tinha vindo aqui algumas vezes a trabalho, mas nunca permanecia mais que alguns dias. Era um país simplesmente insuportável. Mas estava aqui. Pela minha filha. Pela minha esposa. E eu as teria novamente. Afinal, agora podia dizer que Anita estava bem mais estável. Poderíamos finalmente ser uma família feliz. Já que ela tinha uma filha minha, inventaria qualquer coisa. Mas teria Anita novamente comigo, junto com minha filha. — Senhor Ryang — meu advogado, Dr. Park, apareceu ao meu lado. — A comitiva está pronta. Temos os documentos. Temos os contatos. Mas… — Mas o quê? — A situação é mais complicada do que pensávamos. Aquele delegado… ele é bem conectado. Contratou uma firma de advocacia muito poderosa. A Mendonça & Associados. Meu sangue ferveu. Mas minha expressão não mudou. — Mendonça. Nunca ouvi falar. — É uma firma brasileira, mas com fi
Narrado por Yuri Há duas semanas atrás… O escritório em Seul era um reflexo perfeito de quem eu era: mármore frio, linhas retas, nenhuma imperfeição. Assim como eu. Assim como tudo que eu construí. Meu celular vibrou sobre a mesa de vidro. O nome na tela era de um dos meus informantes no Brasil. — Fale. — Senhor Ryang, temos novidades. A situação mudou. Inclinei-me para frente na cadeira de couro. Meus dedos tamborilaram uma vez. Um único toque. Preciso. — Explique. — O avô dela, Ninho Jeong, está no Brasil. E… ele mudou de lado. Está apoiando Anita. E há um homem. Além disso.. há um delegado. Henrique Macedo. Ele está… envolvido com ela. Ambos estão tendo um caso. O silêncio que se seguiu foi absoluto. Não houve grito. Não houve explosão. Isso seria vulgar. Isso seria extremamente medíocre. Eu não era medíocre. Eu era Yuri Ryang. Um sorriso lento, gélido, curvou meus lábios. Não era um sorriso de alegria. Era um sorriso de cálculo. De um predador que acabou de identificar
Narrado por Henrique Saímos do galpão, mas infelizmente não podia seguir com a Anita como falei. Ainda tinha que resolver o problema com Madalena. E um outro problema que precisava ser resolvido o quanto antes. "Yuri." Peguei meu celular. Disquei um número que não gostava de discar, mas que estava virando uma constante, depois da entrada de Anita em minha vida. — Júlio. Sou eu. Silêncio do outro lado. — Henrique? — A voz da pessoa do outro lado estava carregada de surpresa. — Você está… bem? — Não. E preciso da sua firma para algo de extrema importância. — Minha firma? Para quê? — Para o caso mais importante da sua vida. Você vai me ouvir. E vai aceitar. — Fechei os olhos, sentindo o gosto amargo das palavras. — Ou eu entro com uma ação para reivindicar o que é meu. E os seus cinquenta por cento congelam. Você não pode comprar minha parte sem meu acordo. — Você está me chantageando? — A voz dele subiu de tom. — Seu… — Sim. Estou. — Minha voz não vacilou. — E não me importa o
Narrado por HenriqueA zona leste de São Paulo era um labirinto de galpões abandonados, ruas sem saída e becos escuros. O tipo de lugar onde o mundo esquecia que havia lei.O tipo de lugar que eu odiava, mas também era exatamente o tipo de lugar perfeito para encurralar ratos.— Alfa, posição — ordenei pelo rádio.— Alfa posicionado. Vista do galpão 47 desobstruída. Dois suspeitos na entrada.— Bravo?— Bravo na cobertura. Sem movimento nas laterais.— Snipers?— Sniper um, pronto.— Sniper dois, pronto.Respirei fundo. Sabia que não poderia estar usando a minha equipe para aquela ação pessoal, mas se não tivesse a chance de salvar a minha garota e sua filha, eu não era digno de ser um delegado. Era o que eu pensava naquele momento. Suspirei e olhei novamente para o galpão. A chuva havia voltado, uma garoa fina que transformava o chão em lama. Cada passo era um ato de vontade.— Santos, me dê o mapa.Ele estendeu o tablet. As amizades que eu havia construído com pessoas específicas me
Narrado por Henrique O carro cortava a noite da zona leste em alta velocidade, os pneus cantando no asfalto molhado pela chuva fina que teimava em cair. Ivan estava ao meu lado, verificando o mapa no tablet, enquanto eu mantinha os olhos fixos na estrada. — A emboscada foi limpa — ele disse, sua voz carregada de tensão. — Três mortos e dois feridos. Nenhum dos nossos. — Bom. — Minha voz saiu seca, metálica. Não havia espaço para emoção agora. Apenas cálculo. — E o Pivô? — Não estava lá. Era isca. Maldição. O galpão que havíamos invadido naquela noite tinha sido um banho de sangue. Quando chegamos com a E.I.E., já sabíamos que algo estava errado. Os homens que encontraram não eram traficantes de baixo escalão. Eram mercenários. Profissionais. E isso significava apenas uma coisa: alguém com muito dinheiro e muita influência estava por trás daquilo. A troca de tiros foi brutal. Eles atiraram primeiro, sem hesitação. Nós revidamos com a precisão que anos de treinamento nos de
Narrado por AnitaA manhã chegou cedo, e com ela, a partida de Henrique. Ele me beijou a testa antes de sair, seus olhos ainda carregados da ternura da noite anterior, mas já assumindo a frieza do delegado.— Vou para a delegacia. Ivan tem novidades sobre possíveis esconderijos do Pivô. Se conseguirmos chegar às pessoas ligadas a ele, podemos descobrir onde está.— Toma cuidado — eu disse, segurando a lapela do seu casaco. — E me avisa se não puder almoçar.— Vou avisar, coisinha pequena. Prometo.Ele saiu, e eu fiquei observando a porta se fechar, meu coração dividido entre o medo e o orgulho. Meu delegado. Meu protetor. Cuidadoso até nos silêncios.Eu, por outro lado, teria que ir para a comunidade. Ainda estava me arrumando e me preparando para levar Shun-he ao colégio quando meu celular vibrou. Era ele novamente.— Anita, não vou conseguir voltar para almoçar. Ivan e eu estamos seguindo uma pista. Um dos contatos do Pivô pode estar em um galpão na zona norte. Vamos verificar.— He